A Revolução Copernicana na Obra Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant
 
A Revolução Copernicana na Obra Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant
 


A REVOLUÇÃO COPERNICANA DE KANT

Immanuel Kant se pauta em duas ciências para determinar os termos possíveis que dariam à metafísica um caráter de ciência: a matemática e a física. Podemos dizer que a matemática é um verdadeiro modelo para a filosofia moderna, pois oferece, no caso de Kant, os princípios e procedimentos que tornarão possível a construção de um edifício sólido e a obtenção de um método rigoroso de investigação. Ao longo de toda a obra da Crítica, é inequívoco a admiração kantiana pela matemática, pois ela revela quanto o conhecimento é capaz de progredir sem o auxílio da experiência. O método kantiano pode ser denominado de reflexivo, pois ao refletirmos sobre os conhecimentos racionais que possuímos é que obteremos idéia precisa da própria natureza da razão. A reflexão é o movimento que o sujeito, através de suas próprias operações se volta sobre si mesmo, ligada, portanto, à idéia crítica.

O problema que Kant tinha a resolver, presente na Crítica da Razão Pura, dizia respeito à seguinte questão: como posso obter um conhecimento seguro e verdadeiro sobre as coisas do mundo? A resposta de Kant iria mudar o rumo da filosofia.

Conforme Kant tanto no caso dos empiristas quanto no dos racionalistas existem obstáculos quanto suas concepções acerca do modo como conceber o conhecimento. A razão especulativa do racionalismo, na medida em que deixa de validar suas investigações em testes práticos, tornava-se dogmática. Por sua vez, o empirismo encontra oposição no ceticismo, que argumenta que a natureza é o reino do contingente e, portanto, não pode ser fonte de conhecimento universal.

David Hume colocou sob suspeita o princípio de causalidade, que determina que, dado uma causa x, tem-se um efeito y. Por exemplo, tenho uma pedra em minha mão e a solto de certa altura (causa), tendo como conseqüência sua queda no chão (efeito). Para Hume, portanto, não existe nada na causa (solto a pedra da mão) que contenha a relação objetiva de seu efeito (a queda no solo). Por mais vezes que se repita uma experiência, nada no mundo me dará a certeza de que a pedra cairá e não levitará, por exemplo. A conclusão de Hume é, portanto, a de que a causalidade não está no mundo. Ela é produto de nossos hábitos, ou seja, de tantas vezes ver a pedra cair ao ser solta, acreditamos que haja uma relação causal nos objetos, quando não passa de uma espécie de condicionamento psicológico.

A teoria do conhecimento de Kant volta-se para o sujeito em consonância com o ceticismo de Hume, entretanto, ele reveste esse sujeito de um caráter lógico e transcendental, e não psicológico. Na própria Critica da razão pura, Kant expressa que todos os juízos da experiência são sintéticos, uma vez que, para obter-se um juízo analítico, não é preciso sair do próprio conceito, recorrer à experiência.

O SUJEITO TRANSCENDENTAL
Quando Kant nos fala do sujeito transcendental, quer especificar que o sujeito possui as condições de possibilidade de conhecer qualquer coisa. No sujeito é que estão as regras pela quais os objetos podem ser reconhecidos. A busca dessas regras nas coisas exteriores é infrutífera e faz que voltemos a repetir o erro de Hume. Só encontramos sentido no mundo porque somos nós que lhe damos sentido através dos dados apreendidos nas intuições empíricas, passados pelas intuições puras de espaço e tempo, formando o fenômeno. Esse fenômeno, que ainda não é o conhecimento, também passa pelas categorias, que são estruturas a priori do sujeito. O mundo não tem sentido a não ser que o homem dê algum sentido a ele. O que conhecemos é profundamente marcado pela maneira pela qual conhecemos.

Ao voltar o foco para o sujeito que conhece, que constrói o mundo, há uma sensação de bloqueio de qualquer pretenso acesso à essência dos objetos do mundo. Só temos acesso às coisas enquanto fenômenos para uma consciência. O que a realidade é em si mesma, ou a coisa-em-si, ou o que Kant chama de númeno, não é matéria de conhecimento humano, sendo, portanto, incognoscível.

A filosofia crítica de Kant consiste em impor à razão os limites da experiência possível. Kant quer, assim, fornecer um rigor metodológico à metafísica, livrando-a de seu caráter dogmático e trazendo-a para o rumo seguro da ciência. Este método que analisa as possibilidades do conhecimento a priori do sujeito, dentro dos limites da experiência, é chamado de transcendental.

A REVOLUÇÃO QUE PERMITIU O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS
Parece haver algo de promissor na especulação kantiana sobre o conhecimento. Kant interessa-se nos princípios do conhecimento que não são oferecidos na experiência sensível. A matemática, contudo, evidencia para nós que a razão consegue elaborar conhecimentos sem o auxílio da experiência, ainda que, em última instância, venha a remeter a ela. Por meio de tentativas incertas, "[...] a Matemática desde os tempos mais remotos alcançados pela história da razão humana [...] já encetou o caminho seguro de uma ciência". Além disso teve também que realizar uma transformação definitiva, atribuída a uma revolução muito mais importante que a descoberta do Cabo da Boa Esperança.

A revolução se deu mediante o deslocar do baricentro da pesquisa física dos objetos para a razão humana e com a descoberta de que a razão encontra, na natureza, o que nela mesmo coloca. A razão, sem fantasiar, deve "[...] procurar na natureza, em conformidade com aquilo que ela própria nela coloca, aquilo que deve apreender dela" , o que também nada poderia saber sobre si mesma. A física, assim, pode ser colocada no caminho seguro da ciência, pois, durante séculos, não passou de uma simples apalpadela.

Kant reconhece em sua obra o trabalho do empirismo e seu preceito básico de que todo conhecimento deriva da experiência e desta depende. As afecções sensíveis constituem um elemento fundamental para o conhecimento da natureza. Mas, também, a Crítica não dispensa os pressupostos do racionalismo, como já dissertamos anteriormente. Kant não passaria de uma figura banal, entretanto, e sua filosofia de um ecletismo se sua intenção fosse a de tão somente elaborar uma síntese das duas tendências gnosiológicas.

A intenção de Kant é muito mais audaciosa. Sua tentativa é descrever o traçado da esfera em que se situam os princípios da razão, determinando seus usos, medindo seu alcance e desmarcando seus limites. Porém, na metafísica, registra-se que há um contínuo caminhar. A metafísica permaneceu na fase pré-científica do conhecimento humano. Mas, até então, erramos o caminho que leve a metafísica a se constituir uma ciência. A resposta para a problemática da metafísica como ciência se deu, então, com a chamada revolução copernicana do conhecimento.
Anterior à revolução copernicana, o conhecimento era explicado supondo que o sujeito deveria girar em torno do objeto. Mas, já que as coisas permaneciam inexplicadas, Kant inverteu os papéis. O filosofo escreve que
o mesmo aconteceu com os primeiros pensamentos de Copérnico que, depois das coisas não quererem andar muito bem com a explicação do movimento dos corpos celestes [...], tentou ver se não seria mais bem sucedido se deixasse o expectador mover-se e [...] os astros em repouso.

Kant considera que não é o sujeito que, ao conhecer, descobre as leis que regem o objeto. O objeto, contudo, quando conhecido, que se adapta às leis do sujeito que o recebe dentro do conhecimento. Dessa forma, o filósofo abre uma nova página na história da gnosiologia que alcançaria as mais incalculáveis conseqüências tanto históricas quanto teóricas.

Até agora, admitia-se que todo o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos, mas todas as tentativas de estabelecer em torno deles alguma coisa a priori, por meio de conceitos, com os quais se teria podido ampliar nosso conhecimento, assumindo tal pressuposto, não conseguiram nada. Portanto, [...] faça-se a prova de ver se não seríamos mais afortunados nos problemas da Metafísica, formulando a hipótese de que os objetos devem se regular pelo nosso conhecimento a priori, que estabeleça alguma coisa em relação aos objetos antes que eles nos sejam dados.

A revolução copernicana de Kant substitui a hipótese realista do conhecimento (tanto empirista quanto racionalista) por uma hipótese idealista. Com tal revolução, nosso filósofo concluiu que não é nossa intuição sensível que se regula pelas leis da natureza do objeto. Ao contrário, os objetos se regulam às leis de nossa faculdade intuitiva. Para tanto, também o intelecto não se deve regular pelos objetos. Os objetos, enquanto pensados, se regulam pelo intelecto. Portanto, "[...] no conhecimento a priori não se pode acrescentar aos objetos nada a não ser o que o sujeito pensante retira de si mesmo".

O IDEALISMO TRANSCENDENTAL
E o que Kant fundamenta com a revolução copernicana do conhecimento? O chamado idealismo transcendental. O idealismo transcendental de Kant representou para a filosofia ocidental um ponto de inflexão comparável ao heliocentrismo Copérnico. Daí a habitual referência ao sistema de Kant como uma revolução copernicana na história do pensamento. Nosso filósofo assim concebeu seu sistema como uma síntese e superação das duas grandes correntes da filosofia da época: o racionalismo e o empirismo, além de também pretender tornar a filosofia compatível com a ciência físico-matemática.

Para realizar seu intento, após longos anos de intensa reflexão, Kant elaborou primeiro uma teoria do conhecimento ? formulada na Crítica da razão pura ? cujo objetivo era determinar os princípios que governam o entendimento humano e os limites de sua aplicação, assentando assim sobre bases seguras o conhecimento científico, que passava então por extraordinário desenvolvimento. Posteriormente, na Crítica da razão prática e na Crítica do juízo, Kant procurou dar fundamento sólido à convicção de que existe uma ordem superior, capaz de satisfazer às exigências morais e ideais do ser humano. Tal fundamento se encontraria, segundo ele, na lei ética, autônoma e independente e, portanto, imune às críticas produzidas dentro do campo restrito da ciência.

Na história da filosofia ocidental, o pensamento de Kant é uma etapa decisiva, cuja fecundidade está longe de ter se esgotado. Ele foi o ponto de partida da moderna filosofia alemã e marcou pensadores como Fichte, Schelling, Hegel e Schopenhauer. Suas obras são referência fundamental para diversas correntes. Os idealistas realçaram o caráter criativo atribuído por Kant à razão humana e os materialistas e positivistas assimilaram a crítica kantiana da metafísica. A problemática das relações entre sujeito e objeto recebeu do filósofo de Königsberg uma formulação que revelou múltiplos aspectos da realidade.

Assim, pois, Kant encerra um período da história da filosofia. Encerra o período que começa com Descartes. E ao encerrar este período dá-nos uma formulação mais completa, concisa e perfeita do idealismo transcendental. Tendo estabelecido Kant um novo sentido do ser, que não é o ser em si, mas o ser para o conhecimento, o ser no conhecimento, Kant abre um novo período para a filosofia, que é o período do desenvolvimento do idealismo transcendental que chega até nossos dias. Ainda hoje existem pensadores como Husserl, que chamam a seu próprio sistema de idealismo transcendental.
 
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Sobre este autor(a)
Licenciado em Filosofia e bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas - SP. Membro associado à Sociedade Brasileira de Teologia Moral. Áreas de interesse e de pesquisa: ética, epistemologia, história da filosofia, filosofia kantiana, teologia moral, teologia sistemática, p...
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