O Caso Isabella E A Banalização Do Poder De Gerar
- Por Wilson Correia
- Publicado 24/05/2008
- Sociedade e Cultura
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O Caso Isabela e a Banalização do Poder de Gerar
Pelo fato de o caso Isabella Nardoni ter provocado comoção público-midiática, enquanto diariamente, à sombra doméstica, outras crianças continuam sendo assassinadas, já sabemos que a justiça está perseguindo os assassinos e que a opinião pública parece satisfeita. À primeira vista, a mãe da menina está sendo elevada aos altares, também midiáticos e dominicais.
Entretanto, o intelectual que tem a tarefa de pensar fatos socialmente relevantes e até a tarefa de propor ações individuais e coletivas que previnam ou corrijam desatinos humanos, esses não têm a obrigação de dizerem o que a turba quer ouvir, muito menos de santificarem este ou aquele cidadão ou cidadã.
Pelo contrário! Por dever do ofício, às vezes esse tipo de profissional, formador de opinião, precisa ser amargo e mesmo cruel, no sentido de ver a realidade em sua crueza dura e sem o menor eufemismo.
Ao reverberar aqui neste artigo algumas falas de um desses que considero um intelectual que fala o que pensa, e não o que os ditames do pão e do circo querem que seja dito, talvez eu possa mexer com a sensibilidade de algum leitor. Entretanto, antes de qualquer idéia pré-concebida, antes de qualquer preconceito, o convite é à reflexão, à coragem de olhar a realidade tal qual ela é.
Vivemos em uma sociedade que absolutiza o "ter" em prejuízo do "ser". As pessoas se encontram numa correria tresloucada para acumularem coisas sobre coisas, as quais não levarão consigo quando deixarem este mundo.
Submissas aos imperativos do ter, possuir, acumular, consumir, lucrar... Muitas pessoas chegam ao cúmulo de verem a vida, a própria e a alheia, como uma mercadoria entre as mercadorias. Assim, em vez de um fim em si mesma, a vida passa apresentar a característica de meio, ponte para que outros objetivos e finalidades sejam alcançados. Entre eles, segurança econômico-financeira, estabilidade familiar, prazer lúdico e satisfação estritamente egoísta.
Já vi criança ser tratada como "meu brinquedinho", "minha princesinha", "minha companheirinha de oração". Minha, minha, minha... A possessividade falando mais alto do que qualquer outro valor que possa estar intrinsecamente presente no ser de uma pessoa que começa a viver.
É muito comum casais jovens dizerem: "É... os avós já estão cobrando um netinho..." Cobram um netinho como cobram o valor de uma dívida qualquer. Isso é fato, e não adianta dizer que não é assim.
Ao alertar-nos que "O 'problema da vida' surge apenas quando a vida não funciona", Cabrera (CABRERA, J. Projeto de ética negativa. São Paulo: Mandacaru, 1990), em seu livro Projeto de ética negativa, afirma que "A ética tradicional foi construída como se a vida fosse algo compulsivo, jamais enfrentou a possibilidade de tratar-se de uma escolha". Por esse motivo, o autor afiança-nos que ser "filho pode ser um Destino", assim como o são o nascer e o morrer. Em seguida, ele indaga: "... mas por que ser pai [mãe] o seria também?"
O fato é que ser filho não é fruto de uma escolha. Ser pai e mãe, porém, o é. E é exatamente nesse ponto, o da escolha, que residem motivos extrínsecos à própria vida que fazem certas pessoas quererem "ter um filho".
No caso Isabella, a coisa parece clara: um bom reprodutor, o pai, econômica e financeiramente garantido pela estrutura familiar, sendo disputado por duas mulheres pouco mais novas do que ele. Parece que elas vêem no estagiário de Direito aquilo que chama por aí de "bom partido", o eufemismo para "ele tem dinheiro".
Nesse caso, o "ciúme" denuncia interesses e as brigas escancaram os desejos egoístas de todos os lados. Em meio a tudo, as crianças, as únicas que não puderam escolher coisa nenhuma.
Não conheço as pessoas envolvidas nesse caso em discussão mais do que o brasileiro que vê televisão e lê jornais e revistas. Por isso não insinuo aqui que as maternidades e a paternidade envolvidas no episódio foram alcançadas por egoísmo cego. Porém, aproveito o ensejo desse debate para chamar a atenção para o fato de que isso tem ocorrido diariamente entre nós: o fato de interesses, caprichos, necessidades e desejos puramente egóicos estarem determinando a escolha por "ter filhos". Quando isso acontece, a vida não pode mesmo funcionar.
Penso que já entre nós uma certa banalização do poder de gerar. Por aqui, engravida-se para "segurar" um marido, à revelia dele; para se ter uma pensão alimentícia; para se herdar bens materiais e até para se ter com quem rezar.
Talvez seja o momento de pensarmos melhor no significado da patermaternidade. Se for para fazer com que a vida não funcione, é melhor que nos abstenhamos de procriar. Ou continuaremos a fazer vistas grossas para o fato de que muitas mulheres se engravidam apenas para tentarem a solução de problemas particulares?
Wilson Correia
Wilson Correia é Doutor em Educação pela UNICAMP. É mestre em Educação pela UFU. Cursou especialização em Psicopedagogia pela UFG. Graduou-se em Filosofia pela UCG. É professor universitário. É autor de Saber Ensinar. São Paulo: EPU, 2006. Endereço eletrônico: wilfc2002@yahoo.com.br.
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8 Comentários em "O Caso Isabella E A Banalização Do Poder De Gerar" 
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comentou em 25 May 2008 9:19:49 PM CST
Tomo a liberdade de fazer um comentário sobre o que escreveu, argumentando que cabe a nós como parte da sociedade, ainda que possamos estar errados, analisarmos a posição da opinião pública partindo-se da idéia de que o casamento ainda é algo único e sagrado. O pensamento de que ter filhos para algumas mulheres é resolver seus problemas particulares é exclusivamente culpa do homem. Acima de tudo, um homem consciente e racional que saiba pensar suas atitudes, deve saber - e sabe - selecionar sua companheira. Sabemos que é uma tarefa ainda mais difícil para alguns, mas é fato que vem da certeza do porque do homem, naturalmente, namorar muito e selecionar várias parceiras – é o processo seletivo natural - O homem racional que pensa, é naturalmente seletivo, sempre procura a melhor opção para o prosseguimento de sua espécie – diferentemente da mulher – o que é perfeitamente aceito pela sociedade. O problema são as mulheres. Como falou, casamento por interesse dá ‘status’, etc. Mas acho que uma mulher que sabe o que quer não resolve seus problemas desta forma. Não devemos ser tão pessimistas. Há muita mulher consciente por aí, e são a maioria - é só observar. Mulheres de garra, lutadoras e que de forma alguma se sujeitam a este tipo de coisa. Devemos acreditar no amor, no casamento; a principal célula que move a sociedade. Devemos acreditar no fruto desta união que são os nossos filhos o prosseguimento de nossa raça. Se mal ou bem, é só imaginarmos se hoje a humanidade resolvesse parar de procriar. Seria a extinção da nossa raça. Abençoados somos nós que vivemos em perfeita harmonia com nossa família e que ainda conseguimos se chocar com um caso como o da menina Isabela, seja este choque por influência da imprensa ou não. Sei também que existem tantos casos de assassinados frios e calculados e que não são assim badalados. O caso é que, ainda bem que existe a impressa para não calar a opinião pública que, com certeza, é o termômetro da ‘ética e da moral’ de nossa sociedade. Se hoje a vida é torna, mais é a vida; devemos sim, tentar arrumá-la e não destruí-la. Quando nos perguntamos o por que dos casamos e o por que de termos filhos, lembremos que muitos dos segredos da humanidade ainda não foram desvendados.
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comentou em 26 May 2008 1:09:27 PM CST
Concordo com os argumentos do autor.
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comentou em 27 May 2008 2:54:30 PM CST
Ceio que algumas mulheres agem como descrito no artigo. Creio, também, que o autor não generalizou o caso, dizendo que todas as mulheres usam inteiresseiramente o poder de gerar. Acho, ainda, que a proposta de abstenção não é um crime assim tão absurdo, haja vista que em algumas religiões seus líderes se abstêm não apenas de serem pais e mães, mas de constituírem uma família. Se família e paternidade e maternidade fossem algo tão excelente, esses religiosos não se absteriam dessa maneira. Parabéns ao autor pela oportuna chamada de atenção;
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comentou em 28 May 2008 7:33:38 AM CST
Realmente, esse caso expôs a face negra da violência doméstica, muitas vezes advinda da falta de responsabilidade tanto de pais quanto de mães que colocam filhos no mundo a torto e a direito.
Complicado, viu...
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comentou em 28 May 2008 11:07:05 AM CST
Gostei muito dessa perspectiva de reflexão... mto bom, vi casos assim muito próximo de mim e defato a vida não funcionou. Parabéns, Wilson!
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comentou em 29 May 2008 7:23:44 AM CST
Reflexao que ninguém ainda tinha feito; gostei muito.
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