A ECOEFICIÊNCIA, A SAÚDE E A SEGURANÇA DO TRABALHADOR NA GESTÃO AMBIENTAL DA INDÚSTRIA MADEIREI...
 
A ECOEFICIÊNCIA, A SAÚDE E A SEGURANÇA DO TRABALHADOR NA GESTÃO AMBIENTAL DA INDÚSTRIA MADEIREIRA.
 


SILVEIRA, I. S.; PASTORE JÚNIOR, L. C.; TOMAZ, J. A. O.

RESUMO

Este estudo tem como foco a ecoeficiência, a saúde e a segurança do trabalhador na gestão ambiental da indústria madeireira. Conceitua e caracteriza ecoeficiência como modelo de gestão; e compara o modelo de gestão ambiental de duas indústrias de madeira relacionando-os com aspectos do padrão de ecoeficiência e com parâmetros de saúde e segurança do trabalhador. A avaliação da performance ambiental das indústrias analisadas tem como foco os impactos da vizinhança, a segurança no trabalho, a dispersão de material tóxico, a destinação de sobras e reciclabilidade, e política ambiental. Para a realização deste estudo exploratório descritivo, foi utilizada fonte bibliográfica, pesquisa de campo a partir de observação in loco e entrevistas.
Palavras chave: Indústria Madeireira. Gestão Ambiental. Ecoeficiência.



1 INTRODUÇÃO


Este estudo tem como foco a ecoeficiência, a saúde e a segurança do trabalhador tecidas pela gestão ambiental da indústria madeireira. Tem por objetivo verificar como a indústria madeireira tem se comportado frente ao padrão de ecoeficiência e da qualidade de vida do trabalhador.
Para a consecução deste trabalho, estabelecemos dois objetivos específicos: caracterizar ecoeficiência como modelo de gestão; e comparar o modelo de gestão ambiental de duas indústrias de madeira relacionando-o com aspectos do padrão de ecoeficiência e com a saúde e a segurança do trabalhador.
A análise aqui efetuada tem como parâmetros a legislação ambiental brasileira com relação ao meio ambiente, a segurança do trabalho, o bem estar do trabalhador e os novos paradigmas do desenvolvimento sustentável.
O tema escolhido visa contribuir para o desenvolvimento de uma nova consciência evidenciando, que além da preocupação com o meio ambiente, a gestão ecológica pode refletir-se positivamente na imagem da empresa, agregando valor aos seus resultados.
Dois fatores foram relevantes na definição do tema desta investigação: o contato direto com uma indústria de beneficiamento de madeira, localizada no perímetro urbano e a responsabilidade ambiental que deve permear a ação do empreendedor de negócios.
Espera contribuir com as empresas do ramo madeireiro, com orientações voltadas para o controle dos desperdícios e com a melhoria da qualidade do ambiente de trabalho para os funcionários em suas funções.
A questão que se evidencia como norte investigativo é: Como a indústria madeireira tem efetivado seu processo de gestão frente aos parâmetros de eco eficiência, o estatuto da cidade e a segurança do trabalhador?
O meio ambiente vem sofrendo exaustiva intervenção provocada pelas indústrias de modo geral, cujos dejetos poluem tanto a terra, com as águas e o ar. Tornar essas indústrias competitivas no mercado, atendendo às demandas dentro de um padrão de sustentabilidade constitui um grande desafio, que justificou a realização desse estudo.
Apresentamos aqui duas hipóteses que nortearam os passos desta investigação:
? Apesar dos rigores estabelecidos pela legislação ambiental e do trabalho, as empresas ainda não atentem satisfatoriamente aos requisitos de eco-eficiência.
? A indústria madeireira, devido aos rigores do licenciamento ambiental para funcionamento, atende aos critérios estabelecidos pela legislação ambiental.
Para dar conta dos objetivos aqui propostos, lançamos mão da metodologia de pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo através de observação in loco e entrevistas estruturadas e semi-estruturadas. Trata-se de um trabalho de nível exploratório descritivo.



2 REFERENCIAL TEÓRICO

O processo de implantação do modelo de desenvolvimento sustentável tem transformado lentamente o perfil das empresas. Vinte anos depois da divulgação do Relatório Brundtand, em 1987, quando foram concebidas as linhas mestras do novo modelo, parte do setor empresarial consolidou sua posição, ao lado das instituições governamentais e da sociedade civil organizada, como um dos pilares desse mundo tripolar, cuja capacidade de articulação vem determinando a velocidade da mudança, numa dramática corrida contra o tempo para reverter a curva da degradação ambiental e dos indicadores de pobreza no Brasil e no mundo.
Quando consideramos a questão ambiental do ponto de vista empresarial, a primeira dúvida que surge diz respeito ao aspecto econômico. A idéia que prevalece é de que qualquer providencia que venha a ser tomada em relação a variável ambiental traz consigo o aumento de despesa e consequentemente acréscimo dos custos do processo produtivo (DONAIRE, 2006).
A existência de um plano ambiental formal, embora importante, não é suficiente, pois a transformação da questão ambiental em um valor da organização vai depender das ações da alta administração e de suas gerências. Os exemplos que elas darão sobre a importância do meio ambiente provocarão conseqüências no resto da organização (DONAIRE, 2006).
Para uma gestão ecoeficiente a empresa e seus gestores precisam ter uma visão de que lucro pode ser agregado a medidas de prevenção de danos ambientais sem gerar prejuízo na lucratividade. E que só é possível uma gestão ecoeficiente se todos os envolvidos no processo forem conscientes da importância de seu engajamento.

2.1 O MEIO AMBIENTE

Durante a maior parte da Pré-história, quando o número de seres humanos era baixo, assim como sua densidade, estes se adaptaram ao meio mediante estratégias de tipo biológico e comportamental, sem causar grandes modificações nos ecossistemas (DÍAZ, 2002).
As modificações que desde a Antiguidade, tinham mantido certos limites aceitáveis, dispararam a partir do desenvolvimento urbano industrial iniciado em 1779 na Inglaterra. Com o crescimento acelerado da população, a superexploração de todo tipo de recursos naturais para manter a população consumidora foi provocando a contaminação do meio ambiente, com diferentes tipos de resíduos e conseqüências desastrosas diversas para o homem.
De acordo com Tinoco e Kramer (2004), o mundo passou a ter uma consciência ambiental surgida das transformações sociais e culturais que ocorreram nas décadas de 60 e 70, ganhou dimensão e situou o meio ambiente como um dos princípios fundamentais do homem moderno.
Segundo Dias (2004), Patrick Geddes, escocês, considerando o "pai da educação ambiental" já expressava a sua preocupação com os efeitos da revolução industrial, iniciada em 1779, na Inglaterra, pelo desencadeamento do processo de urbanização e suas conseqüências para o ambiente natural. O intenso crescimento econômico do pós-guerra acelerara a urbanização, e os sintomas da perda de qualidade ambiental começavam a aparecer em diversas partes do mundo.
No Brasil, essa preocupação ainda não havia transposto o círculo restrito de poucos intelectuais que cuidavam do assunto, e nem mesmo a então recém-promulgada Constituição Brasileira de 1891 referia-se ao tema, apesar de forte pressão extrativista dos europeus sobre nossos recursos naturais. Entretanto, nesse mesmo ano, já se havia iniciado umas das práticas mais demagógicas utilizadas pelos políticos brasileiros, no que tange à gestão ambiental, comuns até hoje: anunciar a criação de unidades de conservação sem efetivá-las posteriormente, ou seja, sem dar a estrutura para o seu funcionamento (DIAS, 2004).
Apesar dos importantes movimentos de regulamentação de políticas ambientais já terem ocorrido na década de 30, somente no final da década de 60 a preocupação com o meio ambiente aumentou. É importante observar que o ambientalismo não possui uma data de nascimento determinada e tentar encontrar suas raízes consiste principalmente da necessidade de se ter explicações para sua crescente importância (DUARTE, 1997).
O reconhecimento de que o Meio Ambiente necessitava de cuidados, fez com que empresas de grande porte começassem, nos anos 80, a analisar os investimentos ambientais como uma vantagem competitiva e não como custos.

A atitude histórica em relação aos problemas do mundo e da realidade ambiental, na qual estamos imersos, tem sido, quase sempre e em todos os âmbitos de atuação, a de uma simplificação reducionista da realidade, em face da possibilidade de fazer frente aos problemas mediante uma reestruturação de nossos métodos e meios, desenvolvendo a capacidade de enfrentar situações de complexidade crescente (DÍAZ, 2002, p. 35).

Com a criação das políticas ambientais, a sociedade começa a mudar seu comportamento, e desta forma se difunde o que se chama "cultura ambiental". Estas políticas proporcionaram a difusão do que se denominou "a cultura dos Rs", referindo-se à consoante inicial de várias palavras usadas na gestão ambiental, quais sejam; reduzir, reusar, reciclar, recusar, refil, repetir, reparar, remediar, reivindicar, retornar, entre outras (FERREIRA, 2003).
Gobbi e Brito (2005) destacam que os debates em torno da questão ambiental ganharam expressa legitimidade social, a ponto de se tornarem objeto de reflexão das organizações, que passaram a repensar suas práticas de produção a e formular políticas de gestão ambiental.
Ressalta-se que a normalização, ficou clara a definição de poluição industrial, como quaisquer alterações das propriedades físicas, químicas ou biológicas do meio ambiente, causada por qualquer tipo de substância, seja ela sólida, líquida, gasosa ou qualquer elemento capaz de causar outros danos variados a população, flora, fauna entre outros (ANTUNES, 2004).
Segundo publicação de Souza e Silva (Portal ambientebrasil.com.br), a humanidade herdou um acúmulo de 3,8 bilhões de anos de capital: mantendo-se os padrões atuais de uso e degradação, muito pouco há de restar até o fim do século XXI. Considerando a recente crise econômica, que tanto tem preocupado a população e os governos mundiais, ninguém percebe que se está perdendo mais dinheiro com o desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira global, segundo colusões de um estudo encomendado pela União Européia. A pesquisa foi realizada por um economista do Deutsche Bank, que calculou que os desperdícios anuais com o desmatamento variam uma faixa de US$ 5 trilhões.
Para se chegar a esses números, é necessário saber que os serviços de armazenamento de água e da regulação do ciclo de carbono, entre outros, realizados gratuitamente pela natureza, criam condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções menos valorizadas, imprencidíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica.
Nas últimas três décadas se consumiu um terço dos recursos naturais da Terra, ou seja, de sua riqueza natural. Com o aumento populacional que se deu no último século e com o surgimento de novas tecnologias, aceleraram-se as atividades econômicas de acordo com suas supérfluas e ilimitadas necessidades jamais vista.
Os resultados dessas ações são facilmente perceptíveis ao logo de toda a biosfera. Esta interferência ocorre em diversos níveis, agindo diferentemente sobre os componentes ambientais: ar, solo, água e seres vivos. Os reflexos, geralmente desastrosos, Podem ser observados, por exemplo, nas atividades agropecuárias e florestais, particularmente quando praticadas de forma extensiva, causando profundas alterações na paisagem, em nível mundial.
Nesse cenário, as questões ambientais passam a torna-se objeto de iniciativas de normalização e certificação no âmbito nacional e internacional. Dentre essas normas, destacam-se as que fornecem diretrizes para que as empresas adotem procedimentos que fomentem e controlem a adoção de práticas menos degradantes ao meio ambiente, algumas destas normas são certificáveis possibilitando à empresa demonstrar a terceiros ? organismos financiadores, acionistas, companhias de seguro e clientes (pessoa física e jurídica) ? o atendimento a suas diretrizes.
Essas normas de âmbito nacional e internacional visam à melhoria da gestão ambiental nas empresas, tendo como destaque a ISO 14000 ? instrumento mundial de critérios ambientais na gestão de empresas ? e suas séries (AMBIENTE BRASIL).




3 A ECOEFICIÊNCIA COMO MODELO DE GESTÃO

Ecoeficiência é um modelo de gestão ambiental empresarial introduzido em 1992 pelo Business Council for Sustainable Development, atualmente denominada de Word Business Council for Sustainable Development (WBCSD). O World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) é uma coligação de 130 empresas internacionais, que partilham o compromisso do desenvolvimento sustentável.
Os membros associados provêm de 30 países e de mais de 20 setores industriais importantes. A organização beneficia ainda de uma sólida rede global de conselhos empresariais nacionais e regionais e organizações em parceria. O objetivo do WBCSD é atuar como catalisador da mudança e fomentar uma cooperação máxima entre o mundo, empresarial, a administração pública e outras organizações preocupadas com o desenvolvimento sustentável.
Desde então, alguns países passaram a integrar a WBCSD identificando a eco eficiência como uma proposta promissora para as empresas, os governos e as famílias reduzirem a poluição e o uso de recursos nas suas atividades e passaram a recomendá-la. Atualmente a Organization for Economic cooperation and Development (OCDE) e a WBCSD, são promotores mais atuantes dessa proposta de gestão ambiental.
Uma das primeiras redes empresariais no nível nacional foi a Business for Social Responsibility (BSR) criada em 1992, nos Estados Unidos, inicialmente com 50 empresas associadas. Em vários países europeus fundaram-se associações empresariais no início da década 1990. O movimento chegou à América Latina com a criação da organização Peru 2021, em 1994, mas só ganhou amplitude nos anos seguintes com a chegada de outras organizações, que criaram vínculos entre si, como:
? Amefi, no México e o Instituto Ethos, no Brasil, em 1998.
? Ação Empresarial do Chile, em 1999.
? Fundemas, em El Salvador, e Deres, no Uruguai, em 2000.
? Instituto Argentino de Responsabilidade Social Empresarial (Larse), em 2003.
Ao mesmo tempo, redes empresariais se organizaram internacionalmente, como a World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) - criada em 1991, que reúne hoje aproximadamente empresas de mais de 35 países de 20 setores industriais. Além disso, dispõem de uma rede de 50 Conselhos vinculadas a organismos internacionais, universidades, ONGs e fundações, como objetivo de compartilhar experiências e promover lideranças no meio empresarial que estimulem o desenvolvimento sustentável em seus países ou regiões.
Para essas entidades, a eco eficiência se alcança pela entrega de produtos e serviços com preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e melhorem a qualidade de vida, enquanto reduzem progressivamente os impactos ecológicos e a intensidade dos recursos ao longo de seu ciclo de vida para no mínimo manter a capacidade de carga estimada do planeta.
A eco eficiência baseia-se na idéia de que a redução de materiais e energia por unidade de produto ou serviço aumenta a competitividade da empresa, ao mesmo tempo em que reduz as pressões sobre o meio ambiente, seja como fonte de recurso, seja como depósito de resíduos. É um modelo de produção e consumo sustentáveis, na medida em que resulta a produção de bens e serviços necessários e que contribuam para melhorar a qualidade de vida (BARBIERI, p. 123).
A reciclagem interna e externa é muito valorizada pela eco eficiência, que se preocupa também com o produto em si e seus impactos ambientais, daí recomendações a respeito da sua viabilidade.

3.1 CARACTERÍSTICAS

A solução dos problemas ambientais, ou sua minimização, exige uma nova atitude dos empresários e administradores, que devem passar a considerar o meio ambiente em suas decisões e adotar concepções administrativas e tecnológicas que contribuem para ampliar a capacidade de suporte do planeta. Em outras palavras, espera-se que as empresas deixem de ser problemas e sejam parte das soluções.
As preocupações ambientais dos empresários são influenciadas por três grandes conjuntos de forças que se interagem reciprocamente: o governo, a sociedade e o mercado. Se não houvesse pressões da sociedade e medidas governamentais não se observaria o crescente envolvimento das empresas em matéria ambiental. As legislações ambientais geralmente resultam da reivindicação de segmentos da sociedade que pressionam os agentes estatais para a solução..
De acordo com Barbiere (2004), uma empresa se tornaria ecoeficiente por meio de práticas voltadas para:
a) Minimizar a intensidade de materiais nos produtos e serviços.
b) Minimizar a intensidade de energia nos produtos e serviços.
c) Minimizar a dispersão de qualquer tipo de material tóxico pela empresa.
d) Aumentar a reciclabilidade dos seus materiais.
e) Maximizar o uso sustentável dos recursos renováveis.
f) Aumentar a durabilidade dos produtos da empresa.
g) Aumentar a intensidade dos serviços nos seus produtos e serviços.
A integração dessas práticas, no conceito de Barbiere 2004, seria fundamental para desenvolver produtos ecoeficientes. Também a prevenção da poluição tende a enfatizar mais o aperfeiçoamento contínuo dos processos, de produção existente que irão reestruturar a sua tecnologia, e centrar mais a atenção sobre medidas de melhorias unidimensionais, por exemplo, preocupação com a prevenção estiver presente durante a fase de projeto, portanto, antes de especificar produtos e processos, os benefícios para o meio ambiente serão muito maiores.
Em outras palavras, é produzir mais com menos, utilizando menos recursos naturais e energia no processo produtivo, reduzindo o desperdício e os custos de produção e operação.
Podemos considerar como elementos básicos da eco eficiência a redução da dispersão de qualquer tipo de material tóxico, o apoio a reciclagem, a maximização do uso sustentável dos recursos naturais, a extensão da durabilidade dos produtos e o aumento do nível de bens e serviços.
Diante disso, podemos dizer que o objetivo básico da eco eficiência é a produção de bens e a prestação de serviços a preços mais competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e elevem a qualidade de vida das pessoas.
Ao mesmo tempo, deve promover a redução progressiva dos impactos ambientais negativos provocados pelos produtos.
Podemos afirmar que a eco eficiência constitui o meio mais adequado para que as empresas possam medir seu desempenho ambiental e produtivo. Ela deve ser vista como uma oportunidade para fazer negócios, abrir novos nichos de mercado e assumir a responsabilidade empresarial junto ao meio ambiente.
Para o empresário convencional seu sucesso está embasado na maior quantidade possível de vendas, porém, para o empresário consciente e que busca a eco eficiência, seu êxito está embasado na maior extensão possível de serviços outorgados.
Para uma empresa que implemente um programa efetivo de eco eficiência os benefícios são inúmeros dentre eles podem citar, a minimização dos custos de produção, a utilização mais responsável dos recursos naturais e a redução da emissão de produtos contaminadores.
A empresa que praticar a eco eficiência será mais competitiva e inovadora em seu modelo de produção, obterá recursos adicionais com a reciclagem e aproveitamento de resíduos, gozará de prestígio entre distribuidores e consumidores, conseguirá reduzir o turn over de sua empresa, criará um ambiente de trabalho sadio e estável, terá acesso a novas oportunidades de mercado e estará cumprindo com normas standard internacionais e terá a aprovação da comunidade.
Uma empresa que implementa um programa efetivo de eco eficiência trará conseqüências positivas para o desenvolvimento sustentável tanto a nível regional quanto global, estará reduzindo o consumo de matérias primas e de resíduos contribuindo, assim, para a criação de um equilíbrio ambiental do planeta.
Os dez passos necessários para a excelência ambiental segundo Elkington & Burke, apud Donaire (1999) são os seguintes:
? Desenvolve e publica uma política ambiental.
? Estabelece metas e continua a avaliar os ganhos.
? Define claramente as responsabilidades ambientais de cada uma das áreas e do pessoal administrativo (linha de assessoria).
? Divulga interna e externamente a política, os objetivos e metas e as responsabilidades.
? Obtém recursos adequados.
? Educa e treina seu pessoal e informa os consumidores e a comunidade.
? Acompanha a situação ambiental da empresa e faz auditorias e relatórios.
? Acompanha a evolução da discussão sobre a questão ambiental.
? Contribui para os programas ambientais da comunidade e investir em pesquisa e desenvolvimento aplicados à área ambiental.
? Ajude a conciliar os diferentes interesses existentes entre todos os envolvidos: empresa, consumidores, comunidade, acionistas etc.".

3.2 ABORDAGENS PARA A GESTÃO AMBIENTAL EMPRESARIAL

Donaire (2006) discorre sobre três abordagens em relação aos problemas ambientais decorrentes das atividades industriais: controle da poluição; prevenção da poluição; e incorporação dessas questões na estratégia empresarial. Esta abordagem se caracteriza pelo estabelecimento de práticas para impedir os efeitos decorrentes da poluição gerada por um dado processo produtivo.
Segundo este autor, esse controle pode ser realizado por meio de ações localizadas e pouco articuladas entre si. As ações ambientais da empresa resultam de uma postura reativa da empresa na qual ela centra suas atenções sobre os efeitos negativos de seus produtos e processos produtivos mediante soluções pontuais.
Em geral, o controle da poluição tem por objetivo atender as exigências estabelecidas nos instrumentos de comando e controle as quais a empresa está sujeita e as pressões da comunidade. Donaire enfatiza que as soluções tecnológicas típicas dessa abordagem procuram controlar a poluição sem alterar significativamente os processos e os produtos que as produziram, podendo ser de dois tipos: tecnologia de remediação e tecnologia de controle no fim do processo.
A primeira procura resolver um problema ambiental que já ocorreu, como são as tecnologias desenvolvidas para descontaminar o solo degradado por algum tipo de poluente ou para recuperar o petróleo derramado no mar e limpar as praias. As tecnologias de controle no final do processo objetivam capturar e tratar a poluição resultante de um processo de produção antes que ela seja lançada ao meio ambiente.
A prevenção da poluição aumenta a produtividade da empresa, pois a redução dos poluentes na fonte significa recursos poupados o que permite produzir mais bens e serviços com menos insumos. Os resultados esperados de um programa de prevenção da poluição são os mesmos de qualquer programa de redução de custo ou melhoria da produtividade, por exemplo. Redução dos custos com materiais e energia, economia na disposição final dos resíduos, redução dos passivos ambientais, melhora geral das condições de trabalho e da imagem da empresa.
O quadro abaixo sintetiza a visão de Donaire com relação a essas três diferentes formas de abordar o problema e as estratégias para essa gestão.

GESTÃO AMBIENTAL NA EMPRESA ? ABORDAGENS

CARACTERÍSTICAS ABORDAGENS
Controle da poluição Prevenção da poluição Estratégia
Preocupação básica Cumprimento da legislação e resposta as pressões da comunidade. Uso eficiente dos insumos. Competitividade.
Postura típica. Reativa. Reativa e proativa. Reativa e proativa.
Ações típicas. Corretivas.


Tecnologias de remediação e de controle no final do processo (end of pipe).

Aplicação de normas de segurança. Corretivas e preventivas.

Conservação e substituição de insumos.



Uso de tecnologias limpas. Corretivas, preventivas e antecipatórias.
Antecipação de problemas e captura de oportunidades utilizando soluções de médio e longo prazos.

Uso de tecnologias limpas.
Percepção dos empresários e administradores. Custo adicional. Redução de custos e aumento da produtividade. Vantagens competitivas.
Envolvimento da alta administração. Esporádico. Periódico. Permanente e sistemático.
Áreas envolvidas. Ações ambientais, confinadas nas áreas produtivas. As principais ações ambientais confinadas nas áreas produtivas, mas há crescente envolvimento de outras áreas. Atividades ambientais disseminadas pela organização.
Aplicação das ações ambientais para toda a cadeia produtiva.


Observado o quadro apresentado por Donaire, podemos concluir que a prevenção da poluição combina duas preocupações ambientais básicas: uso sustentável dos recursos e controle da poluição.
Como afirma Barbiere (2004, p. 107), "a prevenção da poluição requer mudanças em processos e em produtos a fim de reduzir ou eliminar os rejeitos na fonte, isto é, antes que eles sejam produzidos e lançados ao meio ambiente".




4 A INDÚSTRIA MADEIREIRA EM RELAÇÃO AO PADRÃO DE ECOEFICIÊNCIA

O estudo do comportamento ambiental de duas empresas de beneficiamento de madeira foi realizado com o objetivo de estabelecer um paralelo com o modelo de eco eficiência, segundo as características apontadas por Donaire (1999) e Barbiere (2004). Essa análise comparativa teve por fim oferecer subsídios para uma visão da indústria madeireira em relação a gestão ecológica com a inserção da variável dependente "pessoas". Este elemento como parte de um modelo de gestão ambiental toma por base a Consolidação das Leis do Trabalho e o Estatuto da Cidade.
A decisão de se assegurar a inserção do operário como parte da gestão ecológica resulta do fato de que não se pode falar em qualidade de vida no trabalho considerando apenas o que diz respeito a materiais, processos e postos de trabalho. A qualidade de vida de um trabalhador passa não apenas pelo posto de trabalho, mas também pelo ambiente laboral e condições motivacionais que este lhe oferece. Tudo isso, aliado às condições de vida familiar.
Beneficiar a madeira, na maioria dos casos significa enfrentar agentes agressivos como altas temperaturas, ruídos, produtos químicos, baixos níveis de iluminação, poeiras, entre outros, bem como os riscos à saúde que estão associados ao estresse e, embora não causem doenças profissionais, aumentam a vulnerabilidade psicológica e certamente contribuem para o enfraquecimento da saúde dos trabalhadores. Resulta daí a indispensável inclusão do trabalhador como elemento integrante do ambiente da empresa por estar diretamente envolvido com os riscos e com os resultados da empresa.
Buscamos como campo de observação in loco duas indústrias que atendessem aos seguintes critérios: A empresa "A" deveria se localizar em perímetro urbano para propiciar a análise, dentre outros critérios estabelecidos, de proximidade da vizinhança.
A empresa "B" deveria enquadrar-se no critério de destaque no cenário madeireiro do Sul do Espírito Santo. Hipoteticamente, uma indústria de médio/grande porte, que, devido aos rigores do licenciamento ambiental para funcionamento, deve atender aos critérios de ecoeficiência aqi tomados como parâmetros.




















FOTO 1 - Vista parcial da Indústria "A".

Para nortear os objetivos das visitas e estabelecer análise comparativa do modelo de gestão ambiental no viés da gestão ecológica, tomamos por base a Lei nº 10.257, de 10/07/2001, que define diretrizes gerais da política urbana (Estatuto da Cidade), no que concerne ao impacto de vizinhança (Art. 36 a 38); o Decreto Lei N.º 5.452, de 1º de maio de 1943, Consolidação das Leis do Trabalho, no que concerne à Segurança do Trabalho; e os modelos estabelecidos por Barbiere (2004); Donaire (2006).
Do perfil de eco eficiência ou excelência ambiental apontados por Barbiere e Donaire, tomamos apenas os requisitos que julgamos necessários como variáveis independentes relacionadas à questão da proteção ambiental no viés da "poluição". A partir daí, buscamos na legislação brasileira as diretrizes com relação a "pessoas" no ambiente industrial de madeiras e também os associamos à realidade observada em ambas as indústrias.
Esta associação teoria-prática teve como fim nos permitir a proposição de diretrizes para um modelo de gestão ecológica onde o ser humano integre o ambiente.
Do modelo apresentado por Barbiere, escolhemos analisar apenas os aspectos relacionados a:
? a reciclabilidade dos seus materiais; e
? dispersão de qualquer tipo de material tóxico pela empresa.
Dos dez passos necessários para a excelência ambiental segundo Donaire, apoiado em Elkington & Burke, escolhemos os aspectos:
? educar e treinar o pessoal e informar os consumidores e a comunidade;
? e definir claramente as responsabilidades ambientais de cada uma das áreas e do pessoal administrativo.
As indústrias foco dedicam-se exclusivamente ao processamento de madeira renovável. A empresa "A" beneficia eucalipto pelo processo de imunização para atender ao mercado exterior. A Empresa "B" beneficia pinus e eucalipto, de produção própria, destinada ao mercado interno e externo, tanto in natura quanto tratado pelo processo de autoclave e secagem em estufa.
As visitas às indústrias obedeceram a itens de observação previamente definidos além de um questionário estruturado para entrevista aos representantes das empresas.
Foram observados aspectos relacionados a:
? Impacto de vizinhança;
? Segurança do trabalhador (layout e ambiente laboral);
? Dispersão material tóxico;
? Destinação de sobras e reciclabilidade;
? Política ambiental adotada pela empresa.

4.1 IMPACTO DE VIZINHANÇA

De acordo com o Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), a maneira como são utilizados os imóveis urbanos, ainda que de acordo com a lei, não diz respeito apenas a relação entre o proprietário do lote ou empreendimento e o poder publico. Cada interferência na utilização ou ocupação de um determinado lote urbano produz impactos sobre a vizinhança.
O zoneamento por si só não é capaz de medir todos os conflitos de vizinhança, apesar de muitas cidades ter garantido a proteção e qualidade de vida.
O estatuto da cidade prevê um novo instrumento para que se possa fazer a mediação entre os interesses provados dos empreendedores e o direito a qualidade urbana daqueles que moram ou transitam em redor.
O objetivo do estudo de impactos de vizinhança é democratizar o sistema de tomada de decisões sobre os grandes empreendimentos a serem realizados na cidade, dando voz a bairros e comunidades que estejam expostos aos impactos dos grandes empreendedores. Dessa forma, consagra o direito de vizinhança como parte integrante da política urbana, condicionando o direito de propriedade.
O Estatuto da Cidade, em seu artigo 36, estabelece que uma lei municipal conterá critérios que definirão quais os empreendimentos que dependerão de um estudo prévio de impacto de vizinhança como condição para sua aprovação. Os critérios podem variar conforme as características urbanas e de infra-estrutura do município e serão baseados, por exemplo, no impacto de tráfego que gera, na sobrecarga, no adensamento populacional, no sombreamento que causará sobre imóveis vizinhos e na poluição sonora.
Em contrapartida poderá ser exigidos postos de trabalho dentro do empreendimento, recolocação profissional para os afetados, semaforização, transportes coletivos e outros. Pode também exigir alterações no projeto do empreendimento, como diminuição de área construída, reserva de áreas verdes, aumento no numero de vagas de estacionamento e isolamento acústico etc.
Os impactos de vizinhança causados pela indústria de beneficiamento de madeira são de origem sonora provocada pelo maquinário e poluição do ar pela fumaça resultante das caldeiras e da queima de resíduos.
A empresa "B" é equipada com um sistema de filtro por imersão, pelo qual é eliminado a fumaça produzida pela queima de restos de madeiras nas caldeiras. Por esse sistema, a fumaça passa pela água comprimida por uma turbina onde ocorre a quebra das partículas impedindo os componentes sólidos em suspensão de serem lançados ao ambiente.
Nessa indústria, os vizinhos residem a cerca de 500 metros numa vila de operários da empresa. Devido a distância e ao sistema de filtragem da fumaça, são remotas as possibilidades de sofrerem danos causados por poluição do ar. Verificamos também que o ruído produzido pelas máquinas também não chega até a vila de operários.
Devido a ocorrência de um conjunto de moradias nas proximidades da empresa "A", a menos de 50 metros, lançamos mão de um instrumento de verificação adicional, além da observação in loco. Entrevistamos todos os moradores da pequena vila de operários aos quais foi perguntado se a fumaça ou o ruído produzido pela indústria causa algum tipo de incômodo. Todos afirmaram que não. Como todos os moradores são funcionários da empresa referência, e tal fato pode ter influenciado as respostas, desconsideramos esse resultado para fins de avaliação da indústria no que tange ao impacto de vizinhança.

4.2 SEGURANÇA DO TRABALHADOR ? AMBIENTE LABORAL

De acordo com o artigo 166 do Decreto Lei N.º 5.452/1943, com redação dada pela Lei 6.514/77,
A empresa é obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, equipamento de proteção individual adequado ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento, sempre que as medidas de ordem geral não ofereçam completa proteção contra os riscos de acidentes e danos à saúde dos empregados.

Na indústria de madeiras alguns fatores devem ser considerados na avaliação do ambiente laboral relacionado à saúde do trabalhador, como ruído, condições do piso, edificação (altura do pé direito), ambiente térmico, iluminação e insalubridade.
? Ruído
O ruído é o agente que está presente em quase todos os processos do beneficiamento da madeira. A sua origem tanto pode ser proveniente das máquinas como também da própria matéria-prima e até mesmo da atividade. A falta de manutenção e até mesmo de instalações adequadas, aliadas a um layout ineficiente, pode concorrer para o aumento do ruído nos setores das madeireiras. Dependendo do tipo de madeira, dura ou mole, pode-se ter maior ou menor nível de pressão sonora (Revista Madeira, 2002).
Nas duas empresas é exigido o uso de protetor auricular. Dos operários que trabalham em contato direto com as serras, é também exigido o uso de óculos ou máscaras apropriadas.
Percebemos alguns operários sem os equipamentos de segurança. Segundo a gerência da indústria, há resistência de utilização por parte de alguns.

Foto 2 ? Operário sem equipamento de segurança.

? Ambiente térmico
O calor é um agente que está presente em processos de secagem, prensagem a quente, laminação e cozimento da madeira.
Os locais de trabalho deverão ter ventilação natural, compatível com o serviço realizado (CLT, art. 176), sendo obrigatória a ventilação artificial sempre que a natural não preencher as condições de conforto térmico. Observamos nas duas empresas boa condição de ventilação em todo o ambiente fabril, o que facilitado pelo fato dos galpões serem abertos nas laterais. Concorre para a qualidade do ambiente térmico o clima das regiões onde se localizam as indústrias por se situarem em área montanhosa, de clima tropical de altitude.
? Piso
De acordo com a legislação do trabalho, "os pisos dos locais de trabalho não deverão apresentar saliências nem depressões que prejudiquem a circulação de pessoas ou a movimentação de materiais" (Redação dada pela Lei nº 6.514, de 22.12.1977).
Nenhumas das duas empresas cumprem este requisito. Os pisos são irregulares, não tem proteção nas saliências, apresentam depressões com mais de 50 cm.

? Layout
Alguns aspectos relativos a layout, iluminação, ventilação e outros, não são, na maioria dos casos, levados em consideração. Em geral, as indústrias madeireiras têm início com poucas atividades. Entretanto, à medida que o número de atividades aumenta as mesmas vão sendo agregadas ao processo já existente e isso gera um ambiente de trabalho inadequado, ou seja, um arranjo físico deficiente, uma vez que não há obediência aos princípios fundamentais do layout. Portanto, na maioria dos casos, não existe um estudo de layout e conseqüentemente ocorrem cruzamentos e retornos que contribuem não só para o aumento das distâncias percorridas como também para um custo final adicional e aumento de riscos de acidentes.
Esse aspecto foi observado nas duas empresas, onde percebemos considerável dificuldade de locomoção dentro do pátio devido a pequena distância entre uma máquina e outra, corredores apertados, layout inadequado do ponto de vista do fluxo de produção e movimentação dos operários.
O único aspecto atendido a contento pelas indústrias é com relação a altura do pé direito, que, conforme o artigo 171 da CLT (Redação dada pela Lei nº 6.514, de 22.12.1977), deve ter no mínimo três metros de altura.

? Iluminação
Embora o pátio industrial em ambas as indústrias se situe em galpão aberto em todas as laterais, o que facilita a iluminação natural, observamos que esta não é suficiente. A legislação (CLT, art. 175) determina que em todos os locais de trabalho deverá haver iluminação adequada, natural ou artificial, apropriada à natureza da atividade (Redação dada pela Lei nº 6.514, de 22.12.1977).
Não consideramos satisfatórias as condições de iluminação das empresas visitadas, principalmente a Empresa "B". A iluminação natural não é suficiente e a iluminação artificial é quase inexistente, havendo locais onde se encontram máquinas onde a claridade não é suficiente para garantir segurança ao operário no manuseio.

? Insalubridade
São consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos (CLT, art. 189 - Redação dada pela Lei nº 6.514, de 22.12.1977).
O aspecto insalubridade foi aqui observado com relação a dois agentes: pó e fumaça.
A concentração de pó é variável, uma vez que depende do processo produtivo. Observamos uma grande quantidade de pó, mesmo na Pindobas onde há um sistema de canalização por exaustão.
A Lei nº 6.514, que modifica o art. 157 da CLT, adverte que cabe às empresas devem:
I - cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho;
II - instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais;
[...]

E que aos empregados (art. 158) cabe:
I - observar as normas de segurança e medicina do trabalho, inclusive as instruções de que trata o item II do artigo anterior;
Il - colaborar com a empresa na aplicação dos dispositivos deste Capítulo.

Verificamos que em ambas as indústrias existe material de proteção, como máscaras e óculos, à disposição dos operários, mas poucos foram vistos utilizando os mesmos.

Foto 3 ? Contato direto com o pó de serra, sem uso de máscara.

Com relação a fumaça, esta tem duas fontes. A fumaça produzida pelas caldeiras, que é dispersa no ar através de chaminé e a fumaça proveniente da queima de resíduos.

Foto 4 ? Vista parcial de galpões mostrando a dispersão de fumaça no ar.
A Empresa "B", por contar com sistema de caldeira a lenha, produz uma fumaça que passa por um processo de filtragem através do sistema de filtro por imersão e dispersa através de chaminé a cerca de dois metros acima do teto do galpão. Observamos no pátio da indústria incômodo causado por essa fumaça que, sujeita a ação dos ventos, vez ou outra invade o ambiente de trabalho (Foto 4). Como a Pindobas utiliza os resíduos da madeira (casca, casqueiros e cepilhos) para abastecer as caldeiras, não há sobra para queima no pátio externo.
Na Empresa "A" não há aproveitamento dos resíduos em caldeiras. Parte é convertida em carvão e o restante queimado no pátio externo a céu aberto. O contato dos operários com essa fumaça depende da posição do vento.
As duas indústrias contam com processo de retirada do pó produzido pelas serras. A "B", além da retirada manual, dispõe de um sistema de exaustão que leva o pó canalizado do pátio a um depósito.
As indústrias "A" e "B" disponibilizam máscara e óculos para proteção dos operários. Entretanto, não vimos em nenhuma das duas operários usando máscara, apenas alguns usavam óculos.

4.3 DISPERSÃO DE MATERIAL TÓXICO

Todos os aspectos relacionados com a emissão de agentes poluidores ou degradantes do meio ambiente, são previstos pela legislação ambiental que regulamenta o licenciamento necessário à liberação de funcionamento de indústrias (Lei n°. 6.938/81 e Resolução CONAMA n°. 237/97).
Constituiu objeto de nossa observação apenas o que concerne a dejetos da indústria madeireira. Nesse sentido, consideramos aqui o material tóxico que resulta do processo de compostagem dos resíduos acumulados nos pátios externos das indústrias.
Os resíduos sólidos são conceituados pela NBR 10.004 (ABNT, 1987) como resíduos descartáveis ou inúteis resultantes das atividades humanas, em estado sólido, semi-sólido ou semi-líquido (com conteúdo líquido insuficiente para que este fluido possa se movimentar livremente).
Os resíduos sólidos orgânicos de origem vegetal, particularmente após os tratamentos químicos que recebem para utilização na indústria madeireira, constituem uma fonte de elevados impactos ambientais sobre o meio físico, particularmente sobre os mananciais hídricos superficiais e subterrâneos e sobre os meios biológico e sócio-econômico (BELIQUI. p.20).
O impacto ocorre com a geração de chorume, a emissão de gases e maus odores resultantes dos processos de fermentação e decomposição, a geração de sais inorgânicos e de metais tóxicos. Produz ainda a corrosão de equipamentos componentes da infra-estrutura das instalações.
Identificamos nas duas indústrias materiais em decomposição, tanto pelo processo de compostagem destinado a transformação dos resíduos em adubo orgânico, quanto pelos materiais acumulados nas áreas externas, que igualmente se decompõem pela ação da chuva.
Tanto na Empresa "A" quanto na "B", o chorume escorre por pequenas valas a céu aberto indo escoar em Ribeirão próximo ao local. Parte dessa substância infiltra-se no solo indo para o lençol freático existente na área.


4.4 DESTINAÇÃO DE SOBRAS E RECICLABILIDADE

Normalmente parte dos rejeitos das indústrias madeireiras é queimada a céu aberto e parte, principalmente serragem, é removida para aterros inadequados, acarretando o desprendimento de chorume, de alta carga orgânica tóxica, provocando danos ao ambiente, principalmente em córregos, rios e mananciais de uso municipal.
Quanto aos produtos recicláveis, eles vão para a queima nos fornos e caldeiras ou venda a terceiros, num aproveitamento de cerca de 95 por cento. Outro fator importante é a imunização dos produtos fabricados para aumentar a durabilidade.

Nas indústrias "A" e "B" o pó de serra é separado em dois tipos e destinado a indústrias de cerâmicas e granjas. Na "B", as sobras de madeira são utilizadas nas caldeiras e na "A" é transformada em carvão e vendido para o comércio da região. Na "B", cascas, casqueiros, cepilhos e pó são também destinados ao processo de compostagem, transformando-se em adubo orgânico. A serragem é também vendida para utilização como fertilizante orgânico, em aplicação direta no solo.


4.5 POLÍTICA AMBIENTAL ADOTADA PELA EMPRESA

As empresas não possuem nenhum programa ou projeto voltado para educação ou treinamento de pessoal, de consumidores ou da comunidade com relação a responsabilidades ambientais.




5 CONSIDERAÇÕES

Após analisar a performance de gestão ambiental das duas indústrias com relação aos requisitos por nós estabelecidos a partir das propostas de ecoeficiência defendidos por Barbiere (2004) e Donaire (2002), e verificar o atendimento dessas empresas ao que dispõe a legislação quanto a aspectos relacionados com a segurança do trabalhador e o impacto de vizinhança, apontamos alguns aspectos conclusivos.
1 Impacto de vizinhança:
? Entre a manutenção do emprego e a saúde, o operário escolhe a primeira opção, ignorando as possíveis conseqüências dos efeitos da atividade industrial na saúde da família.

2 Segurança do trabalhador (layout e ambiente laboral):
? Falta consciência de segurança aos operários. Muitos se recusam a utilizar os equipamentos de segurança.
? Ao ampliar a capacidade de produção com a inserção de mais máquinas no pátio industrial, os empresários não priorizam a segurança e o conforto do operário submetendo-o a espaços reduzidos que dificultam a locomoção.
? A indústria que funciona em galpão aberto descuida-se da qualidade da iluminação do ambiente de trabalho. Soma-se a isso a ocorrência de agentes como fumaça e pó que comprometem a iluminação.
? O fluxo de processamento não é contínuo, provocando perda de tempo na linha de produção, configurando retrabalho.
? As indústrias não observam devidamente cuidados básicos de higiene e proteção ao ambiente interno e ao espaço externo destinado a estocagem e depósito de resíduos.

3 Dispersão de material tóxico:
? Apesar de conhecer as conseqüências do chorume em contato com mananciais, as empresas não tomam os cuidados necessários para evitar a contaminação dos córregos que passam pela área da indústria.

4 Destinação de sobras e reciclabilidade:
? As empresas não investem apropriadamente na destinação de sobras. Estas são acumuladas na área externa, exposta a chuvas, num processo contínuo de decomposição e produção de material tóxico.
? A falta de planejamento da estocagem e venda, e a falta de condições adequadas de atendimento ao cliente refletem-se negativamente podendo comprometer o resultado.
5 Política ambiental adotada pela empresa:
? As empresas trabalham com recursos naturais, poluem o ambiente e não investem em programas de capacitação dos funcionários como gestores ambientais em seus respectivos setores de trabalho.
? As empresas deixam a desejar com relação a qualidade do ambiente de trabalho para a satisfação de necessidades básicas do trabalhador. Os operários que levam marmita para suas refeições, não dispõem de local apropriado para os procedimentos de higiene e descanso. Os operários fazem as refeições sentados sobre máquinas, pilhas de madeira ou caixotes dentro do pátio, em contato com a poeira do local.




6 CONCLUSÃO

A ecoeficiência é um modelo de gestão ambiental empresarial que se baseia na redução de materiais e energia por unidade de produto ou serviço aumentando a competitividade da empresa. Trata-se de um modelo que minimiza a complexidade da questão ambiental ao não contemplar o homem como parte do ambiente.
Adicionando a esse princípio diretrizes relacionadas à segurança e à saúde do trabalhador, estabelecemos uma análise comparativa entre duas indústrias madeireiras com o fim de verificar a performance dessas empresas no contexto de uma gestão ecologicamente correta.
As observações realizadas demonstram que as indústrias madeireiras focadas por este estudo, além de não dispor de um plano de gestão ambiental, não atendem satisfatoriamente a aspectos relevantes de um modelo de gestão que contemple a utilização dos recursos naturais e a ação do ser humano.
Apesar dos rigores estabelecidos pela legislação ambiental e do trabalho, as empresas ainda não atentem satisfatoriamente aos requisitos de uma gestão ecológica.
Apesar das condicionantes exigidas para licenciamento ambiental, as indústrias analisadas não correspondem aos apelos da legislação no que concerne a impactos da vizinhança, segurança no trabalho, dispersão de material tóxico, destinação de sobras e reciclabilidade, e política ambiental.




7 REFERÊNCIAS


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GOBBI, B. C. & BRITO, M. J. Gestão Ambiental como prática social em uma organização produtora de celulose: uma análise interpretativa. In: ENANPAD, 2005. Curitiba, Anais... Rio de Janeiro: ANPAD, 2005
MACHADO, D. D. P. N. & GIOMBELLI, V. Educação Ambiental dos Empregados e a Certificação ISO 14000: um estudo de caso na Companhia Têxtil Alfa. FURB, VI ENGEMA.
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SOUZA, M. N.; SILVA, M. A. A. da. A Tecnologia, o consumismo e seus impactos sócio-ambientais. Ambiente Brasil. Disponível em Acesso em: 13/10/2008.
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Pedagoga; Pós-graduada em Planejamento Educacional; Mestre em Ciências da Educação.
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