A quetão racial e o precoceito cultural
 
A quetão racial e o precoceito cultural
 


Universitad de San Lorenzo. Assunção- Paraguai.
Mestrado em Ciências da Educação.
Aluno: José Gilardo Carvalho.
A Cultura Africana. Um breve histórico das causas e conseqüências do preconceito racial no Brasil na formação da identidade brasileira.
Resumo
O presente artigo trata da questão do preconceito racial, principalmente contra os afro-descendentes. Preconceito enraizado na cultura mundial, mais especificamente o artigo se propõe a levantar questionamentos sobre o referido preconceito nas cultura latino americanas. A idéia é mostrar que o preconceito não se dá de modo direto devido a cor negra,mas sim, por séculos de cultura onde o negro foi e é colocado como sub-raça, como ser humano inferiror. Assim, tentamos a partir dos pesquisadores africanos ou de outras nacionalidades que se dedicam a pesquisa sobre esse problema tão crucial para o resgate étnico desse povo, tão belo e tão rico nas mais variadas contribuições em todas as áreas do conhecimento e da cultura humana.
Abstract


Summary this article deals with the issue of racial prejudice, especially against the Afro-descendants. Bias rooted in world culture, more specifically article proposes to raise questions about the said prejudice in Latin American culture. The idea is to show that the prejudice is not directly due to the black color, but yes, by centuries of culture where the negro was and is placed as sub-raça, as a human being inferiror. Thus, we tried from African researchers or of other nationalities who are dedicated to research on this issue so crucial to the rescue people of this people, so beautiful and so rich in the most varied contributions in all areas of knowledge and human culture.

O Ensino da história da África nas várias etapas da educação oficial brasileira, tem sido objeto de discussões acirradas no meio acadêmico. Há toda uma complexidade histórico-político que envolve essa discussão. Quer entre os teóricos brasileiros, estrangeiros e mesmo os de nacionalidade africana, existem divergências na compreensão e importância histórico medotológica da inserção do ensino regular da história africana nos três níveis de ensino brasileiro.
Durante séculos o entendimento pré-conceituoso de que os negros africanos representavam uma ¨ mancha ¨ na cultura e raça brasileira, perdurou no inconsciente coletivo a partir da historiografia oficial brasileira e mais particularmente da cultura católica européia que dominou e ainda domina em grande parte o pensar cultural brasileiro.Nossa colonização cristã-portuguesa, nos levou a uma atitude de repúdio e preconceito racial contra àqueles que foram forçados a deixar sua pátria-mãe, a África, para virem para o Brasil colonial na condição de escravos. O entendimento de que os negros não eram gente, mas uma sub-raça, com o aceite tácito da Igreja Católica, que chegava mesmo a afirmar que os negros africanos não eram possuidores de alma, levou a justificação das maiores atrocidades contra os negros. Essa mácula histórica não é possível de ser apagada com simples datas comemorativas ou com discursos pontuais que tentam bloquear uma discussão mais aprofundada e mais justa a respeito de nossa cultura afro-descendente e de todo um cabedal de falsos juízos sobre a cultura negra e indígena em nosso país.
Somente nas últimas décadas a partir de pesquisas antropológicas, arqueológicas, de cunho cientifico, onde se afirmou a primazia do surgimento do homem no continente africano, é que se tem aberto espaços de discussões sobre a questão da negritude, sua cultura, sua multifacetada etnia cultural, sócio-político e a percepção de sua singularidade enquanto povo, raça, cultura, contribuição histórica mundial e mesmo sua primazia no povoamento e dispersão humana na face do planeta Terra.
Grandes pesquisadores de origem africana e outros de origem não africana, tem provado a importância do negro a riqueza de seus conhecimentos e a grandeza de sua raça, bem como toda a inviabilidade dada pelas culturas européias e colonizadas por europeus no estudo e na desconstrução do imaginário coletivo de que os negros não seriam capazes de serem protagonistas de sua própria história e personagens centrais na história dos povos.
É de fundamental importância o resgate da história na busca de demonstrar o erro histórico que contribuiu e contribui para uma ideologia de supremacia da raça branca sobre as outras raças e etnias.Daí a importância dessa pesquisa, cujo objetivo é o resgate a partir do questionamento, da problematização, do recorrer as diversas fontes históricas locais e principalmente das recentes pesquisas sobre a África como o berço da humanidade, se tentar o encontro do passado com o presente e o conseqüente reconhecimento da dívida impagável com a raça negra e indígena, quer na formação dos povos quer na contribuição mesmo subjugada a uma cultura que se impunha como superior, mas que não conseguiu e nem consegue apesar de todo o pré-conceito histórico, negar a beleza de suas tradições culturais aqui deixadas e permanecidas sob a égide de um povo que mesmo debaixo do chicote e da morte desumana, sabia, soube e sabe resistir ao jugo do inimigo branco.
permanecidas sob a égide de um povo que mesmo debaixo do chicote e da morte desumana, sabia, soube e sabe resistir ao jugo do inimigo branco.


Esta pesquisa justifica-se com a necessidade imediata de um estudo mais aprofundado sobre a contribuição, resgate histórico e cultural da raça negra e indígena no Brasil. O intuito do mesmo é contribuir com a pesquisa para uma nova compreensão metodológica do ensino da cultura e riqueza histórica racial da África, permitindo a inclusão de uma nova metodologia nas etapas do processo educacional brasileiro.
A educação no Brasil, historicamente esteve e está atrelada ao projeto de pensamento das elites. Desde o Brasil colonial, quando da " invasão portuguesa " e da imposição da cultura cristã-europeia ao povos que habitavam as terras hoje conhecidas como Brasil, foram negadas a estes povos cuja diversidade cultural, racial, religiosa, étnica eram e são de uma riqueza imensa. Do mesmo modo no que se refere a raça negra, trazida para o Brasil na condição de escravos, como seres inferiores pertencentes a uma sub-raça, colocados ao longo da história como incapazes de produzirem conhecimento, quer cientifico, quer lúdico, religioso, etc. Faz se necessário uma pesquisa que busque uma reescrita da história brasileira sob o ponto de vista dos " vencidos" , citando uma das idéias do filósofo alemão Walter Benjamim: É premente se fazer um jetzeit(agora) na história dos povos indígenas e negros numa visão panoramática da história brasileira contada sob a ótica das elites dês o Brasil colônia até os dias atuais. Na multiplicidades dos signos visíveis nesse painel, realizar a visão do " anjo da história" do quadro de Paul Klee, citado por Benjamim, nas teses sob a história e em meio aos estilhaços da história, nas ruínas da história, (onde de acordo com Benjamim, a barbárie é regra e não exceção), realizar a imobilidade dialética da imagem.Assim, reescrever a história dos negros e dos indígenas a partir do passado que é presente, captado no " instante" histórico que foi deixado de ser percebido, só desse modo se torna possível uma nova história que traga ao presente real a beleza e a riqueza multicultural dos povos negros e indígenas. Não é possível mais permitir que a " tempestade do progresso" nos arraste para o continum da história como a figura do anjo do quadro de Klee citado por Walter Benjamim. É na descontinuidade do tempo e da história que a possibilidade do resgate das culturas que formam a miscigenação racial brasileira.
A matriz curricular brasileira traz em si o preconceito racial histórico com relação aos africanos e indígenas, o que cristaliza a idéia de raças inferiores, incapazes. Há uma negação dos valores culturais e étnicos dessas raças na história do ensino brasileiro presente nas grades curriculares do ensino básico, bem como do ensino superior. Um novo modelo de currículo precisa ser construído de uma forma democrática com a participação de representantes das raças negras e indígenas, bem como considerando as recentes pesquisas de pensadores africanos e não africanos que reafirmam a primazia da África enquanto berço da humanidade e da dispersão dos seres humanos pela face do planeta Terra.
Desde a sua origem, a função social da escola como transmissora da instrução pública foi motivo de estudos e de reflexões, nos diversos momentos históricos porque passaram as modernas sociedades ocidentais, sendo abordada por diferentes tendências teóricas, cada uma das quais construiu seu ideário especifico a respeito da dela. De fato, foi só no final do século XVIII, por volta de 1790, que o ensino passou a ser motivo de preocupações constantes por parte das assembléias revolucionárias na França,permitindo à Constituição do ano III o anúncio do seguinte principio: " Uma instrução pública comum a todos os cidadãos, gratuita, no que se refere à parte indispensável para todos os homens" (SOBOUL, 1981.p.50).
A escola de que falamos hoje é então herdeira das intenções contidas na Constituição francesa do século XVIII. Os princípios gerais do pensamento liberal, isto é, o individualismo, a propriedade, a igualdade e a liberdade, estavam no fundamento do surgimento da escola como responsável por uma instituição pública.( Educação e Africanidades no Brasil, 2003.p.13).
Essa escola deveria garantir o respeito aos talentos e aptidões individuais e o desenvolvimento máximo da capacidade de cada um, bem como a liberdade individual nas escolhas, no sentido de melhor aproveitar as potencialidades individuais, em respeito à personalidade de cada um. A idéia de igualdade de pensamento liberal estava vinculada à igualdade perante a Lei, dela derivando a igualdade de oportunidades de acesso à instrução pública, como dos direitos, independente do pertencimento a qualquer classe social.(Educação Africanidades no Brasil, 2003. P.14.)
Das citações acima depreende-se que a escola pública brasileira é possuidora dos fundamentos que lhe permitem atuar como agente social importante no resgate histórico de cultura afro-brasileira e indígena. Nesse sentido o currículo como instrumento de saber e poder precisa ser repensado e reformulado para trazer em suas matrizes não só a transdicilinaridade, mas nas singularidades de cada disciplina inserir a exata noção do preconceito racial enraizado na história oficial brasileira e dívida com os povos negros e indígenas, ressignificando toda a prática docente no ensino básico e superior, mostrando a imensa e diversa cultura afro-brasileira e indígena não como um anexo, mas como a matriz humana, já que é no continente africano que surge o homem como nós conhecemos hoje, a espécie homo sapiens. Logicamente que a cultura afro e indígena não podem então serem colocadas como submissas, mas como matriz geradora de culturas e conhecimentos, que científicos, religiosos, artísticos, etc.
A situação da criança e do jovem negro e do mestiço, apesar da multiplicidade recente de pesquisas sociológicas, educacionais e antropológicas, não tem suscitado muito interesse na reflexões educacionais brasileiras, se considerarmos a história da educação em nosso país e sua produção teórica.(Educação e Africanidades, 2003. P.14.)
Assim é conhecida a precariedade de dados sobre a trajetória escolar dos alunos negros e mestiços, desde o ensino fundamental até o universitário.Entretanto algumas publicações recentes acerca das desigualdades raciais no Brasil, e em particular, dos seus reflexos no sistema brasileiro têm contribuído para conhecer um pouco mais as condições de ingresso e permanência do aluno negro e do mestiço no sistema escolar.(Educação e Africanidades, 2003, p. 14).
Em relação à média de anos de estudo e instrução formal das pessoas de vinte e cinco anos ou mais, por cor ou raça, há uma diferença de dois anos de escolaridade a menos nas populações de ascendência africana. A população branca, em 2001, apresentou 6,9 anos de estudo enquanto a população de ascendência africana apresentou 4,7 anos de estudo. Essa diferença não altera se compararmos com os dados de 1992, quando a população branca apresentava 5,9 anos de estudo e a de ascendência africana 3,6 anos de estudo. Vale ressaltar que a média de anos de estudo no Brasil aumentou mantendo, porém, um nível de desigualdade entre as populações de origem étnica diferente, e que essa diferença permanece, mesmo que isolemos os dados de condição econômica e renda familiar. Em outras palavras, a população branca tem anos a mais de estudo que a população negra(HENRIQUES,2001 E HANSEMBALG & SILVA, 1999).
É visível o preconceito racial cultural no Brasil, refletido no modelo educacional e nas matrizes curriculares da educação brasileira. É preciso não confundir datas comemorativas direcionadas aos afro-descendentes, ou quaisquer outros mecanismos que busquem valorizar o ser negro, embora não se possa negar a sua validade, mas a questão é bem mais complexa, trata-se devolver aos afro-descendentes e indígenas o que é seu por direito. O currículo educacional brasileiro precisa contemplar a multiplicidade cultural dos povos negros e indígenas no sentido de dívida histórica, devolvendo-lhes a dignidade racial e cultural. Não basta ações pontuais é preciso uma nova reconceituação da história e da educação brasileira. A cultura católica-cristã a qual esses povos foram condicionados de modo obrigatório e o " uso" dos mesmos na construção da riqueza material brasileira, traz em si essa divida histórica. Cabe aos teóricos da educação, aos professores do ensino básico e superior e sobretudo aos gestores, bem como os afro-descendentes e indígenas a busca constante para que se faça justiça histórica a esses povos.
Diante de tamanha complexidade do problema apresentado, como podemos construir metodologias que permitam aos afro-descendentes e indígenas o reconhecimento de seus direitos históricos ? Que métodos podemos adotar no cotidiano da escola que levem a reconstituição da identidade negra e indígena, preservando a liberdade de expressão a cada grupo étnico em suas singularidades? Que caminhos poderemos traçar dentro do contexto real de discriminação racial construído ao longo de mais de 500 anos de história? Como contextualizar a riqueza multicultural dos povos negros e índios, dentro de uma sociedade tipicamente condicionada a matrizes culturais européia? Como desconstruir sem ferir direitos adquiridos a originalidade da cultura afro-brasileira e indígena na educação pública brasileira? Qual o papel dos afro-descendentes e índios nessa desconstrução e reconstrução dos valores étnicos e raciais de suas raças? Num contexto neoliberal onde o predomínio do financeiro é visível aos valores culturais, como construir um currículo que permita o resgate histórico dos negros e índios? Em um país de maioria cristã, pelos motivos históricos conhecidos, onde as minorias religiosas,apesar de oficialmente ser livre, mas na prática serem alvo de preconceitos e estereótipos depreciativos, construir uma nova mentalidade onde haja o respeito e a valorização real da religiosidade dos povos negros e indígenas?
O conceito de " currículo oculto" como o conjunto de experiências não explicitadas pelo currículo oficial nos permite ampliar a reflexão sobre o tipo de mensagens cotidianas ?traduzidas pelas páginas dos livros escolares,pelo preconceito racial entre colegas e entre professores e alunos- que são levadas ao conjunto dos alunos negros e mestiços. Ele inclui conteúdos não ditos, valores morais explicitados nos olhares e gestos, apreciações e representações de condutas, aproximações e repulsas de afetos, legitimações e indiferenças em relação a atitudes, escolhas e preferências.(Educação e Africanidades,2003. P. 17)
Não foi uma observação espontânea de um certo gradiente de cor de pele que deu origem às denominações " branco e negro" no nosso país. A nossa experiência de classificação está vinculada à subalternidade da escravidão, que foi utilizada como nomeação e demarcação de lugares sociais.(Educação e Africanidades, 2003. P. 17).
Entretanto mesmo sob a égide da escravidão, que os reduziu à condição de " peças " , esse homens e mulheres africanos se constituíram em uma das matrizes fundadoras do nosso povo(RIBEIRO,1995) apud(Educação e Africanidades). A ambigüidade das relações escravocratas,no caso brasileiro, permitiu aos negros africanos um jogo sutil entre ser objeto no modo de produção e aos poucos ir negociando lugares de sujeito nas relações e culturais e sociais. (Educação e Africanidades, 2003. P. 18).
As citações acima nos permitem falar de preconceito curricular na educação brasileira, pois apresentam lacunas na tentativa de radicalizar a busca da igualdade racial, ou seja, o preconceito está nas veias da história e será necessário ainda muita luta para construir conhecimento verdadeiro a respeito da cultura afro e indigena na realidade educacional sócio econômica brasileira. Mas fica claro a força da matriz cultural africana na sua gente espalhada por esse país-continente. Então o conhecimento enquanto pesquisa cientifica séria surge como a possibilidade real de fazer acontecer o respeito, a valorização e a devolução do que pertence aos negros e índios por direito e por natureza.
Essa pesquisa visa então trazer a baila a discussão sobre que metodologias podem ser construídas a partir do conhecimento das pesquisas sociológicas, antropológicas, realizadas por pesquisadores africanos principalmente, ou outros e que são reconhecidas e respeitadas nos meios acadêmicos. Percebemos então, que existe uma lacuna no meio acadêmico no que respeita a métodos, principalmente na educação básica, que permitam a reescrita da história brasileira não mais sob a égide do branco europeu colonizador,mas sob a ótica dos povos africanos e indígenas, sob a visão dos vencidos, mas que mesmo nessa condição souberam e sabem usar os lapsos da cultura dominante para construir sua identidade. Os quilombos, o uso de subtefúgios para praticar sua religiosidade e cultura em meio a um cenário de dominação, as conquistas recentes dentro dos espaços dominadas pela cultura branca, nos mostram que o preconceito racial não arrefeceu a busca de sua identidade pelos povos negros e indígenas.
1. Referências Bibliográficas

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LOPES, Ana L. Para inicio de conversa, encarte do professor. In Uma História do povo Kalunga; caderno de atividades. MEC. Brasília,2001
MATOS, Hebe Maria. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2000.
PICCININI,Walmar J. História da Psiquiatria: Juliano Moreira 1873-1933.Psychiatry On-lineBrazil(7) julho,2002.
UNIVERSIDADE DE BRASILIA, Educação e africanidades,2003.
UNIAMERICAS, Venicio, Paulo. Apostila, Didática e metodologias de ensino de Ciências Humanas. Maio,2011.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sou licenciado e especialista em filosofia, especialista em metodologia do ensino fundamental e médio,atualmente curso especialização em gestão educacional,mestrando em educação,leciona na rede basica de ensino municipal e estadual do Ceará. Sou apreciador da filosofia, porque vejo nessa área do sa...
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