A ÚLTIMA CHAMADA
 
A ÚLTIMA CHAMADA
 


Crônica

                                                 A ÚLTIMA CHAMADA

                                                                               Edevaldo Leal


                                                             É madrugada.

                                                            Na noite insone, o relógio marca 1h30. A mãe perde a conta de quantas vezes  se  mexeu na cama: dez, vinte, trinta, como contar em sua agonia solitária? Das outras vezes em que o filho saiu, enquanto não retornasse, não dormia sono tranquilo, é bem verdade, mas  cochilava. Agora, nem isso. A cama,  maciez de plumas, é madeira bruta que lhe arrebenta os ossos; a noite, ladrão que lhe rouba o sono.

                                                          “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre seu galardão.”(Salmos 127:3 ).

                                                           A mãe levanta-se. Passos agitados,dirige-se à cozinha. Abre a geladeira.  Toma um copo d’água. Não, não é água: um líquido travoso lhe atravessa a garganta. Em seu desassossego, a indecisão entre voltar para a cama ou ir para o sofá.  Olhos fixos num ponto indefinido , a  mão direita sobre o queixo, senta-se no sofá. O tempo, contado em minutos,  se eterniza.

                                                       “Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho de seu ventre?” (Isaias 49:15ª).

                                                        E essa sensação estranha, que a deixa paralisada? Que mãe não ouve antes de ver? Ela ainda tenta evitar que o filho saia. A voz trêmula , o rosto pálido, faz o que pode: diz até que lhe falta  ar,que de fato falta. Só não sente ele, filho teimoso, a aflição da mãe.

                                                        Espancamentos até à morte à saída de boates, jovens derrubados a bala em assaltos à noite,  essas notícias que a mãe costuma assistir na televisão lhe veem vivas à memória, nas noites de ausência do filho. E mergulha num sentimento forte, a mesma pressão de sempre no peito .   Seriam essas coisas de mãe que só mãe entende?   Nada se banaliza no coração de mãe.

                                                       No dia anterior, a vítima foi um desconhecido. Pobre rapaz!, perdeu a carteira e a vida num assalto à noite. E se a próxima vítima fosse o próprio filho? Não para onde ele vai. Não enquanto estiver lá. “ Isso vai passar.  Ele está seguro lá dentro" , pensa a mãe, alternando as palavra com  respiração  nervosa.

                                                      “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” ( 1 Coríntios 13:7 ).

                                                      “ Vai com Deus “ , diz a mãe, vencida pela resistência do filho. Aos 19 anos, nenhum filho tem tempo a perder com besteiras de mãe.

                                                        São 2h30 . A "Boate Kiss" , em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, completamente lotada, pega fogo. Minutos depois, os bombeiros entram na boate em chamas. Ali estão 231 jovens mortos: muitos morreram pisoteados,outros,a maioria, por asfixia de fumaça inalada. Nenhum corpo carbonizado. Os bombeiros são rápidos: vencem o fogo, não a fumaça represada num ambiente criminosamente fechado, para evitar que os jovens saíssem sem pagar o consumo. Vidas trocadas por dinheiro. Quem ousa dizer que dinheiro não paga uma vida?

                                                         Um bombeiro vê alguma coisa se mexendo no bolso da calça de uma das vítimas, tão jovem como um de seus filhos. É um celular que toca sem parar. O bombeiro retira o celular do bolso da vítima.E chora diante do que vê: no visor do aparelho, o soldado confere 104 chamadas. Em todas, apenas uma palavra gravada: mãe.

                                                                                                                                            Ananindeua/PA,28 de janeiro de  2013.                      

 
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Sobre este autor(a)
Edevaldo Leal é formado em Direito pela UFPA e funcionário público de carreira jurídica do estado do Pará. Nasceu em 16 de janeiro de 1951 em Calçoene, região de garimpo no Amapá, mas foi registrado em Belém do Pará. Possui, portanto, duas naturalidades: é, de fato, amapaense, mas de direito, parae...
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