A FÉ NO RESSUSCITADO (Mc 16, 9-20)
 
A FÉ NO RESSUSCITADO (Mc 16, 9-20)
 


Joacir Soares d'Abadia

O Evangelho de São Marcos apresenta-se de uma forma paradoxal. É um paradoxo de Jesus, que, mesmo sendo incompreendido e, ainda mais, rejeitado pelos homens, mas, por outro lado, por Deus enviado e triunfante, como refere a analise da Bíblia de Jerusalém. Deste modo, este trabalho deter-se-á no tema essencial apresentado por São Marcos neste Evangelho que leva seu nome, que é a manifestação do Messias crucificado e, como apresenta o último capítulo deste Evangelho, Ressuscitado.

A proposta é seguir um itinerário, o qual possa contemplar tudo que se refere ao Evangelho em questão num estudo exegético, sem que a exegese seja nos mínimos detalhes, antes ela será de forma mais universal. Com isso, se procurará dar ênfase não na exegese propriamente dita, senão que o olhar exegético esteja voltado para a atualização do texto sagrado, ou seja, para o "hoje do texto".

O texto que irá nortear o estudo aqui é São Marcos, capítulo dezesseis e versículos do nove até vinte. Antes de adentrar no estudo deste texto, fará uma abordagem geral do Evangelho procurando conhecê-Lo a partir da sua formação, autor, data, destinatários, contexto histórico, em fim, toda a estruturação do livro Sagrado.

Para estudar a perícope a nossa apreciação estará desde a dimensão periférica da mesma, buscando aprofundar nos seus textos precedentes.

O estudo desse Evangelho e, visceralmente, dessa perícope tem sua importância pelo fato de ser um Evangelho mais tardio, no qual a nossa perícope foi incluída posteriormente, em síntese.

Introdução do Evangelho

A tradição antiga, que remonta ao séc. II atribui o texto deste Evangelho a Marcos, identificado com João Marcos, filho de Maria, em cuja casa os cristãos se reuniam para orar: "Refletiu um momento e dirigiu-se para a casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitos se tinham reunido e faziam oração" (At 12,12). "O nome Marcos (em grego Markos, do latin Marcus) não era incomum (por ex., Marcos Antônio), e isso ajuda a complicar as referências neotestamentárias a alguém assim chamado" (Raymond E. Brown).

Com Barnabé, seu primo, Marcos acompanha Paulo durante algum tempo na primeira viagem missionária: "Chegados a Salamina, pregavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Tinham com eles João para auxiliá-los. Paulo e os seus companheiros navegaram de Pafos e chegaram a Perge, na Panfília, de onde João, apartando-se deles, voltou para Jerusalém" (At 13,5.13). "Barnabé queria levar consigo também João, que tinha por sobrenome Marcos. Houve tal discussão que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre" (15,37.39) e depois aparece com ele, prisioneiro em Roma: "Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé, a respeito do qual já recebestes instruções. (Se este for ter convosco, acolhei-o bem)" (Cl 4,10). Mas liga-se mais a Pedro, que o trata por "meu filho" na saudação final da sua Primeira Carta (l Pé 5,13).

Data, local e destinatários

A data mais aproximada que se pode colocar o Evangelho de São Marcos é entre os anos 60- 75 d. C. Isso, tendo em vista o "contesto de perseguição, em Roma, por volta de 64"[1] ressalta Delorme. Marcos, então, terá escrito o Evangelho pouco antes da destruição de Jerusalém, que aconteceu no ano 70. "Mas aqui os especialistas não estão de acordo", como nos diz Delorme. Ele se justifica dizendo que "para alguns, o cap. 13 fala da destruição de Jerusalém como acontecimento futuro; não se encontram nele as pequenas e preciosas informações que vemos em Mateus e Lucas e que nos levam a dizer que eles escreveram depois da destruição da cidade". Para alguns, destaca ele, uma coisa se destaca no cap. 13, a saber, certa febre apocalíptica: espera-se a vinda de Cristo.

Antõnio Rodriguez Carmona diz que "pode-se considerar o Evangelho de Marcos como sendo o mais antigo dos quatro evangelhos e, de um a ou de outra forma, como uma obra que serviu de fonte para os evangelhistas Mateus e Lucas".

Com a leitura do Evangelho de São Marcos se percebe que ele foi escrito para Cristãos vindos do paganismo, já que explica os costumes dos judeus. É o caso, por exemplo, de Mc 7, 2-4: E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.(Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos;e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal).

ChedMyers disse que

"O Evangelho de Marcos foi escrito originalmente para ajudar súditos imperiais a aprenderem dura verdade sobre o seu mundo e sobre eles mesmos. Ele não pretende apresentar a palavra de Deus desapaixonada ou imparcial­mente, como se esta palavra fosse inocuamente universal no seu apelo ao rico e ao pobre ao mesmo tempo. O seu relado é história feita pelos comprome­tidos, que versa sobre os comprometidos e que se dirige aos comprometidos com a obra de Deus, obra de justiça, de compaixão e de libertação no mundo".

Nas palavras de Delorme, em síntese, o Evangelho de Marcos deve ter sido escrito em ambiente pagão, provalvelmente em Roma. E, claro, por valto de 64.

Critica textual do Evangelho de Marcos

O Evangelho de Marcos foi escrito originalmente em grego e, conforme as conclusões da crítica textual, segundo Carmona, seu texto primitivo chega-nos de forma completa e substancialmente boa, atestado em papiros, manuscristos, traduções, lecionários e testemunhos dos escritores eclesiáticos que remontam até os inícios do século III.A obra foi escrita em grego  porém reforça o autor dizendo que foi o grego  popular koiné com influência semita, característica própria dos países semitas bilíngues do Oriente, como a Síria-Palestina e Egito.

Conteúdo do Evangelho

Para Carmona a obra tem caráter narrativo e trata das obras e da pregação de Jesus de Nazaré. Depois de breve introdução, na qual apresenta Jaão Batista, o batismo mo de Jesus e sua tentação, o relato se centraliza tia atividade de Jesus de Nazaré na Galiléia, onde é situada a maior parte de sua atuação; depois, narra brevemente a viagem à Judéia e Jerusalém e de novo se centraliza na atividade de Jesus nessa cidade, na qual morre e se anuncia a sua ressurreição, terminando a narrativa de forma brusca em 16,8. A narração consta aproximadamente de 95 relatos com uma extensão entre 11.229 e 11.242 palavras, conforme as diferentes divisões e conteúdos das edições críticas, por isso é o menor dos quatro evangelhos. De fato, o conteúdo de Marcos, a grosso modo, exceto uns 50 versículos do material próprio, está também narrado em Mateus e Lucas. Os relatos, no geral, são unidades narrativas completas em si mesmas, de diversos tipos ou "formas", como relatos biográficos de diversos géneros, teofanias, relatos de milagres, paradigmas, parábolas e outros ensinamentos, unidos na maioria das vezes pela conjunção copulativa kai (e), raras as vezes por de (mas, e), e algumas vezes, por outros recursos literários, especialmente por sumários-anúncio, que intro­duzem de forma geral o que se vai narrar. Dá a impressão de um conjunto de relatos que foram acumulados e que circulavam independentemente, e depois foram integrados nessa obra por meio dos procedimentos literários descritos. Veremos isso com mais detalhes, estudando a seguir, a linguagem, estilo e as diversas maneiras de agruparem os relatos.

O livro

O Evangelho de Marcos reflete a catequese que Pedro, testemunha presencial dos acontecimentos, espontâneo e atento, ministro à sua comunidade de Roma. É mais breve dos quatros e situa-se no Cânon entre dois mais extensosque são Mateus e Lucas e a seguir a Mateus, o de maior uso na Igreja. Até o séc. XIX Marcos foi pouco estudado e comentado, para não dizer praticamente esquecido. Santo Agostinho considerava-o como um resumo de Mateus.

A investigação mais aprofundada desde o século passado, à volta da origem dos Evangelhos, trouxe Marcos à luz da ribalta; hoje, é geralmente considerado o mais antigo dos quatro. Esse fato é, todavia, aceito por muitos estudiosos.

Na verdade, supõe uma fase mais primitiva da reflexão da Igreja acerca do Acontecimento Cristo, que lhe deu origem; e só ele conserva o esquema da mais antiga pregação apostólica, sintetizada em Atos 1,22: começa com o batismo de João (1,4) e termina com a Ascensão do Senhor (16,19).

É comum afirmar-se que todos os outros Evangelhos, sobretudo os Sinóticos, supõem e utilizaram mais ou menos o texto de Marcos, assim como o seu esquema histórico-geográfico da vida pública de Jesus: Galileia, Viagem para Jerusalém, Jerusalém.

Características Literárias

O texto carateriza-se estilisticamente pelo pouco cuidado no uso do vocabulário, pela liberdade no emprego da sintaxe e pela vivacidade e realidade e realismo de seus relatos que, apesar de todas as incorreções gramaticais, a partir do primeiro momento cativa a atenção do leitor, como nos ensina Carmona.

O professor Alexandre Henrique Vieira de Souza diz que revelando certa pobreza de vocabulário e uma sintaxe menos cuidada, Marcos é parco em discursos; apresenta apenas dois: o capítulo das parábolas (cap. 4) e o discurso escatológico (cap. 13). Mas tem muitas narrações.

É exímio na arte de contar: fá-lo com realismo e sentido do concreto, enriquece os relatos de pormenores e dá-lhes vida e cor. A este propósito são típicos os casos do possesso de Gerasa, da mulher com fluxo de sangue e da filha de Jairo, no cap. 5. Presta uma atenção especial às palavras textuais de Jesus em aramaico, por ex. «Talitha qúm» (5,42) e «Eloí, Eloí, lema sabachtáni» (15,34). É de referir também o dia-tipo da atividade de Jesus, descrito na assim chamada "jornada de Cafarnaúm" (1,21-34).

Dentre as perícopes e simples incisos próprios de Marcos, menciona-se o único texto bíblico em que Jesus aparece como «o Filho de Maria» (6,3), ao contrário dos outros que falam de Maria, mãe de Jesus.

Plano em que foi escrito o Evangelho

Pode dizer-se, porventura de uma forma demasiado simples, que Marcos se faz espectador com os seus leitores. Como eles, acompanha e vive o drama de Jesus de Nazaré, desenrolado em dois atos, coincidentes com as duas partes deste Evangelho. Ao longo do primeiro, vai-se perguntando: Quem é Ele? Pedro responderá por si e pelos outros, de forma direta e categórica: «Tu és o Messias!» (8,29). O segundo ato pode esquematizar-se com pergunta-resposta: De que maneira se realiza Ele, como Messias? Morrendo e ressuscitando (8,31; 9,31; 10,33-34).

O Evangelho de Marcos apresenta-nos, assim, uma Cristologia simples e acessível: Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Messias que, com a sua Morte e Ressurreição, demonstrou ser verdadeiramente o Filho de Deus (15,39) que a todos possibilita a salvação. «Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos» (10,45).

Este plano é desenvolvido ao longo das 5 seções em que podemos dividir o Evangelho de Marcos:

I. Preparação do ministério de Jesus: (1,1-13);

II.Ministério na Galileia: (1,14-7,23);

III.Viagens por Tiro, Sídon e a Decápole: (7,24-10,52);

IV.Ministério em Jerusalém: (l 1,1-13,37);

V. Paixão e Ressurreição de Jesus:(14,1-16,20).

A teologia do Evangelho[2]

Tal como os outros evangelistas, Marcos apresenta-nos a pessoa de Jesus e o grupo dos discípulos como primeiro modelo da Igreja.

O Jesus de Marcos. Mais do que em qualquer outro Evangelho, Jesus, «Filho de Deus» (1,1.11; 9,7; 15,39), revela-se profundamente humano, de contrastes por vezes desconcertantes: é acessível (8,1-3) e distante (4,38-39); acarinha (10,16) e repele (8,12-13); impõe "segredo" acerca da sua pessoa e do bem que faz e manda apregoar o benefício recebido; manifesta limitações e até aparenta ignorância (13,22). É verdadeiramente o «Filho do Homem», título da sua preferência. Deste modo, a pessoa de Jesus torna-se misteriosa: porque encerra em si, conjuntamente, um homem verdadeiro e um Deus verdadeiro. Vai residir aqui a dificuldade da sua aceitação por parte das multidões que o seguem e mesmo por parte dos discípulos.

Na primeira parte deste Evangelho (1,14-8,30), Jesus mostra-se mais preocupado com o acolhimento do povo, atende às suas necessidades e ensina; na segunda parte (8,31-13,36) volta-se especialmente para os Apóstolos que escolheu (3,13-19): com sábia pedagogia vai-os formando, revelando-lhes progressivamente o plano da salvação (10,29-30.42-45) e introduzindo-os na intimidade do Pai (l 1,22-26).

O Discípulo de Jesus. Este Jesus, tão simples e humano, é também muito exigente para com os seus discípulos. Desde o início da sua pregação (1,14), arrasta as multidões atrás de si e alguns discípulos seguem-no (1,16-22). Após a escolha dos Doze (3,13-19), começa a haver uma certa separação entre este grupo mais íntimo e as multidões. Todos seguem Jesus, mas de modos diferentes. Este seguimento exige esforço e capacidade de abertura ao divino, que se manifesta em Jesus de forma velada e indireta através dos milagres que Ele realiza. É por meio dos milagres que o discípulo descobre no Filho do Homem a presença de Deus, vendo em Jesus de Nazaré o Filho de Deus.

Porque a pessoa de Jesus é essencialmente misteriosa, para o seguir, o discípulo precisa de uma fé a toda a prova: sente-se tentado a abandoná-lo, vendo nele apenas o carpinteiro de Nazaré. Por isso, Jesus é também um incompreendido: os seus familiares pensam que Ele os trocou por uma outra família (3,20-21.31-35); os doutores da Lei e os fariseus não aceitam a sua interpretação da Lei (2,23-28; 3,22-30); os chefes do povo e dos sacerdotes vêem-no como um revolucionário perigoso para o seu "status quo" (11,27-33). Daí que, desde o início deste Evangelho, se desenhe um destino de Jesus: a morte (3, l-6; 14,1-2).

Mas, os discípulos «de dentro» não são muito melhores do que «os que estão de fora» (4,11). Também eles sentem dificuldade em compreender o mistério da pessoa de Jesus: parecem-se com os cegos (8,22-26; 10,46-53).

A incompreensão é uma das mais negativas características no discípulo do Evangelho de Marcos. É essa a razão pela qual, ao confessar o messianismo de Jesus (8,29), Pedro pensava num messias (termo hebraico que significa "Cristo") mais político que religioso e que libertasse o povo dos romanos dominadores. Isso aparece claro quando Jesus desvia o assunto e anuncia pela primeira vez a sua Paixão dolorosa (8,31); Pedro, não gostando de tal messianismo, começa a repreender o Mestre (8,31-33). O que ele queria era como todos os discípulos de todos os tempos um cristianismo sem esforço e sem grandes compromissos.

Apesar da incompreensão manifestada pelos discípulos em relação aos seus ensinamentos, Jesus não desanima e continua a ensiná-los (8,31-38; 9,30-37; 10,32-45). O efeito não foi muito positivo: no fim da caminhada para Jerusalém e após Ele lhes ter recordado as dificuldades por que iria passar a sua fé (14,26-31), ao verem-no atraiçoado por um dos Doze e preso (14,42-45), «deixando-o, rugiram todos» (14,50). Este é, certamente o Evangelho onde qualquer cristão se sentirá mais bem retratado.

Contexto da perícope

Nessa perícope temos um acréscimo, pois o Evangelho termina no versículo 8: "Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas. E a ninguém disseram coisa alguma por causa do medo". Colocou-se estes vv. 9-20 para dar ênfase na Ressurreição de Jesus. Para Gerard S. Sloyan, "Este final parece uma adição ao Evangelho primitivo. É um resumo das aparições de Jesus nos outros evangelistas".

Rudolf Schnackenburg diz que

"Esta peça final, acrescida mais tarde, falta nos manuscritos mais antigos, e é desconhecida a vários Padres da Igreja; pressupõe os outros evangelistas, dos quais reúne, especialmente de Lucas e João, narrativas de aparições. O seu estilo é trôpego em parte, nem penetram a fundo as ideias, sem deixar de ser ilustrativas para o modo de pensar da comunidade posterior".

Segundo a análise da Bíblia de Jerusalém, o trecho final de Mc (vv. 9-20) faz parte das Escrituras inspiradas; é tido como canônico. Isso não significa necessariamente que tenha sido escrito por Mc. De fato, põe-se em dúvida que esse trecho pertença à redação do segundo Evangelho.

As dificuldades começam na tradição manuscrita. Muitos mss, entre eles o do Vat. e o Sin., omitem o final atual. Em lugar da conclusão comum, um ms tem um final mais breve, que dá continuidade ao v. 8: "Elas narraram brevemente aos companheiros de Pedro o que lhes tinha sido anunciado. Depois, o mesmo Jesus os encarregou de levar, do Oriente ao Ocidente, a sagrada e incorruptível mensagem da salvação eterna". Quatro mss dão em seguida os dois finais, o breve e o longo.

Por último, um dos mss que trazem o final longo intercala entre os vv. 14 e 15 o seguinte trecho: "E aqueles que alegaram em sua defesa: 'Este tempo de iniquidade e de incredulidade está sob o domínio de Satanás, que não permite que quem está debaixo do jugo dos espíritos imundos apreenda a verdade e o poder de Deus, revela, pois, desde agora, a tua justiça'. Foi o que disseram a Cristo, e ele lhes respondeu: 'O fim do tempo do poder de Satanás está no auge; e, entretanto, outros acontecimentos terríveis se aproximam. E eu fui entregue à morte por aqueles que pecaram, a fim de que se convertessem à verdade, e para que não pequem mais, a fim de que recebam a herança da glória de justiça espiritual e incorruptível que está no céu...'" A tradição patrística dá também testemunho de certa hesitação.

Acrescentemos que, entre os vv. 8 e 9, existe, nessa narrativa, solução de continuidade. Além disso é difícil de se admitir que o segundo evangelho, na sua primeira redação, terminasse bruscamente no v. 8. Onde a suposição de que o final primitivo desapareceu por alguma causa por nós desconhecida e de que o atual fecho foi escrito para preencher a lacuna. Apresenta-se como um breve resumo das aparições do Cristo ressuscitado, cuja redação é sensivelmente diversa da que Marcos habitualmente usa, concreta e pitoresca.

Contudo, o final que hoje possuímos era conhecido, já no séc. II por Taciano e santo Irineu, e teve guarida na imensa maioria dos mss gregos e outros. Se não se pode provar ter sido Mc o seu autor, permanece o fato de que ele constitui, nas palavras de Swete, "uma autêntica relíquia da primeira geração cristã".

Estrutura da perícope

Para Rudolf Schnackenburg "Duas secções se destacam: A primeira cita por alto as aparições de Jesus a Maria Madalena, os discípulos de Emaús e os onze. A segunda secção traz o discurso missionário do Senhor ressuscitado". Aqui, no entanto, vamos seguir uma estrutura que parte do "crer" (na primeira parte) e do "não crer" (na segunda parte).

A estrutura do texto de São Marcos (16, 9-20), então, está composta de duas divisões: a primeira parte fala dos que "não creram" e a segunda parte explana a respeito de quem "crê" e quem não "crê". Vejamos.

Primeira parte ("não creram")

 

Introdução (v. 9a):

V. 9a  a ressurreição

Desenvolvimento (vv. 9b-13):

V. 9b  apareceu a Maria Madalena

V. 10  anúncio de Maria Madalena

V. 11a  escuta

V. 11b  não creram

V. 12  apareceu aos dois Discípulos

V. 13  não creram

Conclusão (v14):

V. 14a  Finalmente apareceu aos onze

V. 14b  dureza de coração:

1) estando eles assentados à mesa,

2) e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração,

3) por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado.

Segunda parte (quem "crê" e quem não "crê")

 

Introdução (v. 15):

V. 15  o envio

Desenvolvimento (v. 16-18):

V. 16a  quem crer

V. 16b  quem não crer

Vv. 17 e 18  sinais da fé

 

Conclusão (Vv. 19 e 20):

V. 19  a conclusão escatológica

V. 20  o anúncio dos apóstolos.

Análise literária: texto bíblico e exegese

Aqui a análise literário que faremos não visa estudar cada palavra do texto sagrado, antes deteremos mais em blocos como se apresenta na "estrutura da perícope". Assim, cremos, facilitara para se ter uma maior compreensão dos versículos.

Texto bíblico

9 E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios.

10 E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando.

11 E, ouvindo eles que vivia, e que tinha sido visto por ela, não o creram.

12 E depois manifestou-se de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo.

13 E, indo estes, anunciaram-no aos outros, mas nem ainda estes creram.

14 Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado.

15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.

16 Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.

17 E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas;

18 Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.

19 Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus.

20 E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram.

Exegese

9 E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios.

Aqui, segundo, Mauro Odoríssio, inesperadamente se fala novamente de Maria Madalena, como quem nada soubesse da ressurreição. É consequência de ser um adendo posterior ao texto primitivo do Evangelho.

Já, por outro lado, alguns comentaristas como Oscar Battaglia, Francesco Uricchio e Angelo Lancellotti vão afirmar que a prioridade da aparição a Madalena não é contraditória com a reconhecida à manifestação a Pedro (1 Cor 15, 5), pois os pontos de vista de Marcos e Paulo são diferentes.  sete demônios (Lc 8, 2): o numero sete indica uma obsessão particularmente violenta e intensa, do tipo daquela do endemoninhado geraseno (5, 1-9).

10 E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando.

Porque "estavam tristes e chorando" mostram que os discípulos não pensavam na ressurreição. Neste ponto tanto Mauro Odoríssio quanto o trio Oscar Battaglia, Francesco Uricchio e Angelo Lancellotti estão de acordo.

11 E, ouvindo eles que vivia, e que tinha sido visto por ela, não o creram.

O dama da Paixão não foi ainda superado seja ontem ou hoje. Assim se tem: "não o creram", pois se tinha muito preconceito a ser vencido, muita barreira a ser superada (Odoríssio).

12 E depois manifestou-se de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo.

"Depois manifestou-se". Essa é uma passagem da Escritura que remonta a uma outra (Lc 24, 12-35: a aparição aos dois discípluos de Emaús).

13 E, indo estes, anunciaram-no aos outros, mas nem ainda estes creram. Esta ênfase na incredulidade justifica a cesura do v. 14 e, sobretudo coloca em evidência que a fé na ressurreição deita raízes nas múltiplas aparições do ressuscitado e, por conseguinte, nas repetidas experiências dos discípulos (At 10, 41).

14 Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado. Agora trata-se provavelmente da aparição na tarde de Páscoa, ocorrida no cenáculo (Jo 20, 19s), durante a ceia (Lc 24, 36s). Por causa da dureza de coração, eles foram repreendidos, censurados, uma cenoura bem mais severa de todas as lembradas por Marcos (8, 14-21). Então, "Disse-lhe Jesus: Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto!".

15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.

Neste versículo se tem o mandato universal de Jesus, mandato este que está estritamente relacionado com o Evangelho de São Mateus: "Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (28, 19-20).

São Marcos não propõe a função especifica como São Mateus, ele ocupa-se em apresentar o mandato "Ide por todo o mundo". Mostrando que a salvação se abre a todos os povos, independentemente de fatores raciais, sociais, ou de uma primeira eleição.

A única exigência é a resposta amorosa ao apelo. Deste modo, o "pregai o evangelho" se identifica à própria missão apostólica de Jesus, ou seja, é a continuação dela (1, 14-15). O mandato contempla "a toda criatura" possibilitando os apóstolos não só ultrapassar os limites da Palestina, mas deverão comunicar o Evangelho a todos os homens.

16 Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.

A salvação não dependerá mais do praticismo legal, ritual, de pertença a um determinado povo. Exige-se a aceitação de quem o Pai enviou, como único Salvador e, consequêntemente, a vivência dos valores que vos deixou, de modo especial a prática do amor generoso, oblativo.

17 E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas...

lutando para vencer todo monstro a serviço do caos primitivo, lutando para que tudo e todos os que por ele estiverem envolvidos, comecem a viver a ordem inicial da criação divina.

"Falarão novas línguas", as línguas compreendidas pelos povos que falam os mais diversos idiomas: a língua do amor, a língua do serviço, língua da oblação.

18 Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.

"Pegarão nas serpentes", enfrentando todo tipo de mal, vencendo todo tipo de tentação. O drama no paraíso terrestre, quando se preferiu ouvir a serpente tentadora, e não o Criador, não deve acontecer novamente: Gn 3,lss.

"E se beberam algum veneno mortal", mesmo sujeitos a todo tipo de tentação, eu estarei ao lado para ajudar, para fortalecer. O veneno mortal não os atingirá, "não lhes fará mal. Porão as mãos sobre os enfermos", comprome-ter-se-ão e se envolverão na luta contra tudo o que oprime o ser humano, "e os curarão".

19 Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus.

A ascensão, que Lucas também alude (Lc 24, 50-53), é narrada por extenso nos Atos dos Apóstolos (1, 1-12).

O título "o Senhor", que no ministério é aplicado por Marcos a Jesus apenas uma (11, 3), agora se tornou a designação própria do Cristo glorificado.

"Depois de lhes ter falado": ou seja, depois de ter conferido aos discípulos o poder de pregar. Em São Mateus este mandato se faz com mais amplidão ao passo que Jesus confere aos discípulos os poderes de batizar e de fazer milagres (Mt 28, 19-20).

Jesus foi elevado. O texto Sagrado nos diz: "foi recebido no céu", ou seja, na linguagem teológica este fato ficou conhecido a partir de várias nomenclaturas. Fala-se da ascensão, enquanto a liturgia grega conservou a forma passiva análepsis "assunção", a latina preferiu a forma ativa ascensio "ascensão", que sublinha o poder divino do Cristo que leva para o céu a sua humanidade (Odoríssio).

"... e assentou-se à direita de Deus". Esta frase provém do Sl 110, 1: "Louvarei o Senhor de todo o coração, na assembléia dos justos e em seu conselho", texto lembrado diversas vezes por Jesus (12, 35; 14, 62) e com maior frequência pela pregação apostólica (At 2, 34; 1 Cor 15, 25). Para Odoríssio, com ela a Igreja primitiva exprimia sua fé na participação de Cristo no poder e na realeza divinos.

20 E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram.

"E eles", os discípulos, "pregaram por todas as partes". Isso, segundo Oscar Battaglia e vários outros, mostra a rápida visão panorâmica, com que se encerra toda a narração evangélica, lembra a difusão do cristianismo nos tempos do escritor, fruto da obediência dos apóstolos à ordem de Cristo e da presença atuante do Ressuscitado na obra de evangelização evidente nos milagres.

Estudo da perícope a partir de Rudolf Schnackenburg

ParaRudolf Schnackenburg, como foi citado anteriormente, Duas secções se destacam: A primeira cita por alto as aparições de Jesus a Maria Madalena, os discípulos de Emaús e os onze. O acento recai sobre a falta de fé dos discípulos, que o Senhor passa a repreender porque não deram fé àqueles que o tinham visto. É uma evidente advertência aos fieis posteriores, de crerem às testemunhas da ressurreição, mesmo sem terem visto pessoalmente o Senhor (cf. Jo 20,29).

A segunda secção traz o discurso missionário do Senhor ressuscitado. Exorta a missionar o mundo inteiro, e estabelece que a fé e o batismo são necessários para a salvação. Aos pregadores prometem-se dotes milagrosos para apoiar e confirmar sua pregação missionária ("a palavra"). Por sua ascensão, separa-se finalmente Jesus dos seus discípulos, nos termos da obra geminada de Lucas, e está doravante sentado à direita de Deus. A ele a comunidade eleva os olhos, porque coopera na sua missão terrena. São concei-tuações firmes e definidas da Igreja católica primitiva, empenhada em missionar o mundo inteiro.

A aparição do Ressuscitado a Maria Madalena, que pela indicação cronológica: "na manhã do primeiro dia da semana", se concatena mal com a notícia sobre o encontro do sepulcro vazio, é resumida, sem detalhes, segundo Jo 20,11-18. Maria Madalena é ainda caracterizada, segundo Lc 8,2, como aquela de quem Jesus expulsou sete demónios. Não se deve entender isto como sinal de grande pecaminosidade(a pecadora de Lc 7,36-50 dificilmente se identifica com ela), pois grave possessão significa antes uma doença muito grave, de que Jesus a livrou. O autor não quer senão apresentar Maria Madalena aos leitores, sem se interessar por detalhes pessoais. Nem relembra que ela chorou quando não encontrou mais o corpo morto de Jesus, mas caracteriza os companheirosde Jesus 332 como gente que se lamenta e chora, como num velório fúnebre. Não dão crédito à mensagem dessa mulher.

O vocábulo para «aparecer» diverge dos usados nos demais textos e indica uma visão corporal bem realista, como aliás todo o trecho transuda uma con-ceituação objetiva e maciça.

Com igual brevidade recapitula-se Lc 24, a história de Emaús. Essa história preciosa e profunda é resumida a ponto de Jesus aparecer a dois deles, quer dizer, dois dos companheiros de Jesus acima citados (e certamente ideados como um grupo maior), «noutra forma», quando iam de caminho. Acha pois o autor que Jesus assumiu de propósito a figura de «estrangeiro»; nada diz de que aos dois discípulos de Emaús se lhes abriram os olhos na hora da fração do pão. O que lhe importa é que novamente os outros discípulos não lhes dão fé.

Por fim cita o autor a aparição de Jesus aos «onze» e se lembra evidentemente da exposição de Lc 24,36-43, onde se fala igualmente da descrença dos discípulos. Segundo a opinião desse anónimo autor de acréscimos, repreende Jesus agora pessoalmente a descrença e dureza de coração deles, e novamente com o argumento de que não deram fé àqueles que tinham visto a ele, o Ressuscitado. Sem enrolar muito o seu intento, quer inculcar nos leitores a necessidade duma fé sincera. Mas deste modo entram os discípulos numa luz desfavorável. Isto moveu um copista posterior a intercalar, por sua vez, um pequeno discurso de desculpa. O envio dos discípulos para a pregação, que vem em seguida, pertence também para Mateus (28,16-20) e Lucas (24,47) à aparição pascal do Ressuscitado.

O autor do pseudefinal de Marcos deu-lhe uma forma todo especial, ressaltando a ação missionária universal, que abrange todas as criaturas. Não se pensa, é claro, que os discípulos tenham pregado igualmente às criaturas irracionais, pois na frase seguinte corresponde à pregação a fé que todo homem tem de abraçar. Mas focaliza-se o avanço vitorioso do Evangelho, a exemplo do hino crístico de ITim 3,16: «Pregado às nações, acreditado no mundo». Fica estabelecido, para essa Igreja, que só se salvará quem tiver fé e for batizado; quem não tiver fé será condenado no Juízo de Deus. Acentuam-se ainda, de modo especial, os prodígios de que se acompanhará a pregação, e certamente se expressa nisso uma experiência da Igreja missionária. Atuavam nela milagrosos dons carismáticos; foi observado que todas as curas e prodígios citados, ocorrem também nos Atos dos Apóstolos. Mas a dureza da sentença condenatória contra os infieis, sem discriminar entre gente de boa e má-fé, e a insistência em coisas prodigiosas que acompanham a missão, são traços historicamente condicionados, que não podemos absolutizar para todos os tempos.

Cita-se no fim a «assunção» de Jesus ao céu e sua entronização à direita de Deus. A conceituação lu-cana do arrebatamento corporal de Jesus se tem imposto, embora também ela não passe duma forma de exposição desconhecida aos demais evangelistas. Mas não apresentava nenhuma dificuldade para a cosmo-visão daqueles tempos, além de tornar possível imaginar que Jesus se afastava dos discípulos e garantia ficar sempre presente na comunidade. O Senhor entronizado à destra de Deusfica em comunhão com a comunidade cá na terra, que continua sua obra, e ajuda-a por sua cooperação; enxerga-a o autor, na verdade, novamente nos sinais que acompanham a pregação missionária. A exortação ao trabalho missionário, partida do Ressuscitado, revela-se ainda num outro final, bem mais breve, do evangelho de Marcos, e que ocorre num número considerável de manuscritos:

Mas elas [as mulheres] relataram, com brevidade, tudo o que lhes fora mandado, àqueles que estavam [reunidos] ao redor de Pedro. Mas em seguida en­viou o próprio Jesus, desde o nascer ao pôr do sol, por meio deles, a santa e imperecível pregação da salvação eterna.

O Evangelho que Jesus anunciava em sua obra cá na terra tornar-se-ia, por sua entrega à morte, em virtude promotora da salvação humana. Mas sua Comunidade, que depois da morte de seu Senhor se via comprometida com o dever de anunciar o Evangelho, sente-se enviada, não por virtude própria, mas dos plenos poderes do Cristo ressuscitado. Ele mesmo continua por ela a sua pregação que, à base de sua ressurreição dos mortos, traz em seu bojo a certeza da vitória.

Crer no ressuscitado hoje

Nos tempos atuais são muitas as ideologias que ameaçam a vida humana seja no seu aspecto religioso, cultural, político e moral. Isso porque a vida está marcada pela secularização, globalização, relativismo, hedonismo e etc. Estas realidades que hoje tornaram inerentes ao homem moderno, refletem diretamente no comportamento humanitário levando o homem perder seus valores de uma forma banal. Para que o homem possa voltar à sua integração faz-se necessário que ele tenha um ponto referencial. Esta referência ele poderá encontrar nos Evangelhos, os quais contêm a Boa Nova de Jesus Cristo, modelo de vida digna. Temos São Marcos que apresenta no seu Evangelho uma nova forma de ver o mundo e de se relacionar com ele.

São Marcos explana sobre a exigência de compreender os desígnios de Deus a partir do acolhimento de tudo aquilo que Jesus ensinou e fez. Deste modo, Mc 16, 9-20 leva-nos repensar nossa vivência de Cristão, que muitas das vezes não expressa o que se aprendeu de Jesus. Esta perícope está depois do relato do "túmulo vazio e da mensagem do anjo" que se encontra no capítulo dezesseis dos versículos de um a oito. Ela trata da Ressurreição de Cristo; aparece a Maria Madalena; fala-se de um "jovem" que pelas características é um anjo, o qual dá um envio: "ide dizer" (v. 7); faz menção dos discípulos e também de Pedro, por fim, o texto encerra no versículo oito dizendo que as mulheres "nada contaram a ninguém, pois tinham medo...". Na falta destas bases que indicam o verdadeiro caminho a ser seguido, o homem se depara com decorrências imediatas.

Umas das consequências imediatas disso tudo são as crescentes correntes ideológicas que atingem o homem. Contudo, temos na Palavra de Deus a direção para buscar sanar todos estes contra valores: a missão. Precisa-se de anunciar a Palavra de Verdade e Vida, que é o Evangelho.

O Evangelho de Marcos tem uma estreita ligação com o Evangelho segundo São Mateus no quesito "missão". Mateus, no entanto, vai mais longe em sua missionariedade, ele a apresenta com missões específicas como a missão da Palavra, a missão litúrgica e a missão profética. Elas resumem-se no ensinar, no batizar e no observar.

Notamos, pois: "Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28, 18-20).

Marcos, por sua vez, diz: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado" (Mc 16, 15-16). Aqui reforça a necessidade do Batismo para a salvação. A Constituição Dogmática "Lumen Gentium", que trata sobre a Igreja, diz que:

"os homens, muitas vezes enganados pelo demônio, entregaram-se a pensamentos vãos e trocaram a verdade de Deus pela mentira, servindo mais às criaturas antes que ao Criador (cf. Rm 1, 21 e 25), ou então vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, expõem-se ao desespero final. Por isso, para promover a glória de Deus e a salvação de todos, a Igreja, lembrada do mandamento do Senhor: "Pregai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16, 15), põe todo seu cuidado em desenvolver as missões"(LG, n. 16).

Em São João aparece também o envio de Jesus: "Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós" (Jo 20, 21).

Outro paralelo importante diz respeito ao anúncio das mulheres que em Marcos ressalta o silêncio delas: "nada contaram a ninguém" (Mc 15, 8). Contudo, nos outros Evangelhos relatam que elas contaram. Veja. "Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado" (Jo 20, 18).

Especificamente aqui São Mateus vai dizer que as mulheres anunciaram: "Elas se afastaram prontamente do túmulo com certo receio, mas ao mesmo tempo com alegria, e correram a dar a boa nova aos discípulos" (Mt 28, 8). São Lucas diz quem eram elas e confirma o anúncio: "Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa. Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito"(Lc 24, 10-11).

São Marcos versa a respeito do mandato de anunciar a toda criatura (Mc 16, 15) "Este mandamento solene de Cristo, de anunciar a verdade da salvação, a Igreja recebeu-o dos apóstolos para lhe dar cumprimento até aos confins da terra (cf. At 1, 8)", como reforça a Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 17). E segue dizendo que "Por isso faz suas as palavras do Apóstolo: "Ai de mim se não evangelizar!" (1Cor 9, 16), e continua, sem descanso, a enviar arautos do Evangelho, até que as jovens Igrejas fiquem perfeitamente estabelecidas, e continuem por si mesmas a obra de evangelização".

Tudo isso mostra a relação existente entre os fatos relatados nos Evangelhos. Cada qual apresenta sua versão a respeito de um mesmo tema, sem que um queira sobrepor ao outro. Do mesmo modo deve ser a vida do cristão. Anunciar Jesus a todos para que o que possa estar reinando seja a Palavra salvadora de Deus e não correntes de pensamentos que vão contra o próprio homem. Anunciar um Cristo como Marcos mesmo propõe: um homem que caminha com os homens nos seus sofrimentos e nas dúvidas. Nesse sentido, as aparições de Cristo não ficarão somente naquela época, mas ela fará atual na vida de cada homem que deixa ser levado pelo mandato transformador de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura" (Mc 16, 15).

Considerações finais

Marcos inicia o seu Evangelho dizendo que Jesus Cristo é o Filho de Deus (Mc 1, 1). Mas isso não o coíbe de apresentar um Jesus Humano, o qual intervém na história com seus ensinamentos e propõe um triunfo final do povo dos santos e de si mesmo: "Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus" (Mc 16, 19). É, pois, um triunfo Pascal.

O Jesus proposto por Marcos é um Jesus recebido favoravelmente pelas multidões, seu messianismo humilde e espiritual decepciona a expectativa do povo e o entusiasmo arrefece, como nos ilumina a análise da Bíblia de Jerusalém. Todo este drama da Paixão, foi finalmente coroado pela resposta vitoriosa de Deus: a ressurreição.

Marcos, contudo, tinha preferido calar diante da Ressurreição para não ser levado à narrativa das aparições que ele tinha decidido não incluir no seu Evangelho, como vimos no corpo deste estudo.

O silêncio de Marcos refletiu nos Padres da Igreja. Estes Padres poucos o comentaram. Até porque é um Evangelho bem mais tardio que os outros.

Brasília, 17 novembro de 2009.

BIBLIOGRAFIA

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DELORME, Jean. A leitura do Evangelho segundo Marcos. Tradução de: Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 1982.

MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos: grande comentário bíblico. Tradução de: I.F. L. Ferreira. São Paulo: Paulinas, 1992.

ODORÍSSIO, Mauro. Evangelho de Marcos: texto e comentário, leitura facilitada. São Paulo: Ave Maria, 1997.

PAULO VI, Papa. Constituição Dogmática Lumen Gentium: 21 de novembro de 1964. Números 16 e 17. 29. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

SCHNACKENBURG Rudolf. O Evangelho segundo Marcos. Tradução de: Edmundo Binder. Rio de Janeiro: Vozes, 1974.

SLOYAN, S. Gerard. Evangelho de Marcos. Tradução de: Ana Flora Anderson e Gilberto da Silva Gorgulho. São Paulo: Paulinas, 1975.

SOUZA, Alexandre H. Viera de. Introdução às obras do novo Testamento: Evangelhos e Atos. Unidade VI, Brasília  DF, 2009.


[1] Esta situação de perseguição se explica bem se admitirmos que o livro foi escrito em Roma, mais ou menos quando Pedro Morreu, isto é, durante a perseguição de Nero, em 64.

[2] Texto baseado na apostila do professor Padre Alexandre Henrique Vieira de Souza, que entregou em sala de aula.

 
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Sobre este autor(a)
Pe. Joacir Soares d'Abadia, Pároco em Alto Paraíso-GO, Especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Mário Shenberg (FMS, 2011), Bacharel em Filosofia pela Faculdade de Ciências da Bahia (FACIBA, BA, 2010); Bacharel em Filosofia e Teologia pelo Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília...
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