A morfologia da paisagem urbana do conjunto nova liberdade, município Joca Claudino - PB
 
A morfologia da paisagem urbana do conjunto nova liberdade, município Joca Claudino - PB
 


A MORFOLOGIA DA PAISAGEM URBANA DO

CONJUNTO NOVA LIBERDADE, MUNICÍPIO JOCA CLAUDINO-PB.

 

    Ana Cristina Ferreira Neta

Universidade Federal de Campina Grande- UFCG

 

Introdução

 

Este trabalho pretende descrever e analisar os elementos presentes na paisagem representada em uma fotografia. Busca-se demonstrar a importância e a funcionalidade de cada objeto (técnico, natural, cultural e geográfico) que nela se apresenta. A relação de vivência dos indivíduos e sua interação com a paisagem promovem as transformações, que seguem um ritmo que varia de acordo com a dinâmica espacial.

Os procedimentos metodológicos para a interpretação da paisagem foram: o levantamento bibliográfico, a observação empírica e a coleta de dados, através de entrevista e registro fotográfico.

A justificativa para a elaboração deste trabalho consiste na sua relevância como recurso didático para trabalhar conteúdos referentes à Geografia, desenvolvendo a compreensão e o olhar crítico sobre a realidade materializada na imagem.

As diferentes formas que a paisagem apresenta podem ser observadas, a partir da fotografia, que consegue captar a dinâmica atual da paisagem, bem como as dinâmicas de outros tempos. Essas representações fornecem subsídios que permitem a observação empírica e um diagnóstico preliminar do cenário paisagístico.

De acordo com Santos (1999, p. 83), “A paisagem é um conjunto de formas  que, em um dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre o homem e natureza”. É a partir destas relações que a paisagem se apresenta aos nossos olhos, com uma dinâmica temporal já que ela é animada pelo movimento do espaço, gerando sempre, novas configurações.

Considerando essas questões e tendo como referências a paisagem em análise, que é típica das cidades dos países subdesenvolvidos, indicamos que ela retrata as condições em que se processou e ainda se processa o desenvolvimento socioeconômico do país, como um todo e da região nordeste especificamente, devido as suas particularidades, materializadas nas suas diversas paisagens.

O homem através de suas ações transforma a paisagem assim, se formaram as cidades que “[...] são assentamentos humanos extremamente diversificados, no que se refere ás atividades econômicas ali desenvolvidas [...]” (SOUZA, 1963, p. 26). É justamente a intensidade com que se processão as relações econômicas que determinará a heterogeneidade dos espaços.

Nas cidades pequenas cidades, por exemplo, o fluxo de transformação é mais lento porque “[...] atende ás necessidades de uma população; tais necessidades variam em função da densidade demográfica, das comunicações e da economia da região, bem como do comportamento socioeconômicos de seus habitantes [...]” (SANTOS, 1981, p.15). Diferente das metrópoles cuja demanda econômico-social é maior e impõem um tempo mais acelerado de mudanças.

A cidade abriga diversos objetos técnicos, cada um com a sua função e valor específico dando origem à “paisagem urbana” que de acordo com Santos (1981 p.173). “[...] pode ser definida como conjunto de aspectos materiais, através dos quais a cidade se apresenta aos nossos olhos [...]”. As formas-conteúdos que a paisagem apresenta podem ser alteradas, abandonadas, descartadas e não tiverem mais atendendo as necessidades daquela determinada população.

Tendo como base esses pressupostos teóricos sobre a paisagem, buscou-se realizar um estudo focado na “paisagem urbana” de um conjunto habitacional, localizado na cidade de Joca Claudino, situada no alto sertão paraibano e pertencente à microrregião de Cajazeiras Estado da Paraíba. Possui como limites territoriais as cidades de Triunfo (O), Poço de José de Moura (S), Uiraúna (L), Poço Dantas (N). 

A porção analisada, da cidade de Joca Claudino, compreende uma das áreas periféricas da sede do município. Em sua gênese a periferia constitui uma área afastada do centro da cidade “[...] é de fato um local onde vivem os pobres, é socialmente segregada, e o preço da terra é baixo, [...]”. (MAUTENER 2010, p. 253). É onde as disparidades econômicas são evidentes, sendo frequentes a discriminação e o abandono pela classe dominante.

Segundo dados da prefeitura municipal de Joca Claudino, o conjunto habitacional (Nova Liberdade) foi construído no ano de 2010, e entregue a população em 30 de maio de 2011. O projeto foi executado com recursos do Orçamento Geral da União (OGU) através do programa Subsídio à Habitação de Interesse Social (PSH), sendo coordenado pela Caixa Econômica Federal, cuja proposta prever os seguintes critérios para a construção das edificações: padrão arquitetônico, instalações elétricas e hidrossanitárias.

 As edificações existentes na área periférica em questão, foram construída num terreno baldio pertencente à prefeitura do município. Onde a população jogava o lixo, tanto doméstico como o entulho das construções, causando como consequências o acúmulo de insetos e mau cheiro. A figura 01 evidência as formas-conteúdos que possibilitaram a ressignificação da respectiva paisagem.

 

  

 

 

 

 

 

Figura 01- Conjunto Nova  Liberdade, Rua projetada - município de Joca Claudino – PB. Nesta foto destacam-se as edificações.

 

Foto : Ana Cristina Ferreira Neta 2011

 

Percebemos a nova aparência da rua, que agora serve de acesso aos domicílios. Porém ainda possui uma infraestrutura simples, apenas comporta a terraplanagem feita pela prefeitura, não possuindo revestimento asfáltico ou calçamento apenas o meio fio divide a passagem da entrada carroçável essa é uma situação comum nas áreas periféricas. Além disso, podemos identificar vários outros elementos que constituem a paisagem: a vegetação, os postos, os serviços, as edificações, o firmamento, veículos, e a sociedade.

A vegetação herbácea de característica pioneira que encontrou condições físicas propícias ao seu desenvolvimento observa-se que a vegetação esta instalada nos espaços, em que o solo não esta compactado pela ação humana.

Os postes destinados para iluminação pública estão dispostos de forma correta deixando um espaço entre as árvores; a distribuição de energia é feita pela empresa  Energisa fornecendo energia para todas as casas por igual. Uma espécie de estrutura foi construída na frente de todas as edificações abrigando duas caixas com medidores de luz.

Os serviços básicos oferecidos à rua são: a poda das árvores e a coleta de lixo que apenas é feita semanalmente, então o lixo se acumula nos recipientes oferecendo risco de contaminação os moradores, a causa da lentidão deste serviço é tipo de veículo utilizado uma carroça com tração animal.

 As edificações possuem caixas d’água que são abastecidas pela tubulação instalada pela Cagepa. A localidade não possui esgotamento sanitário; como alternativa são construídas fossas sépticas no terreno junto a cada habitação.

Outro aspecto que é necessário salientar é a presença de antenas receptoras de canais de televisão as conhecidas “parabólicas”, que refletem a popularização dos meios de acesso à comunicação, utilizando tecnologias de custo acessível às classes mais baixas.

A relação que o homem tem com sua moradia é expressa por Ferreira (2009, p. 108), na seguinte afirmação: “A habitação, como bem necessário, refere-se a um objeto que possui utilidade para o homem”, podem ser construídas pelo próprio proprietário, comprada ou mesmo recebidas através de doação.

 Estando relacionadas diretamente as condições econômicas da população sendo, “A forma mais visível de diferenciações de classes, no espaço” (FERREIRA; 2009 p. 109). A periferia planejada ou não abriga uma população em sua maioria de baixo nível de instrução e econômico.

A infraestrutura padrão apresentada pelas habitações esta relacionada à aplicação de uma política pública já mencionada anteriormente promovida pelo Estado às chamadas “moradias populares”, onde objetivo é evitar invasões atendendo há uma parcela específica da população, aquela que seu poder aquisitivo não permite possuir uma casa com recursos próprios. Mais o que na realidade representa é a separação social, concentrando a população carente num determinado espaço.

Isso reflete em uma problemática comum nos países subdesenvolvidos, fruto das rugosidades histórico-sociais e principalmente o desenvolvimento econômico que permearão o processo de urbanização das cidades.

Além das construções observa-se também a presença de veículos de transporte como carro e moto de modelo antigo que não é fabricado mais e geralmente estão presentes nessas localidades periféricas são veículos que não possuem documentação exigida por lei, mais devido a ausência de fiscalização faz com que eles possam circular livremente pela cidade.

De acordo com Carvalho e Castro (1967, p.316) “O veículo mantém estreita relação com o meio geográfico em que é empregado, não só pelo material de construção, como pela adaptação aos obstáculos dos trajetos [...]”. O veículo mais popular nas pequenas cidades é a moto devido a vários fatores como: preço mais acessível do que o automóvel compra facilitada com o parcelamento em diversas prestações.

           

 

 

 

 

            Além disso, o conjunto habitacional também apresenta arborização que configura uma ideia recente no contexto histórico do país, de acordo com Dantas e Sousa (2004,p.3) “A arborização de ruas e avenidas no Brasil é uma prática relativamente nova em comparação aos países europeus tendo se iniciado aqui a pouco mais de 120 anos”. Esta prática trás muitos benefícios para a população além do embelezamento da paisagem, as árvores fornecem sombra, e quando é plantada uma estrutura de madeira popularmente conhecida por “garajau” é colocada com o objetivo de proteger a planta de servir de alimento para os animais.

 Neste caso, a arborização foi promovida pela prefeitura e o tipo de árvore escolhida foi o nim cujo nome cientifico é Azadirachta indica A. Juss, sendo uma árvore exótica de origem indiana, porém adaptou-se muito bem ao Brasil e a região Nordeste, devido a sua capacidade de resistência ao tempo de estiagem e aos solos rasos e pouco desenvolvidos.

 Percebemos que o firmamento encontra-se nublado. Sob essas condições pode ou não a precipitação já que as nuvens formadas de vapor d’água e aerossóis no clima semiárido são dissipadas pela alta temperatura.

A população que habita o conjunto habitacional, esta subordinada diretamente às políticas públicas promovidas pelo estado. Mesmo assim através da sua vivência cotidiana imprime marcas, que transformam a paisagem através de sua cultura, crenças e modo de vida.

No infográfico 01 percebemos como os elementos integrantes do cenário paisagístico formam um sistema interligado onde a sociedade é o fator indutor de movimentação das engrenagens, condicionando o funcionamento e na geração de novas configurações no espaço-tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Infográfico 01 – Paisagem sistema de elementos interligados.

 

 

NOVAS PAISAGENS

 

                             

 

 

 

 

   

SOCIEDADE

   

 

Fonte: elaboração própria

A organização das formas-conteúdos mais a sociedade são responsáveis pela dinâmica que origina outros cenários. A partir da respectiva análise percebemos que os elementos constituintes da paisagem estão diretamente inter-relacionados; cada um disposto com uma função específica previamente determinada pela sociedade que também se integra como parte da paisagem.

 

 

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A paisagem é resultado material dos processos naturais e humanos, exprime uma dinâmica específica em dado momento histórico. Seu funcionamento pode ser comparado ao um sistema onde seus elementos estão integrados, por intermédio da sociedade que atribui a eles função e valor específico de acordo com as suas necessidades.

Percebemos que a fotografia expressa, dados e informações sendo um importante recurso que auxiliar na leitura da paisagem permitindo análise e diagnóstico preliminar da paisagem através da observação empírica.

Dado o exposto conclui-se que a paisagem em apreço representa o avanço histórico nas políticas públicas brasileiras. Porém observa-se que a periferização planejada ainda se mostra uma política ineficiente, não fornecendo serviços básicos (saneamento, pavimentação dentre outros) essenciais para propiciá-las melhor qualidade de vida e o desenvolvimento pleno desta população isso mostra a falta de planejamento urbano do nosso país.

 

 

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

BOLETIM AGROPECUÁRIO, UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS CULTIVO E USOS DO NIM (Azadirachta indica A. Juss). Boletim Agropecuário - n.º 68 - p. 1-14Lavras/MGGOVERNO DO BRASIL,Disponível em:

 

CARVALHO, Delgado de, TREREZINHA, Castro de. Geografia Humana (política e Econômica) 2ª edição editado pelo Conselho Nacional de Geografia. Rio de Janeiro 1967.

DEÁK; Csaba, SCHIFFER, Sueli, Ramos (org.) In: MAUTENER, Yvonne. A periferia como fronteira de expansão do capital. O Processo de Urbanização no Brasil. – 2. Ed. Atualizada- São Paulo: Editora da Universidade de são Paulo.

DEÁK; Csaba, SCHIFFER, Sueli, Ramos (org.) In: Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. O Processo de Urbanização no Brasil. – 2. Ed. Atualizada- São Paulo: Editora da Universidade de são Paulo.

FERREIRA, Lenize rodrigues. Transformações na Paisagem Urbano se Santa Vitória do Palmar-RS: Relações social, Politicas de Habitação e a produção da cidade,2009.16 Nov.2011.

SANTOS, Milton. Morfologia do tecido urbano. Manual de Geografia Urbana- São Paulo: HUCITEC: 1981.

SANTOS, Milton.  O Espaço Geográfico um Híbrido. A Natureza do Espaço: técnica e tempo. Razão e emoção. São Paulo: 3º ed. Hucrtec, 1999.

SOUZA, Marcelo Lopes de. O que faz de uma cidade uma cidade?  Abc do Desenvolvimento Urbano. 5ª edição – rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2010. 192p.

 

 

 
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