Resenha Sobre O Ato Fotográfico
- Por Tania Regina Martins Machado
- Publicado 27/09/2008
- Resumos e Resenhas
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O ATO FOTOGRÁFICO, Philippe Dubois
O Capítulo I – Da verossimilhança ao Índice.
De acordo com o autor, no primeiro capítulo ele busca retraçar o percurso histórico das diversas posições quanto ao princípio de realidade da fotografia defendidas por críticos e teóricos ao longo da história.
Neste capítulo ficam expostos três pontos de vista sobre esta questão.
Primeiramente se reconhece a fotografia como o espelho do real. Este é o discurso da mimese, em que o efeito de realidade encontrado na fotografia se dava graças à semelhança entre este objeto e a imagem real, ou seja, o seu referente.
No início, ingenuamente se considerava a fotografia como um "analogon" da imagem que buscava reproduzir. Aquela seria mimética por essência.
Entretanto é levantada a questão de que a fotografia, por sua gênese automática é testemunha da existência do referente, mas isso não implica que ela se pareça com ele.
Assim ganha espaço o segundo ponto de vista, em que se reconhece a fotografia como transformação do real. Segundo o autor, este é o discurso do código e da desconstrução.
Como já foi tratado no parágrafo anterior, houve uma reação ao ilusionismo do espelho fotográfico. O princípio de realidade reconhecido anteriormente foi designado como pura "impressão", seria apenas um "efeito".
A partir de então, tentou-se mostrar que a fotografia não é um espelho neutro, mas que é utilizada como um instrumento de transposição, de análise, de interpretação e até de transformação do real.
Nesta etapa a foto seguiria a concepção de símbolo em termos piercianos, pois esta é um conjunto de códigos.
No entanto, surge uma terceira forma de considerar a fotografia, e esta segue o realismo existente nesta prática, é um retorno ao referente, mas sem o ilusionismo mimético, presente na primeira fase.
Assim, a fotografia seria um traço do real, sendo este o discurso do índice e da referência. De acordo com este ponto de vista, apesar de se ter consciência dos códigos presentes na fotografia, inegavelmente esta transmite o sentimento do real.
Através da fotografia existiria um processo de atribuição, em que a imagem remete ao seu referente, indo além do efeito do real.
Desta forma, a fotografia é primeiramente, índice, em um segundo momento ela pode se tornar parecida ao seu referente, o que seria ícone e assim adquirir sentido, ou seja, tornar-se símbolo.
Capítulo II – O ATO FOTOGRÁFICO
Pragmática do índice e efeitos de ausência.
A princípio é importante considerar o que é a fotografia, ou seja, o traço, que tecnicamente é uma impressão de luminosidade variada.
Considerando-se a tricotomia peirciana ícone / índice / símbolo, a partir da qual o estudioso analisou o estatuto teórico do signo fotográfico e com a qual descartou a concepção da foto como mimese, apresentada logo no início do capítulo anterior, fica superada a idéia de semelhança da imagem ao seu referente.
De acordo com o autor, se é desejado conhecer o que constitui a originalidade da imagem fotográfica é necessário ver o processo deste ato, muito mais do que o seu produto. E este considera que a fotografia é a necessidade absoluta do ponto de vista pragmático.
DUBOIS (2003) apresenta algumas conseqüências gerais do estatuto de índice do signo fotográfico a partir de três tipos de corolários: a singularidade, a atestação e a designação.
A foto propriamente dita não passa de um negativo. E é deste material que se reproduz milhões de vezes o positivo da fotografia. Estes são a foto da foto, que ocorreu uma única vez. Daí a conseqüência de singularidade.
Outra conseqüência é o princípio de atestação, quando a fotografia, por sua gênese, é testemunha, ela atesta, ontologicamente, a existência daquilo que mostra. Aqui ganha destaque a utilidade da foto, que certifica, ratifica e autentica. Entretanto, isto não significa que a foto significa.
Muito ligado a este princípio está o de designação. Assim como o anterior, este está intimamente relacionado ao referente. O traço indiciário, mais do que atestar, designa, aponta, etc. A sua função é indicar, sublinhar, mostrar sua relação singular com um situação referencial determinada.
Para finalizar este segundo capítulo se torna interessante resgatar o que diz o autor em sua conclusão: "A foto é uma verdadeira fatia de espaço-tempo." P. 103.
Capítulo III – HISTÓRIAS DE SOMBRA E MITOLOGIA DE ESPELHOS
Os índices na História da Arte.
Neste capítulo o autor trata da "lógica do índice", ou seja, ele busca descobrir se com o aparecimento e o desenvolvimento da fotografia, no século XIX, foi possível destacar uma nova relação da representação com o real.
Para tanto, são tratadas duas questões. Primeiro é se a lógica do índice influenciaria outros meios de expressão artística surgidos após a descoberta da fotografia, desde o início do século XX. Como resposta a esta questão, se considera que a fotografia favoreceu uma espécie de renovação e relançamento das outras práticas artistas, como se, após a sua instalação e generalização, começasse a alimentar, a impregnar os artistas.
A segunda questão diz respeito à lógica indiciária, característica da fotografia, em que o autor se pergunta se tal lógica já estaria presente, ou não, nas práticas representativas anteriores ao ato fotográfico. A resposta é positiva, pois ainda, segundo o autor, desde o princípio a questão física singular do signo com seu referente foi colocada e trabalhada ativamente.
Como comprovação da segunda questão, tem-se a história da origem da pintura – Lascaux – em que se aplicava uma técnica primitiva, parecida com o decalque ou com a impressão, seria o chamado "padrão".
A pintura teria surgido das sombras, quando se começou a delimitar os contornos da sombra humana.
Entretanto a fotografia sempre foi muito trabalhada, pois trata com problemática do tempo, fixando-o.
Para finalizar, é abordada a figura mitológica de Narciso, por exemplo, em que o protagonista se encanta com a própria imagem refletida na água, é o jogo de espelhos, o que serve para que se faça uma analogia: assim como Narciso observa a sua imagem refletida na fonte, o que reflete será sempre a imagem do espectador que a observa e que nela se observa.
Capítulo IV – O GOLPE DO CORTE
A questão do espaço e do tempo no ato fotográfico.
Neste capítulo é tratada a relação da imagem com o espaço e com o tempo, ou seja, será tratada a questão do corte – em que se associa a foto a uma fatia única e singular do espaço-tempo que é cortada ao vivo.
Para tanto é tratado o corte temporal e em seguida se aborda o corte espacial, pois ambos passam justamente pelo ato fotográfico.
A consideração do corte temporal faz com que se considere o ato fotográfico como a paralisação da passagem do tempo, este que era evolutivo se torna petrificado.
Já o corte temporal produzido pelo ato fotográfico se trata da redução do transcurso do tempo a um simples instante, o que é conhecido como instantâneo. Mas a partir deste momento a superação desta temporalidade, este ponto de tempo que é cortado tem a sua perpetuação, o que aconteceu somente uma vez fica registrado para sempre.
No entanto, para ser ainda mais claro em sua colocação, o autor faz um paralelo entre o funcionamento da fotografia e da pintura e entre o trabalho do fotógrafo e do pintor. Ele recorda que onde a película é fotossensível, esta recebe a imagem de uma única vez, e a tela a ser pintada recebe progressivamente a imagem que se vai construir; assim também, onde o fotógrafo corta, o pintor compõe.
O pintor pode intervir e modificar a todo o instante a imagem, enquanto que o fotógrafo tem outro tipo de relação com o tempo, após o movimento que vai capturar a imagem – corte – tudo está feito.
Capítulo V – O CORPO E SEUS FANTASMAS
Observações sobre algumas ficções fotográficas na iconografia científica da segunda metade do século XIX.
Logo no início do capítulo o autor faz uma analogia entre a "fabricação" da fotografia e a existência de luz e a falta da mesma. Assim, para que uma imagem seja impressa na película sensível da fotografia é necessário que esta seja iluminada e que ainda emane luz de si mesma, e para revelar esta fotografia é utilizada a câmara escura.
Já ao analisar as crenças antigas de que a máquina fotográfica roubaria a alma da pessoa fotografada, o autor reconhece que essas tradições primitivas não deixam de ter um fundo de verdade. Isto ocorre ao considerar as fantásticas máquinas fotográficas do final do século XIX e também o fato que é primário à fotografia, a "fantasmização" dos corpos.
Uma questão interessante relacionada à fotografia é apresentada através de uma fórmula – "vídeo ergo non sun, vejo, portanto não sou", explicado por DUBOIS (2003, p. 223):
"Tal preceito é evidentemente elaborado por duas outras fórmulas infinitamente célebres e aqui filosoficamente desviadas para um terreno que não é o seu: o cogito cartesiano e o percept [objeto da percepção de Berkeley. O primeiro coloca a existência do sujeito na atividade de pensar: o ser é uma questão de conceito, de concepção e de conceitualização. O segundo já coloca o ser do lado do percept, da percepção – e isso sob uma forma quase negativa ou invertida (passiva): ser é ser percebido (e não perceber)."
Outra questão igualmente importante ao ver-ser visto é a do acreditar e do fazer acreditar. Esta crença está relacionada ao ato de ver, e leva consigo alguns preceitos como, "é preciso ver para crer", "só acredito no que vejo", etc. Tratando exclusivamente da visibilidade como fundamento da credibilidade, que aliada às concepções anteriores, a da percepção e a da conceitualização, introduz a ficcionalização.
Para o autor, o dispositivo fotográfico, assim como todos os dispositivos tecnológicos do olhar – cinema, vídeo, etc. – é uma tentativa teórica e técnica de realizar essa articulação dos princípios metafísicos, em que a fotografia conciliaria o pensar e o ser visto, o que definiria (pela negativa) a categoria do sujeito.
Finalmente, ver, pensar e acreditar, são os três operadores que faz com que se questione sobre os meios e os efeitos da representação. Estes operadores nem sempre funcionam positivamente, mas até com mais freqüência de modo invertido – negativo ou passivo, ou seja, ser visto, não pensar, fazer acreditar.
Capítulo VI – A ARTE É (TORNOU-SE) FOTOGRÁFICA?
Pequeno percurso das relações entre a arte contemporânea e a fotografia no século XX.
Este capítulo trata do questionamento acerca da fotografia ser uma arte. Segundo o autor, o problema é antigo e genérico. Durante um período do século XIX a fotografia tinha aspirações rumo à arte, já ao longo do século XX a arte se impregna de certas lógicas (formais, conceituais, de percepção, ideológicas, etc.) próprias à fotografia.
Entretanto o autor esclarece que encarar a fotografia como arte é uma questão ultrapassada hoje em dia, mas considera que a arte contemporânea é marcada por fundamentos da fotografia. Há artistas, que mesmo sem sabê-lo, trabalham fotograficamente.
Historicamente essa relação entre arte e fotografia surgiu com o desejo de que a fotografia tinha de "se fazer pintura", com o movimento chamado "pictorialista" (1890-1914), e em seguida com a obra fundadora de Marcel Duchamp, que abandona a arte chamada por ele de "retiniana", ou seja, de representação "clássica".
Outra tendência histórica e de início da abstração é a de El Lissitsky e a de Kasimir Malévitch do movimento "suprematista" ocorrido principalmente na União Soviética. Os componentes centrais deste movimento são a percepção, a concepção e a representação de um novo espaço, que está vinculado a um gênero fotográfico definido: a fotografia aérea, ou o seu inverso – antiaérea. Todo este movimento foi amplamente influenciado pelos anos que vão de 1914 a 1929, tempos de guerra e de grandes revoluções em que se desenvolveu técnicas e máquinas, particularmente para o armamento, para a aviação e para instrumentos óticos.
Por último, tem-se a grande instância histórica de vanguarda e muito importante neste campo – o dadaísmo e o surrealismo. Este movimento está estritamente relacionado aos dois movimentos anteriores.
O que caracteriza este movimento é o gosto pela provocação, como o culto do "surreal", desenvolvendo intensamente a prática do associacionismo (metáfora, colagem, agrupamento, montagem).
A foto é um verdadeiro material, icônico bruto e manipulável como qualquer outra substância concreta (recortável, combinável etc.), e, portanto, utilizável em diversas realizações artísticas, em que o jogo de comparações (insólitas ou não) pode exibir todos os seus efeitos.
A foto-montagem é a atualização mais evidente deste último movimento. E se trata de uma prática, principalmente entre os dadaístas, que correspondeu a desafios diversificados, como as fotomontagens exclusivamente para a denúncia política às mais plásticas ou mais poéticas até as combinações mistas e de agrupamentos "multimídia".
Capítulo VII – PALIMPSESTOS.
A fotografia como aparelho psíquico (princípios de distância e arte da memória).
De acordo com o autor, há uma obsessão resultante da distância e da proximidade da imagem fotografada, da ausência e da presença, do imaginário e do real. Esta obsessão faz com que as pessoas amem a fotografia, e também lhe proporciona uma aura – o que seria uma única aparição de um lingínquo, por próximo que esteja.
É esta obsessão que faz da foto o equivalente visual exato da lembrança. A foto é sempre uma imagem mental, ou seja, a memória é feita de fotografias.
O autor recorda que em suas obras, Freud sempre tratou da vida psíquica como um aparelho, e enfatizou a idéia de dispositivo, de transmissão e de transformação de energia, a idéia de funcionamento e trabalho (a elaboração psíquica), de organização no espaço, de arranjo com funções localizadas (as tópicas) etc. Este aparelho psíquico teria valor de modelo, e era chamado por ele de "ficção", que trata de explicar, de tentar fazer compreender e até de tentar fazer ver.
Assim, a fotografia se encontra como um instrumento, um dispositivo psíquico de primeira linha, que se localiza entre o olho e a memória, entre o olhar e o pensamento, entre visibilidade e latência.
Capítulo VIII – O PEDREGULHO E O PRECIPÍCIO
A respeito da obra fotográfica de Denis Roche
O autor inicia este capítulo fazendo uma analogia do seu trabalho em relação à obra de Denis Roche através de uma alegoria de PONGE (1947), em que este relembra que quando o homem chega à beira de um precipício ele se atêm àquilo que está mais próximo de si, o que é menor, como o pedregulho, para não ver o resto.
Para DUBOIS (2003) a obra deste fotógrafo parecia um rochedo incontornável, e ainda, o paradoxo do pedregulho de PONGE (1947) tem íntima relação com o funcionamento de Roche, que levou a tal ponto de intensidade a idéia do movimento interior mais vertiginoso no contexto mais fixo que existe.
Denis Roche soube manter por cerca de 30 anos de atividade criativa ininterrupta o paradoxo da agitação louca e da vertigem no próprio coração da mais rigorosa fixidez aparente. De acordo com o autor, seu trabalho é feito por dessa violência e dessa tensão, nele o vivo está no morto e vice-versa. Da mesma forma, a claridade está na opacidade, a profundidade está na superfície, o vazio está no cheio, assim como a fotografia está na literatura, e vice-versa.
Em sua obra, a fotografia é posta como
um depósito e como um dispositivo, assim como imagem e como ato, como
ato-imagem, é a atualização efetiva de todo o trabalho textual que a obra escrita
de Roche encarna. Ou ainda: a fotografia é o próprio pensamento da escrita de Roche e por isso se encontra
ausente, como imagem, em seu livro Depósitos
de saber & de técnica.
Assim, nos oito capítulos formadores deste livro, DUBOIS resgata a concepção do que é fotografia; as primeiras concepções encontradas para explicar a mesma, como espelho do real, transformação do real e como traço de um real; como foi desde o seu surgimento, com a construção de verdadeiras máquinas de fotografar, no século XIX; passando por várias histórias curiosas relacionadas ao ato fotográfico, como o exemplo da fábula de Narciso; também por movimentos artísticos inspirados na fotografia; do comprometimento psíquico do observador da imagem fotografada; chegando por fim, a sua utilização como documento.
DUBOIS destaca ainda a obra de Denis Roche, a quem dedica o oitavo capítulo, no qual apresenta algumas de suas fotografias. E considera tão imponente o seu trabalho, tanto de fotógrafo, quando de escritor, por ser capaz de escrever sobre o ato fotográfico sem se utilizar da imagem fotográfica.
Por fim, com este trabalho, tem-se o conhecimento teórico de todo o ato fotográfico, desde a sua gênese, passando por suas modificações no decorrer dos anos, e por fim, como é encarado na atualidade, como uma ferramenta de trabalho que pode ser utilizado até mesmo como testemunha documental.
Tania Regina Martins Machado
Licenciada em Letras Espanhol pela UFSM em março de 2007, cursando Especialização em Comunicação e Projetos de Mídia (UNIFRA) e Letras Português (UFSM)
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