Chuva no telhado, pingo na lata

No Cairo nunca chove, a não ser durante o inverno, principalmente em dezembro e janeiro. Mas é uma garoazinha bem sem-vergonha que não molha nada. Chuva mesmo, para valer, não poderá haver nunca no Cairo. Seria um caos total para a cidade. A inesperada tromba d'água que caiu na região de Assiut, em 1994, provocando incêndio em um depósito de combustível e matando mais de 500 pessoas, atesta bem a falta de condições do Egito em enfrentar uma chuva forte.

As varandas dos apartamentos não possuem ralos. Da mesma forma, as ruas não possuem galerias pluviais nem são construídas de modo a facilitar o escoamento das águas durante a chuva. Quando uma chuva mais forte cai sobre a cidade, tudo vira uma piscina de água imunda que dá gosto de ver. Se você ficar debaixo de uma árvore durante um chuvisco, fica todo salpicado de sujeira, por causa da poeira e da fuligem da poluição que haviam se grudado nas folhas da árvore e se desprendem com a chuvinha.

As primeiras chuvas são verdadeiras chuvas ácidas. A poluição acumulada nas nuvens desce sobre a cidade e os campos de plantação, causando danos à saúde das pessoas.



Os egípcios adoram o inverno, quando podem ver alguma coisa parecida com chuva. Porém, eles não andam pelas ruas com a cara levantada aos céus para pegar as sagradas gotas de água no rosto - como escreveu a revista Veja em uma de suas reportagens.

Num homework (dever de casa) do British Council, onde eu estudava inglês, um egípcio escreveu uma redação bem interessante. Com o título fornecido pelo professor, If I were a millionaire, o aluno escreveu que, se milionário fosse, compraria uma mansão à beira de um lago, com muito verde em volta, neve nas montanhas, em um lugar que chovesse bastante. Queria ter o prazer de ouvir a chuva caindo no telhado e gotas de água pingando numa lata. Todo o sonho do egípcio era ouvir, à noite, com a cabeça junto ao travesseiro, o singelo pingar da chuva numa simples latinha...


Inglês, o esperanto que deu certo

O árabe desisti de aprender no Egito. Sabia um pouco que havia estudado com dificuldade, chegava no mercado e começava a falar em árabe, iniciando com os cumprimentos salám alíkum (a paz esteja contigo) ou sabáh al-hír (bom-dia). Porém, os egípcios apenas se limitavam em me retribuir os cumprimentos em árabe. Vendo a minha cara de gringo, eles todos logo queriam treinar seu inglês mixuruca como o meu e o resto da conversa era, invariavelmente, em inglês.

A pronúncia de muitos egípcios que falam inglês é lastimável. Tratavam-nos por "míssiu", querendo dizer mister (senhor). Logo que chegamos ao Cairo, passando por uma quitanda, ao comprar umas frutas, o egípcio disse que eram "siri baun". Quebrei a cabeça para saber o que isso significava, mas quando ele me mostrou três dedos entendi que eram three pounds (três libras). Aquele "th" inglês, que o Lula, o Vicentinho e o Romário pronunciam tão bem, eles convertem em "z" ou "s" e estamos conversados. Nas aulas de inglês, quando a professora pedia para repetirmos tudo o que falava, quando dizia altogether (todos juntos), o coro árabe era sempre o mesmo: "oltuguézer".

Quando cheguei no Egito, pensei que sabia alguma coisa da língua inglesa. Mas foi uma decepção. Você ouvindo as pessoas falando rapidamente, tendo que responder em seguida, é outra história. Hoje, embora não fale com muita fluência, já consigo entender bem uma conversação, noticiários na TV e no rádio, além de ler revistas e jornais sem nenhum problema. No Egito, até me arrisquei a alçar vôos mais altos, lendo Death on the Nile (Morte no Nilo), de Agatha Christie, e The Beginning and the End (O Começo e o Fim), do escritor egípcio Naguib Mahfouz, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1988. O que me fez perguntar: quando nosso escritor Jorge Amado, bastante conhecido no Egito, irá também receber essa mesma honraria?

Já que o árabe era difícil de aprender devido à falta de colaboração dos egípcios, passei a me dedicar ao inglês mais a fundo. Os egípcios já tiveram o francês como sua segunda língua, devido à influência napoleônica. Mas, no momento, o inglês é a língua estrangeira mais importante para eles, devido à longa ocupação britânica sobre aquele país. O inglês é tão importante no Egito que até o dinheiro, a libra egípcia, tem numa face desenhos faraônicos e tudo escrito em inglês. Noutra face, com desenhos islâmicos, o valor é escrito em árabe. As placas, nas ruas da cidade e no interior do país, têm letreiros em inglês e árabe, muitas vezes só em inglês. As grandes lojas mostram, também, letreiros bilíngües, por vezes trilíngües.

A Nice e eu estudamos no British Council, da Embaixada Britânica, e o Wagner e a Cristiane, no International Language Institute, o ILI. É que no British só aceitavam pessoas com mais de 16 anos e o Wagner tinha, na época, 11 anos e a Cris, 9.

Observamos o rápido desenvolvimento de nossas crianças no inglês, a Cris tendo a melhor pronúncia em casa. O que prova que quanto mais cedo você começa o aprendizado de uma língua estrangeira, melhor. Ela até fez uma pequena poesia, como dever de casa. Você quer conhecer?

"What is this?

What is that?

It's a cat,

It isn't fat."

Minha mulher também teve um desempenho muito bom no British, estudando dois níveis completos. E ficou craque. Por duas ou três vezes, ouvi a Nice sonhar em inglês...

Para meu aperfeiçoamento, procurava ler de tudo em inglês, além de ouvir os noticiários de TV e da rádio BBC de Londres. Lia regularmente as revistas Time e Newsweek e diariamente os jornais Egyptian Gazette e International Herald Tribune. Lia, também, o jornal semanal Al-Ahram (As Pirâmides), editado em inglês a partir de 28 de fevereiro de 1991. Esse jornal me deu muitas informações valiosas sobre a vida egípcia, o dia-a-dia das pessoas, locais de interesse turístico, tanto da cultura árabe, copta, quanto do antigo reino dos faraós. Muitos tópicos relatados neste livro tiveram aprofundamento extraído do Al-Ahram.

Há no Cairo três canais de televisão, todos de propriedade do governo. No Canal II podíamos ouvir noticiários em francês, às 19 horas, e em inglês, às 20 horas. Era um programa bastante compacto, de 20 minutos, que só mostrava imagens da Europa e dos EUA, além do Egito e do mundo árabe. Dificilmente aparecia alguma imagem sobre o Brasil. A TV egípcia é muito precária, há intermináveis lacunas entre um programa e outro, com a tela em azul. A técnica é rudimentar, com os apresentadores lendo diretamente os textos no papel sobre a mesa. Nada de teleprompter. Lá pudemos constatar, bem como em Roma e Paris, que as emissoras de TV no Brasil estão entre as primeiras do mundo, esbanjando técnica e qualidade. Não ficam devendo nada para ninguém. Porém, levam mole o troféu de programação mais irresponsável do planeta. O lixo que se vê nelas não é brincadeira.

Após a invasão iraquiana no Kuwait, em 2 de agosto de 1990, a TV egípcia transmitia, durante algumas horas diárias, o canal americano CNN. Esse canal era o nosso referencial durante a Guerra do Golfo, já que o noticiário local é censurado e pouco mostrava sobre o assunto. Porém, em matéria de informação, a CNN também foi uma decepção. Todos sabemos o quanto os americanos dificultavam o acesso às informações, segundo eles, por motivo de segurança.

To improve (para aperfeiçoar) meu inglês, sempre que podia eu escutava a BBC de Londres. Durante o conflito no Golfo Pérsico, todo dia, às 8 horas da manhã (6 horas em Londres), eu sintonizava o rádio naquela emissora famosa e era com grande expectativa que ouvia a introdução: This is London. It's 6 o'clock Greenwich Mean Time. (Aqui é Londres. São 6 horas, hora média de Greenwich). E a apreensão em saber dos últimos acontecimentos, mais um Scud caído em Israel ou na Arábia Saudita, mais 3 mil incursões aéreas dos aliados contra o Iraque, Israel prometendo revidar a agressão.

Através da BBC ouvimos também algumas notícias do Brasil, na maioria das vezes nada agradáveis, como a matança de crianças, conflitos de terras, a morte de mais um líder sindical, choques de garimpeiros com índios. Também tivemos notícias boas, como as 4 vitórias consecutivas de Ayrton Senna sobre Nigel Mansel em 1991, e que acabou se consagrando campeão na Fórmula 1.

Durante uma aula de inglês com a professora Yvone, de origem britânica, a pergunta inicial era o que significa national anthem. Por acaso eu era o único a saber que era "hino nacional" e a professora pediu para eu explicar aos outros que não sabiam. Fiquei surpreso quando a professora me pediu para cantar o nosso Hino Nacional. Foi com bastante emoção que comecei a cantar nosso lindo Hino, apesar de ter ficado com receio de não sabê-lo mais por completo. Felizmente, minha memória não falhou e fui até o fim da primeira estrofe sem problemas. Fui aplaudido por todos. Interessante é observar a coincidência do nosso Hino da Independência com o Hino Nacional Egípcio: a primeira frase musical, em ambos os hinos, é muito semelhante.

Uma das coisas boas que eu aprendi na caserna foi dar valor aos símbolos pátrios, tão esquecidos dos nossos colégios hoje em dia. Até Educação Moral e Cívica tiraram da escola, porque os nossos doutos educandos de hoje acharam que aquela disciplina foi obra dos governos militares e, portanto, deve ser enterrada para sempre.

Uma coisa me deixou convicto de vez, visitando outras localidades, como Israel, Roma e Paris. O inglês é mesmo fundamental no mundo moderno. Muitos podem até não gostar do way of life americano, de seu poder se estendendo sobre o mundo todo como a única superpotência que sobreviveu à guerra fria. Porém, da Europa à China, da Escandinávia ao Pólo Sul, você não pode passar sem essa maravilhosa língua que quebra todas as barreiras culturais, se faz entender e é entendido nessa nossa formidável Torre de Babel que é o planeta Terra.

Neste nosso vasto Brasil, unido pela mesma linguagem, não sentimos falta de qualquer outro idioma. Com a entrada em vigor do MERCOSUL, passaremos a sentir a necessidade de sabermos um pouco mais de espanhol, talvez mais do que o inglês. Porém, embora em nosso país o inglês só sirva para guias turísticos, estudiosos, empresários, ricaços e artistas que viajam muito pelo mundo, que me desculpe Zamenhof, mas o inglês é na realidade o esperanto que deu certo.

Um detalhe me chamou a atenção no Egito. Quando falávamos com italianos ou espanhóis, passei a observar que eu entendia mais facilmente a linguagem deles do que eles a nossa. Analisando melhor, é fácil entender porque temos um vocabulário mais rico que o deles. Como Portugal sempre foi muito mais influenciado pelos países vizinhos do que conseguiu influenciar a estes, o vocabulário português tornou-se extremamente rico, talvez um dos mais completos do planeta, com muitas palavras extraídas do espanhol, do francês e do italiano. Sem mencionar os árabes, de quem recebemos inúmeros vocábulos pelo longo período em que dominaram a Península Ibérica.


A 11ª praga do Egito

Sabemos pela Bíblia que após as 10 pragas que afetaram todo o povo egípcio, o Faraó - provavelmente Ramsés II - permitiu que os hebreus partissem. Mas, depois que os hebreus desapareceram atrás das dunas de areia, o Faraó perseguiu-os e seu exército acabou por se afogar no Mar Vermelho, depois que todos os hebreus tinham passado a salvo.

Os hebreus trabalhavam como escravos na construção de uma cidade chamada Pi-Ramessés, citada na Bíblia, nome proveniente de Ramsés. Aquela cidade ficava no sítio da antiga Avaris, capital dos hicsos, perto de um canal ligado ao Nilo, ao norte da atual cidade de Ismailia.

Ismailia é, atualmente, cortada pelo Canal de Suez e possui muitos lagos em suas imediações. Perto de Port Said, já próximo ao Mediterrâneo, há também muitos desses lagos salgados. Segundo um livro que li sobre Ramsés II, que esqueci de anotar, os hebreus, quando saíram de Pi-Ramesés em direção ao Sinai, não passaram propriamente pelo Mar Vermelho, bem mais ao sul. Teriam atravessado um desses lagos salgados, que tinha ligação com aquele Mar. Aproveitando a maré baixa, passaram sem dificuldades. E quando o exército do faraó tentou fazer o mesmo, a maré estava subindo e um vento forte poderia ter revolvido com vigor aquelas águas, ocasionando o afogamento dos soldados. Não se pode afirmar se essa versão é verdadeira. Porém, o simples fato de os hebreus terem passado incólumes e os egípcios terem se afogado já demonstra um milagre.

Ainda hoje, quando vemos campanhas como a do Betinho, contra a fome, acontece também o milagre da multiplicação dos pães, que aparecem para matar a fome de muitos famintos, a roupa para vestir muitos maltrapilhos, a população se tocando e colaborando de alguma forma.

E a 11ª praga do Egito, qual seria?



No período do governo real que antecedeu a Revolução de 1952, houve quem trouxesse da Argentina uma planta ornamental de nome "jacinto aquático", que servia para embelezar os lagos dos palácios e casarões do Egito. É uma planta que cresce muito rápido naquele clima quente e úmido, e logo se alastra como praga.

Quando essa planta começou a se desenvolver nos inúmeros canais que levam a água do Nilo para a irrigação das plantações, começou a ser chamada de "a 11ª praga do Egito". O jacinto aquático rapidamente cobre os canais, seus baraços se entrelaçam formando um tapete verde rígido que impede a navegação dos barcos. Além desse inconveniente, a extensa rede formada por esse vegetal consome uma quantidade de água fenomenal. Em contrapartida, o Egito bem que poderia ter mandado para a Argentina, como castigo, e não para o Brasil, o aedes Aegypti, o mosquito transmissor da dengue...

O trabalho para erradicar essa praga é tarefa perdida, ao menos do modo braçal como é feito. Esse tapete verde que cobre os canais não deixa de ter alguma utilidade: é um filtro natural para purificar a água imunda e fétida que o Nilo apresenta na região do Cairo. A trama desse tapete é tão firme e resistente que consegue sustentar pessoas. Os egípcios, sempre prontos para exagerar qualquer coisa, afirmam que muitos desses canais podem ser atravessados por jipes, tão resistente é o emaranhado do jacinto aquático...


Um corpo que cai

Há muitos edifícios sendo construídos no Cairo. Fica difícil imaginar de onde vem tanto dinheiro, já que o país é pobre e a infitah, a política de "portas abertas", é só relativa e ainda espanta investidores estrangeiros.

Os arranha-céus que crescem em todo o Grande Cairo são feitos sem nenhuma segurança para os operários. Os andaimes são improvisados com troncos de eucalipto e cordas.



Segundo nos afirmaram várias pessoas que moram no Cairo há bastante tempo, muitos operários já despencaram de prédios que hoje emolduram os cartões postais junto ao Nilo, como o Hotel Ramsés Hilton e as torres gêmeas, de concreto e vidro fumê, do Misr Bank (Banco Egípcio), muito parecidas - embora bem menores - com as do World Trade Center de Nova Iorque, que tremeram após um atentado terrorista.

O desleixo com a segurança não acontece só em prédios em construção. Na semana em que chegamos ao Cairo, próximo à Embaixada do Brasil despencou uma janela de ferro, matando um homem que passava na calçada.

Alguns meses antes de retornarmos ao Brasil, começaram reformas no prédio da Embaixada do Brasil, no último dos seus 13 andares. Você acertou, leitor. Caiu mesmo alguma coisa do prédio. Mas não foi um operário. Foram restos de cimento e pedaços de tijolo que num dia quebraram o vidro do Mercedes-Benz do nosso Embaixador e no outro, em 6 de novembro de 1991, o vidro traseiro do nosso Fiat. Nesse mesmo dia, o Emir do Kuwait fazia pose para as câmaras e apagava, através de controle remoto, o 732º e último poço de petróleo que ainda ardia, incendiado por Saddam Hussein.

Arguído, o engenheiro dono do apartamento em obras nos deu uma explicação bem razoável quando apresentei a conta do prejuízo: ele não era culpado pelo acidente, não havia jogado nada de propósito em cima do carro, lamentava muito o ocorrido e nada podia fazer. Traduzindo, não ia pagar uma piastra.

Fui então dar queixa na polícia, sabendo de antemão que não ia resolver nada. Apenas como precaução, já que as obras continuavam e o carro poderia sofrer prejuízo mais grave no futuro.

Chegamos à delegacia e um funcionário nos informou que logo um tenente nos atenderia. Como demorava, perguntei ao Salah, que levara como intérprete, o motivo da longa espera. Após as explicações, o Salah traduziu informando que o tenente estava rezando na mesquita e que já estava vindo.

Depois de meia hora, finalmente fui atendido. O tenente achou interessante a minha foto da carteira de motorista, que estava de viés. Quando mandei plastificar o documento, o operador da máquina tirou os grampos que prendiam a foto e esta correu um pouco durante a plastificação. Como o Egito é a terra do maalêsh, do "deixa prá lá", usei aquele documento durante os dois anos que lá estive, sem nenhum problema. Até carteira de motorista internacional tirei com aquele documento.

Enquanto me inquiria, toda hora um coronel numa sala distante chamava o tenente e este, após pegar o quepe deixado na mesa, ia atender com presteza, nos deixando a esperar mais um pouco. A operação bota-quepe-tira-quepe se repetiu umas 10 vezes e quase 2 horas após nossa chegada na delegacia a ocorrência estava devidamente registrada sob o número 2333/91.

A delegacia era de uma pobreza franciscana. Um escaninho atrás do tenente, com alguns papéis, era todo o mobiliário da sala, além do balcão e alguns bancos de espera. A ocorrência foi minuciosamente escrita em 2 folhas de papel-jornal, onde assinamos embaixo. O que foi uma temeridade. Assinar embaixo de um texto árabe, com aquelas letrinhas parecendo macarrão, e não entender nada, é o mesmo que assinar em branco. O tenente nos garantiu que o engenheiro responsável pelo estrago no carro seria chamado para dar explicações. Como o esperado, ficou tudo por isso mesmo. Fazer o quê? Maalêsh!


Dinheiro do Langoni e do Galvêas

Quando chegamos no Egito, em 5 de março de 1990, 1 dólar valia 2,67 libras egípcias (LE). Quando saímos do Cairo, em 14 de abril de 1992, dia do aniversário de minha mulher Nicinha (tomamos champanhe no avião, que chique!), o dólar valia LE 3,32. Em mais de 2 anos, a libra tinha se desvalorizado apenas 24,34% em relação ao dólar. Naquele período, obviamente, a inflação foi maior, porque o governo egípcio manteve, e ainda mantém, um câmbio artificial, que não reflete a realidade. Porém, para comparação, no Brasil a inflação em fevereiro de 1994, de apenas 28 dias, foi em torno de 40%.

No primeiro ano em que moramos no Cairo, os preços quase não mudaram. Meses e meses, até as piastras (centavos de libra egípcia) eram as mesmas, como a gente podia observar nas latas de leite Ninho.

Com o apoio dado aos aliados ocidentais contra Saddam na Guerra do Golfo Pérsico, o Egito teve perdoada toda sua dívida militar com os EUA e 50% de sua dívida externa com os EUA e a Alemanha, desde que cumprisse a cartilha do FMI, que passou a monitorar a economia egípcia e exigir medidas duras para saneamento de suas finanças. O governo começou a retirar vários subsídios, tanto de produtos alimentares básicos, como também de combustíveis e serviços públicos - luz, gás e telefone. E os preços aumentaram bastante.

A moeda foi controlada ferreamente pelo governo e a libra egípcia não se desvalorizou como era de se esperar. Por isso, no segundo ano deu para perceber a perda do valor da moeda a cada compra no mercado. Mas, não foi nem de longe o absurdo da inflação vista nos últimos anos no Brasil. Interessante é observar que, apesar da inflação continuar subindo no Egito, até o final de janeiro de 1995 o câmbio pouco tinha mudado - um dólar valia menos de 3,40 libras egípcias.

Vez por outra, o contínuo que trabalhava conosco na aditância militar, Salah, nos trazia dinheiro brasileiro e perguntava se ainda tinha valor, se eu podia trocar por libras egípcias. Eram pessoas que chegavam à Embaixada e tentavam trocar o nosso cruzeiro, cruzado ou cruzado novo, assinados por Galvêas ou por Langoni - os que me lembro - e não entendiam que aquele dinheiro não servia para mais nada, nem para mim que era brasileiro. O vexame era grande, pois nós, que temos um país riquíssimo, nos colocávamos nessa situação ridícula e eles, espremidos naqueles fiapos de terra cercados por deserto, tendo que importar 2/3 da alimentação, nos estavam dando exemplo de como ter uma moeda digna, confiável.

Por falta de eficácia do nosso governo e medidas mais duras contra os especuladores, não há plano econômico que sensibilize de vez industriais e comerciantes sem escrúpulos. Um exemplo cristalino pode ser dado a respeito. Na implantação do real, em 1994, os preços em cruzeiro real deveriam ser divididos por 2.750. Porém, as aves de rapina do comércio e da indústria apenas riscaram 3 zeros, ou seja, dividiram os preços apenas por 1.000. Por isso temos produtos três vezes mais caros que nos EUA e na Europa. Os salários foram fixados no rodapé enquanto que os preços foram parar no teto. Apesar disso tudo, os preços continuam subindo. O povo humilde, de baixos salários, e os aposentados mais uma vez se estreparam. Por uma questão de justiça deve-se afirmar que, ao menos por ora, possuímos uma moeda mais decente e já passamos a ter uma certa noção do valor dos preços - embora entre os mais altos do mundo.

Há pouco tempo, até os portugueses faziam piadas a nosso respeito, pela incapacidade de colocarmos um pouco de racionalidade em nossa moeda. No retorno ao Brasil, em 1992, vimos um outdoor em Lisboa, onde a revista Fortune dizia que o presidente Collor devia mandar nosso Ministro da Fazenda ler aquela publicação para resolver nossos problemas econômicos.

Para mostrar claramente como nossa moeda se depreciava, o Herald Tribune de 15 Nov 91 deu um exemplo bem prático: as 200.000 cópias do livro Zélia, uma Paixão, com preço de capa de Cr$ 6.500,00. Este valor, em março de 1990, quando Zélia Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda, equivalia a 170 dólares. No lançamento do livro, era menos de 7 dólares.

Assim, o que eu poderia ter dito ao egípcio sobre uma moeda podre que fazíamos questão de gastar com a máxima velocidade, que não dávamos valor algum? Que nem o nosso governo a queria e já a havia substituído por UFIR e tantos outros tipos de unidades monetárias? Que tinha que dizer a meu filho: "Vá correndo gastar sua mesada, que amanhã tudo estará mais caro!"? Depois da URV e do real, o que mais nos espera? Continuaremos a ter uma moeda que não serve nem para os colecionadores?


5º Jogos Africanos: Olimpíada Mubarak

Além da Copa do Mundo na Itália, em 1990, que acompanhamos pela televisão, houve outro evento esportivo de grande interesse no Egito: os 5º Jogos Africanos, realizados no Cairo e algumas cidades próximas, como Alexandria e Ismailia, a partir de 20 de setembro de 1991.

É uma copa africana em que quase todas as modalidades esportivas são disputadas, de 4 em 4 anos.

Foi construído um ginásio coberto, de alto gabarito, para completar a cidade esportiva em Heliópolis, onde também fica um grandioso estádio de futebol. A cidade esportiva é constituída de muitas edificações, uma verdadeira vila olímpica, com muitos ginásios, parque aquático, centros de convenções. Creio que estariam habilitados a sediar os jogos olímpicos sem muita dificuldade. Aliás, um dos sonhos do Presidente Mubarak.

Na cerimônia de abertura, à noite, toda a área próxima à vila esportiva ficou com suas ruas congestionadas. Muitas delegações estrangeiras nem chegaram a assistir a cerimônia de abertura, retidas nas ruas de Heliópolis. Voltávamos de Port Said e no engarrafamento perdemos o mesmo tempo que havíamos gasto na viagem de 220 km até o Cairo. Vimos passar a comitiva presidencial, armada até os dentes, com muitos guardas, batedores e até um pequeno carro de combate. Todo cuidado no Egito é pouco para a segurança de seu Presidente. Que o diga o ex-Presidente Sadat. Eu gostaria de ver o ex-Presidente Itamar, como presidente do Egito, se ele ia ficar brincando de gato-e-rato com sua equipe de segurança, dispensando sua guarda pessoal. Como é bom o nosso país e muitos não sabem!

Um amigo nos contou que na cerimônia de abertura dos Jogos os cristãos coptas praticamente não tiveram acesso ao estádio, tantas eram as dificuldades criadas.



A abertura dos Jogos Africanos foi abrilhantada com a dança de 1.800 meninas adolescentes seguida de show faraônico. Desfilaram carruagens faraônicas, soldados vestiam roupas simbolizando a antiga história egípcia, faraós e rainhas eram carregados por "escravos"em cadeiras fechadas. Com um bonito painel humano desenhando a palavra "PAZ" em 6 idiomas - devido à Conferência de Paz, entre árabes e judeus, prevista para iniciar naquele ano em Madri - e outras interessantes evoluções pelo campo, a tônica do evento foi uma exaltação ao Presidente Mubarak. Como já foi afirmado, com amplos poderes sobre o país, Mubarak é um "Ramsés" dos tempos modernos. Na realidade, os Jogos Africanos foram a "Olimpíada Mubarak".

Em muitos eventos, esportivos ou culturais, pode-se notar o empenho que os egípcios fazem em exaltar seus ancestrais. No encerramento de um festival internacional de cinema, pudemos observar o palco do teatro todo adornado com motivos faraônicos, incluindo portais de templos religiosos e obeliscos. Esse aspecto é sempre enfatizado pelos egípcios, embora anacrônico e já sem muito apelo. Os fundamentalistas islâmicos simplesmente abominam esse relacionamento com os antigos egípcios, principalmente por terem sido um povo politeísta. Por isso, criticam o governo por apresentar essa faceta como a mola propulsora do turismo no país - a história dos faraós com seus templos e suas pirâmides. Na morte de Sadat é bem significativa a afirmação de um dos assassinos do Presidente: "Matei o faraó!".



Durante os Jogos, os egípcios foram rápidos em aplicar seus ippons nos adversários - só que fora do tatame. Mil e uma mutretas foram armadas em cima dos estrangeiros. Viaturas que levavam delegações de outros países, às vezes enfrentavam "casualmente" tráfegos infernais, somente chegando aos locais da competição quando a mesma já havia acabado... Não é preciso dizer que o Egito ficou com o maior número de medalhas, prejudicando os outros 45 países estrangeiros.

No mês seguinte, em 11 de outubro, começou o VI Campeonato Mundial de Voleibol Masculino Juvenil, no Cairo, do qual o Brasil também participou.

O Brasil começou arrasador, ganhando da China, Venezuela, Iugoslávia, Bulgária e Japão. Mas tropeçou na Itália, ficando em 4º lugar. O campeão foi uma "zebra": a Bulgária.



Houve um fato interessante naquele campeonato. O time da então União Soviética não conseguia entender, no seu primeiro jogo, porque as cortadas de seus atletas saíam muito fortes, fora da quadra adversária, acabando por perder para a Tchecoslováquia.

Posteriormente, mataram a charada quando resolveram medir a quadra: estava com as dimensões inferiores à medida oficial... Maalêsh!


Passeios a cavalo e a camelo

Um hobby nosso, às sextas-feiras, dia de folga no Egito, era ir até a área das pirâmides para andar a cavalo ou a camelo. Mais a cavalo do que a camelo. Os camelos eram "pachorrentos e cansadíssimos de guerra", como diria Moacir Werneck de Castro, do Jornal do Brasil. Às vezes só encontrávamos matungos para montar. Porém, na maioria das vezes tínhamos sorte em andar em cavalos bem nutridos, que comprovavam a fama dos cavalos árabes, fortes, esbeltos, luzidios.

No primeiro passeio fomos literalmente "depenados" - como todo turista desavisado que não sabe o preço das coisas. Pelo passeio de uma hora pagamos 20 libras egípcias (6 dólares) por cada cavalo e o mesmo preço por um camelo, quando depois aprendemos que o preço normal eram 5 libras por cabeça. Maalêsh!.

No Egito, via de regra, os preços são mais altos para os estrangeiros, ao menos no que se refere a diárias em hotéis, entradas a museus e mensalidades escolares. Uma assinatura anual do jornal semanal egípcio Al-Ahram, em inglês, custa para os egípcios LE 26,00 (menos de US$ 8,00), para os outros países árabes US$ 60,00 e para o resto do mundo US$ 150,00. Fica a pergunta: estaria implícita a cobrança de uma espécie de juro aos "imperialistas" estrangeiros que exploraram o Egito por tantos séculos?

Os camelos na área das pirâmides são todos muito enfeitados e coloridos, como se fossem bonecos de brinquedo. Bastante fedorentos, muitos deles beijam o dono na boca após emitir um grunhido estranho. Um sucesso para as filmadoras dos turistas.

O passeio a cavalo ou a camelo começa numa área onde há vários estábulos, próximo a um teatro aberto, em frente às pirâmides, onde todas as noites há um show de som e luzes, com os alto-falantes discorrendo sobre a história faraônica em vários idiomas. Um passeio mais longo e não muito concorrido leva os turistas até as pirâmides de Sakara, a uns 20 km ao sul das pirâmides de Gizé. O passeio que sempre fazíamos nos levava até um local mais elevado, no deserto, de onde tínhamos toda a vista das pirâmides e, ao fundo, o Vale do Nilo e a cidade do Cairo. Daquele local pode-se ver não só as três grandes pirâmides mas 9 pirâmides ao todo. As pirâmides menores eram destinadas aos filhos e às mulheres dos faraós. Pode-se ver, ainda, ao sul do Cairo, os arranha-céus de Maadi, com as mais altas torres da cidade. Maadi é um bairro chique, com bastante arborização, onde moram principalmente americanos.

Um belo dia, fazíamos a costumeira cavalgada na área das pirâmides, com breves trotes e galopes, o beduíno que nos servia de guia fustigando os cavalos. Num desses galopes, eu estava um pouco à frente de minha família e de repente ouvi gritos. Olhando para trás, vi uma cena que não foi nada fácil para minha mulher: ela tinha caído do cavalo e ficara presa com um pé no estribo, sendo arrastada pelo cavalo a galope. Instintivamente, ela se desviava das patas do animal, que quase a golpeavam no rosto e no peito.

Rapidamente saltei do cavalo para acudi-la e chegamos juntos, o beduíno e eu, para frear o cavalo e socorrê-la, que a essa altura tinha desmaiado.

Quando voltou a si, a Nice me deu a maior bronca do mundo, por não tê-la socorrido de imediato. O pesadelo devia ter durado uns 10 ou 15 segundos, mas para ela foi uma eternidade.

Uma radiografia no pé tirou todas as nossas dúvidas. Não havia nada de mais grave, nenhuma fissura no osso, só uma marca roxa no pé que ficara preso no estribo. Coincidência ou não, depois desse dia não passamos mais a cavalgar na área das pirâmides. Seguro morreu de velho.

Há no Cairo uma excursão de 5 dias, em lombo de camelo, até um oásis. Um conhecido nosso contou a epopéia que é fazer um passeio dessa natureza. São dois dias para se chegar até o oásis, um dia para descansar dos solavancos do camelo e mais dois dias para a volta. Uma experiência que não vale a pena repetir.



Kkamsín, o vento de 5O dias

Khamsín (pronuncia-se "ramsín", o "r" carioca), em árabe, quer dizer cinqüenta. No Egito, khamsín é o vento que normalmente aparece na primavera - se é que no deserto possa haver primavera -, lá pelos meses de março e abril. Não aparece todo dia, nessa época, mas esporadicamente, num período de mais ou menos 50 dias. Por isso o nome de khamsín.

Ás vezes, esses ventos são verdadeiras tempestades de areia que deixam o Cairo com aspecto de fog londrino. Desert Storm (Tempestade no Deserto) foi a operação militar do Ocidente que expulsou os iraquianos do Kuwait. Nome bem apropriado, por sinal.

Em 1990, nós vimos pela primeira vez uma dessas tempestades cobrindo o Cairo de poeira. Mal dava para ver os edifícios do outro lado do Rio Nilo. Improvisando um rústico bazar, um quitandeiro amarrou entre duas casas um toldo que virou vela de navio, fazendo ruir a parede de uma das casas e machucando várias pessoas. Reclamaram quando bati uma foto.

Porém, um khamsín violento vimos no dia 3 de fevereiro de 1992 - um pouco antes da primavera. Durante o dia todo, o vento soprou forte, a poeira do deserto cobriu toda a cidade do Cairo, muitas árvores foram arrancadas, casas destruídas, tanto no Cairo quanto em Alexandria. Morreram umas 10 pessoas.

A poeira provocada pelo khamsín é como talco, penetra em toda parte, entrando por baixo da porta, pelas janelas fechadas e formando uma camada de pó na casa toda, inclusive dentro dos armários. O nariz fica uma meleca só. Não há proteção contra o khamsín, por mais fechadas que estejam as portas e janelas.


A ópera Aída

Inicialmente, a ópera Aída era para ser o grand finale das comemorações da abertura do Canal de Suez, construído pelo francês Ferdinand de Lesseps, em 1869. Mas houve contratempos. Embora seu autor, o italiano Giuseppi Verdi, tivesse finalizado a obra em 1869, a première só foi apresentada no Cairo em 24 de dezembro de 1871, num teatro que mais tarde um incêndio devorou.

Nas comemorações de seu 120º aniversário de apresentação, em 1991, assistimos à famosa obra no Cairo Opera House, junto à Torre do Cairo, um moderno complexo de salas para teatro, ópera e shows, construído e doado ao povo egípcio pelo governo japonês.

A ópera Aída é a história de amor de um general egípcio, Radamés, apaixonado por uma escrava negra etíope, Aída. Acusados de traição, acabam sendo sepultados vivos.

A orquestra foi conduzida pelo maestro italiano Danilo Belardinelli e os cantores eram todos egípcios, nenhum Pavarotti.



No primeiro ato, sobressai a romântica ária Celeste Aída, o cenário todo é composto de motivos faraônicos, colunas imensas, um templo ao fundo - idêntico aos portais do templo com obeliscos do filme Os Dez Mandamentos. Na parte inicial, a ópera é muito movimentada, com danças típicas executadas por escravos. Em cena, as preparações de guerra dos egípcios, na cidade de Mênfis, antiga capital do Egito antigo unificado, para fazer face aos etíopes no Baixo Egito, em Tebas, atual Lúxor.

O segundo ato é sem dúvida o ponto alto da ópera. A famosa Marcha Triunfal, com Radamés retornando vitorioso da campanha, é executada durante todo esse ato. A entrada dos vencidos depositando suas riquezas em frente ao faraó, as danças de escravos negros, o grande coral ao fundo, tudo prende ao máximo nossa atenção.

Nos terceiro e quarto atos há uma diminuição de ação. Os cenários ficam na penumbra, é mostrado o Rio Nilo banhado pelos raios da lua. E - heresia para os aficcionados do gênero - acabamos tirando uma ligeira soneca. A ópera começou às 20 horas e acabou depois da meia-noite.

Um imprevisto nos chamou a atenção durante o segundo ato. Na saída do coral, que era muito grande, havia uma coluna gigantesca que devia estar em falso e começou a balançar perigosamente, para lá, para cá, mas não caiu.

Porém, na noite de estréia, o fiasco foi maior, segundo soubemos pelos jornais. No início do segundo ato, enquanto as cortinas se abriam, havia ainda muitos trabalhadores em cena armando o palco. Uma coluna "levitava", sendo colocada no devido lugar. O contraste era bem forte: enquanto na platéia os homens estavam todos de terno e gravata e as mulheres com seus longos vestidos, muitos cordões e pulseiras de ouro, no palco um grupo de homens trabalhava com roupa jeans... Como dizem os egípcios, maalêsh!

Uma montagem exuberante da ópera Aída ocorreu em 1987. O local não poderia ter sido melhor: a frente da fachada do Templo de Lúxor e sua avenida com esfinges. Em 1994, para a comemoração dos 125 anos de criação da obra, houve uma montagem de Aída em frente de um dos mais esplêndidos templos do antigo Egito, construído em 1500 a.C. pela rainha Hachepsut, em Deir El-Bahri, próximo ao Vale dos Reis, em Lúxor. Celeste Aída!


Fodak, Ribacas, Made in Inland...

É notória a perseguição americana contra produtos farmacêuticos brasileiros, cujos fabricantes não pagam royalties pelo uso da fórmula química de muitos remédios. Não se precisa mencionar a pirataria em que se transformou o comércio de informática no Brasil, com equipamentos contrabandeados e softwares indevidamente copiados.

No Egito, observamos que os direitos autorais também não são respeitados. Há fitas "piratas" de vídeo e som que podem ser adquiridas em todos os cantos da cidade do Cairo, até em grandes lojas de departamentos. Há fitas de vídeo que os "piratas" não se deram ao trabalho mínimo de revisão, com repetições de cenas, falhas de toda ordem, falta de som.

O picolé Hebon, no Brasil, virou Sem Nome, por causa da pressão da Kibon. No Egito, a Kodak ainda não conseguiu fazer sumir as câmaras Fodak, feitas em fundo de quintal. A Ray Ban, da mesma forma, não conseguiu banir a pirata Ray Fan. Nem a Reebock conseguiu sustar a fabricação dos tênis Ribacas, que podem ser encontrados em muitas vitrinas cairotas.

No Cairo, a McDonald's também se faz representar, indevidamente, pela MaDonna, com aqueles mesmos arcos amarelos que identificam a famosa empresa americana de fast-food.

Mas, o mais interessante foi observar algumas bebidas alcoólicas que encontramos no centro do Cairo, à Rua 26 de Julho, que liga os bairros de Átaba e Mohandeseen. Em algumas dessas garrafas, com um líquido parecido a uísque, estava a arapuca: Made in Inland. Para um desavisado, a idéia é que estaria adquirindo alguma preciosidade da Inglaterra (England). Só que Made in Inland pode significar "Produto Nacional" ou até "Feito no Interior". Ou seja, não significa nada...