Analfabetismo funcional: Separando o texto do caos.
 
Analfabetismo funcional: Separando o texto do caos.
 


RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar uma linha de pensamento abordada em várias obras do Filólogo e Filosofo alemão Friedrich Nietzsche e correlacionar com o seu uso pelos professores do ensino superior em sala de aula. Essa linha de pensamento se resume em usar a filologia como hábito nas leituras feitas pelos alunos, para que estes possam entender o texto em sua essência, evitando assim comparações de seu dia-a-dia, o que acaba gerando interpretações errôneas destes textos. A linha de pensamento foi chamada de "O texto e o caos" por Jean Granier, especialista em literatura nietzschiana, em seu livro "Nietzsche", onde o caos é apresentado como tudo aquilo que faz parte da vida do leitor. Através de uma pesquisa de campo, fez-se notória a existência de reais dificuldades em interpretação de textos pelos alunos universitários. O artigo tem a pretensão também de alertar aos docentes sobre a necessidade de acompanhar seus alunos, mesmo universitários, para que estes possam superar as suas dificuldades e deficiências e obter assim a luz do conhecimento.

Palavras chave: Texto. Caos. Professores. Alunos Universitários.

1- INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como intuito correlacionar às idéias abordadas em várias obras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: o pensamento da interpretação do texto de forma que este não seja influenciado pelo caos da vida cotidiana do leitor, sendo assim feito o uso da filologia para que se exerça uma boa leitura.
Essa linha de pensamento está presente nas obras "Vontade de potência I", "Vontade de potência II", "A gaia ciência" e "O anticristo". Além disso, recorre-se à obra chamada "Nietzsche", de autoria de Jean Granier, onde o autor também aborda esses pensamentos e dá uma linha interpretativa ao que o próprio filósofo quis dizer.
Como o filósofo viveu no século XIX, também se tem como objetivo observar a veracidade deste conteúdo e se o mesmo pode ser trazido à realidade universitária nos dias de hoje, lembrando que Nietzsche foi professor universitário da faculdade de Basiléia, na Suíça, onde nesta época escreveu a maioria de suas obras, observando entre outros elementos os seus próprios alunos (GRANIER, 2009).
O desenvolvimento se deu a partir da interpretação das obras do próprio filósofo, em conjunto com a obra de Granier, onde se lança mão da pesquisa bibliográfica. Num segundo momento, foi aplicado um questionário com alunos da Universidade Federal de Sergipe - UFS e da Faculdade de Administração e Negócios de Sergipe ? FANESE, para que fosse identificada a veracidade da linha pensamento de Nietzsche com a realidade da interpretação textual destes. A partir disto, tabulados os resultados da pesquisa e expostos em gráficos, facilitou a conclusão se o pensamento nietzschiano caberia ou não na realidade universitária vivida na época de hoje.
Com tudo isso, atestando que a interpretação livre de um texto pode ser tanto perigosa para a sua estrutura inicial, tanto errônea devido ao caos cujo individuo está submergido em seu ambiente, o artigo tem, por conseguinte, a intenção de valorar no ensino superior a prática da filologia para a interpretação real do texto, abstraindo este do próprio caos do leitor.
A filologia surgiu, como tantas outras ciências, na Grécia Antiga e teve como seus principais difusores o também filósofo Platão. Há uma correlação direta entre a arte da filologia, que está relacionada a linguística, e a filosofia, que está relacionada ao modo de pensar. Os grandes filólogos geralmente também foram grandes filósofos, e vice-versa.
Foi realizada também uma pesquisa de campo, com cinquenta e dois alunos da Universidade Federal de Sergipe e três alunos da Faculdade de Administração e Negócios de Sergipe, duas entidades de ensino superior deste estado bastante conhecidas e conceituadas. Esta pesquisa mostrou que a maioria dos estudantes já passou pela situação de não conseguir interpretar um texto em sala, além de relatar a omissão de seus docentes quando estes fatos ocorreram e dos alunos compararem o que estava escrito com fatos ocorridos em suas vidas.
Sendo assim, o presente artigo tem como pretensão final provar que existe sim uma deficiência nos alunos do ensino superior em relação à interpretação de textos, e que este poderia ser amenizado se os professores em sala usassem da filologia para ensinar a estes alunos a encontrar a realidade em que o texto está inserido, retirando-o do caos cotidiano que envolve o aluno, levando-o a associar o que está escrito a sua vivência pessoal, desviando a sua atenção daquilo que realmente seria a construção do conhecimento profissional e tornando assim um texto um elemento de deseducação e desmotivação ao aprendizado.
Além de tudo isso, este artigo vem fazer um alerta para que os professores em sala de aula não abandonem seus alunos com dificuldades, que não são poucos, que estes não se esquivem da responsabilidade que sua profissão exige de construir conhecimento, acreditando não ser mais responsáveis por mudanças na forma do processo de ensino-aprendizado universitário por seus alunos serem pessoas adultas, ou algo do tipo. O artigo quer incentivar ao professor usar a filologia como ferramenta de uso contínuo no ensino, gerando a luz do conhecimento na mente de seus alunos.
Provando isso, prova-se também que o pensamento de Nietzsche sobre o texto e o caos está correto. Este tipo abordagem textual pode ser muito bem sucedido em textos universitários, principalmente textos técnicos.

2 - FRIEDRICH NIETZSCHE: SUA BIOGRAFIA.

A biografia de Friedrich Nietzsche é descrita com bastantes detalhes por Granier (2009), filósofo francês e professor emérito da Universidade de Rouen no norte da França, especialista em Nietzsche.
Nascido em 15 de outubro de 1844, em Röcken, na Alemanha, filho mais velho de Karl Ludwig, pastor evangélico, e de Fransiska Oehler, filha também de um pastor. Teve dois irmãos, Joseph, que faleceu ainda pequeno em 1849, e Elisabeth, que nasceu em 1846 e é acusada por Granier (2009) de ser um dos motivos que levou Nietzsche à loucura no final de seus dias de vida. Seu pai faleceu no mesmo ano que seu irmão mais novo, sendo criado apenas por sua mãe que, apesar de ter um caráter exemplar, tinha uma visão intelectual limitada e restrita à religião, o que causou uma grande solidão aos pensamentos do filósofo.
Em 1858, entrou como bolsista no liceu Pforta, na cidade de Naumburg, o que incentivou o apreço pela disciplina e o esforço, o que anos mais tarde influenciou na decisão de entrar na vida militar. Além disso, o gosto pelo estudo foi acentuado pelo espírito humanista nas aulas de língua e literatura alemã, alem de um grande senso musical.
Em 1862, teve contato com a partitura de Tristão e Isolda, tornando-se daí por diante grande admirador da obra de Wagner.
Em setembro de 1864 torna-se bacharel e matricula-se na Universidade de Bonn, freqüentando ao mesmo tempo as faculdades de Filologia e Teologia. Porém, entusiasmado com as aulas de Ristchl, acaba por escolher se dedicar somente à filologia, fazendo com que ele o seguisse para Leipzig, em 17 de agosto de 1865, mesmo ano que ele descobriu a obra de Schopenhauer.
Em 1866, apresenta uma conferência na sociedade filológica, criada por Ristchl, onde começa a entrar em contato com outra linha filosófica, a kantiana, através da obra A história do materialismo, de Albert Lange. Com isto, ele adquire noções sobre o positivismo inglês e ainda inicia duas ideias que foram muito marcantes em sua obra: a ideia contra a metafísica e a recusa entre qualquer identificação entre o pensamento e o ser.
Em 9 de agosto de 1867 entra para o 4° Regimento de Artilharia de Campo, onde se identifica muito com o regime militar. Ele teve que sair e retornar a Sociedade Filológica, após um grave ferimento no peito que infeccionou e demorou a curar.
Em 12 de fevereiro de 1868, indicado por Ristchl, entrou como cátedra de língua e literatura grega, na Universidade de Basiléia. Nesta época, ele renunciou a Nacionalidade prussiana para se tornar cidadão suíço.
Já em 1871, publica O nascimento da tragédia, ou helenismo e pessimismo. Entre 16 de janeiro e 23 de março de 1872, ele apresenta cinco conferências sobre O futuro de nossas instituições de ensino, onde critica o modelo de ensino especialista demasiado da época.
Entre 1879 e 1874, as quatro Considerações intempestivas são publicadas. Por razões de saúde, em 1878 pede afastamento da Universidade de Basiléia. Nesta época havia rompido com a maioria de seus grandes amigos e intelectuais, e também recebido um não ao pedido de casamento que fez a uma jovem holandesa.
A partir daí foi uma obra sobre outra: 1879 ? a primeira parte de Humano demasiado humano, tendo a segunda parte sendo O viajante e sua sombra; Aurora em 1881; A gaia ciência, entre 1881 e 1882; Assim falava Zaratustra em 1884; Além do bem e o mal em 1887; Genealogia da moral em 1888; O caso Wagner, Crepúsculo dos ídolos, O anticristo, Nietzsche contra Wagner e Ecce homo em seqüência, sendo as datas não registradas, porém a última obra foi lançada em 1908. Assim fica conhecido como grande filólogo e filosofo.
Em 3 de janeiro de 1889, na praça Carlo Alberto em Turim, Nietzsche se afunda na loucura, é enviado a família e morre em Weimar em 25 de agosto de 1900. De saúde debilitada, há rumores que sofria de fortes dores de cabeça, além das acusações de Granier (2009) de que sua irmã Elisabeth o atormentava, era demasiadamente ciumenta, hipócrita, fazia chantagens e intrigas, o que isolava cada vez mais o irmão afetivamente, acusada também de falsificar muitas obras do irmão tempos mais tarde, a favor do nazismo, cujo marido B. Förster, antissemita, havia aderido.
O filosofo e filólogo morreu deixando sua obra inacabada, o que despertou interesse de sua irmã em publicar as obras póstumas Vontade de potência I e Vontade de potência II, o que lhe rendeu um titulo de doutorado honoris causa.
Defensor do modelo de conhecimento interpretativo, a única forma de entender as obras de Nietzsche é usando o mesmo método que ele defendia: o uso da filologia! Excluindo qualquer interferência do mundo externo e entrando na alma que o autor pôs ao texto, a teoria da práxis pensante. Devido ao alto numero de contradições que há em seus textos, fica quase impossível a interpretação deste sem a separação do texto e do caos. As controvérsias servem para alertar ao individuo que está na hora de mudar seu ponto de vista diante do assunto abordado, deixar de lado seus próprios paradigmas e começar a entender a essência que o autor expôs.
Segundo Granier (2009, p. 21):

Assim tem-se uma idéia de como procedia Nietzsche para compor um livro: entre os esboços de seus cadernos de notas, ele selecionava os fragmentos que lhe pareciam mais adequados, arrumava-os e dava-lhes acabamentos, depois distribuía-os em diversos capítulos em função de uma idéia diretriz, aliás bastante fluída para permitir uma organização flexível.

Um exemplo que se pode ter dessa ambigüidade é a obra Assim falava Zaratustra, que deu má fama ao filósofo, e também se tornou símbolo de seu ceticismo quando numa frase Zaratustra diz aos habitantes de sua cidade "Deus está morto!". Apesar de ir de encontro com sua família e de seu afastamento do cristianismo, o próprio livro dá resposta contrária a esta fama.
Neste mesmo livro, logo na primeira página do primeiro capítulo, o personagem é descrito saindo de uma caverna, ao qual durante anos lhe serviu de moradia. Ao observar o sol, ele decide voltar para sua cidade, e conversa com o astro como se este fosse a sua representação de um "deus", quase que fazendo uma oração. Observando o mesmo contexto do livro, Zaratustra crítica a posição da burguesia da cidade, ao comentar o frequente pagamento de indulgencias ao clero em troca de perdão aos seus "pecados".
Associando o pagamento ao perdão, ficava muito mais fácil agir de forma pecaminosa, já que era só pagar à Igreja pelo seu perdão. Daí a afirmação de que Deus estaria morto, já que a preocupação maior era o pagamento dos pecados e não o que Deus julgaria daquela pessoa. É só o leitor separar a interpretação do texto do caos religioso que vive para entender isto.

3-SOBRE A EDUCAÇÃO SUPERIOR E OS PROBLEMAS DE INTERPRETAÇÃO DE TEXTO.

No século XIX, época em que Friedrich Nietzsche viveu, já havia nas Universidades europeias um modelo de ensino extremamente especialista, o que dificultava a existência de disciplinas pensantes como, por exemplo, a filosofia. Os alunos, acostumados a este modelo, assim exerciam certa "preguiça de pensar", o que dificultava mais ainda a interpretação textual.
Na obra A gaia ciência, o filólogo termina o trecho de numero 333, intitulado de "O que é o conhecer?" com a seguinte afirmação:
"O pensamento consciente, sobretudo o do filósofo, é o menos violento de todos e, por conseqüência, o mais suave e tranqüilo: em função disso o filósofo é precisamente o mais exposto a enganar-se quanto à natureza do conhecimento" (NIETZCHE, 2004, p.170).
Nietzsche era um defensor do pensamento, do conhecimento pensante, porém sem sair da realidade que o autor quer demonstrar. Neste ponto, o conhecimento é passível de erros. Porém isto não justifica a ação "preguiçosa" de alguns alunos de não quererem pensar, de acomodarem-se nos pensamentos alheios, aqueles que os tornam condicionados apenas, como também o de não tentar ao menos entender o pensamento de cada autor.
Nesta mesma obra, no trecho de numero 21, intitulado de "Aos professores do desinteresse", o filosofo faz a seguinte afirmação:

A educação procede geralmente desta forma: procura determinar no indivíduo, com uma série de estímulos e de vantagens, uma maneira de pensar e de agir que, tornada por fim hábito, instinto e paixão, dominará nele e sobre ele, contra os seus interesses supremos, mas ?em benefício de todos? (NIETZSCHE, 2004, p.50 ).

A educação induzida não é filológica. É um conhecimento paradigmático, pode-se dizer até Fordista. A filologia está em saber ler bem o texto, separá-lo do caos e usá-lo como fonte de conhecimento pensante.
Segundo o dicionário Mini Aurélio, de Ferreira (2001), filologia é: "Estudo da língua em toda sua amplitude, e dos escritos que a documentam." Já Nietzsche descreve na obra O anticristo a filologia como: "Entendo aqui por filologia, num sentido muito geral, a arte de ler bem."
Mas a falta de dinamismo para leitura, a ausência da filologia como habito do estudante e a falta de incentivo por parte dos docentes também para essa prática, não é um problema apenas do século XIX. Em reportagem no Portal da Universidade Federal de Sergipe na internet, a professora Raquel Meister Ko Freitag, especialista em Linguística, do Núcleo de Letras da UFS, publicou o resultado de sua pesquisa a respeito do nível da escrita dos alunos desta universidade. O texto abaixo foi retirado da reportagem.

Intitulado "Não sei escrever: habilidade da escrita acadêmica dos graduandos do campus universitário Prof. Alberto Carvalho/UFS", o trabalho mostra que a deficiência na escrita se estende da educação básica para o ensino superior. (...) "Aplicamos um questionário de autoavalição em 45 alunos de vários cursos do campus de Itabaiana. Percebemos que o aluno encontra dificuldades para se expressar textualmente, falta domínio das normas gramaticais e ortográficas. Eles próprios reconhecem isso como algo prejudicial ao desenvolvimento das atividades acadêmicas", diz a professora (UFS, 2010).

Juntamente com esta reportagem, algumas conversas informais com alguns docentes universitários revelaram uma grande incidência de reclamação de que os alunos têm dificuldades também interpretativas, assim como na escrita. Isso é um problema que realmente vem do ensino de base, porém se acentua na vida universitária.

4-PESQUISA SOBRE A INTERPRETAÇÃO TEXTUAL E SEUS RESULTADOS

Com base nos questionários, respondidos por 55 alunos universitários, sendo 52 estudantes da UFS e 3 da FANESE, de 19 cursos diferentes entre o 1° e o 8° período, nos dias 16 e 20 de setembro do ano de 2010, foi possível chegar aos seguintes resultados:


4.1 Dados pessoais dos entrevistados:

Letras espanhol (7,3%) Letras Português (7,3%) Outros (51%)
Figura 1: Descrição de quais cursos e total de alunos pesquisados.


Este primeiro gráfico evidência a amostra que foi utilizada na pesquisa com os alunos universitários. Dos 55 entrevistados, 19 graduandos, ou 34,5%, foram do curso de Bel. Secretariado Executivo, 4 ou 7,3% do curso de licenciatura em Letras Português e a mesma quantidade para o curso de Lic. Letras Português - Espanhol.
Os demais entrevistados foram de vários outros cursos, que foram Direito, Farmácia, Bel. Administração, Ciências Econômicas, Engenharia Química, Filosofia, Lic. Matemática, Gestão em Sistemas de Informação, Letras Português-Inglês, Comunicação Social?Audiovisual, Engenharia Florestal, Lic. Física, Engenharia de Pesca, Ciências Contábeis e Lic. Geografia, totalizando 28 alunos, ou 51%. Destes, 26 discentes encontram-se no 6° período, ou 47,3%, e 13 são de cursos da área de Exatas, ou 23,6%, conforme o gráfico abaixo.

Cursando o 6° período (47,3%) Cursando o 2° período (14,5%) Outros períodos(38,2)


Figura 2: Incidência por período.

Enquanto a figura 1 mostra o universo da amostra quanto aos cursos, a figura 2 mostra quais foram os períodos que houve mais incidência. Devido à maioria dos entrevistados já ter cursado mais da metade dos períodos de seus cursos, essa amostra também evidencia que esse pode ser um problema que influencia durante toda vida acadêmica.

Homens 45,5% (25) Muleres 54,5% (30)

Figura 3: Em relação ao sexo dos alunos entrevistados.

Em relação ao sexo, mais da metade dos que responderam a pesquisa eram mulheres, cerca de 54,5% ou 30 pessoas. Em relação à idade houve uma grata surpresa ao constatar que havia pessoas de 19 aos 68 anos, conforme o gráfico abaixo.

Menos de 25 de 25 a 29 de 30 a 34 de 35 a 39 mais de 40
Idades 24 15 3 3 6

Figura 4: Em relação à idade dos pesquisados. Duas pessoas não quiseram informar a idade.

Delineando o perfil dos entrevistados, as análises seguintes serão em relação ao problema da interpretação de texto no ensino superior.


4.2 Sobre as dificuldades de interpretação em sala de aula:

Quando perguntados se durante o curso superior os estudantes se surpreenderam ao perceber que a sua interpretação sobre algum determinado texto divergia dos demais colegas de sala, o resultado foi:

Sim 67,3% (37) Não 32,7% (18)

Figura 5: 37 pessoas disseram que sim, contra 18 que afirmaram que não.

Das 37 pessoas que assumiram que sim, 8 comentaram que isso acontece constantemente e 3 que raramente. O comentário que mais chamou atenção foi de uma aluna do curso de Bel. Secretariado Executivo, de 19 anos, cursando o 7° período, que relatou: "Sempre tinha uma interpretação diferente, talvez por não conseguir identificar a idéia central do texto".
Esta declaração é justamente o grande problema que às vezes o estudante se depara na universidade, faltam noções básicas do que alguns textos estão tratando e sem uma orientação correta do professor para que o aluno entenda a ideia central do texto, não há construção de conhecimento. Daí a importância de separar conteúdo que realmente o texto quer tratar do resto de conhecimento que o aluno/leitor já possui.
Quando perguntados se em algum momento o estudante chegou a ter dificuldades em interpretar um texto abordado em sala de aula, o resultado foi:

Não 16,3% Sim 83,7%

Figura 6: 46 pessoas afirmaram já ter tido dificuldades em interpretar textos em sala de aula.

Nesta pergunta houve muitos comentários sobre problemas ocorridos em sala, como, por exemplo, o de um aluno do 7º período do curso de Lic. Em Letras Português, de 27 anos que disse: "Em certos textos, os temas são complexos e precisa-se do auxilio do docente, porém isso dificilmente ocorre."
Traçando uma linha paralela entre este comentário e a linha nietzschiana do "texto e o caos", às vezes faz-se necessário que o professor, mesmo universitário, adquira o papel de "resgate" de seu aluno do "caos" para que esse possa entrar na essência do "texto" em si e poder interpretá-lo no seu cunho real. É muito comum os alunos não terem base sobre o assunto abordado, e o professor acredita não ter a obrigação de dar uma explicação mais completa, já que seus alunos são pessoas adultas e deveriam ter visto isto na educação de base, e acaba por não cumprir também o seu papel de educador.
Quando perguntado se alguma vez teve que estudar um texto ao qual o assunto abordado coincidia com algum fato que o próprio aluno já havia presenciado, o resultado foi:

Sim 72,7% (40) Não 23,6% (13) Não opinaram 3,7% (2)

Figura 7: Mais uma vez, a maioria afirmou ter assimilado o texto com fatos ocorridos em sua vida.

Dos comentários feitos pelos alunos nesta questão, a maioria relatava fatos ocorridos no trabalho destes estudantes, mas um fato especial chamou atenção, o relato de um rapaz de 24 anos, estudante do 1º período e homossexual assumido, que respondeu: "Já, e não foi fácil, pois o assunto era sexualidade, e como eu sou gay e já sofri preconceito, foi difícil."
Em alguns momentos, torna-se necessário que o docente saiba equilibrar a atenção da classe para o texto, para que o "caos" cotidiano não vire o foco da atenção de todos, evitando assim outros problemas sociais como o preconceito. O educador está em sala para difundir conhecimento, e para que haja a absorção por parte dos estudantes. Segundo Nietzsche, este tem que ensinar a ser um bom filólogo e não um crítico do "caos" alheio.
Quando perguntados se acreditavam se ter algum tipo de interpretação textual, o resultado foi:

Sim 49% (27) Não 51% (28)

Figura 8: Os alunos ficaram divididos ao ter que assumir se tinham alguma dificuldade de interpretação.

Esta pergunta deixou os entrevistados bem divididos, sendo que a maioria não quis justificar o porquê que acredita não ter dificuldades, uma pessoa ficou em dúvida e a única pessoa que fez um comentário mais completo alegou que "Sempre gostei de ler desde o ensino médio, os professores incentivavam a leitura."
Esta pessoa é uma mulher de 46 anos, estudante do sexto período de Secretariado Executivo. É de senso comum que nestes vinte anos, a oferta de vagas na educação aumentou, mas a qualidade não acompanhou este avanço, o que poderia justificar a afirmação desta entrevistada.
Dos alunos que disseram sim, houve vários comentários sobre textos técnicos, com linguagem antiga e ao qual o professor não preparou o aluno previamente para que a interpretação tenha qualidade, um claro exemplo em que Nietzsche estava certo ao falar da importância da filologia para um bom aprendizado. Um outro comentário de uma aluna de 35 anos, também do curso de Secretariado Executivo, 6º período, que chamou atenção foi: "Eu tenho dificuldades pelo fato de mesmo antes da vida acadêmica não ter praticado o suficiente".
Em quase 10 anos de diferença, podemos ver o déficit neste ponto na educação, ao qual o incentivo à leitura vem diminuindo.
Na próxima questão, foi perguntado se os alunos acreditavam se o seu meio poderia influenciar na interpretação de um texto.

Sim 78,2% (43) Não 21,8% (12)

Figura 9: O meio e o "caos" ? a maioria dos entrevistados acredita que influenciam sim a interpretação.

Nesta questão, houve pessoas que ao comentar o porquê do seu sim, interpretaram a expressão "o seu meio" como o meio em que o ser humano vive em sociedade. Uma aluna de 23 anos do 6º período do curso de Secretariado Executivo comentou: "As concepções da sociedade à qual o leitor está inserido podem influir diretamente no seu modo de ver o mundo e interpretar os fatos".
Outros alunos associaram o meio como meramente o espaço físico, daí outro aluno do mesmo curso, de 29 anos, comentou: "Com silêncio, consigo interpretar melhor". Este fato demonstra como a interpretação textual é uma coisa ambígua, onde expressões e palavras podem mudar de sentindo, moldado ao que o leitor está mais propício a entender, de acordo com o seu caos.
Na ultima pergunta, foi solicitado ao aluno elaborar uma frase descrevendo o que ele compreende por interpretação de texto. Nesta pergunta, a intenção foi observar se os alunos universitários têm realmente discernimento do que vem a ser interpretação de texto e se eles conseguem transcrever suas ideias para o papel.
Foram observadas várias ideias desencontradas, erros de concordância e falta de clareza. Dos alunos que transcreveram bem, destacou-se a resposta do aluno mais velho entrevistado, um senhor de 68 anos, do 1º período do curso de Direito, que disse: "Comparar o que está escrito com o fato real".
Simples e direta, a frase é um exemplo do que a maioria dos leitores, não só alunos universitários, mas como qualquer pessoa de um modo geral faz ao ler um texto, acreditam ser interpretação textual, o ato de ler e comparar o que o autor disse com a realidade. Porém, as "realidades" de cada indivíduo são universos psicológicos diferentes, onde o que é realidade para uma pessoa pode não ser para outra, teoria esta defendida por vários teóricos, que pode ser enfatizada com a teoria do caos interno defendida por Nietzsche.
Ao comparar o texto com os fatos reais no ponto de vista de cada leitor, este estará diluindo o texto no caos, levando-o assim a não entender o que o autor realmente quis expressar no texto, não aplicando a arte da filologia e tirando de foco o texto para o seu caos interior.

5 CONCLUSÕES

Analisando as respostas ao questionário aplicado à amostra dos universitários sergipanos na Faculdade de Administração e Negócios de Sergipe e na Universidade Federal de Sergipe, é perceptível a necessidade deste grupo estudantil de ter um apoio do profissional docente para que haja completa absorção do conhecimento.
Apesar do problema com a leitura e interpretação de texto ser acusado de ter início na educação fundamental, é papel do professor orientar a busca do aluno pela descoberta do conhecimento, no caso dos universitários, do conhecimento científico. Aqueles que ingressam no ensino superior sem ter capacidade de absorver o conteúdo temático durante suas leituras, provavelmente sairão das universidades com um conhecimento deficitário de suas profissões, cheios de dúvidas e incertezas, e consequentemente poderão não ser bons profissionais. Ao tratar tal aluno com indiferença, o professor estará condenando-o a um aprendizado desconstrutivo, desanimando-o em relação ao estudo e incentivando-o a uma inércia de crescimento pedagógico.
Por outro lado, a teoria nietzschiana de que o conhecimento através da leitura só será entendido por completo se o leitor usar da filologia e separar o texto de todo resto que o cerca, que por sua parte este resto o filosofo deu o nome de caos, pode acrescentar uma saída bastante proveitosa ao docente em sala de aula. O incentivo do professor ao aluno entrar no contexto da leitura, separar seus preceitos, preconceitos e concepções do que realmente trata o universo literário do texto e aquilo que realmente o autor quis dizer, podem levar o aluno ao hábito de utilizar-se constantemente da filologia em suas leituras cotidianas, mesmo que este não perceba.
Não existe aquisição de conhecimento sem o texto. Mesmo com todas as tecnologias existentes nos dias de hoje, Nietzsche continua tendo razão ao defender a leitura com base estrutural científica como forma de aprendizado. As universidades dispõem de grandes bibliotecas para o aprimoramento do ensino, mas de nada valem se os alunos não entenderem aquilo que estão lendo. Ter estudo e ter conhecimento são tutorias distintas. Ler o que está escrito e entender o que está escrito são processos bem diferentes.
O texto é uma porta que dá abertura à criatividade e ao caos. O texto é uma porta do caos refletido no pensamento estudantil. Aprender a eliminar o caos no momento da leitura é aprender a entender a essência do texto.
Por fim, as idéias do grande filólogo e filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que hoje, no século XXI, pode ser considerado um dos grandes autores da literatura mundial, além de grande contribuinte para a educação em todos os seus níveis, não deixaram de ser bem sucedidas se aplicadas em sala de aula.
Existe sim uma deficiência de leitura e interpretação de texto nas universidades, assim como em todos os níveis de educação, e também existem docentes que ignoram esse problema, evitam ajudar seus alunos e praticam deliberadamente um crime contra sua própria profissão deixando de auxiliar tais alunos com deficiência, ocorrendo assim uma desconstrução de conhecimento.
Ser professor é ter o dom de gerar a luz do conhecimento nas mentes obscuras pela inocência da ignorância. FIAT LUX IN TENEBRIS INGENIA! ES WERDE LICHT IN DER DUNKELHEIT KÖPFE!

 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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