A RETEXTUALIZAÇÃO DO GÊNERO TEXTUAL RECEITA CULINÁRIA PARA O GÊNERO TEXTUAL POEMA
 
A RETEXTUALIZAÇÃO DO GÊNERO TEXTUAL RECEITA CULINÁRIA PARA O GÊNERO TEXTUAL POEMA
 


A RETEXTUALIZAÇÃO DO GÊNERO TEXTUAL RECEITA CULINÁRIA PARA O GÊNERO TEXTUAL POEMA


Claudio Roberto da Silva (Unileste-MG)


Resumo:

Este trabalho apresenta os resultados de uma intervenção pedagógica realizada em uma instituição pública no município de Coronel Fabriciano, Minas Gerais, com alunos do 2º ano do Ensino Médio. Nosso objetivo foi propor uma metodologia para o ensino de produção de texto tendo em vista a retextualização a partir dos gêneros receita culinária e poesia. Buscou-se, ainda, estimular o senso crítico dos alunos para diferenciar diversos gêneros existentes, assim como desenvolver a habilidade para reproduzir textos que dialogam entre si. Fizemos uso de outras ferramentas pedagógicas que vão além do livro didático, como jornais, revistas, e sites da internet, que nos auxiliaram na elaboração de pesquisas e análises de textos.

Palavras-chave: Gêneros textuais; poesia; receita culinária; leitura; escrita.


Introdução

Desde muito tempo a escola tem percebido que os alunos encontram muita dificuldade com a prática da leitura e da produção de textos. Por isso, os professores têm um papel imprescindível no incentivo da escrita e da leitura, que são ferramentas capazes de promover a comunicação do aluno com o mundo. Porém, é do aluno a função de buscar essa interação. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), por mais que o professor, os colegas de classe e os materiais didáticos possam, e devam, contribuir para que a aprendizagem se realize, nada pode substituir a atuação do próprio aluno na tarefa de construir significados sobre os conteúdos da aprendizagem. "É ele quem codifica o mundo ao seu redor, modifica-o, enriquece-o e, portanto, constrói novos e mais potentes instrumentos de ação e interpretação". (PCN, 1997, p. 37).

É preciso levar os textos para a realidade do aluno, e não simplesmente colocar o aluno na realidade dos textos, pois, feita essa interação com o seu cotidiano, o aluno se sentirá mais dentro de sua realidade e mais livre para interpretá-la e reescrevê-la. É pensando assim que tem sido levantada a hipótese de se trabalhar com os gêneros textuais no processo de ensino-aprendizagem no ambiente escolar, pois os gêneros estão no cotidiano do aluno. Sobre essa interação com o meio social, os PCN (1997, p.37) afirmam:

Conceber o processo de aprendizagem como propriedade do sujeito não implica desvalorizar o papel determinante da interação com o meio social e, particularmente, com a escola. Ao contrário, situações escolares de ensino e aprendizagem são situações comunicativas, nas quais os alunos e professores atuam como co-responsáveis, ambos com uma influência decisiva para o êxito do processo.

Partimos desse pressuposto para, através do projeto em questão, provocar o interesse e o encantamento de nossos alunos pela leitura, pois acreditamos que só escreve bem o aluno que lê bem e sabe decodificar as ideias e interagir com elas. Este será, então, o aluno apto a produzir textos a partir do seu cotidiano.

Pretendemos trabalhar o gênero poema e o gênero receita como sendo uma forma de "ação social" e um "artefato cultural" (Miller, 1984, p.151). Entendemos que trabalhar com os gêneros que fazem parte do cotidiano do aluno é a melhor alternativa, pois envolve o aluno em situações concretas de uso da língua e facilita a sua aprendizagem, pois estes textos estão presentes em suas ações sociais e culturais. Não se pode analisar o gênero textual sem levar em consideração aquele que fala, aquilo sobre o que se fala e, finalmente, aquele a quem se fala (Miller, 1984, p. 151). Acredita-se que a análise de gêneros textuais para o ensino de Língua Portuguesa em sala de aula poderá incentivar e estimular o aluno na produção de textos tanto orais como escritos.

Se levarmos em consideração as pesquisas de Luiz Antônio Marcuschi, cuja obra tem como tese central que "é impossível se comunicar verbalmente a não ser por algum gênero", e que de certa forma os gêneros se comunicam entre si, chegaremos à conclusão de que, apesar da diferença entre os dois gêneros em questão (poema e receita), é claramente possível trabalharmos a retextualização deles, pois o principio básico de qualquer gênero é exercer a comunicação entre indivíduos. Tanto na receita quanto na poesia, o locutor quer se comunicar com seu interlocutor, seja para provocar a reflexão, seja para levá-lo a uma ação. Podemos dizer que o produto final será uma receita poética de diversos sabores e saberes.


1 Revisão da Literatura

Percebe-se que, nos dias atuais, muito tem se escrito, falado e discutido sobre gêneros textuais. Podemos afirmar que os pesquisadores da área do ensino de Língua Portuguesa estão preocupados em apresentar os gêneros de forma mais esclarecedora. A quantidade significante de trabalhos que têm sido publicados a respeito do assunto auxilia estudantes e futuros professores de Língua Portuguesa, pois representa para um aprofundamento na questão.

A palavra "gênero", segundo o dicionário Silveira Bueno (2007), significa o "conjunto de seres ou coisas que apresentam qualidades semelhantes; classe de assuntos literários ou artísticos de mesma natureza; propriedade que os substantivos possuem de indicar o sexo pela terminação ou pela significação; mercadoria". Porém, nos estudos linguísticos, o conceito de gêneros textuais vai muito além de tipos, conjunto ou classe de textos. Segundo Bronckart (1999, p.93), eles estão intimamente ligados e reconhecidos nas práticas sociais de linguagem.

O estudo de gênero não é novidade. Segundo afirma Marcuschi (2008, p. 147) a expressão já estava em uso na tradição ocidental, especificamente ligada aos gêneros textuais, cuja análise se inicia em Platão para se firmar em Aristóteles, passando por Horácio e Quintiliano, pela Idade Média, o Renascimento e a Modernidade, até os primórdios do século XX. Os profissionais de diversas áreas estão se interessando cada vez mais pelos gêneros textuais, tais como: teóricos da literatura, retóricos, sociólogos, cientistas da cognição, tradutores, linguistas da computação, analistas do discurso e professores de língua. Tal fato torna o estudo de gêneros textuais uma matéria mais multidisciplinar.

Atualmente, o gênero já não está mais vinculado apenas à literatura, mas também à etnografia, à sociologia, à antropologia, à retórica e à linguística, e é a última que nos interessa para analisar a noção de gênero nesse trabalho.

Bakhtin(2000, p. 277 apud VITORINO, 2003.p. 87), argumentando acerca de gêneros como produtos da atividade humana de linguagem, considera a importânte o conhecimento da diversidade de gêneros na aquisição da leitura, segundo o autor, nós nos comunicamos por meio de textos, que se configuram em diversificados gêneros, os quais tem relativa estabilidade, isso nos aponta para chaves de leituras diferentes.

Foi Bronckart o primeiro a recolocar a questão sob o rótulo de gêneros de texto, defendendo a ideia de que podem ser facilmente reconhecidos nas práticas sociais de linguagem. O gênero, por si só, tem a característica de sempre se apresentar o tema, construção composicional e estilo específicos, é devido a esse fato que a comunicação humana é possível. "Chamamos de texto toda a unidade de produção de linguagem situada, acabada e autosuficiente" (BRONCKART, 1999, p. 75).

Até então os gêneros textuais eram definidos como gêneros do discurso. Tal fato ajudou a colocar a questão mais dentro da realidade escolar, pois esse conceito sistematiza que a utilização do gênero se deve ao fato de ser um instrumento de comunicação ao mesmo tempo em que objeto de ensino-aprendizagem. Isso, de certa forma, ajuda professores a elaborarem suas atividades para a aula, pois assim eles não têm necessidade de se preocupar em selecionar textos avulsos para serem trabalhados. Ao utilizar gêneros textuais específicos, é possível criar atividades com conteúdo interpretativo e gramatical dentro de um contexto.

No que diz respeito à leitura, percebemos que a falta de interesse dos alunos por ela se dá a partir do contato inicial com a escola, ou seja, é um fator histórico e cultural. Na maioria das escolas, geralmente, a leitura ainda é vista como ferramenta de castigo. O aluno que não se comporta bem é levado para a biblioteca. Além disso, as famílias já não têm o costume de ler com os filhos, e ainda há a falta de incentivo da parte dos professores para essa atividade. Quando escolhem os livros didáticos que seus alunos irão utilizar, optam por livros que possuem um maior número de imagens, pois acreditam que os aprendizes não são ainda capazes de se encantarem somente pelas palavras.

Entretanto, a leitura de determinados gêneros pode parecer mais aprazível, como é o caso da poesia. Segundo Octávio Paz (1982, p. 15), "a poesia é a arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras". A poesia está intimamente ligada à arte e à emoção. Esses fatores podem aguçar o interesse do aluno e torná-lo mais atento ao processo de ensino-aprendizagem. Em nossas observações da sala de aula, percebemos que quando o professor iria ler um texto e revelava que a leitura se tratava de uma poesia, os alunos ficavam mais à vontade e atentos.
Apesar de serem tratados por muitos como sinônimos, os termos poesia e poema apresentam relevantes diferenças: A poesia é um fator que emociona, toca a sensibilidade e sugere emoções por meio de uma linguagem. Já o poema é a obra, o produto, e geralmente se compõe em versos, e nesses versos há poesia. De acordo com o dicionário Silveira Bueno (2007), um dos conceitos de poema é o de "obra em verso, composição poética". Já para William Cereja e Tereza Magalhães(2003, p. 41), "um poema se constrói não apenas com idéias e sentimentos, mas também por meio do emprego do verso e seus recursos musicais, a sonoridade, o ritmo das palavras, da função poética da linguagem e de palavras com sentido conotativo".
Octávio Paz (1982, p. 15) defende a poesia como sendo "um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia univer¬sal. A poesia revela o mundo e sua beleza." É a arte de apresentar o belo e desnudar a realidade que os olhos desconcentrados vêem, mas não apreciam. A poesia está intimamente ligada à emoção e aos sentimentos. Neste caso, a métrica e a rima devem existir como canal para essa manifestação artística de sentimentos, e não para limitar, sistematizar ou delimitar o seu processo de construção.

Argumentando sobre a poesia, Armindo Trevisan (1993, p. 4) afirma que, "por se relacionar com a parte emocional do homem, a poesia tem a ver com seus sonhos, e nenhum sonho é inocente". Segundo o autor, todo sonho anuncia alguma coisa e refere-se a determinada necessidade vital. A partir dessas informações, de que a poesia se relaciona com os sonhos, tivemos como propósito apresentar os textos poéticos contextualizados com o dia-a-dia do aluno, algo que trabalhe o campo emocional, e que assim o estimule a produzir seu próprio texto.

Já no que diz respeito ao gênero receita, este segue algumas características e composições linguísticas próprias, como Ingredientes e Modo de Preparo. Em Ingredientes, destaca-se a composição linguística que faz uso do tipo textual descritivo. Nesse caso, passa-se a descrever o nome dos produtos a serem usados, a quantidade, as medidas e, em alguns casos, outros tipos de informação, como o rendimento da porção e o valor calórico. Já em Modo de Preparo, a composição linguística faz uso do tipo textual injuntivo, que pretende, através de alguns verbos, levar o leitor a uma ação, como por exemplo, "Adicione", "Prepare", "Coloque", "Mexa", etc.

A receita culinária se apresenta como um gênero interdisciplinar envolvendo várias disciplinas e possíveis debates, tais como: Língua portuguesa, matemática, geografia, artes, etc. Isso contribui de forma relevante para o despertar do interesse do aluno pela matéria. Além do mais, sabemos que o aluno, quando se insere em uma sala de aula, traz consigo conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação pessoal, e devido ao fato de esses textos estarem presentes em seu cotidiano, além de interpretá-los melhor, poderá interagir de maneira eficaz nas mais diversas situações comunicativas.

Este projeto levou em consideração os PCN do Ensino Médio (1997, p.15), nos quais se afirma que

O ensino de Língua Portuguesa, hoje, busca desenvolver no aluno seu potencial crítico, sua percepção das múltiplas possibilidades de expressão lingüística, sua capacitação como leitor efetivo dos mais diversos textos representativos de nossa cultura. Para além da memorização mecânica de regras gramaticais ou das características de determinado movimento literário, o aluno deve ter meios para ampliar e articular conhecimentos e competências que possam ser mobilizadas nas inúmeras situações de uso da língua com que se depara, na família, entre amigos, na escola, no mundo do trabalho.

O fato de termos escolhido uma turma de Ensino Médio para a intervenção torna essa prerrogativa ainda mais importante, pois esses adolescentes estão diretamente ligados às múltiplas possibilidades de expressões linguísticas, e é nesse momento em que está sendo formado o seu potencial crítico.

Ainda de acordo com os PCN, muito mais do que um conjunto de orações ou frases, os textos estão impregnados de visões de mundo proporcionadas pela cultura e resultam, necessariamente, das escolhas e combinações feitas no complexo universo que é uma língua. Isso vale para qualquer gênero, pois os textos são a concretização dos discursos proferidos nas mais variadas situações cotidianas. O ensino e a aprendizagem de uma língua não podem abrir mão dos textos, pois estes, ao revelarem usos da língua e levarem a reflexões, contribuem para a criação de competências e habilidades específicas.

Portanto, uma das preocupações iniciais ao desenvolver este trabalho era apresentar a caracterização e o conceito de gêneros textuais e, em seguida, agregar a realidade da turma à proposta de atividade de leitura seleta e dinâmica para tornar mais interativa e cativante a prática da produção de texto. A partir disso, conseguimos propor um tema que envolvesse os gêneros poesia e receita culinária, considerando suas principais composições linguísticas.


2 Relato de experiência

Nosso projeto foi realizado em uma instituição pública do município de Coronel Fabriciano, Minas Gerais, com alunos do 2º ano do Ensino Médio, de faixa etária entre 15 e 16 anos. A sala possuía 40 alunos. Foram necessárias 4 aulas de 50 minutos cada para a aplicação das atividades.

Nosso objetivo era propor uma metodologia de ensino que realmente cativasse o interesse dos alunos e interagisse com sua capacidade de criação. Desejou-se trabalhar a produção textual a partir da escrita e da leitura de textos literários e não literários, despertando nos alunos o senso crítico e uma visão abrangente de mundo, pois entendemos que é através da leitura que construímos uma visão panorâmica das realidades que nos cercam.

As duas aulas iniciais foram utilizadas para definir o conceito de gênero textual, suas características e aplicações, além de diferenciá-lo de tipos textuais. Focamos os gêneros poema e receita culinária, pois eram objetos de nossa pesquisa. Primeiramente, fizemos algumas leituras sem mencionar quais textos se tratavam de poesia e de receita e pedimos que os alunos dissessem o gênero textual ao qual pertencia o que foi lido. Em seguida, procuramos diferenciar os dois textos e distinguir as características textuais que predominam em cada um dos gêneros e suas particularidades.

Trabalhamos a receita culinária apresentando os conceitos teóricos e o quanto esse gênero tem sofrido interferências devido ao processo tecnológico, seja nas mídias emergentes, internet, redes sociais e de relacionamentos ou tão somente através da mídia televisiva. E, por fim, demonstramos sua importância em nosso cotidiano.

Sobre a poesia, procuramos apresentar o conceito de acordo com os teóricos que foram citados ao longo da argumentação deste trabalho, além de diferenciar o que é poesia e poema, pois percebemos que a maioria dos alunos tinha dificuldade e ao mesmo tempo curiosidade em relação às duas expressões.

Em um segundo momento, usamos uma aula para estimular e monitorar a produção de texto. A partir do gênero textual receita culinária os alunos deveriam produzir uma poesia de tema livre, usando algumas composições linguísticas da receita, destacando as duas características principais: ingredientes e modo de preparo. O tipo textual descritivo deveria ser empregado para descrever sentimentos, situações e objetos, e o tipo textual injuntivo seria necessário para provocar uma reflexão e levar o leitor a uma ação. Os alunos teriam 40 minutos para a produção, e nesse tempo eram tiradas, individualmente, as dúvidas sobre gramática, ortografia e possíveis problemas de linguagem.

A proposta foi a seguinte:

A partir das discussões feitas em sala de aula sobre os gêneros textuais receita culinária e poema, e levando em consideração a possibilidade de se produzir textos a partir de outros textos e outros gêneros, produza uma poesia de tema livre com características próprias da receita. Utilize as estruturas "ingredientes" e "modo de preparo" de acordo com sua criatividade. A poesia pode ser livre, sem necessidade de se prender a rimas e estrofes. Os textos serão socializados para toda a turma nos 15 minutos finais do último horário.

Os alunos produziram os textos em clima descontraído e escolheram temas diversos para escrever, tais como declaração de amor, expressão de sentimentos, futebol, o clima de inverno e o sistema educacional. Foram poucos os que não quiseram participar com produções, mas esses, vendo o interesse dos demais, mantiveram o silêncio, possibilitando um clima propício à criação e à imaginação. A animação foi notória quando os alunos passaram a socializar suas composições e apresentá-las aos colegas.

2.1 Recapitulação das informações metodológicas
2.1.1 Análise de dados
A seguir, passaremos a analisar os resultados da intervenção realizada na turma. Os textos serão anexados tal qual foram entregues.

Aluno A:

Aluno A:O título do poema é "Receita para Amar". Na produção, o aluno teve o cuidado em elaborar um texto com características tipicamente poéticas, como a utilização de versos e estrofes, e expressões que mencionam sentimentos. Apesar de não fazer uso de rimas, o texto tem certa melodia e possui ritmo.
Quanto ao gênero receita culinária, o texto do aluno não atendeu ao esperado, pois não fez uso de nenhum de seus aspectos, não citou os ingredientes, nem fez uso da expressão "modo de preparo".

Aluno B

Aluno B: "O time perfeito". O aluno trabalhou o texto poético em terceira pessoa na primeira e segunda estrofe, mantendo-se distante, apenas destacando as qualidades de um time de futebol. Em seguida, na última estrofe, fecha o poema em primeira pessoa, revelando-se como o personagem torcedor. O aluno ainda fez uso de rimas, o que aproximou seu texto mais da poesia. Ele rimou, por exemplo, "vibrante" com "exuberante" e "zagueiro" com "inteiro". A temática abordada por ele foi o futebol, interligando a isto a paixão, além de sentimentos e emoções.
No que tange à receita culinária, o texto não atendeu a expectativa, pois não fez uso de nenhum dos aspectos do gênero tanto na estrutura quanto em sua composição linguística. Podemos perceber que o aluno faz uso das expressões quantitativas um e uma, talvez na tentativa de aproximar-se da receita, visto que em ingredientes é possível ver esse aspecto, mas não deixa explícito se foi essa a sua intenção.
Aluno C

Aluno C: O texto intitula-se "Bolo de leite apaixonado". Esta produção se aproxima muito mais de uma receita do que de uma poesia. O texto é corrido e não possui separação em versos e estrofes, nem rimas, como normalmente se espera de uma poesia. Também percebemos problemas no que diz respeito ao gênero receita, pois o texto já incia com o modo de preparo e não cita em nenhum momento a relação de ingredientes. Entretanto, notamos que o aluno tentou aproximar o texto ao gênero poema, fazendo a substituição de produtos da preparação de uma porção por elementos do campo sentimental. Ex:. "01 xícara chá de sorriso", "leite da fidelidade", "açúcar da vitória" e etc.
O aluno deu conta de apresentar estruturas da receita culinária, mas se confundiu na proposta, visto que o esperado era produzir uma poesia a partir dos aspectos estruturais e composicionais de uma receita.
Aluno D

Aluno D: Título do texto: "Cruzeiro". Narrativa em terceira pessoa em todo o texto, de forma completamente imparcial, destacando apenas as qualidades e prestígios do time personagem. O texto se aproxima mais do gênero receita do que do gênero poema devido à ausência de rimas, estrofes e versos. Porém, o aluno estruturou seu texto em duas partes, Ingredientes e Modo de Preparo, como em uma receita, substituiu os produtos da receita por elementos relacionados ao esporte, mas não atendeu a proposta no quesito poesia.

Aluno E


Aluno E: Titulo: "Sopa de sentimentos". O titulo é bem sujestivo para um poema-receita e a estrutura textual se aproxima do gênero receita. O texto é separado em dois grupos, Ingredientes e Modo de Preparo, como se caracteriza uma receita culinária, porém não atende quanto à proposta, que é produzir um texto poético apartir da receita.

Aluno F


Aluno F: Este aluno deu ao seu texto o título de "Meu Orgulho". Trata-se de um texto muito bem elaborado, entretanto, foi o que menos atendeu às expectativas no que diz respeito à proposta. A produção não se aproximou nem da receita, nem do poema. O aluno pretendia prestar uma homenagem ao time e não construir um texto poético a partir dos elementos textuais e estruturais da receita culinária.

Aluno G



Aluno G: O texto tem, como título, "Mulher Perfeita". O aluno atendeu à proposta, pois fez uma retextualização do gênero receita para o gênero poema. Citou os ingredientes utilizando elementos quantitativos (um,uma, umas); em Modo de Preparo fez uso do tipo textual injuntivo (misture, mexa, e etc.). Seu texto contém estrofes, versos, ritmo e rimas. Ele substitui os produtos de uma porção de receita pelas características da mulher, que é o tema principal de sua poesia.

Aluno H


Aluno H: O aluno separou o texto em duas partes, Ingredientes e Modo de Preparo, o que não é próprio da poesia e sim da receita. E, no que diz respeito ao conteúdo da poesia, percebemos que o aluno deu conta de retextualizar os gêneros e abordou temas sociais do ambiente escolar. Vale lembrar que o teórico e poeta Thomas Stearns Eliot, em sua obra "Função social da poesia", ressaltou que a poesia não deve apenas emocionar, mas precisa provocar no indivíduo uma impressão imediata do seu condicionamento social, para assim poder transformá-lo. (1991, p 10).

Aluno I


Aluno I: O título do poema deste aluno é "Mousse de amor rosado". O Aluno I deu conta do que foi proposto. Elaborou uma poesia a partir da receita, destacou suas composições liguísticas (ingredientes e modo de preparo), utilizou os tipos textuais descritivo e injuntivo. E o fator quantitativo (uma, um, umas e algum), que geralmente se encontra em uma receita, está presente também no texto. Quanto à poesia, separou em versos e estrofes, fez uso adequado de rimas e usou em suas composições liguísticas elementos do campo sentimental e emocional.

Aluno J


Aluno J: Por fim, o texto "Inverno" foi o que mais atendeu ao proposto. O aluno J deu conta de perceber a diferença entre os dois gêneros estudados e, a partir de então, produzir um texto poético retextualizando o gênero receita para o gênero poema. A temática escolhida, o inverno, é bem comum entre os poetas, e relaciona a estação do ano com os sentimentos da alma. Vemos, ainda, que no texto o aluno J fez uso de aspectos estruturais e composicionais de uma receita, sem separar o texto em duas partes (Ingredientes e Modo de preparo), como ocorreu com outros textos citados acima. Os ingredientes estão presentes dentro do texto, nos versos e nas estrofes. O tipo textual injuntivo (composição linguística que tem como característica o uso de verbos que pretendem provocar no interlocutor uma ação ou reflexão) também foi utilizado, como se percebe nos verbos "coloque", " agasalhe" e " observe".

Vale ressaltar que, dentre os 10 textos de alunos analisados ao longo de nossa pesquisa, os textos dos alunos I e J não só foram os que mais atenderam as nossas expectativas, tendo em vista a proposta do projeto, como também superaram-nas em um aspecto. Conforme citamos em nossa argumentação acerca do Gênero Textual Receita, é possível encontrar em algumas a seção onde é especificada a quantidade de pratos e porções que a mesma pode render para o cozinheiro. O Aluno I, após traçar belos versos sobre a temática do amor, ressalta:
"Rende quantas porções o coração permitir,/ E nunca perde com prazo de validade."

Da mesma forma, o Aluno J, após discorrer os versos sobre romantismo e estação do ano, fez uso desse conjunto para finalizar com chave de ouro:
"Rende 90 dias de aconchego(sic) à pessoa amada."





2.1.2 Discussão dos resultados da intervenção

Nossa proposta foi trabalhar a retextualização do gênero textual receita culinária para o gênero textual poema. Ao propormos uma intervenção que abrangesse esses dois gêneros textuais os alunos puderam ter acesso a diversos textos e perceber a diferença na estrutura textual de cada um, na linguagem, nos tipos textuais, dentre outros aspectos.
Esperava-se que os alunos produzissem um poema-receita abordando as características da receita, tais como estrutura textual e composições linguísticas próprias do gênero, na composição do texto poético. Percebemos que a maioria dos alunos foi capaz de produzir textos levando em consideração o que foi proposto. Dos dos 10 textos analisados acima, 4 atenderam satisfatoriamente às exigências da atividade; 6 alunos não deram conta de atender a proposta, pois os textos tratam-se de poesias e não contêm características de uma receita (como Ingredientes e Modo de Preparo).
É importante salientar também que os alunos, ao entrarem em contato com a poesia, e produzirem seu próprio texto poético, tiveram a oportunidade de socializar suas ideias e manifestar seus sentimentos e suas emoções. E através da receita, puderam criar um novo conceito sobre a importância de uma boa interpretação da mesma, e de como é possível se criar poesias e versos a partir de situações comuns do dia a dia, vistas por muitos como sendo improváveis.
acordo com o proposto em sala de aula, que é a retextualização do gênero receita culinária para o gênero poema, podemos afirmar que ambos, o aluno A e o aluno B, não deram conta de atender a proposta, pois os dois textos tratam-se de poesias e não contêm muitas características de uma receita, que têm ao menos as duas estruturas textuais básicas, que são o modo de preparo e os ingredientes. O aluno B ainda citou expressões quantitativas (um e uma) que fazem parte da estrutura de uma receita culinária, mas o aluno A, criou apenas um texto poético, fazendo uso do gênero receita somente na elaboração do título da poesia.

3 Considerações Finais
Devido à atual popularidade dos exames de vestibulares e concursos, percebemos que tem crescido o interesse dos alunos no que diz respeito à aprendizagem da Língua Portuguesa e suas literaturas. Apesar disso, é considerável o número de reprovações e notas baixas nessa disciplina. O aluno ainda tem muito pouco interesse pela leitura e produção de textos. A redação causa irritações no ambiente de sala de aula devido à dificuldade que sentem em escrever, o que torna a tarefa um grande desafio para o professor.
A abordagem de gêneros textuais em sala de aula tem se mostrado cada vez mais eficaz e necessária para o ensino de Língua Portuguesa. Percebemos que alunos ainda têm muita dificuldade em diferenciar gêneros de tipos textuais. Devido ao ano letivo e ao tempo relativamente curto, poucas vezes o assunto é apresentado aos alunos de forma mais aprofundada.
Entendemos a retextualização como sendo um importante veículo para se trabalhar a produção textual em sala de aula, pois promove um diálogo entre textos de gêneros diferentes e a aprendizagem se torna mais prazerosa. Em se tratando do projeto em questão, é ainda mais relevante por se tratar de textos poéticos. Os alunos-autores se sentem ainda mais livres para expor suas ideias, sentimentos e emoções.
Na elaboração de nosso projeto, uma boa parte dos alunos foi capaz de produzir o que lhes foi proposto, que é a retextualização entre os dois gêneros, criando assim os poemas-receita. É importante ressaltar que nesse processo os alunos foram também desafiados a fazerem uso do senso crítico, da interpretação e interação com as diversas leituras do cotidiano construindo assim um novo sentido para a leitura e interpretação de um texto receita culinária.


REFERÊNCIAS

BAKTHIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais. Ensino Médio-Língua Portuguesa. Brasília: MEC, 1997.

BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: EDUC,1999.

BUENO, Silveira. Dicionário da Lígua Portuguesa. São Paulo: FTD, 2007.

CEREJA, William Roberto. MAGALHÃES, Tereza Cochar. Português: Linguagens: Volume único. São Paulo: Atual, 2003.

ELIOT, T.S. "A função social da poesia" In: _______ De poesia e poetas. Trad. e prólogo Ivan Junqueira. S. Paulo: Brasiliense, 1991, p. 25-37.

MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

_______. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, A.M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K.S. (Orgs.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. Kaygangue, 2005.

MILLER, Carolyn R. 1994 (1984) Genre as Social Action. In: FREEDMAN,
AVIVA & MEDWAY, Peter. Genre and the new rethoric. UK/USA: Taylor & Francis
Publishers.

PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. Col. Logos. Tradução de Olga Savary.

TREVISAN, Armindo. Reflexões sobre a poesia. Porto Alegre: InPress, 1993.

VITORINO, Gloria Dias Soares Vitorino. Cadernos UnilesteMG. Gêneros do Discurso: Produtos da Atividade Humana de Linguagem. Coronel Fabriciano MG: Unileste MG, 2003.



 
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