A sociedade sustentável
 
A sociedade sustentável
 



As ondas de mudança de direção da sociedade humana

Uma das maiores autoridades mundiais em termos de visão e luta pelo futuro e compreensão do fenômeno das mudanças é Alvin Toffler, visionário e futurólogo americano. Seus livros ainda têm grande atualidade, tornaram-se best-sellers e as previsões sobre o futuro que trazem têm altas taxas de acerto.

Toffler afirma que o mundo vive um período revolucionário de mudanças de rumo, que só ocorreu apenas duas outras vezes na história da humanidade. A primeira quando a raça humana passou de uma civilização tipicamente nômade para uma civilização basicamente agrícola, há 10 mil anos. A segunda foi quando a raça humana passou de civilização agrícola para industrial, há trezentos anos, nos EUA e na Europa, apesar de muitas regiões no mundo não terem atingido esse estágio.

A terceira revolução está em curso e iniciou-se por volta de 1955 nos EUA e em outros países que viviam o auge do desenvolvimento industrial, como a Inglaterra. A essas revoluções se deu o nome de "ondas". A terceira onda foi denominada de revolução do conhecimento e da informação.

O que distingue uma onda da outra é fundamentalmente um sistema diferente de criar riqueza. A alteração na forma de produção de riqueza é acompanhada por profundas mudanças sociais, culturais, políticas, filosóficas, institucionais, econômicas e religiosas.

Na primeira onda, o meio de produção para criar riqueza era o cultivo da terra. O ser humano contribuía apenas com um mínimo de conhecimento sobre quando e como plantar e colher, com a força física para trabalhar junto dos animais. Essa forma de produção de riquezas causou profundas transformações com relação ao que existia na civilização precedente, a civilização nômade.

A forma de criar riqueza na segunda onda passou a ser a manufatura industrial e o comércio de bens. A terra já não era tão importante, mas, de outra forma, prédios, fábricas, equipamentos, energia, matéria-prima, o trabalho humano e, naturalmente, o capital passaram a assumir o papel principal dos meios de produção. O ser humano necessitava entender ordens e instituições, ter disciplina e, na maioria dos casos, ter força física para trabalhar. Novas e profundas transformações ocorreram na sociedade. O valor das organizações era medido pelo número de fábricas, equipamentos, inventário, e a produção e o consumo eram massificados.

A terceira onda realçou o conhecimento como meio dominante de produção de riquezas, e o ser humano inventivo, criativo e contestador tornou-se o seu principal instrumento de transformação, o elemento central da sociedade. Na medida em que o conhecimento está presente, é possível reduzir a participação de todos os outros meios no processo de produção. A importância e o valor das organizações são o conhecimento que elas possuem e que está contido em seu contingente de recursos humanos, sendo, portanto, intangível e de difícil quantificação.

A produção na terceira onda está em grande parte automatizada e permite fazer produtos desmassificados, diversificados, sem grandes custos adicionais e sem a necessidade de parar toda a fábrica. A produção é adaptada aos desejos do consumidor por meio da criatividade humana e de alta tecnologia. A sociedade desmassificou-se e tornou-se mais complexa e exigente, sendo impossível geri-la sem informação e tecnologia da informação (computadores, telecomunicações), em sistemas integrados e ágeis.

A sociedade industrial está no fim e vive de forma cada vez mais intensa a terceira onda, sob a égide de um processo generalizado de desmassificação. O mundo expõe muito mais estruturas familiares, estilos de vida, esportes, diversidade de entretenimento, de trabalhos, de profissões e de indústrias que trabalham para produções de nichos de mercado. Os meios de comunicação dirigem-se cada vez mais para segmentos específicos diferenciados, e não à massa da sociedade. Há países e regiões que atuam nas três ondas simultaneamente, e a troca de poder gera conflitos entre as elites das respectivas civilizações. No Brasil, há várias ondas ocorrendo ao mesmo tempo. A região da Amazônia está na revolução agrícola da primeira onda, em que se derrubam florestas para plantar diversas culturas.

Na região Sudeste, o país está no centro da terceira onda, em linha com os países mais desenvolvidos do mundo. A velocidade de transformação e do desenvolvimento tecnológico é espantosa, e é provável que a terceira onda se complete em poucas décadas, mas já traz consigo um modo de vida genuinamente novo, com novos códigos de comportamento. Remete a sociedade para além da burocracia, padronização, sincronização e centralização, além da concentração de energia, dos recursos financeiros e do poder. Com relação especificamente à energia, a nova civilização baseia-se em fontes diversificadas e renováveis.

A sociedade sustentável

Na sequência do raciocínio das ondas de Toffler, surge no século XXI a sociedade sustentável, em que o sistema criador de riqueza é a capacidade de produzir bens e serviços renováveis e limpos, de forma sustentável.

Cada era vivenciada pela humanidade tem seus temas dominantes de economia e política global. No século XIX, havia a política industrial imperialista à qual se juntaram, na primeira metade do século XX, duas guerras mundiais e a depressão econômica. Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo conviveu por cerca de cinquenta anos com o terror da Guerra Fria. O novo século traz um novo e esperançoso tema: viver em uma sociedade sustentável.

No momento, a humanidade passa por um processo de ultrapassagem de limiar, um novo umbral que provoca rápidas transformações, mudanças comportamentais e tendências por vezes imprevisíveis e imperceptíveis em sua abrangência e profundidade. A necessária reestruturação completa da economia global precisa de mudanças "copérnicas" no pensamento econômico predominante. No entanto, o tempo urge por soluções, e mudanças sociais ocorrem, via de regra, de forma lenta e por etapas, pois têm de superar a inércia tanto da população como das instituições naturalmente resistentes a mudanças.

A bióloga americana Rachel Carson publicou A primavera silenciosa em 1962, e somente 36 anos depois, seu alerta ambiental fez efeito e provocou o movimento ambientalista moderno. A indústria tabagista americana levou 34 anos para fazer acordos com os governos estaduais no que se refere aos danos que o cigarro causa à saúde. Na Europa oriental, levou-se quarenta anos para a revolução política que derrubou o socialismo, com a queda do muro de Berlim em 1990. Já a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, que se arrastava em intensos debates internos entre os anos de 1940 e 1941 e tinha a maioria da população contrária à essa entrada, após o ataque japonês a Pearl Harbor, em setembro de 1941, desencadeou uma grande mobilização nacional diante da ameaça à soberania dos EUA e o país rapidamente respondeu ao ataque japonês e entrou na guerra.

Atualmente, líderes da economia energética percebem a inevitabilidade da mudança para fontes renováveis mais limpas que os combustíveis fósseis, assim como princípios ecológicos mais restritivos em prol de uma economia ambientalmente sustentável. Nasce uma nova onda pós-desenvolvimento econômico, com base na sustentabilidade, para substituir a civilização urbana e industrial: a sociedade sustentável. O atual modelo insustentável de consumo favoreceu a concentração de renda e poder e criou a sociedade da afluência. Passados mais de duzentos anos da Revolução Francesa, somente um pequeno número de nações produziu sociedades igualitárias, livres, abertas, pluralistas e conseguiu altos indicadores de IDH.

A maior parte dos países do mundo é caracterizada por sociedades desiguais, com altos índices de exclusão, polarização e desemprego, em que a pobreza é uma constante ameaça à prosperidade. Os constantes e progressivos processos de degradação entrópica e antrópica desfiguram o finito planeta, privilegiando uns em detrimento de outros.

Há de se construir um novo paradigma, fundamentado não só na racionalidade ambiental, mas também em formas mais éticas de estímulo à sobrevivência da humanidade e à coexistência pacífica. Todos devem ter oportunidades de participar e construir uma sociedade mais solidária e justa, que produza bem-estar e qualidade de vida aos seus membros.

Esse processo de mudança pressupõe a melhoria das condições sociais e econômicas, sem comprometimento das condições ambientais e dos recursos naturais. Prega a preservação do capital natural por meio de profundas alterações não só nas formas de produção, mas também na modificação do perfil do que se produz, em consonância com rígidos padrões de consumo. A sociedade busca submeter-se aos preceitos da prudência ecológica, ao fazer bom uso da natureza em prol do bemestar das atuais e futuras gerações, em uma dimensão de visão de longo prazo.

Verifica-se, nas organizações empresariais, nos governos e na sociedade civil, a construção desse novo paradigma: quem pretende ter longevidade na era global de competição acirrada em curso deve não só se importar com as atividades econômicas, mas também e principalmente com suas ações nas áreas sociais e ambientais, tendo como foco o desenvolvimento sustentável.

Uma sociedade sustentável é aquela que se organiza e se comporta de forma autônoma e democrática, em busca de um futuro comum que possa garantir, a partir de sua cultura e seu desenvolvimento histórico, qualidade de vida e bem-estar aos cidadãos e ecossistemas em que está inserida, sem diminuir as possibilidades de usufruto das futuras gerações.
Para se construir a sociedade sustentável, faz-se necessário definir propósitos comuns, nos quais as regras da direção certa de ações individuais ou coletivas, de qualquer nível, são fundamentadas na ética, na justiça e na equidade. Quem constrói essa sociedade são as pequenas ações de cada cidadão, refletidas em movimentos populares, conduzidos por líderes visionários. Durant retrata perfeitamente quais são as pequenas ações que constroem uma civilização:

A civilização é um rio com margens. Às vezes o rio está cheio de sangue que vem das pessoas que estão se matando, roubando, gritando e fazendo coisas que os historiadores costumam registrar. Enquanto isso, nas margens, sem serem notadas, pessoas constroem casas, fazem amor, criam filhos, cantam canções, escrevem poesias e até esculpem estátuas. A história da civilização é a história do que aconteceu nas margens dos rios.

À medida que uma sociedade se funda sobre a igualdade social, econômica e política e sobre recursos renováveis e recicláveis, mais sustentabilidade produz. Em certa medida, ela pode até utilizar fontes não renováveis, mas, se o fizer, que seja de maneira racional sem prejudicar as futuras gerações. Dessa forma, para ser sustentável, qualquer empreendimento humano deve ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito.

Um exemplo claro de sociedade sustentável é o estilo de vida indígena, que se baseia unicamente em fontes renováveis de energia, fundamentalmente a fotossíntese. Essas comunidades não utilizam combustíveis fósseis, e a lenha é empregada de maneira sustentável. Não ocorre destruição visível do meio ambiente, pois se adaptam a ele. Vivem de maneira idílica para o sustento do grupo, altamente estruturado por meio da fartura de frutos, caça e pesca. Moram em habitações toscas de palha e madeira que ficam expostas ao tempo. Não têm ideia de propriedade nem desejos de distinções e vaidades sociais.

A comunidade indígena possui um paradigma frugal de viver, com ritmos baixos de atividades, produção, consumo e estresse ambiental. Controla a derrubada de árvores, o fogo das queimadas, a construção de casas, o processo de preparo diário de alimentos e, quando percebe sinais de estresse ambiental, muda-se. A forma de conhecimento depende da experiência, transmitida oralmente através da tradição, por séculos a fio. O homem civilizado, ao se aproximar da sustentável civilização indígena, tornou extenuante sua sobrevivência.

Em contrapartida à civilização indígena, nunca antes na história da humanidade tantos viveram com tanta fartura, longevidade, conforto e inúmeras e modernas opções de consumo. A sociedade americana é o exemplo mais claro e representativo de uma sociedade insustentável, da economia do descarte, que cresce e se desenvolve com altíssimos padrões de consumo, desperdício exagerado e pouca preocupação com a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente. Entretanto, os afortunados desse modelo de desenvolvimento são minoria e, segundo dados do PNUD, 4 bilhões de pessoas ainda vivem com menos de US$ 1 por dia.

Segundo Furtado, o desenvolvimento econômico experimentado pelo mundo no período de 1945 a 1970 parecia passível de ser universalizado. No entanto, o estilo de vida criado pelo capitalismo industrial não só não se universalizou como se perenizou, privilegiando uma minoria. Furtado afirma que a ideia de que todos os pobres possam desfrutar as formas de vida dos povos ricos é simplesmente irrealizável, ou seja, a noção de desenvolvimento econômico mundial entraria em colapso com sua materialização.

Fazer que toda a humanidade tenha um padrão de vida digno, com acesso a alimentação adequada, saúde, educação e oportunidades de trabalho, é um enorme desafio, mas possível de realizar-se. Há recursos financeiros, tecnológicos e meios de produção para elevar o nível de vida de grande parte da população, como jamais ocorreu na história, apesar do quadro de insustentabilidade que vem sendo construído pelo ser humano desde a Revolução Industrial. Mudanças de postura, hábitos e paradigmas podem auxiliar na construção da sociedade sustentável, mas mudar formas de viver já arraigadas há tempos é um processo deveras complexo, moroso e que depende fundamentalmente de vontade política.

Para alcançar o desenvolvimento sustentável, devem-se vencer três grandes desafios, interconectados:

? garantir a disponibilidade de recursos naturais;
? não ultrapassar os limites da biosfera, para assimilar resíduos e poluição;
? reduzir a pobreza no mundo.

Ter-se uma sociedade sustentável requer, portanto, uma dramática e dolorosa transição na utilização de energia, água, terra e minerais, à medida que esses recursos diminuem em quantidade, declinam em qualidade e aumentam em custo.

A população terrestre continuará a crescer pelo menos durante mais um século, ao mesmo tempo que os enormes desperdícios deverão ser reduzidos e que as pessoas deverão ser mais eficientes e conscientes na conservação do capital natural, na redistribuição de renda e riqueza e no planejamento familiar.
 
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Sobre este autor(a)
Graduação e especialização em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas - SP, mestre em Liderança, doutorando em Economia, professor universitário de gestão, planejamento e economia ambiental, consultor de empresas, colunista e empresário do ramo de energia. Autor do livro "O Meio Ambie...
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