A Questão Da Identidade Do Povo Brasileiro
 
A Questão Da Identidade Do Povo Brasileiro
 


Atualmente não há loja de moveis um pouco menorzinha que não ponha cartazes dizendo furniture. Pizzarias espertas não anunciam entrega a domicilio, mas um serviço de delivery. Há propagandas na televisão sem tradução. Loja de bicicletas é coisa impressionante: tem que ser "bike shop". Mesmo cantinas italianas proclamam a sua especialidade em "pizza and pasta".

O interessante disso tudo é que as palavras estrangeiras que são muito usadas por nós passam por tantas mudanças que, algum tempo depois, começamos a considerá-las como palavras portuguesas, esquecendo que elas vieram de outras línguas. Mudamos a maneira de pronunciá-las, mudamos a maneira de escrevê-las, colocamos desinências de plural ou de feminino ( quando são substantivos ou adjetivos ), de passado ou de futuro ( quando são verbos), por exemplo. Esse processo é chamado aportuguesamento.

Uma palavra como xerox, por exemplo, vem de uma palavra americana que representa a marca de uma máquina que tira fotocópias. Passou a ser muito usada, no Brasil, para representar a cópia tirada na máquina ( "vou tirar um xerox deste documento ") e, finalmente, aportuguesou-se - mudamos a sua sílaba tônica ( no inglês era xerox , no português passou a xerox), colocamos um apoio de uma vogal i depois da última consoante, produzimos um verbo ( " vou precisar xerocar alguns documentos" ), podemos criar um diminutivo ( "vou tirar um xeroxizinho ").

Entrega em domicílio como já foi citado virou delivery. Nas vitrines, a liquidação é anunciada como sale. Nem o popular campeonato de futebol resistiu, e foi invadido por expressões como play-off.

Se no dia-a-dia o uso de palavras em inglês é um hábito comum, no ambiente corporativo os estrangeirismos já podem ser considerados uma verdadeira epidemia.

O certo é que o Português precisa e deve ser protegido, mas não pode ficar imune às influências enriquecedoras, venham elas do estrangeiro ou de um inventor de palavras. Afinal, é uma língua viva. 

Acompanhando a história de nossa língua, podemos ver que já recebemos palavras de muitas outras línguas. Isso aconteceu porque o povo português (desde a época do império romano até o descobrimento do Brasil) e o povo brasileiro (desde o descobrimento até os nossos dias) entraram em contato com outros povos.

Isso acontece quando a cultura de um povo é muito valorizada. Os outros povos com quem eles entram em contato passam a valorizar os hábitos, a língua, as artes, a literatura, tudo que é produzido naquela cultura.

Sabemos, também, que há diferentes maneiras de estabelecer esse contato: a dominação militar, a dominação econômica, a dominação religiosa, a dominação cultural, a vizinhança, a convivência no mesmo espaço são algumas delas.

O estrangeirismo é um fenômeno natural, que revela a existência de uma certa mentalidade comum. Os povos que dependem econômica e intelectualmente de outros não podem deixar de adotar, com os produtos e idéias vindas de fora, certas formas de linguagem que lhes não são próprias. O ponto está em não permitir abusos e limitar essa importação lingüística ao razoável e necessário.

O estrangeirismo tem vantagens: aumenta o poder expressivo das línguas, esbate a diferença dos idiomas, tornando-os mais compreensivo, e facilita, por isso mesmo, a comunicação das idéias gerais.

Os estrangeirismos fazem parte de nossa vida. Bons exemplos são abajur, futebol, chofer, buquê, filé, balé, entre outros. É inegável a influência da cultura norte-americana no Brasil e no mundo: os melhores empregos exigem conhecimento de inglês e quem trabalha com computadores deve ter noções dessa língua. A economia privilegiada dos Estados Unidos faz crer que o que vem de lá parece mais sofisticado, moderno e vendável.

Os motivos dessa "influência cultural" são claros, trata-se da preponderância econômica americana, sofremos uma imposição esmagadora dos ideais de consumo e dos padrões de vida vigentes no Estados Unidos.

Como o uso de termos oriundos de línguas estrangeiras é, sempre, uma conseqüência e não uma causa, esse fenômeno denuncia situações que são características da nossa língua.

Essa "influência cultural" reflete a nossa permanente dependência de outras culturas, seja pela questão econômica e/ou tecnológica, seja pela influência de comportamentos culturais que, infelizmente, revelam o nosso cinismo colonial.

Passamos por momentos de dominação americana, não é mais influência, mas imposição, quanto a ideologia de Hollywood, a linguagem musical, as roupas e atitudes.

A massificação cultural no mundo não exerce poder somente sobre as elites, mas em toda a população mundial, através do cinema, das estórias em quadrinhos, da música popular, do rádio e da TV. São os meios de comunicações e os produtos de consumo os responsáveis pela massificação cultural no mundo.

A penetração da língua inglesa no Brasil e no mundo tem, como variável que não pode ser ignorada, a presença hegemônica dos Estados Unidos no mundo. O terceiro mundo não está mais sendo dominado essencialmente pelas forças armadas, mas pela língua, matéria prima do imperialismo culturalcausado pela dependência econômica .

A língua inglesa circula entre nós como uma mercadoria de alta cotação no mercado. A importância de palavras estrangeiras atende muito mais a uma necessidade simbólica de identificação com uma sociedade de grande poder político e econômico do que a necessidade de nomear novos conceitos e objetos.

Como qualquer mercadoria, os empréstimos também sofrem variações de "cotação de mercado". Aqueles que passam a ser usados pelas camadas populares são abandonados pelas elites e substituídos por outros, pois perdem o valor ao deixarem de se caracterizar como propriedade privada das classes privilegiadas.

A língua inglesa é ouvida nas novelas de televisão, nos documentários, propagandas, programas de rádio como BBC, Voz da América e até na rádio de Moscou. O inglês aparece no rock estrangeiro e também no nacional, está presente nos adesivos dos carros, nas marcas de carros, nos nomes de casascomerciais (apesar da resistência do governo), nos produtos, nas pichações em muros e até mesmo na palavra Supemarket, que veio substituir a palavra apropriada em grego.

 
Avalie este artigo:
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Leia outros artigos de Sandra Vaz De Lima
Talvez você goste destes artigos também
Sobre este autor(a)
Nascida no município de Telêmaco Borba - Paraná. Graduada em Letras/ Inglês/Espanhol e Pedagogia. Especialista em Educação Especial e Psicopedagogia Clinica/institucional. Atua na área de Educação Especial na Rede Municipal e Estadual e na Formação de Docentes.
Membro desde fevereiro de 2008
Facebook
Informativo Webartigos.com
Receba novidades do webartigos.com em seu
e-mail. Cadastre-se abaixo:
Nome:
E-mail: