Não há nada mais belo do que um parto, o momento de um nascimento. Ao mesmo tempo, nada mais triste, também. Afinal, mais uma pessoa que nasce, é sempre uma a mais para morrer. Desde nossa primeira inspiração de ar em nossos rosados pulmões fresquinhos, nossa morte aproxima-se. É uma contagem regressiva e nem sabemos em que número começamos.

Parece, à primeira impressão, uma visão um tanto pessimista, até niilista, diriam alguns, mas nada é tão certo quanto a morte para um ser humano que nasça. E toda nossa vida é construída em cima da expectativa - e por que não, esperança? e do medo da morte. Sim, porque é latente que alimentamos uma esperança de que com a morte, os problemas resolvam-se, de que passemos para um lugar mais agradável, que teremos vida eterna livrando-nos, assim, do medo do fim, etc. Somos capazes de agüentar uma miríade de dificuldades, durante nossa vida, com o simples argumento de que será melhor depois. Até suportamos certas ocasiões desagradáveis com o intuito de "construir" um grande espaço confortável para o "eternamente".

Pois é, alimentamos, sim, uma esperança de que a morte melhore nossa qualidade de vida. Paradoxal? Nem tanto, mas completamente sem lógica. É preciso iludir-se demais para chegar ao ponto de aceitar, com resignação, situações ruins da vida como se fossem completamente naturais. Não que elas não sejam, mas quando aceitamos que as coisas devem ser assim, as chances de voltarem a acontecer desse jeito são enormes (Não quero entrar no mérito da situação da humanidade, essa é uma visão do comportamento individual, não podendo ser atribuída, nos mesmos parâmetros, às sociedades).

Além da esperança na "melhora de vida" com a morte, suprimos, à partir do nosso desconhecimento do que acontece após a "passagem", por assim dizer, nossa carência por justiça, acreditando em julgamentos divinos e juizes oniscientes. Esta cultura também é alimento para a resignação e é outra maneira de iludir-se quanto a existência de um lugar perfeito que satisfaça nossos anseios.

Se alimentar tais esperanças é bom ou ruim, cada um deve dizer por si. Mas basearmos nossas vidas neste conceito de que após ela, tudo será melhor, relega-a a um posto secundário em importância sendo, ao meu ver, uma aposta extremamente arriscada. Por isso, acho mais válido aproveitar tudo: as pessoas que convivemos, as emoções que sentimos, os pensamentos que produzimos, as situações que vivenciamos, pois são as únicas coisas que temos certeza e, mais certo ainda, é que um dia elas passarão.