A indisciplina Escolar
 
A indisciplina Escolar
 


CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO BRASIL-CESB
INSTITUTO DE CIENCIAS SOCIAIS E HUMANAS - ICSH









ÂNGELA BORGES DE ALMEIDA









A INDISCIPLINA ESCOLAR






















VALPARAÍSO DE GOÍAS
NOVEMBRO/2010

ÂNGELA BORGES DE ALMEIDA









A INDISCIPLINA ESCOLAR













Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Superior do Brasil - CESB, como requisito parcial à obtenção do título de Graduação em Licenciatura Plena em Pedagogia.













VALPARAÍSO DE GOÍAS
NOVEMBRO/2010








































Dedico em primeiro lugar a Deus, por ter me dado forças para nunca desistir de meu maior sonho, conclusão do Curso de Pedagogia.


Dedico nesta data tão importante, este trabalho aos meus filhos, Larissa e Daniel e a todos os meus familiares pela compreensão e apoio, em especial às minhas irmãs Maria Aparecida e Maria Divina pelas suas contribuições, para que eu pudesse concluir mais uma etapa da minha vida.





AGRADECIMENTOS



Á Deus pela oportunidade de poder realizar mais um sonho.
Aos meus familiares por terem acreditado em meu potencial.
Aos professores que contribuíram para minha formação intelectual.



































"A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela também pouco a sociedade muda".

Paulo Freire




"O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram".
Jean Piaget

RESUMO

O início da vida acadêmica é uma experiência que coloca a criança de frente com novos valores, conceitos e comportamentos. As instituições e os educadores muitas vezes têm dificuldades, especialmente quando a criança apresenta um comportamento indisciplinado. As políticas educacionais vêm se modernizando, tentando oferecer à sociedade uma resposta necessária para melhorar a relação aluno-sociedade. Os educadores buscam se preparar melhor, e os pais começam a perceber que sua participação é indelegável. Este trabalho pretende apresentar a opinião de alguns autores sobre o tema, a importância de orientar os comportamentos da criança nesta fase, o impacto da didática e da política do professor e a coerência da educação familiar.

Palavras Chave: Indisciplina na escola, Família, Educador, Comportamento e Didática do Professor.


ABSTRACT

The beginning of the academic life is an experience that puts the child in front of the new values, concepts and behaviors. Institutions and educators often have difficulties, especially when the child has an undisciplined behavior. The educational politics have been modernized; trying to offer to society a necessary response to improve the relationship between student-society. Educators seek to prepare themselves better, and the parents begin to understand that their participation isn?t delegable. This paper intends to present the opinion of the some authors about the subject, the importance of guiding the child's behavior in this stage, the impact of the teacher?s methodology, politics and the coherence of the family education.

Keywords: Indiscipline at school, Family, Educator, Behavior and Methodology of Teacher








SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 08

CAPÍTULO 1
1. A INFLUÊNCIA DA INDISCIPLINA NO APRENDIZADO 11
1.1. Aprendendo em casa 11
1.2. Reflexos comportamentais 12

CAPÍTULO 2
2. INFLUÊNCIA DOS VALORES MORAIS E SOCIAIS DA FAMILIA 13
2.1. A família como primeiro passo 13
2.2. Liberdade e o autoritarismo 15
2.3. Limites e suas conseqüências 16
2.4. A Falta de Limites e suas conseqüências. 17

CAPÍTULO 3
3. A CONTRIBUIÇÃO DA DIDÁTICA APLICADA PELO EDUCADOR 20
3.1. Gestão da liberdade 20
3.2. Usando a atividade extraclasse 21
3.3. Desafiando o aprendizado 22
3.4. Egocentrismo e hedonismo ? a criança mimada 24
3.5. Agressividade na sala de aula 25
CONSIDERAÇÕES FINAIS 27
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS 30



INTRODUÇÃO

Este trabalho busca fomentar a discussão sobre a crescente indisciplina nas salas de aula. Já se torna comum no Brasil matérias jornalísticas, mostrando alunos que se agridem e/ou a seus educadores. O que trás sérios prejuízos ao aprendizado e a relação entre professores e alunos. Casos como "O professor que foi agredido dentro da sala de aula, na escola Estadual da cidade de Itú/São Paulo, no dia 16 de junho de 2010. Folha.com (18/06/2010). A agressão ocorreu quando o professor repreendeu o aluno, por ter mudado de lugar em sala de aula durante a aplicação de uma prova. Por conta disso, os dois se desentenderam e o adolescente de 17 anos o agrediu com um soco". Outro caso recente visto em uma escola de Planaltina/DF, "" Segundo alguns alunos, ele chegou a apontar a arma, não efetuou nenhum disparo, mas chegou a apontar a arma", conta o diretor da escola, Anderson da Silva Dias. G1.com.br/JN (07/07/2010). O revólver era um calibre 32. O rapaz ficou em cima do muro da escola com a arma e assustou os alunos que estavam de recreio, no pátio. O adolescente usou o revólver para ameaçar um estudante que teria roubado uma bicicleta". Estes casos tipificam a deteriorização das relações existentes e o aumento dos conflitos. Porém, como afirma Áurea Guimarães: "é preciso deixar de acreditar que a paz signifique ausência de todo o conflito" (AQUINO, Júlio G., p.81), já que viver em sociedade exige uma contínua adaptação a valores sociais e o confronto com opiniões contrárias. O importante é entender qual o nosso papel como educador no enfrentamento destas divergências de opinião e atitudes contrárias ao que reza a cartilha social.
A influência da indisciplina no aprendizado dos alunos é um tema que possui grande relevância para relação educador-aluno, porém precisa ser mais profundamente estudada, já que não conta com um grande número de publicações sobre o tema. Há importantes obras, algumas das quais recorremos para estudar o assunto, porém consideramos que o crescimento do número de agressões por aluno em sala de aula contra os colegas e/ou seus professores, exige uma abordagem mais abrangente e atual. Segundo Tânia Zagury:
"a criança que não é orientada pelos pais e é atendida em tudo sempre que chora e esperneia, tende a perpetuar este tipo de conduta. Ela já está aprendendo a alongar seus limites e iniciando um processo de controlar o mundo através, primeiramente, do grito e, talvez depois pela violência e agressão."
Este aprendizado associado ao comportamento dos pais dentro do lar, pode ser, dentre outros, uma fonte dos motivos para este aumento da indisciplina com o passar do tempo, os filhos passam a entender a agressão física, ou verbal, como uma atitude normal e justificável para se conseguir a conquista do espaço dentro da sociedade.
Para Tânia Zagury (p.83), em um estudo realizado durante três anos, com o objetivo de colher dados concretos sobre o pensamento do professor brasileiro, que atua em sala de aula, com diversos profissionais do ensino, a percepção das suas maiores dificuldades foi assim descrita:
Maior dificuldade do professor Dados%
Manter a disciplina em sala 22%
Motivar os alunos 21%
Fazer avaliação dos alunos 19%
Manter-se constantemente atualizado 16%
Escolha da metodologia a cada unidade ou aula 10%
Usar recursos audiovisuais 3%
Falta de participação e interesse dos pais 1%
Trabalhar com classes cheias 1%
Desrespeito/falta de limite dos alunos 1%
Dominar conteúdo de sua disciplina 1%
Outras 4%
Não respondeu 2%
Base:1.172

Vemos que os dois principais motivos, segundo a avaliação dos professores que responderam ao questionário, são aspectos genéricos do ensino, e tratam do objetivo final. O professor quer manter disciplina, e ainda motivar o aluno. Por isso é tão importante assegurar que o comportamento do professor seja adequado a promover no aluno a motivação necessária para o seu envolvimento. Neste trabalho, pretendemos discutir um pouco mais sobre este comportamento.
Não nos cabe elucidar todas as situações e questões que envolvem o assunto, já que a indisciplina é um tema amplo, e nosso objetivo não é esgotar o tema, mas sim o lançar para maior conhecimento e discussão.
Portanto, o objetivo que ora se propõe este trabalho será ampliar a discussão da indisciplina no âmbito escolar, e analisar os valores familiares que influenciam na indisciplina, bem como procurar determinar alguns dos desafios do educador frente a esta realidade e enfrentá-la.


CAPÍTULO 1


1. A INFLUÊNCIA DA INDISCIPLINA NO APRENDIZADO

1.1. Aprendendo em casa

A educação básica é o caminho para assegurar a todos os brasileiros a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes os meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. Esta definição, presente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 e o Plano Nacional de Educação (PNE), Lei nº 10.172/2001, regidos, naturalmente, pela Constituição da República Federativa do Brasil, demonstra a importância do ensino para o cidadão. O aluno tem sua alfabetização iniciada na escola desde o ensino fundamental e aqui passam a aparecer os valores familiares no comportamento social. Teresa Rego comenta:
"O próprio conceito de indisciplina, como toda criação cultural, não é estático, uniforme, nem tão pouco universal. Ele se relaciona com um conjunto de valores e expectativas que variam ao logo da história, entre as diferentes culturas e em uma mesma sociedade.".
Para Ferreira (1986, p.595), "o termo ?indisciplina? refere-se ao ?procedimento, ato, ou dito contrário à disciplina; desobediência; desordem; rebelião?. Sendo assim o indisciplinado é aquele que ?se insurge contra a disciplina?".
O aluno que vivencia a indisciplina no lar, não enxerga a sala de aula como uma etapa que exige esforço, mas sim como uma simples extensão da sua vida cotidiana, e passa a adotar os exemplos que tem em sua casa, dentre eles a falta de limites ou a imposição de suas vontades, como o caminho para obter seu espaço social. Por não observar esta etapa como individual, e que necessita de esforço para superação dos desafios, ele não dá importância ao aprendizado formal normativos em sua vida. A formação dessa cultura sem limites nas fases iniciais do aprendizado contribui para que o próprio tenha grandes prejuízos em sua vida escolar. Para Yves Taille, "os limites, quando necessários, devem incidir sobre as ações, não sobre os sentimentos".
Ao falarmos do envolvimento dos pais, cabe-nos avaliar que discutimos aqui a participação no processo educacional do filho no que se refere a educação disciplinar e de valores morais e éticos. A participação na formação das políticas educacionais que estão a cargo dos gestores, pode contar sim com o seu conhecimento, porém esta construção não é devida à família.
Para Tânia Zagury, o aluno é influenciado por vários aspectos, muitos deles comportamentos pessoais ou sociais, que além do aprendizado, podem certamente influir no desempenho da criança. A autora destaca que existem, por exemplo:
"Algumas causas sociais: abandono em casa, falta de limites, superproteção da família, excesso de estímulos mais atraentes na sociedade ou casa, mordomias demais, dinheiro fácil, situações de conflito graves, problemas de saúde, uso de drogas, cansaço por trabalhar fora, etc. pessoais: imaturidade, agressividade, necessidade de auto-afirmação, preguiça, falta de força de vontade, imediatismo, falta de compreensão quanto a importância dos estudos, incapacidade de vencer dificuldades, dificuldade de concentração etc."
Daí a complexidade do tema e a necessidade de aprofundar a discussão intrínseca ao crescimento pessoal do aluno.

1.2. Reflexos comportamentais
Consideramos que o aluno é fortemente influenciado pela indisciplina escolar em três fatores fundamentais de seu comportamento: a motivação; a agressividade e interesses pessoais.
No processo educacional, a falta de limites contribui para que o aluno perca facilmente a motivação para o aprendizado. Para Yves Taille, "um aluno desmotivado não aprende porque falta-lhe, justamente, o interesse, sem o qual não há conduta". Desta forma seu comportamento passa a ser prejudicial a ele e ao grupo, devendo haver uma intervenção ativa do professor. Para Maria Izete, "a indisciplina na escola é um reflexo do desajustamento desse sistema social indisciplinado, onde tudo é permitido."
Há um aumento da agressividade, o que pode resultar em agressões verbais, não verbais ou físicas do aluno. A atitude agressiva é a etapa mais visível deste processo, levando muitas vezes, a relação com o aluno a momentos críticos. Agressões verbais, como xingamentos, ou desafios tácitos ao professor, deixam muitos profissionais receosos sobre a melhor postura a ser adotada. Já agressões não verbais, como o isolamento durante uma atividade em grupo, é mais facilmente percebido, porém tem igualmente o mesmo contexto agressivo. As agressões físicas, contextualizadas pelo comportamento de outros ou mesmo as gratuitas, isto é: sem motivo aparente; precisam de intervenção imediata e de rápida elucidação dos motivos que faz o aluno partir para este tipo de comportamento.
Nesse contexto, o aluno desinteressado e/ou agressivo quer saciar apenas os seus próprios interesses, como a diversão por exemplo. Desta forma busca influenciar seus colegas, pois o aluno entende a sala de aula como um local de divertimento e não de comprometimento. Ainda não podemos esquecer de comentar sobre a escola em si mesma, pois, como nos fala Içami, "classes muito barulhentas, nas quais ninguém ouve ninguém; salas muito quentes, escuras, alagadas ou sem condições de acomodar todos os estudantes são locais pouco prováveis de conseguir uma boa disciplina.". A saúde ocupacional é um ponto importante no processo educacional, cabendo a todos o dever de avaliá-lo constantemente, traçando metas de melhoria. Inclui aqui a postura do professor, que também faz parte da composição do ambiente acadêmico.
Investimento no aperfeiçoamento do professor, na construção de uma escola e classe que ofereçam ao educador mais possibilidades de transformar o seu conhecimento teórico em pratica discente, e o apoio para que ele entenda e desenvolva o significado dos comportamentos das criança e do adolescente, são importantes não somente no aprimoramento do professor, mas neste trabalho de construção do saber e da conduta do aluno.


CAPÍTULO 2

2. INFLUÊNCIA DOS VALORES MORAIS E SOCIAIS DA FAMILIA

2.1. A família como primeiro passo.

A família é uma instituição responsável pelos recursos de sobrevivência e primeiros ensinamentos; a escola é uma instituição responsável pela educação formal de crianças jovens. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional reza ? "a educação abrange processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisas...". Fica bem claro que o termo educação tem sentido amplo, entendido como processo formativo.
O primeiro espaço de convivência humana é o lar, justamente numa fase em que a criança tem alto índice de dependência, sendo também um tempo de construção das normas de convivência e sob a dependência da orientação dos pais. Se não houve segurança na orientação, inicia-se período conflituoso nas relações pessoais, resultando na baixa ou nenhuma noção de limites. A família é a base do comportamento social e escolar. Para Antonio Costa "na trajetória [...] entre a infância e a vida adulta, três instituições são fundamentais: a família, a escola e o trabalho". Os valores sociais e morais transmitidos aos filhos, contribuem pra a formação de seu caráter e para a forma com que vêem o mundo e com ele interagem. Como nos fala Tânia Zagury, transmitir esses valores cabe "aos pais em primeiríssimo lugar, porque é sua responsabilidade ? e responsabilidade não se delega.".
Mas muitas vezes há a crença que o aprendizado do aluno na escola, deve extrapolar o do conhecimento acadêmico, e que a escola e o professor devem se responsabilizar pela transmissão destes conceitos de moral e de limites, que muitas vezes os pais negligenciam. Claro que há influencia, mas, mesmo acreditando que a escola deve educar o aluno em todos os aspectos, ela não pode substituir a família na formação do indivíduo. Os pais têm muitas dúvidas quanto à educação de seus filhos. Içami Tiba diz
"a primeira geração educou seus filhos de maneira patriarcal, com autoridade vertical ? o pai no ápice e os filhos na base. Esta era obrigada a cumprir tudo o que o ápice determinava. Com isso, a segunda geração foi massacrada pelo autoritarismo dos pais, e decidiu refutar esse sistema educacional na educação dos próprios filhos. Na tentativa de proporcionar a eles o que nunca tiveram, os pais da segunda geração acabaram caindo no extremo oposto da primeira: a permissividade".
Daí considerar que os pais tenham compromisso com a educação de seus filhos, mas há um tempo para o amadurecimento dos pais, segundo suas próprias experiências. Ainda segundo Içami "A força dos pais está em transmitir aos filhos a diferença entre o que é aceitável ou não, adequado ou não, entre o que é essencial e supérfluo, e assim por diante.". Para a professora Tânia Zagury, é importante "fazer com que os pais readquiram a percepção de que seu principal papel é o de formar cidadãos, pessoas capazes de, pela postura ética, transformar a sociedade, fundamental para evitar a marginalização dos jovens.".

2.2. Liberdade e o autoritarismo
Os pais querem oferecer liberdade, com autoridade e sem o uso do autoritarismo. Para Yves Taille, o conceito de autoridade "pressupõe distanciamento e superioridade." Já liberdade, que segundo o Silveira Bueno é "faculdade de praticar tudo aquilo que não é proibido por lei"; precisa ser mais profundamente trabalhada pelos pais. Segundo Paulo Freire, "do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente o respeito de uma pela outra, expresso na assunção que ambas fazem de limites que não podem ser transgredidos." Os pais são os melhores exemplos que se busca tendo em vista o desenvolvimento do cidadão. É neles que queremos ver as virtudes dos valores morais e sociais sendo passados para os filhos. Envolvê-los na educação dos filhos de modo mais contundente, avaliando inclusive se o papel que lhes cabe está sendo realizado, pode configurar uma arma poderosa de apoio às atividades desenvolvidas em sala de aula. Para Teresa Rego, "a família, entendida como primeiro contexto de socialização, exerce, indubitavelmente, grande influencia sobre a criança".
Os limites, segundo Yves Taille, sejam eles físicos ou normativos,
"os limites físicos não levam grandes problemas de aceitação: o homem não tem asas e não pode voar, não tem força bastante para, com as mãos nuas, lutar contra um tigre ou levantar toneladas, [...] são limites concretos, objetivos. Devem ser objeto da educação das crianças. Todavia, os limites restritivos que levam sérias questões políticas, éticas, existenciais, são os normativos, aqueles que a sociedade resolve criar e impor. [...] não posso pular de 10 metros de altura, [...] não posso ouvir música no mais alto volume em plena madrugada"
Para Yves, isso significa que "os limites físicos, coloca a dimensão do impossível, e os limites normativos, coloca a dimensão do proibido".

2.3. Limites e suas conseqüências
Este despreparo e contínuo aprendizado da família em conceituar os valores e passá-los a seus filhos, não é algo novo. E nem tão pouco será algo totalmente superado, primeiro em razão das constantes mudanças que o mundo vive, depois em razão das dificuldades em si de implementar algo novo ou do próprio relacionamento humano, já que o processo de aprendizagem é amplo, e envolve muitos momentos. Os pais querem acertar, mas qual a maneira mais correta de agir? Há quem acredite que, conforme nos diz Tânia Zagury:
"Negar alguma coisa para os filhos parece um crime, um verdadeiro pecado atualmente, ou, no mínimo, um ato autoritário, um modelo antiquado de educar. Afinal, tantas obras publicadas indicam tudo que não se deve fazer e tão poucas oferecem realmente uma diretriz para clarear o caminho de quem quer bem orientar os filhos...".
Em razão de muitos pais não conseguirem dizer não para os seus filhos, muitos assumem uma postura autoritária, dominando a relação com esses pais. Esta postura não é intencional, mas situacional, já que a criança age por reflexo. Mas é preciso ensinar limites, já que "ninguém pode respeitar seus semelhantes se não aprender quais são os seus limites ? e isso inclui compreender que nem sempre se pode fazer tudo que se deseja na vida." (Tânia, p.4). É claro que, pais que cresceram sem limites, encontrarão mais dificuldade em criar esta cultura em seus filhos, partindo muitas vezes para a imposição de suas vontades, como no dito popular de "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Mas sempre há uma "luz no fim do túnel". A compreensão do comportamento necessário para oferecer o melhor para seus filhos ensiná-los o que é felicidade, pode significar a ruptura com uma cultura pessoal trazida de sua própria criação. Não há o que temer, mas é fundamental que não se tenha dúvidas que esta postura é importante. É preciso acreditar nisso de maneira inequívoca. Afinal a criança precisa entender que não se pode puxar o cabelo do colega, brigar com professores e colegas, depredar a escola ou sua casa, enfim, compreender que respeito é algo que ela quer e que precisa oferecer.
Quando oferecemos à criança a possibilidade de conhecer seus limites, estamos ensinando que o caminho que leva ao conhecimento, e felicidade, é o respeito mútuo. Que nossos direitos terminam quando os direitos dos outros começam. Não é só negar algo, mas para dizer não, é necessário explicar o motivo. Desta forma, a criança desenvolve a critica que leva os pais a tomar tal decisão, e internaliza o seu conceito. Algumas crianças crescem com o sentimento que as outras pessoas devem satisfazer seus desejos, por menor que forem eles, e isso traz frustração. Elas precisam conhecer que haverá pequenas frustrações, mas que os problemas da vida devem ser vencidos com equilíbrio e maturidade. Que respeitar a privacidade não significa não supervisionar ou acompanhar as atitudes e atividades dos filhos dentro e fora de casa. Mas especialmente que o exemplo é o fator mais forte, e intrínseco de aprendizado.

2.4. A Falta de Limites e suas conseqüências.
Como se vê, o crescimento pessoal passa pelo entendimento dos limites. Não são impostos, mas aprendidos. Limites aprendidos nas atitudes e comportamentos da criança. Nasce da situação vivida no momento, devendo ter uma resposta imediata dos pais e educadores, com o cuidado de explicar o porquê da negativa, ou correção. Por serem aprendidos, não são ensinados através de uma postura autoritária. Não é gritando que você será ouvido. A criança quer aprender, e é melhor que ela perceba que este aprendizado vem de uma postura amorosa, e honesta, daqueles que são para elas, a referência de vida e de sociedade.
Para Tânia, "O que provoca traumas e problemas emocionais é, em primeiro lugar, a falta de amor e carinho, seguida de injustiça, violência física [...], humilhações e desrespeito à criança.". Neste conceito, é fundamental que os pais tenham o mesmo equilíbrio e maturidade que querem ver em seus filhos. Falar várias vezes sobre o mesmo assunto pode trazer angústia para o educador, mas é fundamental que ele possa entender estas frustrações momentâneas. É mesmo cansativo e repetitivo ensinar. Entrar no campo da agressão, não é o caminho para tratar os problemas diários do desafio de educar, e contribui para que a criança aprenda este conceito ? do pai/mãe que agride, que é mais fácil de compreender, pois não cria limites, como a postura correta para se tomar em situações como aquela. Limitar não é necessariamente impedir, bloquear. Dar limites pode exigir que se deixe experimentar algo que trará para a criança experiência. Mas deixar que a criança coloque a mão no fogo não pode, pois também há limites para o aprendizado pela experiência, e devemos proteger nossas crianças frente aos perigos. Dar segurança, amor, carinho e atenção, faz parte desse papel.
O comportamento impulsivo, de descontrole emocional é uma das características da criança sem limites. Ao se falar não para o sorvete, a criança tem um ataque de histeria, ou de raiva. Nestas situações de implícito domínio da emoção, é importante dedicar tempo para esclarecer que a postura da criança não está adequada. Explicar mas manter a negativa contribui para que a criança comece a perceber que há limites em seu comportamento, e que a perda do sentimento egocêntrico e hedonista. Estes sentimentos, presentes na criança quando nasce, devem ser eliminados aos poucos, através da postura dos pais frente ao problema. Neste caso, conforme nos ensina Tânia Zagury,
"Quando, porém, por insegurança, culpa ou medo de serem antiquados ou autoritários, os pais deixam de exercer essa atividade importantíssima, o que ocorre? De uma maneira geral a tendência é que a criança comece a apresentar dificuldades em aceitar qualquer tipo de limite a seus desejos".
Passar estes valores é fundamental para que a criança não acabe mal na vida, tanto emocional, quanto profissionalmente. Para tanto basta educar no momento em que tais situações ocorrem. A criança ira continuamente aprender aquilo que se quer passar ao longo das etapas de sua vida. Ao envelhecer, a criança tende a não aceitar restrições ao seu comportamento, mas, ainda segundo Tânia "Se, a cada vez que ela tiver atitudes desse tipo, a mamãe agir da mesma forma, aos poucos a tendência é que ela vá deixando de lado essa atitude, assumindo outra que lhe dê um retorno afetivo positivo.".
Repreender nestes momentos, mas também aplaudir nos momentos em que a atitude dela é positiva, e ajuda a fortalecer este conceito. Não adianta acreditar que a educação é imediatista, como muitos filhos crêem acerca da satisfação de suas necessidades, mas educar, para Tânia,
"envolve um novo desafio a cada dia. Cada situação tende a se repetir muitas e muitas vezes, transmudada em outras formas, porém com a mesma essência. [...] E, em educação, não dá para ser assim. Há que se repetir, com calma, centenas e milhares de vezes a mesma coisa, para funcionar...".
Satisfazer constantemente os desejos da criança pode torná-la uma tirana, assumindo uma postura agressiva frente ao mundo real que a cerca. Neste mundo egocêntrico, a criança tende desinteressar-se dos estudos, não tem persistência, não desenvolve a capacidade de suportar quaisquer mínimas dificuldades, não se concentra e passa a agredir os outros. Tânia Zagury reafirma este conceito ao declarar que,
"essa criança tende a desenvolver características de irritabilidade, instabilidade emocional, redução da capacidade de concentração e atenção, derivadas, como vimos, da falta de limite, da incapacidade crescente de tolerar frustrações e contrariedades.".
Este mundo egocêntrico não tem limites quando não se trata desde os início, desde os primeiros comportamentos, na época onde a criança só agia com histeria. A cada momento em que há negligência na educação, as conseqüências só tendem a piorar. Pode haver inclusive agressões físicas se contrariado, descontrole, problemas de conduta. Tânia chega a falar em problemas psiquiátricos nos casos em que há predisposição. E ainda diz que "há uma relação direta entre a falta de limites e essa forma distorcida de ver o mundo, que pode levar à marginalização, ao álcool e às drogas". A luta constante em passar os valores que acreditamos serem os corretos, contribui para que a criança evolua de uma condição hedonista, para um perfil mais evoluído, onde este prazer é conquistado passo a passo, dia a dia. Ela aprenderá que, com as atitudes certas, em breve ela será um ser humano completo, feliz, e que consegue esperar para a satisfação dos seus desejos e prazeres, e, mais que isso, que é ela quem irá "trabalhar" para que este momento se concretize em sua vida.


CAPÍTULO 3

3. A CONTRIBUIÇÃO DA DIDÁTICA APLICADA PELO EDUCADOR

3.1. Gestão da liberdade
Até onde vai o limite entre autoridade e liberdade? Para Moacir Gadotti a há problemas da autoridade em sala de aula, não só da autoridade, mas "da liberdade, a questão da disciplina, da avaliação, da nota, que estão relacionadas com a questão básica da autoridade e do autoritarismo."; desta forma, entendemos que liberdade tem mais a ver com responsabilidade. Neste aspecto, Içami comenta que "Existe liberdade apenas antes de uma escolha. Uma vez feita à escolha, ela envolve responsabilidade e o conseqüente prazer em desfrutar essa escolha". Desta forma, a liberdade é ampliada ao aluno, que em contrapartida, entenda que suas ações e comportamentos geram conseqüências, e que ele sempre terá que arcar com estas conseqüências. Para Paulo Freire,
"o autoritarismo e a licenciosidade são rupturas do equilíbrio tenso entre autoridade e liberdade. O autoritarismo é a ruptura em favor da autoridade contra a liberdade e a licenciosidade, a ruptura em favor da liberdade contra a autoridade".
Freire ainda destaca que o "autoritarismo e licenciosidade são formas indisciplinadas de comportamento que negam o que chama de vocação ontológica do ser humano". Esta indisciplina, no meio educacional, costuma ser entendida, segundo Teresa Rego, "como um comportamento inadequado, um sinal de rebeldia, intransigência, desacato, traduzida na ?falta de educação ou de respeito pelas autoridades?, na bagunça ou agitação motora". Para o autor, a disciplina "parece ser percebida como obediência cega a um conjunto de prescrições e, principalmente, como um pré-requisito para um bom aproveitamento do que é oferecido na escola". Esta obediência cega a cada dia vai diminuindo, e passando para um processo de negociação mais maduro. Não há mais palmatórias, não há mais os castigos humilhantes de ficar de joelhos, ou no canto da sala, nem mesmo o folclórico chapéu de burro que povoavam os ditos populares e alguns programas humorísticos. A indisciplina passa a ser tratada de maneira diferente pelo professor, como Teresa nos alerta que,
"explicações, mitos e crenças sobre o fenômeno da indisciplina na sala de aula devem ser revistos no meio educacional, além de acarretarem preocupantes implicações ás práticas pedagógicas, se embasam em pressupostos preconceituosos, superados e equivocados sobre as bases psicológicas do desenvolvimento e aprendizagem do ser humano, sobre as dimensões biológica e cultural envolvidas na formação de cada pessoa".
Esse comportamento humano, gerado em parte pela evolução cultural, em parte pelo processo educacional advinda da família, influencia a abordagem do professor. Conhecer a percepção que foi passada à criança do senso de liberdade e limites, contribui para que o professor possa ser assertivo em suas decisões.
Para Yves Tailler,
"caso não se imponha o limite, a liberdade corre sério risco de se tornar, em vez de um belo presente, um fardo a ser carregado no futuro. Há muitos jovens que amargam o fracasso e que, no fundo, culpam os pais e seus professores por não terem sido mais firmes... voltando ao binômio liberdade/responsabilidade, no presente exemplo, dar liberdade pode significar dar demasiada responsabilidade."
Como vemos, a percepção sobre a forma de tratar essa liberdade é importante, já que considerar que faltou firmeza, não significa dizer que no momento elas estariam dispostas a se sujeitar às imposições que poderiam lhes ser colocadas. Mas, assim como nós, depois que percebemos uma realidade, a qual por alguma atitude diferente no passado pudesse nos oferecer uma situação melhor, buscamos imputar a outra pessoa a responsabilidade que nos é devida.

3.2. Usando a atividade extraclasse
Junto com tantas oportunidades e problemas, a indisciplina pode ser considerada um grande desafio a ser superado. Como coloca Paulo Freire: "Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo." (FREIRE, Paulo, p.99). Assim, este é um desafio que precisamos vencer para oferecer um serviço melhor e mais atual ao aluno. Mas será que para eliminar a indisciplina nas salas de aula, bastam ações mais enérgicas das autoridades, com mais policiamento, mudanças no código penal para a criança e adolescente ? Estatuto da criança e do adolescente ? ECA? Não queremos responder a este questionamento, mesmo porque as leis evoluem, e a seu tempo assumirão novos preceitos na sociedade moderna. Porém acreditamos que a mudança passa também pela atitude dos educadores. Iniciando na família, e caminhando pelos professores ou instituições que em determinado momento tomem lugar no processo educativo. A criança sem uma base de valores passados pela família, já chega à escola com uma forte tendência em assumir posturas inadequadas em sala de aula. Como modificar uma cultura pré-existente na família, e na vida daquele jovem que erroneamente acredita que todos estão ali para servir à suas vontades?
Como falamos, a gestão da liberdade é um passo importante, bem como o envolvimento dos pais no processo educacional. Todos reclamam que os "deveres de casa", o "trabalho extraclasse" são complicadores para a família. O aluno muitas vezes não possui em casa pais que sentem e contribuam para que o aluno faça suas tarefas de maneira correta, com o capricho necessário para que sejam recebidos pelo seu professor. São comuns os conflitos entre escola, pais, alunos e professores sobre este tema. Os pais reclamam da falta de tempo, os alunos reclamam da falta de tempo, e assim assumem desculpas para não participar do processo educativo. Acreditamos que as tarefas escolares enviadas para ser feita em casa atingem, dentre outros, a dois propósitos: educar a criança, e envolver os pais nesse processo educativo. A extensão da escola para a casa contribui em muito para o crescimento do conhecimento e da aplicação das matérias estudadas, e demonstram aos pais as dificuldades que seus filhos podem possuir, tais como: dificuldades de concentrar, de absorção do conteúdo programático, ou mesmo a falta de interesse na escola.
Diante desta dificuldade, e por já viver tanta pressão dentro da sala de aula, muitos ignoram a importância do trabalho de casa. Mas se já temos falado a respeito do envolvimento da família, da responsabilidade de passar os valores para a criança, seria descabido opinar por não programar esta atividade. Este envolvimento ainda oferece à família a possibilidade de, vendo posturas incorretas de seus filhos, atuar de maneira a orientar a criança sobre qual é o comportamento adequado para ela e a escola. Além disso, conforme Içami, "o bom humor, o riso e a espontaneidade são ingredientes necessários à sensação de liberdade. Pessoas livres aprendem mais e melhor". Ao fazer isso o professor contribui para um clima interno melhor, gerando desejo e interesse pelo que é transmitido para o aluno.

3.3. Desafiando o aprendizado
Para tanto, as tarefas para casa deve promover no jovem o sentimento desafiador. Fazê-lo pensar é um caminho importante para que ele não se esqueça disso quando estiver na faculdade, quando enfrentar um desafio no seu trabalho. Devemos orientar a família sobre os objetivos da tarefa, para que ela acompanhe os trabalhos, relate as dificuldades, e corrija eventuais desvios de conduta. Nas oportunidades de encontrar com estes familiares, fazê-los compreender os objetivos claros das tarefas fora da classe é o melhor caminho para conseguir o seu envolvimento. Este trabalho conjunto envolve toda a escola, até mesmo para poder questionar sobre qual a posição da escola frente ao problema de educar. Estas escolas, segundo Regina Bochniak podem apresentar diferentes posturas. Ela destaca que:
"Algumas, para despertar mais "interesse" ou obediência, "compram" os alunos com prêmios, elogios, honrarias, ou ameaçá-los e puni-los com notas. Estas desvalorizam o trabalho escolar, convertem seu valor em outro [...] com isso, opera-se o distanciamento do sujeito da finalidade real da tarefa, e elege-se a competição, que reforça as desigualdades. [...] Algumas escolas, em nome das "pedagogias modernas", optam por baratear o nível de exigência do ensino, valendo-se de recursos para "enfeitar" os conteúdos estudados, com "motivações" que só fazem o estudante se distrair do objetivo principal da atividade escolar, e ficar com os "enfeites". [...] há as que abusam dos trabalhos em grupo para camuflar a omissão dos alunos [...] e, sem querer esgotar o problema, há aquelas que permanecem apáticas, acolhendo e incentivando o papel passivo dos alunos" (Bochniak, p.67).
Para Içami, "a disciplina escolar é [...] uma qualidade do relacionamento humano entre o corpo docente e os alunos em uma sala de aula e, conseqüentemente, na escola". Este autor ainda comenta, "um professor que trabalha numa instituição que sempre protege o aluno, o cliente, independentemente do fato de este estar ou não com a razão, não tem o respaldo da instituição quando precisa". Daí a importância do professor em acreditar no projeto educacional, e olhá-lo como um todo, já que a escola pode ficar à margem do conflito professor x pais, baseando-se em princípios que, muitas vezes, também precisam ser questionados. E é papel do educador, concatenar os interesses e necessidades da criança, materializados na sua percepção, as do processo educacional e junto aos demais envolvidos. Não cabe atribuir culpa, mas entender que a responsabilidade é compartilhada.
É buscar continuamente a excelência, a respeito da qual, Yves Tailler comenta, que "procurar a excelência, nada mais é, se não procurar ir alem de si mesmo, tornar-se melhor do que se é. [...] ser melhor do que se é não necessariamente ser melhor do que o outro. A excelência implica competição, mas uma competição de alguém consigo mesmo." Para Tânia Zagury, "todo professor consciente e apaixonado pelo que faz [...] está irremediavelmente vinculado: garantir um ensino de qualidade a toda população brasileira."
Infelizmente, assim como nos fala Tânia Zagury, muitos docentes "são vistos por muitos planejadores como "meros" executores", porém eles estão muito aptos em "apontar os "nós" do sistema porque trabalham diretamente com os alunos." Investir em uma carreira, empolgar seu desejo em tornar-se um educador apto e preparado para a realidade nas escolas, esbarra em situações como esta, onde a percepção dirigida ao professor nem de longe abrange a sua importância dentro do processo. Quem investiria em uma carreira onde este conceito existe? A resposta é que muitos profissionais do ensino tem investido, e evoluído, e graças a eles que a educação não se deteriora. Apesar da falta de tempo e de recursos financeiros para ser aplicado no desenvolvimento, há um empenho ímpar para que o educador esteja apto para os desafios dos próximos séculos.
É preciso compreender as causas, que são o caminho mais hábil para se alcançar a atenção do aluno às suas atitudes. Afinal, como atuar em uma situação onde não se tem nenhum conhecimento que possa amparar as decisões? Para Maria Izete, há vários fatores que podem contribuir para que se conheça melhor o aluno, como pedindo para que escrevam um texto, façam um desenho, comentem sobre sua vida, sobre um filme ou um programa de televisão que gostem etc., para ela, "conhecer os alunos e o conteúdo com que se vai trabalhar, ajudam o professor a garantir um gerenciamento de sala de aula mais eficaz, já que os resultados da aprendizagem dependem muito de um bom direcionamento de classe."

3.4. Egocentrismo e hedonismo ? a criança mimada
Desde o nascimento, como acredita Tânia Zagury, a criança se vê como o centro das atenções, afinal ela necessita de todos os cuidados para que nenhum perigo a envolva. Para Maria Izete,
"o niilismo, um sentimento de vazio, de descrença, de ausência de valores que direciona a vida das pessoas, as leva a buscar o prazer imediato. Logo, o individualismo, o egoísmo e o simulacro manifestam-se levando os indivíduos a agirem sem respeito pelo outro, buscando a sua felicidade a qualquer preço."
A autora ainda comenta que "esse tipo de comportamento, adotado por criança e adolescentes, certamente, irá repercutir na escola". Durante seu crescimento a criança precisa entender que existem regras na convivência, e que o mundo não existe para satisfazer todos os seus desejos. Ao chegar à escola, se esses conceitos não foram bem desenvolvidos pelos pais, a criança tende na tentativa de reafirmar estes desejos. Para Maria Izete, a escola não pode esperar a criança com as regras já estabelecidas, sendo estas rígidas incontestáveis, pois dificilmente a criança irá se adaptar aquilo que a escola espera dela. Mas, como já pudemos ver, a criança passa a buscar o "seu espaço" dentro da sala de aula e na sociedade que ela passa a conhecer, agindo pela experiência aprendida até então. Consegue-se diferenciar, individualmente, e de maneira muito clara aquelas que receberam os valores da família, e o internalizaram. Já aqui cabe à escola envolver o quanto antes a família no processo educativo, pois, trabalhando desde o início, certamente haverá uma melhora significativa deste aspecto no decorrer do tempo. Se houve falhas, este acompanhamento irá buscar uma correção, se foi bem aplicado, pode-se fortalecê-lo e ainda utilizar esta cultura como motivador. Pais que não participam com o professor, podem retardar o processo de aprendizado, na medida em que, observando a orientação do professor, a ignoram e não contribuem com uma mudança necessária no comportamento doméstico.
Para Yves Taille,
"o perigo do excesso de mimo, também está em passar à criança a idéia de que, a despeito do que realmente realiza, ela merece ser o centro das atenções, ela é ótima, admirável, merecedora de elogio, enfim, excelente. Tal atribuição incondicional de valor faz com que a criança construa uma autoestima totalmente artificial e, ao entrar em contato com pessoas estranhas ao seu circulo familiar, em geral pouco inclinadas a elogios gratuitos, venha a sofrer um choque que poderá levá-la à neurose."

3.5. Agressividade na sala de aula
Uma vez que o aluno assume a postura agressiva, já foram ignorados todos os sinais amarelos demonstrados pela criança. Para Içami, "para poder ensinar, é necessário saber o que se ensina. Isso se aprende no currículo profissional. Saber como ensinar: o professor Precisa conseguir transmitir o que sabe". O como ensinar, envolve este conceito de liderança, onde o "mestre" cria as condições necessárias para que atitudes desrespeitosas da criança sejam imediatamente tratadas, incluindo a informação aos pais e sua devida orientação, não se pode desprezar nenhum comportamento que seja demonstrado pelo aluno. Com isso a criança é imediatamente confrontada com seu comportamento, e tem a percepção do certo e do errado lhe apresentada da forma correta. O professor é o principal meio de comunicação da escola com o aluno, e assim como a escola e o aluno, não deve fazer o que bem entender, mas deve envolver a educação de crianças que já apresentam um comportamento inadequado, com todos os players envolvidos. Seja a escola, sejam os pais, ou qualquer outro que tenha participação e convivência com a criança.
Motivar uma criança a deixar uma postura agressiva, exige que o foco profissional do professor esteja na dificuldade enfrentada, já que agora se pretende resgatar a criança de um papel que ela passa a assumir. Antônio Gil, tratando de gestão de pessoas, destaca que para motivar pessoas deve-se valorizá-las, observando-as sem preconceitos e atenção aos fatores de desempenho. Também comenta que se deve reconhecer os avanços com elogios sinceros e demonstrações de apreço. Gil ainda comenta que se deve encorajar as iniciativas e fazer avaliações, fazendo-as representar um plano de desenvolvimento da pessoa, não um processo punitivo. Para Maria Izete, quando ao processo punitivo, é necessário que se tenha coerência na sua aplicação, baseado na clareza e transparência das regras coletivamente constituídas.
Assegurada a motivação e a compreensão do papel hierárquico, não impositivo, e dos objetivos honestos do professor, instaura-se a confiança necessária para que a criança compreenda os riscos e as implicações de seu comportamento. A agressividade não pode ser desprezada como um comportamento isolado e momentâneo, precisa ser imediatamente discutida, aproveitando a ocorrência deste fato para a construção de um processo educacional que contribua para a formação de cidadãos livres, responsáveis, participantes da sociedade, e críticos, evitando que sua congruência nos leve a comportamentos mais complicados à medida que os anos avançam.
Para Maria Izete, "manter os alunos sempre ocupados com atividades que lhes interessam e que exijam concentração podem ser um fator fundamental para evitar a indisciplina.", sugerindo programar jogos educativos como exemplo de atividades pedagógicas diversificadas. A superação deste desafio de manter o aluno envolvido e ocupado com as metas do professor passa também pela capacidade de construir estas atividades nas inúmeras já desenvolvidas pelo professor. É importante ressaltar que na modernidade, não são raros os educadores que matem em sua grade profissional uma gama muitas vezes superior de horas trabalhadas aquela prevista nas leis trabalhistas. O plano de aula, que segundo Tânia Zagury é negligenciada por 73% dos professores e o contínuo aprimoramento da formação do professor são pilares que contribuem para que essa tarefa, que não é nada fácil, possa ser suplantada.
Para Maria Izete (2005, p.66-67) comenta que,
"a preparação do professor para os aspectos relacionais e disciplinares é tratada de forma superficial, muitas vezes esses cursos não nos afetam para a problemática da relação professor-aluno, da indisciplina e da violência que ocorrem dentro das escolas, e não nos orientam para um gerenciamento de sala de aula que envolva motivação e participação dos alunos."
Para a autora, seria interessante,
"promover a formação permanente e em serviço, voltada para a reflexão, analise e resolução dos problemas que os afligem, como a indisciplina, a violência, a dificuldade de aprendizagem dos alunos, as metodologias de ensino, a política de inclusão, etc., para que pudessem [...] ampliar os horizontes para uma ação mais consciente."
Esta importante visão do processo disciplinar contribui para que estes assuntos sejam mais profundamente discutidos. Não se pode imputar ao professor a responsabilidade para o sucesso de todo o processo, mas também não se pode ignorar que todo o processo passa pelo educador. Para Tânia, devemos iniciar nossas ações educacionais nas "dificuldades disciplinares das turmas, nos alunos desmotivados e nos professores despreparados".


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Aludidos com tantos desafios, à margem do que foi demonstrado pelos diversos autores, vimos que o processo educacional, complexo em si, inicia-se na família, com a postura, especialmente dos pais, sobre o comportamento de seus filhos. Dando a estes a responsabilidade indelegável, de transmitir os valores iniciais da formação humana à criança. Orientar acerca do processo comportamental, usando como ferramenta principal o carinho, o respeito e o conhecimento. O professor é o primeiro acesso da criança a uma fase na vida onde inicia-se o processo de aprendizado acadêmico, no qual ela passa a ver outra autoridade que não seja a família. Devemos desenvolver este processo instruindo não somente a criança, mas também a família sobre as necessidades básicas indispensáveis ao conhecimento e aprendizado. A postura da escola é muito importante, na medida em que consideramos que a forma como elas enfrentam os problemas corriqueiros, pode influenciar de muitas maneiras o convívio e o resultado entre as partes. Entendemos que em uma sala de aula, não são os "alunos problema", se é que podemos chamá-los assim, que são maioria, mas são os que mais atenção precisam, especialmente neste processo inicial de vida acadêmica.
Acreditar no processo e ter interesse em fazê-lo com zelo e determinação, querer programar ações individuais, de participar ativamente do processo de educação, de conhecer os próprios limites, e saber pedir ajuda quando preciso, complementa um perfil desejável para o professor que sabe a importância do seu papel na escola, e na sociedade. Se os pais entendessem a contribuição de ter um professor como orientador, colheriam mais rapidamente os frutos que tanto almejam ver frutificando em seus filhos.
Hoje há diversos modelos de gestão acadêmica que contribuem muito para o desenvolvimento da criança e da instituição de ensino. Tais medidas devem ser amplamente utilizadas por todas as instituições, tais como o gerenciamento de indicadores de performance e de gestão. Julgamos que se devem incluir objetivos de melhoria para a participação dos pais, dos fatores culturais da instituição, tais como o nível de envolvimento e desenvolvimento do desempenho em atividades extraclasse, e dos eventos patrocinados pela instituição e o estado, como nas feiras, avaliações como o IDEB; nível dos alunos "problema", melhoria no grau de instrução dos pais, tournover de professores, índices de gestão da qualidade, dentre outros. Os resultados que se espera são o "fim" do processo educacional, cabendo à escola a melhoria contínua de suas políticas. Para Tânia Zagury, mais de 60% das escolas não fazem um planejamento, ou o aplicam.
Aqui já percebe uma importante diretriz desprezada por muitas escolas: o planejamento. Para Tânia há três importantes pontos para construir o fundamento do processo de análise e avaliação em educação: continuidade nas experiências e processos pedagógicos iniciados; acompanhamento e avaliação sistemáticos e abrangentes do processo e do produto, e análise final de resultados. Estes aspectos nos parecem básicos se olhados por uma visão administrativa do processo acadêmico, mas ainda assim são por muitos ignorados.
Dentro desta realidade, mas com um grupo unido e envolvido no processo, os educadores poderão encontrar os caminhos, para melhor crescimento educacional dos alunos. A redução no nível de problemas comportamentais pode ser um indicador importante, bem como a avaliação dos alunos quanto ao trabalho desenvolvido pelo educador. Neste aspecto há certo receio de alguns quanto a serem submetidos a avaliações por parte de seus educandos, entretanto esta ação pode oferecer ao professor uma visão de como ele é visto e permitir que ele próprio encontre os caminhos para sua evolução. Evoluir profissionalmente é o que muitos buscam, e encontram até certa dificuldade, pois por mais que trabalhem fatores de conhecimento, muitas vezes ignoram, ou não encontram apoio para o aprimoramento dos aspectos comportamentais. Aspectos estes, que são clarificados quando são submetidos a uma avaliação mais imparcial daqueles com os quais eles se relacionam no trabalho.
Como na evolução do chefe que passa a ser líder, um professor que atua de maneira apenas profissional, e que não internaliza uma consciência da evolução de sua capacidade, que não se preocupa com os conhecimentos sobre os comportamentos, não busca desenvolver uma capacidade analítica e de gestão das pessoas, tende a sofrer muito mais com alunos indisciplinados. Essa habilidade pode ser construída. Ela não é algo que pertence somente a quem nasceu com ela. Construir um educador, um profissional que esteja envolvido com aspectos mais amplos de sua profissão, passa pela experiência, pela troca de conhecimento, e pela preparação continua. Muita responsabilidade cabe ao estado, mas não é exclusividade deste. Antes, os próprios educadores que formulam as normas acadêmicas e as leis que regem a atividade, podem influenciar na confecção de políticas profissionais mais adequadas a esta realidade.
Como dissemos no início, nosso objetivo não é esgotar o tema neste trabalho, mesmo por que há muito a se falar e detalhar sobre o mesmo. Entretanto demonstramos que o caminho educacional possui uma evolução perene, e devemos estar atentos a estas evoluções. O trabalho educacional em si ainda mantém um objetivo primordial de formar cidadãos críticos, mas os caminhos com os quais chegamos a esta meta inegavelmente vem evoluindo. E as atitudes profissionais representam um marco importante nesse processo. Quão motivado está o professor em incluir novos temas no currículo escolar? Até que ponto o professor se considera preparado para esta inclusão? Não consideramos que apenas a abordagem de novos temas pode alterar a situação presente, mas a forma como isso é feito, pode sim contribuir. A escola e o estado possuem um papel vital, e precisam definir claramente suas metas e objetivos, e desenvolver um mecanismo eficaz para o acompanhamento para que tais metas sejam alcançadas. E devem acompanhar, e medir continuamente. Com regras construídas de maneira democrática, com flexibilidade para que as escolas individualmente redijam suas normas, considerando os seus costumes, e que possam ser geridas, acompanhadas, medidas. Todos devem ter em mente que a mensuração dos objetivos é a única maneira que demonstra se estamos chegando aos nossos objetivos. As ferramentas de aferição desta caminhada devem ser construídas, compartilhadas e de uso compulsório pelo sistema, pois quem não usa as ferramentas do sistema, é prejudicial a ele. E tão importante quanto desenvolver esse conceito, é assegurar que políticas novas não eliminem os processos antes mesmo que eles possam dar sua contribuição.

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Revisado por Editor do Webartigos.com


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