A MULHER NA SOCIEDADE VITORIANA.
POSIÇÃO SOCIAL.

A Inglaterra vive no século XIX, um dos momentos mais importantes de sua história. A Era Vitoriana, como é conhecida a época em que a Rainha Vitória governou a Inglaterra de 1837 à 1901, é um período de grandes mudanças para a sociedade inglesa. O progresso das ciências, o crescimento do comércio e o questionamento religioso refletem em todas as camadas sociais. Há, no entanto, uma forte resistência ao novo. O puritanismo, a repressão intelectual e sexual, são as principais conseqüências do processo evolutivo vigente.
O lar passa a ser o ambiente sagrado e incorruptível, a base moral da sociedade, onde novas idéias que ameaçassem o equilíbrio e a harmonia da família não poderiam entrar. O papel de guardiã da família é dado à mulher, ela é responsável pela tranqüilidade de seu lar, é o símbolo da moral de toda uma sociedade, cai sobre ela a responsabilidade de manter a reputação da classe a qual pertence. A moralidade da corte e a harmonia da vida doméstica eram algo que orgulhava profundamente a Rainha Vitória.

"Na Inglaterra do século XIX, mais precisamente no período vitoriano, o progresso das ciências e a sofisticação da técnica, com reflexos em todas as camadas sociais, criaram um ambiente propício para o surgimento de um tipo feminino cujo perfil se pode nitidamente traçar. Nessa época, com efeito, o questionamento religioso de par com um processo evolutivo indiferente aos anseios sociais suscitou a necessidade de se buscar um ponto de equilíbrio entre o público e o privado, uma base que refletisse solidez e estabilidade. Esta base, naturalmente, era o lar, e como seu representante elegeu-se alguém com as qualidades de guardião da moral e da castidade. A exigência de um anjo do lar fez nascer a mulher vitoriana." ( MONTEIRO, 1996, p.61)

O perfil da mulher é delineado. Pura, delicada, passiva, submissa e bela, assim deveriam ser as mulheres vitorianas. Almas tão puras não podem ser corrompidas com negócios ou ciência, e corpos tão frágeis não têm condições de trabalhar para o próprio sustento. O papel da mulher na sociedade vitoriana limita-se à vida doméstica, compromissos sociais como organização e participação em bailes, visitas à igreja ou à paróquia da cidade ou um chá durante a tarde com outra respeitável dama. Essas atividades resumem a vida das mulheres nessa época.

Desde cedo as pequenas damas são lapidadas de acordo com normas rígidas de educação. Aprendem a ler, escrever e fazer contas, tem aulas de piano e desenho, aprendem a dançar, trabalhar bem com a agulha, e estudam línguas estrangeiras como francês e italiano. Pedras brutas eram transformadas em verdadeiras jóias preciosas que brilhavam nos bailes atraindo a atenção de aspirantes à marido. Apesar de pertencer à ricas famílias aristocratas, uma donzela não podia considerar-se detentora de grandes riquezas. À moça de uma família rica cabe apenas a fortuna que corresponde ao seu dote, que até casar-se é administrado por seu pai e após o casamento passa para o marido. Impossibilitada de trabalhar devido à posição que ocupava, e sem poder sustentar-se por que não herdara a fortuna de sua família, a única maneira de uma dama inglesa levar uma vida confortável e decente era se casando. O casamento, porém era outra área na qual as mulheres eram submissas, não tinham vontade própria. O casamento era arranjado pela família da moça, que acostumada a obedecer não relutava em casar com quem o pai ordenasse. O noivo era escolhido por diversos motivos, pela riqueza que possuía, pela posição que ocupava na sociedade ou simplesmente por acordo entre as famílias, o amor era algo supérfluo, uma boa união surgia pelos interesses da família, e não de um sentimento egoísta, o casamento não passava de um negócio. Depois de casada a mulher além de continuar submissa ao pai, tinha agora como senhor maior o marido, ela que já não tinha direito sobre a herança, perdia agora o direito sobre seu próprio corpo. A esposa ideal era dedicada e passiva, ocupava seu tempo com os filhos e afazeres domésticos. Se a mulher era reprimida pela sociedade, excluída do mundo público e dos negócios, a repressão dentro do lar era ainda mais intensa. Ela passou a vida inteira sendo educada para servir e submeter-se aos homens, aprendeu também que não foi feita para trabalho ou negócios, a mulher havia nascido para a maternidade. A mulher vitoriana não sonhava em ser independente ou em realizar grandes feitos para a sociedade, ela sonhava sim, em dar herdeiros a seu marido, e, para isso tinham que se submeter aos desejos carnais deste, porque ela não tinha prazer algum na relação sexual, mas esse era o único meio de honrar seu marido com filhos. O sexo era tabu, não se falava sobre, casadas o este era um assunto que não podia fazer parte das conversas entre damas. Bordados, bailes ou costura eram assuntos mais adequados. A religiosidade era outro aspecto no qual a dama vitoriana era impecável, ler a bíblia, decorar passagens para citar para o marido e filhos era algo essencial. Os domingos eram sempre dias alegres devido à visita que se fazia a igreja, e muitas vezes a dama pedia ao seu marido para ajudar a obra da igreja com alguma quantia. As donzelas também eram instruídas a ir a igreja, uma boa moça não poderia deixar sua vida espiritual entregue aos prazeres da carne. Assim, o pastor tornava-se outro homem ao qual a mulher tinha que se justificar e submeter.
O TRABALHO.
As donzelas de famílias ricas estavam destinadas ao casamento. Mas havia também moças muito bem educadas, de famílias boas, porém sem posses. Criadas com todo zelo e requinte das ladies da corte, mas sem um dote a oferecer a seus pretendentes, essas moças não conseguiriam um bom partido para o casamento. O que restava a essas pobres damas era o trabalho. Entretanto, era inadequado submeter uma donzela perfeitamente educada para a vida social e doméstica, com atributos de uma dama, à classe operária. Uma moça com todas essas qualidades não poderia desperdiçar seus talentos trabalhando como empregada doméstica ou operária de uma fábrica. Restava a elas ensinar o que sabiam, surgia ai a governanta, uma figura feminina importantíssima na era Vitoriana. As damas da alta classe não tinham tempo ou não queriam educar seus filhos, muitas famílias mandavam suas crianças para os colégios, mas a grande maioria preferia que suas filhas fossem educadas na segurança e no conforto de seu lar. A professora particular, chamada de governanta, passou a exercer papel fundamental na educação das pequenas damas. As governantas eram geralmente alguma prima distante da família ou uma moça filha de sacerdote ou educada em convento. Era função da governanta dar à suas pupilas uma educação fina, ensinar regras de comportamento e principalmente a posição da mulher diante da sociedade e dos homens, disciplinas acadêmicas ou estudos mais profundos não eram necessários á mulheres, ela tinha que exercer o papel da mãe.
A principal função da preceptora era dar aos seus pupilos uma orientação moral e social. Por agir dentro de um ambiente refinado, próprio de uma lady, era necessário que a preceptora como substituta da mãe, fosse uma gentlewoman. Em geral ela era filha de pároco ou alguém da própria família, como uma prima ou sobrinha.( MONTEIRO, 1996, p.62)
Apesar da boa educação e do requinte, as governantas não eram vistas com bons olhos, havia um enorme preconceito com relação a essa classe. Ela era agregada ao lar, mas de certa forma não fazia parte dele, não era uma servente, mas não era da família. Baixos salários e exploração era a realidade dessa atividade. Filhas de comerciantes encantadas pela "falsa liberdade" desta tarefa, passaram a ser governantas. As famílias passaram a temer a influência das destas sobre suas pupilas, tinham medo de que as professoras despertassem em suas filhas esse ideal de liberdade. A governanta era considerada um mal necessário.

Charlotte Brontë viveu nessa época e retratou em sua obra Jane Eyre os dramas vividos pelas mulheres na era Vitoriana. Nascida em uma família pobre, tendo como patriarca um pastor, Charlotte e suas irmãs foram muito bem educadas. Não tendo dote para oferecer a um pretendente, Charlotte foi governanta em uma família rica, suas experiências de vida e a visão que tinha de mundo serviram como inspiração para a criação de uma das personagens femininas mais intrigantes da literatura inglesa. Jane foi governanta, mendiga, dama da sociedade e esposa. Contrariando quaisquer perspectivas de personagem romântica, Jane encanta por sua doçura e surpreende com sua coragem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MONTEIRO, Maria Conceição. "Figuras Errantes na Época Vitoriana: A Preceptora, a Prostituta e a Louca". Revista Fragmentos, V. 8, No I , Jul.-Dez., 1998,UFSC e In Revista Brasil de Literatura, Internet, 1998.
Revisado por Editor do Webartigos.com