Rosalvo Nobre Carneiro

Professor Assistente do Departamento de Geografia do CAMEAM/UERN

rosalvonobre@uern.br

Resumo: Este artigo procura mostrar as relações dialéticas entre a constituição do meio técnico-científico-informacional do município de São Bento, localizado no estado da Paraíba, o desenvolvimento das redes nacionais e locais e as inovações técnicas e tecnológicas no processo de produção e organização espacial vinculadas à sua indústria têxtil, ligada à fabricação de redes de dormir, levando em consideração as fases de seu desenvolvimento – artesanato, manufatura e maquinofatura – no contexto de estruturação da economia urbana dessa área e do período técnico-científico-informacional em escala mundial e nacional.

Palavras-chave: Meio técnico-científico-informacional, redes, inovações, indústria têxtil.

1REDES, INOVAÇÕES E INDÚSTRIA TÊXTIL: A FORMAÇÃO DO MEIO TÉCNICO-CIENTÍFICO-INFORMACIONAL DE São Bento

Como a indústria têxtil[1] ou os proprietários dos meios de produção, para usar os termos empregados por Roberto Lobato Corrêa[2], são, do ponto de vista desse artigo, os agentes centrais da inovação e da formação do meio técnico-científico-informacional em âmbito local, isto é, da produção e reprodução do espaço geográfico, busca-se por meio da descrição de seu processo de mecanização destacar as relações mútuas e contraditórias entre as inovações empreendidas por esse segmento do capital industrial, que faz parte do circuito superior marginal, e seu espaço por meio do desenvolvimento das redes nacional e local. Esclarece-se, adrede, que para Santos (1979, p. 80, grifo nosso),

"A atividade de fabricação do circuito superior divide-se em duas formas de organização. Uma é o circuito superior propriamente dito, a outra é o circuito superior marginal, constituído de formas de produção menos modernas do ponto de vista tecnológico e organizacional.

O circuito superior marginal pode ser o resultado da sobrevivência de formas menos modernas de organização ou a resposta a uma demanda capaz de suscitar atividades totalmente modernas. Essa demanda pode vir tanto de atividades modernas, como do circuito inferior. Esse circuito superior marginal tem, portanto, ao mesmo tempo um caráter residual e um caráter emergente".

A história local da atividade industrial pode ser dividida em três momentos distintos do ponto de vista das inovações que se dão nessa atividade e em seu espaço de atuação, tais como o do artesanato, o da manufatura[3] e o da maquinofatura[4], ou atual, também chamada industrial e cuja seqüência pode ser também creditada à história mundial dessa atividade, sendo que as duas últimas são as que mais de perto interessa a essa síntese.

Assim, partindo da consideração de que a indústria têxtil de São Bento evoluiu da fase artesanal dominante no início do século XX para a manufatura no final da década de 50 e que se encontra, hoje, em seu estágio de produção mecanizada (Carneiro, 2001, p. 11-22), dá-se ênfase inicialmente ao papel representado pela manufatura na constituição de seu meio técnico local, para em seguida destacar a relação entre a maquinofatura e a produção seu do meio técnico-científico-informacional, partindo da consideração desse processo evolutivo como inovação e no contexto das redes nacional e local.



[1] A indústria têxtil em questão é um segmento industrial que se caracteriza pela produção de redes de dormir, panos de prato, panos de limpeza, tapetes, mantas e cobertores sendo em geral formada de pequenas e médias empresas de capital local resultantes da transformação da atividade artesanal, surgida no final do século XIX, para a produção mecanizada.

A tecnologia empregada no processo produtivo direto se constitui de máquinas e equipamentos obsoletos, adquiridos principalmente nas fábricas têxteis de Americana, no Estado de São Paulo, quando da modernização de seu parque fabril, e adaptadas para a produção de panos grosseiros.

Boa parte da produção das redes de dormir ainda é feita com utilização de trabalho intensivo, particularmente o chamado "acabamento da rede", isto é, a colocação dos cordões, punhos e varandas da mesma o que garante renda e trabalho durante praticamente todo o ano para a população local e regional envolvida nessa atividade.

A comercialização da produção ocorre ora na feira livre da cidade, ora por vendas no atacado por produtores a comerciantes locais e externos à área, especializados na venda desse tipo de produto, ora pelo produtor que pode distribuir nacionalmente esse produto e vendê-los por meio da contratação de pessoal para esse serviço (os chamados "corretores" e "redeiros"). Pequena parte, ainda, é exportada tanto para os Estados Unidos como para alguns países da Europa.

[2] Para ele "os grandes proprietários industriais e das grandes empresas comerciais são, em razão da dimensão de suas atividades, grandes consumidores de espaço. Necessitam de terrenos amplos e baratos que satisfaçam requisitos locacionais pertinentes às atividades de suas empresas – junto ao porto, às vias férreas, ou em locais de ampla acessibilidade à população etc." (Corrêa, 1991, p. 13).

[3] O termo manufatura é usado aqui no sentido da produção que se verifica sob o uso e domínio de equipamentos manuais. Localmente esses equipamentos eram representados pelos teares manuais ou "teares de pau", espuladeiras manuais, urdideiras manuais e conicaleiras manuais, todos esses objetos técnicos construídos por marceneiros da cidade.

[4] A expressão maquinofatura é empregada no sentido de processo produtivo direto que se realiza sobre o emprego e utilização de máquinas elétricas na fabricação dos produtos. Aqui os instrumentos de trabalho manuais foram substituídos por máquinas, embora em alguns casos, como as urdideiras, ainda possa ser encontrada, mas nesse caso trata-se de uma permanência devida ao pequeno tamanho da fábrica, que em função do volume de produção não exige a obrigatoriedade desse equipamento em moldes modernos no processo de trabalho.

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