Do Remédio à Cura
- Por Janos Biro
- Publicado 30/06/2008
- Filosofia
- Sem avaliações
Soluções paliativas são pseudo-soluções

Quando as pessoas tentam resolver problemas, elas tendem a pensar mais em aliviar os efeitos do que corrigir as causas. Por exemplo: Numa guerra há muito mais necessidade de curativos do que num estado de paz, embora em ambos a utilidade dos curativos seja a mesma, remediar os feridos. Mas, dizer que aplicar mais curativos é uma boa medida contra a guerra não faz sentido. Aplicar curativos é uma medida necessária para a continuação da guerra, soldados feridos não podem lutar.
É uma ilusão pensar que uma ação paliativa signifique algum avanço na solução de um problema. Uma ação paliativa não tem relação com a causa de um problema. Podemos fazer ações paliativas mesmo que desconheçamos completamente a causa do problema. Tudo que precisamos conhecer é um efeito. Enfim, aplicar paliativos é uma maneira de fazer alguma coisa sobre um problema correndo o mínimo de risco de realmente corrigir o problema.
A tendência a recorrer prioritariamente a paliativos ocorre principalmente naqueles problemas cuja causa não está bem clara. É comum confundir o efeito com a causa, quando tudo que se conhece é o efeito. Mas quando você sabe que é um efeito, não há motivo para continuar dando prioridade a ele. A prioridade passa a ser conhecer a causa. Quando damos mais atenção aos efeitos que às causas, não só não estamos resolvendo nada, como estamos deixando que o problema se agrave.
Embora isso seja aplicável a qualquer tipo de problema, escrevi isso pensando num tipo específico: o desespero humano. Na busca de um alívio para suas angústias pessoais, a maioria das pessoas recorre a medidas que raramente afetam a causa do problema, mesmo porque poucas delas reconhecem a causa. Elas embarcam em todo tipo de pequenos vícios. Porém, quando falamos de vícios, é só uma questão de tempo para que se tornem grandes.
É compreensível que alguém faça uso de tais métodos inicialmente porque não sabe mais o que fazer. O que não é compreensível é que, após ter reduzido os efeitos do seu desespero, essa pessoa não passe a procurar a causa. Na verdade ela esquece do problema, apenas por não sentir mais seus efeitos, ela trata o alívio como se ele fosse a cura. Há vários motivos para isso. Primeiro, a causa pode ser dolorosa demais. Tão dolorosa que a pessoa prefere passar o resto de sua vida sem ter que pensar nela, e muitas pessoas se matam ao serem expostas, por vontade própria ou não, à verdadeira causa de seu desespero, principalmente porque tomam a consciência do quanto ele é grande. Segundo, o mercado dos paliativos do desespero já é grande demais para ser desmontado de uma hora para outra. As empresas gastam muito dinheiro para manter seu número de usuários sempre crescendo. A influência de suas campanhas publicitárias é inegável, e o fato que a maioria dos usuários começa num período em que estão mais sugestionáveis não é coincidência. Existe uma espécie de "culto" ao produto paliativo, e as pessoas não reconhecem que na verdade estão cultuando empresas que lucram com o aumento de suas frustrações.
Não estou dizendo que as pessoas vão resolver seus problemas deixando de consumir paliativos, muito menos estou propondo alguma solução para o desespero humano. Estou simplesmente atentando para o fato de que temos sido muito coniventes com o uso excessivo de paliativos de todos os tipos, como se fossem soluções, ou como se tivessem alguma funcionalidade contra as verdadeiras causas de nossos problemas, sejam eles quais forem.

