Alquimia: Uma História da Química
 
Alquimia: Uma História da Química
 


Matozo; H. C.1

1Escola Municipal Governador Israel Pinheiro, Rua 37, nº 115, Loanda, CEP: 35.931-026 João Monlevade, MG, Brasil

Professor (Curso Téc. de Química): Huita do Couto Matozo

E-mail: huitamineiro@yahoo.com.br

Resumo

Este artigo apresenta um breve resumo da disciplina História da Química (UFSCar-2000). É abordado o desenvolvimento da ciência através da história da alquimia até a ciência Química como conhecemos & filosófica e prática.

Alquimia: Uma História da Química

Se compararmos os milhões de anos que sabemos existir vida humana na Terra com a curiosidade de saber do que é constituída a matéria, chegaremos à conclusão de que esta preocupação é muito recente. Provavelmente os primeiros a se preocuparem em especular sobre a constituição da matéria foram os gregos, há pouco mais de 2.400 anos.

O homem pré-histórico, por tentativas e erros, descobriu como lascar a pedra como construir armas e algo muito importante na história da matéria - o fogo - através do atrito entre pedaços de madeira.

Passando para século IV a.C., século que provavelmente teve o inicio da alquimia.

Segundo o dicionário da língua portuguesa alquimia significa: Química da Idade Média, também considerada uma arte que procurava descobrir o elixir da longa vida e a maneira de transformar qualquer metal em ouro.

Para entendermos um pouco sobre esta palavra (alquimia), o seu começo foi com os povos do oriente, mais especificamente egípcios, gregos e mais tarde árabes.

" egípcio: kmt ou kemi - "a terra preta" (Egito)

" grego: chyma - fundição e moldagem de metais

" árabes: al-khemia - alquimia

Os objetivos da alquimia eram deencontrar a pedra filosofal para a produção de ouro e o elixir para a imortalidade (alquimia exotérica) ou salvar almas (alquimia esotérica). Tinha como base os processos de transformações de substâncias químicas em outras.

Alquimia esotérica ou religiosa

Uma tentativa de entender a Deus, ou aos deuses, e encontrar a salvação. Surgiu antes da exotérica, decorrente de mistura astrologia/religião. A metalurgia também foi importante neste surgimento (atos mágicos de criação com analogias religiosas). A alquimia esotérica abarca vários cultos: Irmãos Fiéis (África e Oriente Próximo), Taoísmo (China) e Gnosticismo (Europa) - mais influente de 100 a 600 d.C.

O que procurava a Alquimia exotérica

A pedra filosofal (que permitiria a transmutação de metais base em ouro).

O elixir da vida (que permitiria ao usuário viver para sempre) - desde os primórdios, na China (onde também havia a procura pela pedra filosofal) e mais tarde no Oriente Próximo e Europa.

Alquimia exotérica e as idéias de Aristóteles

A alquimia exotérica foi reforçada pela teoria dos quatro elementos e das quatro qualidades (idéias de Aristóteles); bastava, em tese, encontrar o melhor procedimento a ser seguido.

Os procedimentos caracterizados por uma mistura de alquimia e magia; muito uso de mercúrio e enxofre (significado religioso e mágico; na língua grega: enxofre = theion, mas também theion = divino).

As idéias de Aristóteles davam base à procura da pedra filosofal: minerais e metais crescem no solo, como as plantas, embora não tão rápido (crescimento é tentativa de atingir a perfeição); nesse processo, metais impuros muito lentamente se transformam em ouro: note-se que por volta de 1800, minas de ouro esgotadas ainda eram seladas para se regenerarem (na Espanha se acreditava que isto ocorria em cerca de 15 anos);

O teste final do processo de transmutação: cupelação (análise por fogo); em geral, se fazia "transmutação" de chumbo, que quase sempre tem contaminação de ouro e prata, o que levava quase sempre ao sucesso relativo do processo: pequenas quantidades de ouro sobravam ao final da cupelação (nesta época não se pensava, de modo algum, em fazer um teste branco*)

Em meados de 300 a.C e 300 d.C., nos mundos helênico e romano, a crença na transmutação foi muito forte; há autores que afirmam que em 292 d.C., o imperador Dioclésio declarou ilegal a alquimia e ordenou que textos alquímicos fossem queimados (outros autores afirmam que isto é lendário).

Contribuições da alquimia helênica/romana

Podemos destacar na contribuição da alquimia helênica/romana, melhores sistemas de aquecimento como fornos, banhos, novos tipos de destiladores. Métodos de destilação destrutiva de matéria orgânica (madeira, carvão mineral, chifre, etc.): princípios vapor e alcatrão (forma impura das essências ou espíritos filosóficos), por sua vez feitos dos quatro elementos (terra, ar, água e fogo). Explicação das propriedades e reações das substâncias em termos de matéria e não mais das qualidades, mas matéria como combinações complicadas dos elementos (os espíritos)

Ao final do período helênico/romano, a velha idéia de que metais tinham alma se fundira com uma nova idéia de que são feitos de enxofre (a alma) e mercúrio (a inteligência);

Fim da era helênica/romana: séculos IV e V d. C.

O cristianismo passa a triunfar sobre as outras religiões é quando começa a hostilidade à filosofia pagã e à alquimia. Começa a destruição dos templos e bibliotecas pagãos, como:

- no Egito, o templo de Serapi e sua biblioteca, em 389;

- em Alexandria, a última filosofa pagã de destaque, Senhora Hipatia, foi linchada, em 412;

- o museu de Alexandria foi fechado, em 415;

- a Academia de Platão, em Atenas, foi fechada em 529, após oito séculos em atividade (filósofos remanescentes fugiram para a Pérsia);

- em 489 a academia nestoriana em Edessa, Síria, foi fechada . acadêmicos mudaram-se para Nísibis - Mesopotâmia - e Jundishapur - Pérsia, onde, com o apoio do shá, traduziram a coleção de obras helenísticas para o aramaico, bem como toda outra obra que se conseguia contrabandear do Império Romano;

Por volta de 640 e 720 d.C., os árabes invadem o Egito a Pérsia, a Síria, o norte da África e a Espanha, pondo um fim no período clássico.

Alquimia Islâmica

Império Islâmico*

No seu auge (por volta do ano 750), o império islâmico era o maior que o mundo conhecera até então, expandia-se das costas atlânticas de Portugal à fronteira ocidental da China, incluindo Espanha, Portugal, todo o norte da África, Oriente Próximo e a maioria da Ásia Central; aí estavam contidos todos os centros culturais/tecnológicos do Oriente Médio/Mediterrâneo (exceto Grécia e Itália)

Esta enorme área de livre comércio contribuiu para um enorme aumento do comércio e das viagens, estimulando o fluxo de informação/conhecimentos. O nível cultural e de prosperidade atingido entre os anos 750 e 1150 no mundo islâmico só foi igualado no ocidente ao final da Renascença

*O Islã é o conjunto de estados ou sociedades que professam a religião de Maomé (o termo é análogo à Cristandade). Um islamita (maometano) é um crente na religião de Maomé; árabe é alguém que fala a língua árabe ou arábica. Muitos árabes, como os maronitas (católicos do Líbano) e coptos (cristãos jacobitas do Egito) não são islamitas e muitos desses não são árabes (iranianos, turcos, indonésios, afegãos etc.)

Atividades científicas e contribuições de outras culturas

Em 870, Abu Mansur usava gesso para imobilizar fraturas (sua farmacopéia incluía 585 drogas - 75 de origem mineral, 44 de origem animal e 466 de origem vegetal)

Em 873, os califas instituíram um programa de incentivo a tradução e, ao se darem conta que a sua língua poética de guerreiros do deserto não era adequada para a literatura científica e filosófica, ordenaram que os gramáticos reorganizassem e codificassem a gramática arábica, a qual passou a ser organizada e lógica (uma iniciativa que precedeu em quase um milênio os gramáticos de Richelieu na Academia Francesa)

Contribuições chinesas

Os chineses não acreditavam numa vida depois da morte por isso ingeriam ouro potável para terem vida longa (elixir da longevidade). Não podemos esquecer a invenção do papel. O papel era e é tão importante que fabricantes chineses foram capturados na batalha do Rio Talas em 751 para ensinar como produzi-lo. Mais tarde, fábricas de papel foram implantadas em Bagdá (793), Espanha (1100-1150) e França (1198).

Os Avanços Tecnológicos

O Vidro

Entre 1000 e 1100, técnicos italianos desenvolveram vidro duro, transparente, forte e que fundia só a altas temperaturas: algo fundamental para a química e um dos mais importantes desenvolvimentos tecnológicos da humanidade; quase imediatamente, surge variada vidraria de laboratório; duas coisas importantes decorreram da obtenção deste tipo aperfeiçoado de vidro: óculos (inventado pouco antes de 1286, no norte da Itália, ao redor de Pisa; um invento extremamente benéfico para o homem) e o isolamento do álcool hidratado.

O Álcool

O álcool foi isolado logo após 1167, provavelmente em Palermo, foi denominado aqua vitae (wiskey, eau-de vie e vodka); seu impacto foi enorme na química, medicina, comércio e mesmo na teologia;

Ao ser isolado por monges, eles pensaram que se tratava da quinta essência de que os céus seriam feitos; assim, estudaram suas propriedades intensamente.

Importante para o artesão, químico e farmacêutico por suas propriedades como solvente: dissolve muitos sais e outras substâncias solúveis em água, mas também dissolve muitos materiais orgânicos insolúveis em água (óleos, ceras, lacas e perfumes).

Os ácidos minerais

No início do século XIII, foram descobertas as soluções dos ácidos minerais: clorídrico, sulfúrico e nítrico, bem como a água regia (mistura dos ácidos nítrico e clorídrico que dissolve ouro), apesar dos ácidos puros só terem sido isolados séculos mais tarde, suas soluções diluídas imediatamente tornaram-se muito úteis na dissolução de metais e a maioria dos minérios, a frio ou em banho-maria. Também era importante por facilitar a análise de metais, com testes rápidos, de campo, do conteúdo de metais preciosos em diferentes minérios. No século XIV, toda mina tinha um analista para decisões rápidas sobre a qualidade de porções de minério; além disso, moedas podiam ser testadas: se uma gota de ácido nítrico diluído numa moeda de prata esverdeasse, ela continha cobre, e moedas de ouro não podiam reagir com ácido nítrico.

O comércio e a indústria química

Alume** para os Corantes

Em 1275, genoveses alugam as minas de alume em Focea (Turquia) e as expandem, tornando-as por dois séculos a mais importante fonte de alume para o Ocidente; 8000 ton/ano transportadas por navio, entre 1278 e 1455, para Flandres, passando pelo Estreito de Gibraltar; em 1455, turcos tomam Focea e desencadeiam uma crise. Descoberta de alume em Tolfa (norte de Roma), 1550 ton/ano entre 1465 e 1470, trazendo renda para a reconstrução de Roma renascentista.

**Alume ou Pedra-ume sulfato de alumínio e potássio (sal duplo)

Substitutos da Madeira

Por volta de 1200, inciou-se uma procura de substitutos de madeira para construção civil e naval, aquecimento e fundição.

Surge o uso do carvão mineral ou hulha para aquecimento (enviado de Newcastle para Londres em grandes quantidades). Em 1273 a queima de carvão passou a ser um problema tal que houve uma petição ao rei para que fosse banido (que se saiba, 1ª "primeira" queixa conhecida sobre poluição atmosférica).

Contribuição da Alquimia

Através do aperfeiçoamento químico os objetivos da alquimia começaram a deteriorar, assim dividiu-se em duas correntes. A primeira, abundante e múltipla, torna-se-á cada vez mais mística e iluminada. Continuará nos séculos XVII e XVIII, falando com propriedade sobre a alquimia. Separa-se da corrente de pensamento e do método científico que surgem com o Renascimento. A segunda, ao contrário, inscreve-se no âmbito da renovação intelectual e volta-se, sem rejeitar a priori as teorias de base da alquimia, porém com preocupações menos ambiciosas que as tentativas de transmutações para prioridades à vida do ser humano.

A alquimia apresenta para muitos um pensamento totalmente estranho ao da ciência atual, porém foi ela quem permitiu o acúmulo de conhecimento prático, manipulatório do objeto químico. Este é o seu mérito, preparou o campo de experiências que irá ser necessário aos futuros teóricos.

Surge assim um novo método de fazer ciência usando o filosófico e o prático (o pensar e mãos à obra).

Este artigo é uma breve história da alquimia, no qual há muito mais para ser relatado seja em contexto histórico ou para o avanço da Química.

Referências

VIDAL, Bernard. História da Química. Lisboa-Portugal, Edições 70, Lda.,1986

NOVAIS, Vera Lúcia de. Química Geral e Inorgânica, Vol I. São Paulo, Atual Ltda, 1993

SARDELA, A. Química, Volume Único, Editora Ática, 2003

KOLTZ, J.C. TREICHEL, P. JR. Química e reações química. Tradutor Horácio Macedo 3a edição. Rio de Janeiro, LTC- Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1998.

CISCATO; Carlos Alberto Mattoso. BELTRAN; Nelson Orlando. Química Coleção Magistério 2o grau Série formação geral. São Paulo, Cortez Editora, 1991.

BUENO, Francisco da Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo, FTD, 2000.

 
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Sobre este autor(a)
Mestre em Ciências (Biofísica Molecular USP), Especialista em Gestão Ambiental, Licenciado em Química pela UFSCar, Técnico em Química pelo Instituto Paralelo de Ensino e Desenho Mecânico pela Escola Estadual de João Monlevade-MG. Atualmente é Professor e Coordenador de estágio do Curso de Técnico em...
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