Aluguéis no Egito

No Egito é gravíssimo o problema de moradias, por culpa de lei iníqua do governo. O aluguéis não podem ser reajustados e o inquilino tem todo o poder de fazer modificações no apartamento que ocupa. Além disso, torna-se "sócio" do proprietário: o dono do apartamento só consegue retirá-lo se oferecer outra moradia.

De modo geral, é como o conhaque Dreher, "de pai para filho". O apartamento alugado o inquilino pode depois passar para seu filho, depois para o neto e assim por diante. Por conta deste absurdo, há em torno de 2 milhões de apartamentos fechados em todo o Egito. Preferem deixá-los vazios, entregues às moscas e à poeira, em vez de "socializá-los". Ou então, alugá-los por temporada aos sauditas e demais árabes ricos da região do Golfo Pérsico. Ou ainda para estrangeiros que trabalham em embaixadas ou em companhias multinacionais operando no Egito. Sabem que não terão o problema do "inquilino-sócio".

Conhecemos uma brasileira, casada com um egípcio, que só pagava 10 libras de aluguel, o equivalente a 3 dólares. Como moradores antigos e a lei não autorizando nenhuma espécie de aumento, apesar da inflação, moravam de graça.

O problema de moradia é tão grande que milhares de pessoas no Cairo moram nas "Casas dos Mortos", como são chamados os cemitérios naquela cidade. Esses cemitérios ficam nas proximidades da Cidadela de Saladino e as pessoas circulam pelas tumbas com a maior desenvoltura. Muitos desejam transferir os cemitérios para longe da cidade, no meio do deserto, para que aquele local possa comportar conjuntos habitacionais para a população. Outros opinam por criar uma outra capital para o Egito, em pleno deserto, para aliviar a pressão populacional sobre o Cairo.

Várias cidades já foram construídas em pleno deserto, como a Cidade Seis de Outubro, entre o Cairo e Fayyum, e a Cidade de Sadat, a meio caminho entre o Cairo e Alexandria, na Rodovia do Deserto. Perto de Heliópolis, em pleno deserto, foi construída a Cidade de Násser, hoje um subúrbio do Cairo. O ideal seria que todas as cidades ficassem no deserto, preservando o Vale do Nilo para a agricultura. O Egito se ressente cada vez mais da perda dessas terras férteis para a construção de moradias, tendo que importar 2/3 dos alimentos pela absoluta falta de terra para a plantação. E não pense o leitor que não é viável construir cidades no deserto. Basta que a água chegue até lá. A Cidade de Násser possui largas avenidas, edifícios modernos, muita arborização e uma qualidade de vida que não se observa na maioria dos subúrbios do Cairo.

A mídia

A revista Veja escreveu um artigo sobre o Egito, no qual garantiu que muitos cairenses moram em cemitérios enquanto cães disputam ossos de defuntos... Com certeza, deviam ser ossos de cabras ou ovelhas, animais de abate muito comum no Egito. Como se observa, a imprensa muitas vezes distorce a realidade, mais engana do que informa, sua linguagem muitas vezes é cínica, cheia de meias-verdades e mentiras-inteiras.

Por essas e outras deve-se ter um cuidado redobrado com o "4º Poder" de nossa República, se não o 1º: a mídia. Ávida por vender cada vez mais o seu produto, com "focas" sem escrúpulos para mostrar serviço ao dono da empresa, cada dia que passa devemos estar mais atentos com ela.

Quem ainda não presenciou com os próprios olhos algum fato coberto pela imprensa e depois viu nos noticiários sair tudo distorcido?

Um jornalista de renome contou um caso interessante para exemplificar a falta de pudor de certos profissionais da imprensa. Em uma cobertura de desfile militar do Sete de Setembro, em Brasília, aplicando técnica de contagem da população presente que aprendera na universidade - distância poste a poste, largura da calçada, densidade das pessoas presentes, número de postes na rua do desfile, etc. -, o jornalista calculou em 60 mil o número dos assistentes. Depois, ao passar por um grupo de companheiros de profissão, ouviu que estes estavam confabulando para chegar a uma conclusão sobre o número da assistência. Um deles sugeriu que deviam ser uns 30 mil. Outro retrucou: "Que nada, não vamos dar essa moleza para os milicos, 15 mil está ótimo!". Depois de alguma discussão, chegaram a um número comum para colocar nos jornais: 20 mil...

Pass Comfort exótico

No Egito, as mulheres não passam roupa. Essa regalia é exclusiva dos homens.

Há centenas de lavanderias nas áreas residenciais de classe alta e média, com os seus passadores de roupa, todos homens. A mulher egípcia de certa posição vive como princesa. Nem água para ferver ela coloca no fogão, para o tradicional chá de todos os minutos. Assim, é lógico que não irá perder tempo passando roupa.

Nós também tínhamos um passador de roupa, que vinha a cada quinzena.

No primeiro dia em que veio o passador, enquanto estava na sala ensinando as crianças, minha mulher ouviu um ruído estranho vindo do quarto de meu filho Wagner, local onde o beduíno estava passando roupa. Pensou que o mesmo estivesse passando mal, foi até lá, mas estava tudo bem. Ninguém entendia o idioma do outro, mas através da mímica - minha mulher ficou doutora nisso no Egito - o beduíno deu a entender que não tinha nada. Depois, mais duas ou três vezes o mesmo ruído. A Nice foi conferir e o passador novamente deu a entender que estava tudo certo, não estava passando mal. Estava kúlo kuáis (tudo bem).

Então, pé ante pé, a Nice foi espiar para ver que diabo estava acontecendo. E acabou descobrindo, entre pasma e incrédula, que a água que ela tinha deixado para o sujeito beber estava tendo outro destino. O beduíno enchia a boca com a água da garrafa o quanto podia e borrifava a roupa para amaciar e dar aquele alisamento legal com o ferro elétrico. Fazia isso com uma técnica perfeita, um esguicho forte, com bastante precisão, que não permitia o desperdício de nenhuma gota d'água fora da roupa. Perfeição igual, só com uma garrafa spray da Pass Comfort. Que, por sinal, o beduíno tinha deixado de lado para exercitar seu exótico espargimento.

Posteriormente, na rua, em algumas biroscas, vimos alguns passadores também cuspindo água na roupa. E olha que sai bem passadinha...


Cruz Vemelha e Crescente Vermelho

Todos conhecemos a Cruz Vermelha, aquele organismo internacional dos "capacetes brancos" que oferece ajuda humanitária nas guerras e catástrofes em geral, e que age sempre em nome da neutralidade.

Os judeus têm seu similar, a Estrela Vermelha de Davi. E os árabes, o Crescente Vermelho. Como se vê, ninguém aceita o símbolo que não o da própria religião. É fácil entender porque os árabes não aceitam o símbolo da cruz. Seria o mesmo que se render à nossa fé, aos ocidentais "infiéis" que somos e que, segundo alguns fundamentalistas religiosos, seremos condenados a arder eternamente no fogo do inferno.

Assim, os árabes têm em suas ambulâncias o desenho da hilal (lua crescente), o Crescente Vermelho. O mesmo símbolo que se vê no alto das mesquitas.



No Cairo, tivemos a oportunidade de conhecer o presidente local do Crescente Vermelho, o médico palestino Dr. Fathi Arafat, irmão do líder da OLP, Yasser Arafat. Sósia do irmão famoso, mas sem o uniforme militar e o famoso lenço (keffiyeh) na cabeça, o palestino Fathi muito elogiou o Brasil, que conheceu há anos atrás. Em duas oportunidades, tivemos contato com o Dr. Fathi. Na primeira vez, batemos até uma foto juntos com ele, a Nice e eu, na casa de um amigo boliviano, Dr. Yussef Eid Torrico, casado com uma brasileira, Vera. O Dr. Yussef servia na Embaixada da Bolívia no Cairo, também é médico e, sendo descendente de palestinos, tinha uma íntima ligação com o Dr. Fathi.

Em Heliópolis, tivemos uma segunda oportunidade de rever Dr. Arafat, quando visitamos o Museu Palestino. Com muitas peças de arte e vestimentas características da Palestina, o museu nos abriu os olhos para aquele povo que tem uma longa história, muitas tradições e costumes singulares, e que agora vive sua diáspora, espalhado pelo mundo todo, sem direito a morar em sua própria terra. O mesmo que já havia acontecido com os judeus.

Após a visita ao museu, subimos para um patamar, onde foi servido chá e pudemos dar algumas tragadas na "shisha", aquele sofisticado "cachimbo" árabe. Um rapaz palestino, durante esse tempo, tirava trinados tristonhos de sua flauta, que aumentava a tristeza nos semblantes de todos os presentes. Por vezes, a conversa era interrompida e um silêncio pungente reinava sobre o patamar. Era a meditação profunda de todos os presentes. Dos palestinos, que lamentavam a falta de sua pátria. E dos estrangeiros, que respeitavam a justa tristeza dos palestinos.


Ver a sorte no café turco

No Cairo são inúmeros os bares, com cadeiras até nas calçadas. Grupos de pessoas, a maioria de galabeya (túnica egípcia) e turbante, sentam-se para jogar dominó, cartas ou gamão, além de fumar sua shisha (pronuncia-se xíxa) e tomar seu chá ou café turco. É o happy hour predileto do egípcio, assim como beber cerveja à tarde é a predileção de muitos brasileiros.

Nessas cafeterias, ou al-kahwa, não se vê mulheres. A fumaça toma conta dos locais, com a enorme quantidade de shishas sendo usadas por um e por outro, em rodízio, como se toma chimarrão no sul do Brasil: todos colocando o bico no mesmo aparelho.

A shisha é uma peça interessante para se fumar. Em metal ou vidro, na parte superior há um recipiente onde são colocadas brasas e, sobre estas, o fumo. A esse estranho aparelho é conectada uma mangueira emborrachada ou de plástico, com uma espécie de piteira na ponta, por onde é tragada a fumaça. Só que a fumaça, antes de chegar à boca do fumante, passa por um recipiente de água no fundo da peça, para filtrar a nicotina e o alcatrão do fumo. Na realidade, a shisha é um "cachimbo" bastante sofisticado.

Quando fomos comprar uma shisha em Khan Al-Khalili para guardarmos de lembrança, minha mulher perguntou ao vendedor se ele tinha "haxixe". Ele olhou para os lados, amendrontado, disse que não tinha esse tipo de produto e pediu que não pronunciássemos mais aquele nome. Quando entendeu o que procurávamos, riu do ocorrido e explicou a grande diferença que há entre "haxixe" e "shisha"...

Artistas locais famosos também freqüentam as kahwa, como fazia o idoso escritor Naguib Mahfouz, prêmio Nobel de Literatura. Naquele ambiente, em contato direto com o povo, Mahfouz extraiu muitos temas para seus romances, a exemplo da famosa Trilogia do Cairo: Palace Walk, Palace of Desire e Sugar Street. Obviamente, os títulos estão em inglês, não sei se já foram vertidos para o português. O falecido e famoso músico egípcio Mohammad Abdul Wahad também costumava freqüentar as kahwa.

Madrugada adentro, nas kahwa também podem ser encontrados ópio e haxixe, duas drogas preferidas dos traficantes no Egito, além de filmes pornôs. Muitos egípcios viciados utilizam o hashish (haxixe), em vez do fumo, em suas shishas. Para estes, hashish e shisha passam a ser mais do que um simples trocadilho. São também comuns os problemas domésticos, com os homens freqüentando as kahwa e retornando para casa muito tarde da noite, sob a bronca de suas mulheres.

Além do chá, que é tomado a todo instante por todos nas kahwa, há muita gente que prefere o café turco.



O café turco, na verdade, é um café comum que se toma com borra e tudo. Superamargo. A borra que fica no fundo do copo pode ter um significado decisivo para muita gente. Assim como alguns egípcios supersticiosos buscam as sibilas das bolas de cristal para prever seu futuro, além de buscar interpretações para as linhas de suas mãos, outros acham que os desenhos formados no fundo do copo com borra de café servem para prever o sucesso nos negócios, a chegada do amor, muito dinheiro e felicidade eterna. Basta saber interpretar os estranhos desenhos da borra de café que se formam no fundo do copo de vidro.


Viagens pelo interior do Egito



Além do Cairo, onde moramos durante 25 meses, conhecemos várias outras cidades do Egito. Constantemente íamos a Ain Sukhna, no Mar Vermelho, perto de Suez, para tomar banho de mar. A paisagem é desoladora naquela região. Terreno acidentado, muitas montanhas com rochas nuas, nenhuma vegetação à vista, pedras até a entrada no Mar, sem areia na praia. Porém, a água azul e morna do Mar Vermelho é um milagre que acontece naqueles ermos.

A Porto Said fomos duas vezes para algumas compras que aquela zona franca de comércio nos facultava. Porto Said, no Mar Meditarrâneo, é o término da viagem pelo Canal de Suez dos superpetroleiros que buscam o óleo bruto no Golfo Pérsico com destino à Europa.

Fizemos algumas viagens mais longas, especialmente a Alexandria e El-Alamein, a Sharm El-Sheikh e a Lúxor.


Viagem a Alexandria e El-Alamein

Aproveitamos os dois dias de festa da Páscoa copta de 1991 para conhecermos Al-Iskandariya (Alexandria) e El-Alamein. Assim, no dia 7 de abril viajamos para conhecer aquelas cidades junto ao Mar Mediterrâneo.

Viajamos de carro pelo interior do Delta, passando por cidades como Benha, Tanta, Damanhur e Kafr Salim. "Kafr" é um nome judeu e significa "aldeia", da mesma forma que Cafarnaum (Kafr Naum), em Israel, diz respeito à "aldeia de Naum".

O que chama a atenção no percurso de 220 km é que parece que a gente não saiu do Cairo, pela continuidade das edificações que há em todo o Delta, provando que a superpopulação egípcia não é uma ficção. No caminho pudemos admirar o eficiente sistema de irrigação em toda aquela região, com muitos canais secundários, de tamanhos decrescentes, como se fossem vasos capilares do corpo humano. Bombas a gasolina e o velho sistema de tração animal da época faraônica são ainda vistos puxando a água dos canais para a irrigação da plantação, normalmnente por meio de rodas d'água ou parafuso-sem-fim. Vimos culturas de cana, milho, alfafa e muitos pomares, além de alguns pastos em pequenas fazendas de gado leiteiro.

Durante o caminho, impressionou-nos o barulho de algo que parecia um avião a jato. Era apenas o rápido trem francês que liga o Cairo a Alexandria a mais de 100 km por hora.

No Delta do Nilo, bem como em todo o país, são muito comuns as construções em forma de cones, caiadas com um branco lavado, que servem para a criação de pombos. Com furos nas paredes e extensões de varetas para o pouso das aves, esses abrigos têm ainda a função de ajuntar, em seu interior, o guano, o estrume dos pombos, que é um fertilizante valioso. Um prato típico no Egito é a sopa de pombo, conhecida como molukhiya. Uma figura impagável é aquela observada em feiras-livres, com a mulher forçando a alimentação do pombo, colocando milho à força goela abaixo da ave, numa operação boca-a-boca. Essa cena vimos numa feira no centro do Cairo. Acredite se quiser. Ou veja uma foto no jornal Al-Ahram nº 165 de 21-27 Abr 94.

Alexandria é a segunda maior cidade do Egito, com mais de 3 milhões de habitantes. Fundada por Alexandre, o Grande, em 332 a.C., a cidade outrora comportou a "Civilização Alexandrina", onde floresceu importante centro de artes, ciências e escolas de filosofia. Hoje contém um movimentado porto e a cidade estende-se, principalmente, em uma estreita faixa de terra de restinga.

Alexandria é a cidade onde morou Cleópatra. Como muitos políticos brasileiros da atualidade, a rainha Cleópatra também mudava de "partido" com bastante freqüência. Desposada com um irmão, Ptolomeu XIV, Cleópatra aliou-se a Júlio César quando este invadiu o Egito. Na guerra contra César, Ptolomeu XIV foi morto e Cleópatra desposou um irmão mais moço. Depois de envenenar a este, Cleópatra acompanhou o imperador Júlio César a Roma. Para César era interessante a aliança com Cleópatra, mantendo-a rainha do Egito - embora só de fachada -, pois Roma necessitava muito do trigo egípcio.

A exemplo de Cleópatra, no antigo Egito era comum a prática do incesto: casamento entre irmãos, do pai com a filha, da mãe com o filho. O faraó Ramsés II, além da rainha Nefertari, sua esposa predileta, chegou a possuir em torno de 200 mulheres, algumas sendo suas próprias filhas.

Após o assassinato de César em 44 a.C., Cleópatra seduz Marco Antônio, então com o controle do império romano oriental, até ser derrotado por Otaviano na batalha naval de Actium. Quando este entrou em Alexandria em 30 a.C., Marco Antônio havia se suicidado e Cleópatra, com mais de 40 anos de idade, não conseguiu dominar Otaviano com seu charme. Presa para ser levada à frente da procissão vitoriosa de Otaviano em Roma, Cleópatra preferiu suicidar-se com a ajuda de uma ou duas cobras venenosas apertadas contra seu seio.

Cleópatra é mais lembrada por sua beleza e sedução e esquecida pelo seu senso político prático frente ao domínio romano. Ela reintroduziu a fala dos antigos egípcios, quase totalmente esquecida, assim como trouxe de volta os antigos cultos religiosos faraônicos. Ela tinha pretensão de entregar a Palestina aos filhos que tivera com os generais romanos e convenceu Marco Antônio a lhe dar as cidades costeiras da Palestina, assim como os bosques de bálsamo de Jericó, de fama mundial. Marco Antônio, porém, em atenção a seu aliado Herodes, o Grande, negou entregar-lhe o resto da Palestina. Herodes, junto com Otaviano, foi um dos poucos homens que conseguiram resistir frente à sedução de Cleópatra.

A cidade onde morou Cleópatra oferece muitos pontos de atração turística, com museus e mesquitas de beleza única no Egito. A fortaleza de Qait Bay é um imponente castelo que parece ter surgido de repente da Idade Média. Velhos canhões que guarneciam as praias de Alexandria ainda apontam para o Mediterrâneo. Atualmente, comporta um pequeno museu naval em seu interior. O castelo de Qait Bay fica na Ilha de Faros e foi construída pelos árabes no século XV sobre escombros do Farol de Alexandria, uma das 7 maravilhas do mundo antigo. Arqueólogos pensam desobstruir imensas colunas de pedra no fundo do mar, onde acreditam possam se esconder restos do famoso farol, destruído por um terremoto.

Conhecemos também o Monumento ao Soldado Desconhecido, em mármore branco de Carrara, que fica no lado norte da Praça Orabi. Nesse local é celebrada uma cerimônia de colocação de flores junto ao Monumento, realizada por militares brasileiros, a cada dois anos, quando o Navio-Escola Brasil passa pelo Canal de Suez e Alexandria, com seus guardas-marinhas recém-formados pela Escola Naval. Em 1991 o NE Brasil não passou pela região devido à Guerra no Golfo Pérsico.

A mesquita Sidi Abu Al-Abbas é um lindíssimo edifício que contém uma composição muito bem trabalhada de arabescos em suas 4 cúpulas, assim como em volta de todo o prédio e do minarete espetando os céus. Como era época do ramadã, à noite a profusão de luzes tornava ainda mais bonita essa que é uma das mais espetaculares mesquitas do Egito.

O Museu Greco-Romano de Alexandria comporta importante coleção do que restou do antigo período em que foi o centro vital de toda a cultura egípcia durante a dominação grega, o período ptolomaico e o domínio romano. Além disso, contém ainda objetos de outras partes do país, bem como da civilização faraônica.

Segundo a tradição, Alexandre, o Grande, foi enterrado em Alexandria em uma tumba secreta, dentro de um sarcófago de ouro maciço. Muitos aventureiros e donos de antiquários, no final do século passado, estavam convencidos de que o local secreto era a cripta da Mesquita de Daniel, porém não obtiveram permissão dos religiosos muçulmanos para continuar as investigações. No final de janeiro de 1995, autoridades do Conselho Superior de Antigüidades do Egito garantiram que a tumba de Alexandre foi encontrada no oásis de Siwa, próximo à fronteira líbia. Como a múmia encontrada não se manifestou ainda, resta aguardar exames mais acurados para comprovar tal achado. Em Siwa, hoje, a população predominante é de origem berbere, de pele mais preta que o egípcio típico. Durante a época faraônica havia um templo religioso importante naquele local.

O Palácio de Muntazah, cujo significado é "lugar de passeio", foi construído pelo Khedive (Vice-Rei) Abbas e serve ainda hoje como moradia oficial de verão dos governantes egípcios. Muitos dos despachos do Presidente Hosni Mubarak são realizados naquele palácio. Násser também utilizava aquele palácio em Alexandria para receber delegações estrangeiras, como o relatado por Moacir Werneck de Castro no Jornal do Brasil de 5 de dezembro de 1993.

Fomos até à praia, que estava quase deserta. Havia um velho navio enferrujado encalhado na areia e não arriscamos a entrar na água por ser época do ramadã e não ofender os muçulmanos com nossos trajes de banho, já que não havia ninguém na praia vestido à moda ocidental.

Seguimos então acompanhando a orla marítima de Alexandria, de carro, em direção a seu Porto, no lado ocidental. Foi muito difícil encontrarmos um local que desse acesso à praia. Muito depois do Porto, finalmente conseguimos um caminho para nos levar às verdes águas do Mediterrâneo. Estacionamos perto de um prédio abandonado em sua construção, por apresentar falhas estruturais e quase estar ruindo. Mas a decepção foi grande. Quando chegamos à praia, suas areias estavam enegrecidas de óleo, tornando impraticável o banho.

Chamou-nos a atenção durante o percurso a grande quantidade de casas e pequenos prédios semidestruídos que se viam em ambos os lados da estrada. Parecia que um furacão tinha passado pelo local. Provavelmente, foi o khamsín, a tempestade de areia e ventos fortes, que atingiu o Egito em fevereiro daquele ano, ocasionando várias mortes.

Seguimos em frente até El-Alamein. No caminho pudemos observar a enorme quantidade de vilas turísticas sendo construídas. Hoje, com o ataque dos fundamentalistas no Egito, devem ter pouco movimento.

As águas do Mediterrâneo naquela região são de um verde profundo. Churchill uma vez disse que a região de El-Alamein possui o melhor clima do mundo. Com certeza, não conhecia o clima e os verdes mares do litoral do nordeste brasileiro.

À tardinha chegamos em El-Alamein, local de famosa batalha da II Guerra Mundial. A Operação "Lightfoot" (que significa "na ponta dos pés"), codinome da Batalha de El-Alamein, começou em 23 de outubro e se estendeu até 4 de novembro de 1942. Enfrentaram-se o lendário Marechal Rommel, a "raposa do deserto", e os não menos lendários "ratos do deserto" do general britânico Montgomery. As perdas de Rommel foram enormes: 59.000 homens mortos, feridos e capturados; perda de 500 tanques, 400 canhões e grande quantidade de outros veículos. O VIII Exército de Montgomery perdeu 13.000 homens entre mortos, feridos e desaparecidos e 432 tanques foram colocados fora de ação. A vitória de Montgomery sobre o Afrika Corps de Rommel salvou o Canal de Suez das mãos dos alemães e italianos que poderiam, depois, ter acesso às ricas jazidas de petróleo do Oriente Médio.

Em El-Alamein há cemitérios que comportam os restos mortais de soldados alemães, italianos e aliados, onde todos os anos são reverenciados os mortos da guerra em solenidade que traz militares de todos os recantos do mundo, independente de vencedores ou vencidos daquela guerra.

Há também um museu bastante rico em ilustrações de combates, com maquetes mostrando as manobras e as batalhas ocorridas em Siwa, na Depressão de Qatara, em Marsa Matrouh, além de El-Alamein. Vestimentas de soldados alemães e dos aliados também são vistas no museu, destacando-se vários utensílios e roupas de uso pessoal de Rommel e Montgomery. Em frente ao Museu muitos canhões silenciosos nos lembram aquele gigantesco combate que foi a Batalha de El-Alamein.

Voltamos para Alexandria e nos hospedamos no Hotel Palestina, bastante modesto, porém com varandas voltadas para o Mediterrâneo. A praia em frente, sinuosa, lembrava a de Copacabana.

No outro dia, voltamos ao Cairo pela Rodovia do Deserto.



A Rodovia do Deserto que liga Alexandria ao Cairo é uma auto-estrada de boa pavimentação, pouco movimento e serve como opção à engarrafada rodovia do interior do Delta. Localizada um pouco fora do Delta do Nilo, no lado ocidental, a Rodovia tem também a finalidade de atrair habitantes ao longo de seu curso, onde se vê muitas construções em andamento e estufas para o cultivo de plantas diversas. É um inteligente método de aos poucos ir tomando as áridas terras do deserto para serem ocupadas por plantações e habitantes. A única coisa que falta é a água, pois o terreno é fértil. Como ela chega até lá em encanamentos, aos poucos o deserto vai sendo dominado pelo homem e se tornando verde.

No meio do percurso, também de 220 km, existe a Cidade de Sadat (Madinat Al-Sadat). Construída em pleno deserto, parece uma miragem que de repente surge ante nossos olhos. Caixas de água em forma de enormes cálices dão boas-vindas e entramos para conhecer aquela cidade, com prédios muito bem construídos, muitas praças e muito verde, porém sem nenhum habitante na época. Um pouco adiante há um complexo industrial para dar emprego aos moradores da Cidade de Sadat.

No Cairo perguntei por que a Cidade de Sadat ainda não estava habitada e se não havia perigo de invasão de moradores. Disseram que, apesar da falta de emprego e do problema crônico de moradias, muitos preferem ficar no Cairo, com todos os problemas que apresenta, a se estabelecer no deserto, longe de suas raízes. Por isso, talvez até hoje aquela cidade não esteja plenamente habitada.

O mesmo problema acontece na Cidade Seis de Outubro, perto de Fayyum, em pleno deserto, ao sul do Cairo, onde muita gente trabalha durante o dia naquela cidade industrial e depois enfrenta um percurso de horas para o retorno ao lar. Alguns estudantes no British Council me garantiram que enfrentavam diariamente aquele percurso, de ida e volta, para trabalhar em multinacionais alemãs e italianas estabelecidas naquela cidade.

Na chegada ao Cairo, depois de passar perto de uma gigantesca pirâmide e contornar algumas montanhas, pudemos observar a pesada poluição que paira sobre a cidade, que só desaparece quando algum khamsín, a tempestade de areia, leva aquelas nuvens pesadas de enxofre e gás carbônico para o deserto.

As pirâmides de Gizé nos diziam que estávamos bem perto de casa no retorno daquele belo passeio que fizemos até Alexandria e El-Alamein.


Viagem a Sharm El-Sheikh

Na época em que tentaram aplicar um golpe em Gorbachev, na então União Soviética, em agosto de 1991, viajamos a Sharm El-Sheikh, um balneário no sul da Península do Sinai, junto ao Mar Vermelho, entre o Golfo de Suez e o Golfo de Ácaba.

O balneário fica não muito longe de Gibal Moussa (Monte Moisés), como é chamado pelos egípcios o Monte Sinai que conhecemos da Bíblia, onde Moisés recebeu as tábuas de pedra com os Dez Mandamentos. Aos pés do Monte Sinai, de 2.285 m de altitude, há o famoso mosteiro de Santa Catarina, cercado por altas muralhas, que foi construído em 527 pelo imperador Justiniano. É um pequeno oásis entre montanhas desérticas, pelo verde exuberante encontrado em suas imediações. Natural de Alexandria, Santa Catarina foi martirizada no século IV por causa de sua fé. Próximo daquele local fica o ponto culminante do Egito, o Gibal Katherinah (Monte Santa Catarina), com 2.367 m de altitude.

No Sinai, perto da cidade jordaniana de Ácaba - palco de importante batalha vencida pelo aventureiro inglês "Lawrence da Arábia" e os árabes contra os turcos otomanos na I Guerra Mundial -, fica uma importante cidade turística, Taba. Quando Israel completou sua retirada do Sinai, em 1982, recusou-se a sair daquela região, dizendo que era parte de seu território. Após arbitragem internacional, Taba foi devolvida ao Egito em 1989.

O Museu de Taba, criado em 1994, exibe objetos faraônicos, greco-romanos, coptas e islâmicos, além de descobertas arqueológicas do Canal Al-Salam, que está em construção e vai levar a água do Nilo à Península do Sinai. O Museu inclui uma coleção valiosa que foi levada do Sinai por Moshe Dayan, ex-Ministro de Defesa de Israel, e devolvida ao Egito há pouco tempo.

Ao norte do Sinai, passando por El-Arish, ficava o famoso "caminho de Horus", por onde a Sagrada Família passou quando fugiu para o Egito e por onde também passou o general árabe Amr Ibn Al-Ass para conquistar aquele país. Horus é o nome de um deus egípcio, com cabeça de águia, e é o símbolo da Egypt Air, a companhia aérea estatal egípcia. Os antigos faraós já tinham descoberto no Sinai as ricas jazidas de cobre e pedras preciosas e estabeleceram seu domínio sobre a região.

As Minas do Rei Salomão, provavelmente, não ficavam no Sinai, na antiga localidade de Timna, ao norte de Taba, sítio de antigas minas de cobre, como se acreditava. As últimas especulações dão como endereço a Arábia Saudita, onde havia a rica mina de Ofir, possivelmente no local da atual mina de Mahd adh Dhahab, cujo significado é "Berço de Deus". Porém, o sítio da antiga Ofir nunca foi determinado com precisão. "Então foi Salomão a Asiongaber, e a Ailat, à praia do mar Vermelho, que está na terra de Edom. E o rei Hirão mandou-lhe, por meio dos seus servos, naus e marinheiros práticos do mar, que foram com a gente de Salomão, a Ofir, e de lá trouxeram ao rei Salomão quatrocentos e cinqüenta talentos de ouro" (Segundo Livro dos Paralipômenos 8: 17-18). A cidade de Ailat - balneário israelense atual - fica entre Taba e Ácaba.

Na Península do Sinai é grande o número de beduínos. Povo nômade, mudam de lugar com freqüência em busca de alimentação para seus animais. As mulheres dos beduínos, além dos vestidos longos, usam véus negros adornados com moedas de ouro ou prata, que cobrem quase todo o rosto, e que indicam o status de riqueza da família. Elas apascentam os animais, principalmente ovelhas e cabritos, com cães magricelas, em busca de vegetação que quase não se vê. Os homens usam túnicas longas e véus brancos com um laço negro para prender os mesmos à cabeça. Eles cozinham, tomam conta dos camelos e fazem fogueiras de varetas de acácia para aquecer o chá em latas enegrecidas pela densa fumaça.

O beduíno, porém, é um homem muito desconfiado. Totalmente isolado, suspeita de todos, até dos parentes mais próximos, que possam roubar sua escassa vegetação para o rebanho e a pouca água disponível. Um provérbio beduíno exemplifica bem sua filosofia básica: "Eu contra meu irmão; meu irmão e eu contra nosso primo; meu irmão, eu e nosso primo contra o mundo".

Um pouco ao sul de Suez, no Sinai, encontra-se importante sítio de peregrinação, que é a Vertente de Moisés. Segundo a tradição, a água era salobra e Moisés tornou-a potável quando fincou nela um cajado, durante o Êxodo dos hebreus para a Terra Prometida.

Após descrever um pouco sobre o Sinai, voltemos à nossa viagem ao balneário de Sharm El-Sheikh, onde ficamos uma semana. Encostado numa enseada de águas mansas e mornas, Sharm El-Sheikh é um paraíso para turistas de todas as partes do mundo. Local de pesca e escafandria, os turistas se deliciam com a água cristalina, o sol sem fim, os corais multicoloridos e os peixes apresentando as cores e as formas as mais exóticas possíveis. Muitos grupos de excursionistas utilizam submarinos ou barcos com o fundo em acrílico para poder melhor observar os corais e os peixes do Mar Vermelho. Há alguns barracões parecendo guarda-sóis gigantes em volta da enseada, construídos pelos israelenses durante a ocupação do Sinai, que apresentam o desenho estilizado da Estrela de Davi, símbolo judeu por excelência.

Ficamos hospedados no Hotel Marina. No complexo daquele hotel há muitos "iglus", cabanas arredondadas, feitas de material sintético, porém confortáveis, com ar-condicionado.

A viagem até Sharm El-Sheikh fizemos num ônibus de fabricação brasileira, da Marcopolo. Havia TV e vídeo a bordo, além de ar-condicionado, que é necessário em todos os ônibus turísticos do Egito por causa do calor infernal. Levamos quase 8 horas para chegar até lá, com a televisão no volume máximo, que não nos deixou dormir quase nada à noite. Mas foi ótimo para desintoxicar nossos pulmões do ar poluído do Cairo e pegar um bronzeado carioca. Na viagem de volta, durante o dia, pudemos ver muitas plataformas de petróleo no Mar Vermelho. E muitos cavalos-de-pau, em terra, trabalhando em seu balanço sem fim para sugar o ouro negro do fundo do solo.

Em Sharm El-Sheikh nos sentimos quase que em casa. Enquanto que em outras praias, como as do sul de Suez, minha mulher não podia ficar à vontade porque os egípcios ficam com os olhos caindo da cara quando vêem um maiô ou um biquíni, naquela localidade não tivemos esse tipo de problema. A maioria dos turistas era composta de estrangeiros. Encontramos alemães, italianos, japoneses, ingleses e espanhóis nos cinco dias que lá passamos. Mas havia algumas famílias árabes também.

Uma imagem inesquecível é você ver muitas das mulheres árabes, as mais conservadoras, entrarem na água de galabeyia, aquela túnica longa até o calcanhar, e com o lenço na cabeça, enquanto os maridos estão vestidos com minúsculos calções e, às vezes, só de cuecas... As mulheres, com as roupas molhadas coladas ao corpo, me fazem lembrar de José Acúrcio, o "José Português", que naquele sotaque característico e vocabulário bem realista nos contou uma vez: "Enquanto estes gajos se banham nestas minúsculas cuecas, estas donas, com a roupa toda molhada, com as tetas apontadas para a frente, ficam muito mais pornográficas do que se estivessem vestidas de biquíni!". Ora pois, pois...

Além da fauna exuberante encontrada sob as águas de Sharm El-Sheikh, havia uma outra fauna bem variada em terra. Um camelo todo enfeitado passeando pelas praias, uma tróica de bichas italianas rebolando com tangas lilás e rosa e... incrível!, até top-less.


Viagem a Lúxor

No dia 30 de março de 1992, duas semanas antes do nosso retorno ao Brasil, fomos conhecer Lúxor, no Alto Egito. A viagem fizemos em um trem de certo luxo, com poltronas macias, e bastante rápido. Como era à noite, nada pudemos ver no caminho. Heródoto, em seu livro História, relatou que levou mais de dez dias viajando de barco pelo Nilo, de Heliópolis até a antiga Tebas. Nós levamos apenas 9 horas.

Lúxor dista 720 km do Cairo e fica no sítio da antiga e gloriosa cidade de Tebas, capital do Império Egípcio por quase mil anos, chamada por Homero em sua Ilíada de "Tebas das cem portas, só os grãos de areia superam a quantidade de tuas riquezas". A partir do Novo Império, Tebas passou a ser a capital do reino dos faraós e atingiu seu apogeu durante o longo reinado de Ramsés II (1298 a 1232 a.C.).

Em Lúxor, hoje, destacam-se os templos de Amon-Rá e de Karnak, parcialmente em ruínas, na margem oriental do Nilo, e os Vales dos Reis e das Rainhas, na margem ocidental.

O Templo de Amon-Rá, "rei dos deuses", também conhecido como Templo de Lúxor, é um dos poucos testemunhos que restaram do glorioso passado egípcio em Tebas. Sua construção se deve aos faraós Amenofis III e Ramsés II. As fachadas da entrada do Templo lembram o filme Os Dez Mandamentos, cercadas por dois obeliscos. Atualmente, resta apenas um obelisco, de 25 m de altura, já que o outro se encontra na Praça da Concórdia, em Paris, próximo ao Museu do Louvre, desde 1836. Duas enormes estátuas de Ramsés II guarnecem a entrada do Templo, muito bem conservadas até hoje, com exceção de seus rostos marcados pelo vandalismo humano.

Os blocos de pedra e as colunas colossais que restaram do antigo Templo lembram a arquitetura sobre-humana das pirâmides, pelo exagero de suas dimensões. Todas as colunas, paredes e tetos contêm inscrições em hieróglifos. Um desenho encontrado com freqüência é o do conhecidíssimo Ramsés II, caçando com arco e flecha em cima de sua carruagem de guerra puxada por cavalos. No caminho até o fundo da construção, de 260 m de comprimento, destacam-se pátios internos e colunatas fasciculadas e papiriformes, onde o povo tinha acesso durante as cerimônias religiosas, e no final o templo propriamente dito, onde somente os sacerdotes e o faraó tinham acesso para o encontro com os deuses.

Num pátio interno do Templo de Lúxor, uma estátua muito bem conservada de Ramsés II nos chamou a atenção pelas suas feições muito parecidas com as do ator Yul Brynner, do filme Os Dez Mandamentos. Parece que ocorreu o inverso, que aquele ator serviu de modelo para a escultura.

O Museu de Lúxor, perto do Templo de Amon-Rá, tem muito menos quantidade de objetos faraônicos do que o Museu do Cairo. Porém, suas preciosidades são todas muito bem conservadas. Naquele Museu destaca-se a "cabeça de Hathor", feita de madeira e coberta com ouro. A deusa Hathor é o símbolo da fertilidade e aparece nos desenhos egípcios em forma de mulher com chifres e um disco solar na cabeça, ou com cabeça de vaca. No Museu despertaram nossa curiosidade as sandálias de couro tipo "hawaianas" e as cadeiras minúsculas encontradas na tumba de Tut Ankh-Amon, o rei-menino.

Após conhecermos o Templo de Amon-Rá e o Museu de Lúxor, viajamos de hantour (charrete) até o Templo de Karnak, distante 3 km.

Na época faraônica, Karnak era ligado ao Templo de Amon-Rá por uma avenida de esfinges e procissões religiosas eram feitas de um templo a outro. O grande complexo de Karnak, dividido em três áreas distintas, também foi construído por diversos soberanos - como Thutmosis I, Hachepsut, Amenofis III, Ramsés III -, destacando-se o templo de Amon, que poderia conter toda a catedral parisiense de Notre-Dame. Pode-se citar, ainda, as pequenas obras acrescentadas na época Ptolomaica (XXX Dinastia) e da época romana (30 a.C.). Enquanto que em frente ao Templo de Lúxor há fileiras de esfinges com cabeça humana nos dois lados da avenida, em Karnak temos a mesma disposição de esfinges em frente ao Templo, porém com cabeças de carneiro.

Um desafio a enfrentar os séculos são as 134 colunas de rocha com 23 m de altura da antiga "sala hipóstila", que media 102 m de comprimento e 53 m de largura. Essas colunas, verdadeira selva de pedra, algumas deterioradas pelo tempo, contêm, na parte superior, capitéis na forma de papiros (plantas) abertos que medem 15 m de circunferência.

Impressiona o colosso de Pinedjem, num pátio interno do Templo de Karnak. Por entre as pernas da estátua deste faraó, antigo grão-sacerdote de Amon em Tebas, vê-se grudada uma estátua feminina, retratando a esposa do faraó, de dimensões diminutas, comprovando a submissão das mulheres aos homens durante o período faraônico.

Ao fundo do Templo de Karnak, além de vários obeliscos colossais - um deles, o de Hachepsut com 3O m de altura e 200 toneladas de peso -, pode-se destacar ainda o Lago Sagrado, que tem as dimensões de um campo de futebol como o Maracanã, onde os sacerdotes se purificavam todas as manhãs antes de dar início aos ritos sagrados. Hoje, o Lago Sagrado faz parte dos roteiros turísticos de sociedades esotéricas, como a Rosa-Cruz. Ao lado do Lago encontra-se um escaravelho gigante, de pedra, sobre uma coluna. Um costume antigo é dar várias voltas em torno do escaravelho, para ter sorte. Ainda hoje muitos egípcios usam pequenos escaravelhos de pedra calcárea pintada de azul como amuleto.

Nas imediações do escaravelho gigante um camelô gritava seus produtos em espanhol. Quando soube que éramos brasileiros, começou a enumerar nomes de nossos presidentes: Sarney, Collor. E dizia que Maluf seria o futuro presidente. Perguntei a ele por que tinha tanta certeza e respondeu "Maluf árabi! Maluf árabi!". Então entendi a torcida do camelô.

Em Lúxor podem ser vistos modernos e luxuosos navios que fazem os famosos cruzeiros pelo Nilo, contados em estórias de romance e suspense, como Morte no Nilo, de Agatha Christie. Os navios seguem até a Represa de Assuã, parando em vários sítios arqueológicos, ou fazem o caminho em sentido inverso. Entramos em um daqueles navios e pudemos constatar o luxo: cabines individuais, piscina a bordo, salas de shows e jogos. Hoje, aqueles navios perderam muito do charme antigo e estão quase que entregues às moscas, devido à queda do turismo no Egito, de 50 a 70%, por conta dos ataques de fundamentalistas islâmicos contra turistas estrangeiros.

Chamou nossa atenção a quantidade de turistas japoneses em Lúxor. Em todos os locais por que passamos, no Egito ou fora do país, os japoneses eram sempre maioria: nas Pirâmides e na Cidadela de Saladino (Cairo), em Sharm El-Sheikh (Sinai), em toda a Terra Santa, Roma, Vaticano, Paris. Com certeza, com a moeda forte que têm e com o custo de vida altíssimo no Japão, fica muito mais barato passar as férias fora de casa. Nós, com o real valendo mais que o dólar, sonhamos um dia fazer o mesmo. O que pode ser apenas um breve sonho de verão deste início de 1995...

No segundo dia de visita a Lúxor alugamos um táxi para conhecermos as famosas tumbas subterrâneas nos Vales dos Reis e das Rainhas, que ficam na margem ocidental do Rio Nilo.

Atravessamos o Nilo em um ferry-boat e observamos uma extensa cultura de cana-de-açúcar, com trilhos para os trens apanharem a carga, e vários canais irrigando aquela parte do Vale do Nilo.

Guardando os Vales dos Reis e das Rainhas ficam os dois Colossos de Memnon. Estas estátuas de pedra têm uma altura de 20 m e é o que restou do antigo templo funerário de Amenofis III. Em péssimo estado, as estátuas apresentam rachaduras imensas e parecem que vão ruir a qualquer momento. Historiadores atribuem o dano a um terremoto que afetou toda a antiga Tebas no ano 27 a.C. Porém, outros acreditam que foi obra da barbárie do rei Cambises, da Pérsia.

No Vale dos Reis foram localizadas 22 tumbas faraônicas, pertencentes aos grandes soberanos da XVIII à XX Dinastia. Perto da entrada do túmulo de Ramsés VI, no dia 26 de novembro de 1922, os ingleses Lord Carnarvon e Howard Carter, o primeiro um colecionador de arte, o segundo um arqueólogo, fizeram uma das descobertas mais espetaculares deste século: o túmulo de Tuth Ankh-Amon. Os tesouros encontrados no túmulo do rei-menino - hoje no Museu do Cairo - foram os únicos que nos chegaram intactos, já que os tesouros dos outros túmulos foram parar em mãos de saqueadores e contrabandistas. Não conseguimos penetrar no túmulo de Tuth Ankh-Amon, pois o mesmo estava fechado para reformas e, principalmente, para evitar que os inúmeros turistas - na época uma média de 3.000 por dia -, entrando no hipogeu, afetassem ainda mais as cores das pinturas nas paredes. Hoje, o hipogeu de Tut Ankh-Amon é aberto a intervalos de tempo, para evitar a rápida deterioração das pinturas em seu interior, provocada pelo sal evaporado do suor, pelos micróbios trazidos pelos sapatos e pelo simples respirar dos turistas.

A sepultura de faraós em hipogeus e não mais em templos funerários começou com Tuthmosis I, que decidiu ser enterrado em lugar secreto e inacessível, interrompendo uma tradição de mais de 1.700 anos. Para a construção dessas escavações em rocha maciça, com corredores de dezenas de metros que levavam até a câmara mortuária, acredita-se que eram utilizados prisioneiros de guerra. Após o término das obras, os prisioneiros eram simplesmente eliminados, para não denunciarem o local onde o faraó havia sido enterrado. Porém, o repouso desses faraós durou pouco: os saques iniciaram-se ainda na época faraônica. Uma das peças mais cobiçadas era o "escaravelho do coração", um amuleto colocado sobre o coração da múmia, que permitia ao defunto alcançar a salvação no dia do Juízo Final, quando suas ações eram colocadas em um prato da balança.

Para evitar a violação das tumbas, os sacerdotes transportavam as múmias reais de uma tumba a outra, dentro da escuridão da noite. Ramsés III foi enterrado nada menos que três vezes. Alguns soberanos acabaram por permanecer juntos numa mesma tumba, como o grande Ramsés II e seu pai Seti I.

Conhecemos todas as tumbas que estavam abertas para a visitação. É impressionante verificar a obra sobre-humana dos antigos egípcios, que rasgaram o coração da montanha e perfuraram extensos túneis na rocha maciça, ao fundo dos quais ficava a câmara com o sarcófago. Imaginar como conseguiram isto, furando a montanha, descendo em degraus, seguindo em frente, construindo colunas e câmaras secundárias laterais, dobrando à direita ou à esquerda, em corredores de dezenas e dezenas de metros. Os hipogeus mais extensos são os de Seti I, Ramsés III, Ramsés IV e de Mineptah.

Sob o reinado de Mineptah aparece pela primeira vez o nome de Israel, encravado em um obelisco de granito: "Israel desolada, que já não tem sementes" - o que comprova a perseguição dos faraós contra os hebreus do sexo masculino, que tinham que ser eliminados ao nascerem. Mineptah era filho de Ramsés II, sob o qual os hebreus foram escravizados no Egito. Como Mineptah foi encontrado todo coberto de sal, há uma hipótese de que este tenha sido o faraó do Êxodo e que fora coberto pelas águas do Mar Vermelho quando perseguia os hebreus.

Da encosta do morro, em frente ao túmulo de Tuth Ankh- Amon, eu filmava tranqüilamente o Vale dos Reis quando fui convidado a descer, pois as fotos e filmagens são totalmente proibidas no local, quer fora, quer dentro das tumbas subterrâneas. Na câmara mortuária de Amenofis II, o flash da máquina fotográfica de minha filha traiu seu ato. Imediatamente um funcionário apareceu e arrancou a câmara de minha filha, querendo retirar o filme. Após alguma conversa - para valorizar a barganha -, um bakshish (gorjeta) resolveu o problema e a máquina foi devolvida.

No Vale das Rainhas conhecemos todas as tumbas abertas para a visitação, como as de Thiti, Amon-her-Khopechef e Khamuast. Infelizmente, o hipogeu da rainha Nefertari, esposa de Ramsés II, estava fechado para reformas. Descoberto em 1904 pelo italiano Ernesto Schiaparelli, o hipogeu de Nefertari é o mais belo e importante de todo o Vale das Rainhas, por suas esplêndidas pinturas. Nefertari é aquela figura conhecidíssima que tem sobre a cabeça um abutre com asas abertas encimado por um atavio real em forma de duas penas gigantes. É assim que ela aparece nos desenhos da tumba, fazendo a oferenda aos deuses, ou de mãos dadas com os deuses Horus e Ísis.

Na saída de um dos hipogeus, no Vale dos Reis, um vendedor ambulante nos mostrou um desenho colorido em uma lasca de pedra calcárea. O desenho imitava figuras faraônicas, muito semelhantes às dezenas que vimos no interior das tumbas. Enrolando a peça em um pano imundo, olhando desconfiado para os lados, como que escapando dos olhos da polícia, ele nos dava a entender que era um objeto de grande valor, que deveríamos comprar para não nos arrependermos depois. Até parecia que o sujeito tinha roubado a peça de algum museu. O desenho estava com as cores um pouco apagadas e sujas, com certeza feitas assim de propósito. Pediu pela peça 50 libras. Como já conhecia a manha desses ambulantes, ofereci 5 libras. Como bom ator que não perde o rebolado, fingiu uma indignação sem limites, trovejou alguns impropérios que não entendemos e fez que foi embora. Quando já estávamos embarcados no táxi, veio correndo e fechou o negócio por 10 libras...

Em Lúxor visitamos ainda o Instituto de Papiro Dr. Ragab, que fica dentro de um barco ancorado no Nilo, similar ao Instituto de mesmo nome no Cairo. É na realidade um museu, que apresenta lindos desenhos em papiros com motivos faraônicos, islâmicos e coptas.

Porém, nada mais romântico que navegar em uma feluca, aquele barco pequeno com mastro alto e vela que se vê em todos os recantos do Rio Nilo. É utilizado para pesca, transporte de materiais e lazer. Aproveitamos para fazer um passeio numa feluca, passando pelos imponentes navios-cruzeiros do Nilo e vendo toda a orla da cidade de Lúxor, onde se destaca o Templo de Amon-Rá.


Algumas estórias de humor

Quem não se deliciava, no Brasil, com o "imexível" Ministro Magri? Ou com "aquilo roxo" do Presidente Collor? Estas e outras situações cômicas, como o "bolero" dos Ministros Cabral e Zélia, conseguiram transmitir um toque de humor que ajudou, sem dúvida, a municiar fartamente jornalistas e chargistas. Poderíamos até dizer que a piada do ano de 1990 foi o "governo paralelo" do PT. E a de 1991 - alguém discorda, dentre os militares? - o famoso "soldão", da nova Lei de Remuneração dos Militares, que estava previsto para aumentar substancialmente os vencimentos dos milicos mas só conseguiu aumentar os descontos.

Nos dois anos que passamos no Egito pudemos contar com algumas cenas de humor, tão importante para nossa saúde, física ou mental. Rimos bastante quando soubemos que um antigo adido militar brasileiro designado para servir no Egito levou um caixote enorme, cheio de papel higiênico, como precaução, porque tinham dito a ele que aquele produto não estava disponível no Cairo. Embora o filho do adido tivesse alertado sobre o inusitado, por ser o Cairo a maior cidade da África e uma das maiores do mundo. A seguir, algumas estórias que ajudaram a nossa descontração no Egito.



Documento do Dr. Yussef

Nosso amigo Dr. Yussef Eid Torrico, Encarregado de Negócios na Embaixada da Bolívia, nos mostrou um documento bastante curioso.

Por ser integrante do corpo diplomático, com algumas regalias e imunidades oferecidas pelo governo egípcio, o Dr. Yussef tinha uma autorização por escrito, que lhe franqueava o acesso a vários locais no Cairo.

Curioso e ainda não dominando por completo o idioma árabe, o Dr. Yussef pediu que fizessem a tradução do documento na sua Embaixada, onde trabalhavam alguns egípcios. Dois deles lhe fizeram a gentileza e, na média, saiu a seguinte tradução: "O portador do documento tem acesso a todos os lugares, com exceção de alguns". Apenas isso, sem especificar quais eram as exceções. Ou quais os locais acessíveis...


A pressa dos egípcios

No Cairo, observávamos a pressa eterna dos egípcios no trânsito, buzinando sempre, correndo como loucos, não respeitando sinalização, querendo sempre abrir caminho de qualquer jeito. Sempre com muita pressa, loucos para chegar sabe Deus aonde. Minha mulher Nice elucidou o enigma:

- É simples, eles precisam ver duas, três ou mais mulheres num só dia.



Realmente, é preciso muita pressa mesmo para poder marcar o "ponto" em tantas casas diferentes...



Gaúcho da Fronteira

Um dia a Ludmila, uma garotinha esperta de 5 aninhos, filha de um casal brasileiro que chegou dois meses depois da gente, perguntou à sua mãe:

- Mãe, deixa eu ver o Gaúcho da Fronteira nesta revista?



- Gaúcho da Fronteira? - inquiriu a mãe.



Ela foi ver do que se tratava. Não era o cantor dos pagos gaúchos. Apenas, estampada na revista, uma enorme foto de Fídel Castro.


Horário de verão

O sargento Raul, que trabalhava na aditância militar da Argentina, estava tomando café tranqüilamente em casa, quando seu chefe telefonou querendo saber por que ainda não tinha chegado ao local de trabalho. O Raul disse que só iria meia hora depois, porque estava muito cedo. Somente após as explicações é que o coronel veio a saber o porquê do "atraso" de seu auxiliar: havia acabado o horário de verão e tinha esquecido de atrasar seu relógio...

Enquanto isso, este panaca que escreve estas mal-traçadas linhas, que no dia anterior havia enviado vários telex ao Brasil comunicando a mudança de horário a ser realizada, eu esqueci também de atrasar o relógio e estava me perguntando na Embaixada: "Por que será que até agora, quase 10 horas, não chegou ninguém ainda para trabalhar?"

Mas não aprendi a lição. No ano seguinte, no dia 1º de maio, à tarde, feriado nacional, fui levar as crianças para o catecismo. A aula começaria às 17 horas e chegando perto da igreja comentei com minha mulher: "Chegamos cedo, faltam ainda 15 minutos". Quando entramos no pátio do colégio, ao lado da igreja de São José, em Zamalek, a professora Stella e a freira Josefina nos aguardavam com um sorriso de orelha a orelha. Esquecêramos de adiantar o relógio. Tinha começado o horário de verão...


Quero máia!

Um passatempo predileto nosso era passear à noitinha pelas ruas do Cairo e entrar em todos os bazares para conhecer os produtos tipicamente egípcios expostos nas prateleiras. Não há supermercados grandes, como o Carrefour, embora comecem a aparecer alguns mercados de tamanho médio, como o Alfa e a rede Sunny. Lá, ainda predominam os antigos "secos e molhados" que existiam há 20 no Brasil, armazéns e lojas que podem ser encontrados em qualquer dobra de esquina do Cairo.

Numa dessas andanças, dentro de um mercado, minha mulher chamou "Maia"! para me mostrar alguma coisa - é assim que ela fala quando me chama pelo sobrenome, Maier.

Fui atender minha mulher, que estava com sua atenção voltada para quinquilharias diferentes do meu interesse, e quase que simultaneamente apareceu o atendente da loja com duas garrafas de água mineral para entregar à minha mulher. Ela não havia pedido nada, mas conseguimos decifrar o mal-entendido e rimos bastante: máia, em árabe, significa "água"...


Os caipiras saydis

No Egito, quem mais sofre com as piadas são os saydis, os caipiras provenientes do interior, especialmente do Alto Egito, que ficam perdidos quando chegam à cidade grande. São beduínos analfabetos que facilmente caem no conto de algum vigarista. Mas, os espertos habitantes da cidade até que não precisam inventar muitas anedotas. Elas acontecem, de verdade.

Há uma estória verídica de um desses saydis que chegou ao Cairo. Com algum dinheiro no bolso, ele queria fazer crescer rapidamente seu capital. Chegando ao ponto final de ônibus, procurou um senhor que lhe pareceu apto a orientá-lo em como melhor aplicar o dinheiro. A proposta apresentada para fazer render o dinheiro não podia ser melhor: comprar um bonde que atravessava a cidade. Era só subir no bonde e começar a cobrar a passagem de cada um. O bonde anda sempre cheio e, assim, logo poderia ver o sonho realizado, o dinheiro aplicado rendendo a valer. Somente quando o pobre sayd foi cobrar o dinheiro dos passageiros, ocasião em que foi jogado para fora do bonde, é que foi compreender em que furada havia se metido. Como se vê, não é só mineiro que compra trem...


Líbano, boa terra

Outra anedota vem do Líbano. Devem ter copiado do Brasil, onde temos a mesma piada. Deus fez o mundo e começou a dar um capricho especial na região onde hoje fica o Líbano: clima agradável, muitas árvores frutíferas, paisagens lindas, vales, montanhas, neve. Como sabemos, uma área onde durante 15 anos muçulmanos e cristãos brincaram de se matar numa guerra civil sangrenta. Bem, com todo aquele capricho de Deus em acabar sua criação naquele lugar, um anjo protestou:

- Mas, por que o Senhor está se esmerando tanto neste lugar, enquanto que em outras partes do mundo há terremotos, vulcões e furacões?

Ao que o Senhor respondeu:

- Mas você não sabe que povinho eu vou botar aqui!...

Tanque andando em marcha à ré

Os egípcios gostam de fazer piadas deles mesmos. Mesmo relacionando seu maior rival na região, Israel.

Numa de suas guerras contra Israel, um capitão egípcio quis saber de seu soldado por que ele estava dirigindo o carro de combate em marcha à ré para enfrentar o inimigo. O soldado respondeu:

- É que fica mais fácil para fugir quando os israelenses nos atacarem...

Você, leitor, deverá dizer que são todas piadas sem graça, mixurucas. Tem razão. Nenhuma delas leva você a dar gargalhadas. Mas é bom lembrar que estamos no Egito, voando em nosso tapete persa da imaginação, onde as piadas não são pesadas, não há aquela apelação que existe no Brasil, onde até para entreter crianças em um programa humorístico de TV se tenha que lançar mão de piadas "pesadas" o tempo todo.

No Egito não existe nada disso. As ruas podem ser muito sujas, o povo sem higiene. Mas uma coisa importante as crianças do Egito ainda têm e que as nossas crianças desde muito cedo já perderam no Brasil por causa da sujeirada que aparece diariamente na televisão, nas revistas, na vida do dia-a-dia: pureza. Lá você encontra ainda crianças inocentes, com 10, 12 anos. E mesmo os adultos têm um comportamento que muitas vezes pensamos que são todos criancinhas. Era muito bonito ver aquilo.

O leitor poderá dizer que sou moralista. Pode ser. Mas é bom lembrar que já estamos tão acostumados com o que acontece em nossa volta que achamos tudo muito "natural". Um exemplo: você só sente o mau cheiro das fezes quando entra em um banheiro onde alguém defecou. Enquanto você defeca, quase nem sente. Até lê jornal.

Uma vez, um colega do curso de inglês emprestou uma fita de vídeo e me recomendou que não deixasse que as crianças vissem. Fui observar, alta hora da noite, depois das crianças terem ido dormir, se poderia mostrar o filme para elas. Qual não foi minha surpresa quando vi que aquele filme tinha passado numa "tela quente" no Brasil, sem corte algum. E que as crianças já tinham assistido.

Como as águas do Nilo, que mansamente correm para o Mediterrâneo, os egípcios não têm pressa nenhuma em atingir esse estágio da civilização que nós ocidentais já alcançamos: violência de todo tipo, apelação sexual, completa falta de pudor. Era uma pena eu não poder gargalhar junto com os egípcios de suas piadas "mixurucas".


Obs.: o autor trabalhou 2 anos na Embaixada Brasileira no Egito (1990-92).