Liberdade Para Amar Pelo Espírito - Parte 1
- Por Adir Freire
- Publicado 1/03/2008
- Estudos Bíblicos
- Sem avaliações
GÁLATAS 5:13-26 (PARTE 1)
A ênfase na liberdade é sempre suscetível de ser má compreendida e levada para além dos seus limites contextuais. Aliás, é exatamente isto que desejam os inimigos da liberdade cristã. Acusá-la de libertinagem é um modo de desqualificá-la, diminuí-la para, enfim, negá-la.
Tendo afirmado a "liberdade que nós temos em Cristo Jesus" (2:4), identificado os cristãos com Sarah, a "mulher livre" (4:22, 23, 30, 31), e declarado que "foi para a liberdade que Cristo nos libertou" (5:1), Paulo adverte os cristãos gálatas sobre o mau uso da liberdade e o fazcomo reação aos cristãos gálatas cujo comportamento havia se reduzido a relacionamentos nos quais o amor de Deus está ausente.
Ora, a liberdade cristã envolve não só a liberdade da tirania diabólica e da escravidão legalista, mas também uma liberdade para que o homem possa funcionar do modo como Deus planejou pela dinâmica de Sua Graça.
Pela obra de Cristo o cristão é livre do pecado (Rm 6:14), da Lei (2:19), do moralismo legalista que exige um comportamento sempre em conformidade a regras e regulamentos e das performances do auto-esforço que tenta agradar a Deus por meio de "boas" obras.
Entretanto, por meio de sua "obra consumada" Jesus nos libertou (5:1) e pela ressurreição dentre os mortos ele nos deu a graça de sermos livres para receber a dinâmica funcional de sua própria vida e caráter.
Cada pessoa cristã, portanto, tem liberdade para estar receptivo à expressão do caráter de Deus (ao invés de ser um escravo do pecado – cf. Jo 8:34,35;Rm. 6:6).
E mais: cada cristão ou cristã é livre para ser gente como Deus planejou, derivando e manifestando o caráter divino no comportamento cristão para a glória de Deus.
Deve-se ressaltar, contudo, que a liberdade cristã nunca é absoluta. Essa liberdade não o é, de todo limite ou restrição, nem é uma liberdade para se fazer tudo que se quer. Fazer tudo que se quer é intenção tirana, argumento idealistade quem ultrapassa limites alheios para impor os seus próprios. Deus planejou que os cristãos tivessem apenas como limite de sua liberdade, o amor que a possibilita expandir-se saudavelmente, permitindo todo o necessário à formação do caráter de Cristo no cristão.
Aliás, o próprio Deus em Sua onipotência exerce Seu poder no contexto de Seu caráter e até impõe-se um auto-limite, a fim de respeitar as escolhas dos homens.
Assim, liberdade é sempre liberdade no contexto. A liberdade de Deus ocorre no contexto de Seu caráter e a liberdade do homem ocorre no contexto de suas escolhas de conseqüências espirituais.
Embora o cristão seja livre para pecar ou não pecar no contexto de seu ser habitado pelo Espírito, ele não é teleologicamente livre para "caricaturar" o caráter de Cristo através de suas posturas moralistas, legalistas e auto-indulgentes, as quais não manifestam o amor de Cristo que é a base da identidade cristã.
Tal compreensão é fundamental para entendermos a explanação de Paulo acerca da liberdade cristã e de sua tentativa de evitar o mau uso dessa liberdade em comportamentos "moralmente corretos" segundo o contexto, mas completamente desprovidos de amor cristão.
Com efeito, Paulo, percebendo que sua defesa da liberdade cristã poderia ser confundida com uma liberdade além de seu contexto, certa vez escreveu: "Permaneceremos no pecado para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum!"(Rm 6:1).
Ao denunciar o legalismo (pecaminoso) que deseja tolher a liberdade, Paulo procura esquivar-se das possíveis acusações de estar defendendo a licença.
Ora, nenhum esforço para "fabricar" piedade negando a liberdade cristã produz o comportamento amoroso, razão por que Paulo enfatiza a questão da liberdade contextualizada. Isto é: estamos sob o Senhorio de Cristo para manifestar Seu caráter de amor em nossos relacionamentos interpessoais, o que implica que a nossa liberdade é a de amar pelo Espírito. Éo que veremos a seguir.
5:13 Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor.
Em contraste aos agitadores judaizantes que tentavam impor aos gálatas um "jugo de escravidão" (5:1) e sobre os quais Paulo expressou seu desejo de que eles mesmos se auto-mutilassem (5:12), agora, o apóstolo lembra aos jovens cristãos gálatas que alguém lhes havia feito um chamado: " vós, irmãos, fostes chamados à liberdade...".
Paulo, ainda considerando-os como "irmãos" em contraste com os "falsos irmãos" (2:4) que advogavam a submissão à Lei, reafirma (cf. 5:1) a liberdade em Cristo à qual Deus os havia chamado a participar. Portanto, não se tratava de um convite à liberdade feito por Paulo, mas um chamado de Deus à liberdade da santificação (I Tess. 4:7), na certeza de que é eficaz o chamado. (I Tess. 5:24).
O desejo de Paulo era, pois, que os gálatas compreendessem as implicações da liberdade cristã pela qual eles foram chamados a serem gente como Deus planejou, para serem livres segundo o senhorio de Jesus em suas vidas sem jamais se fazerem escravos de quem quer que fosse ou escravizar o servo alheio por meio de códigos, leis e quaisquer outros dispositivos que reprimem qualquer manifestação espontânea de alegria e sanidade diante de Deus.
Neste sentido, Paulo se precavê contra o abuso da liberdade: "porém, não useis da liberdade para dar ocasião à carne...".
O Apóstolo reconhece a tendência do homem para "afrouxar" a liberdade por razões egoístas que, no início parecem "corretas e boas", mas que no fim, geram licença. Por isso, ele pôde dizer aos coríntios: "vede, porém, que esta liberdade não venha, de algum modo, a ser pedra de tropeço" (1Co 8:9). Pedro, semelhantemente, escreve: "...não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia" (1Pe 2:16).
A palavra grega que Paulo usa para ocasião (aphormen) implica que a liberdade pode ser utilizada como um ponto-de-partida, um estímulo, uma oportunidade (cf. I Tim. 5:14) para a auto-indulgência da carne.
Embora "carne" possa ser empregada para se referir ao corpo humano como em "carne e sangue" (cf. 2:20) e ao homem natural (cf. 2:16), Paulo parece estar usando "carne" aqui para referir-se às tendências egoístas e pecaminosas do homem, as quais se escondem atrás dos desejos da alma até mesmo dos cristãos (cf. Rm 7:15-21).
Ora, o cristão não está "na carne" (Rm 8:9) como um escravo da Lei (cf. 5:24), mas ele pode ainda andar "de acordo com a carne" (Rm. 8:12,13) quando tenta viver pela via do auto-esforço, da auto-afirmação, e da certeza do caráter imprescindível de certas regras a serem cumpridas e que só o torna um religioso, um piedoso, um "perfeito homem carnal" (cf. 3:3).
Desse modo, os cristãos gálatas corriam o risco de serem persuadidos pelos judaizantes de viverem segundo a Lei (leia-se segundo a carne) e isso faria deles "santos" no sentido de estarem separados do mundo, mas, paradoxalmente, completamente mundanizados! (I Jn. 2:16).
Ora, o relacionamento entre os gálatas não os permitia serem "sevos uns dos outros pelo amor". E, portanto, eles estavam usando a liberdade cristã além do seu contexto, em detrimento da expressão do amor de Deus, o qual jamais é voltado a seus próprios interesses, mas aos outros.
"Deus é amor" (I Jo 4:8,16) e a liberdade do cristão consiste em amar a Deus do único modo possível: amando a seu próximo!
Pode o cristão tentar ser "moralmente correto", procurar viver separado das coisas "mundanas" e dos pecadores, dentro do templo, conforme a liturgia etc; mas se não cultiva relacionamentos de amor cristão, então todo o seu esforço é o de "andar na carne" e viver além do contexto de sua liberdade, fora do "Caminho" (cf. Jo 14:6) no qual a vivência do amor de Deus não é libertinagem, mas a expressão do Seu caráter.
O exemplo maior de amor quem nos deu foi Jesus. Ele nos amou e se entregou por nós (cf. 2:20) e ainda hoje atua em nós pelo amor (cf. 5:6). Isto significa que a presença de Cristo no cristão não é só para o seu benefício espiritual, mas também para beneficiar o seu próximo. Cristo está em nós para o outro!
Assim, fomos livres da escravidão da Lei, livres para sermos servos do amor. Isto não é ironia. Lembre que a contextualização da liberdade cristã está em nossa submissão ao Senhorio de Jesus Cristo pelo que ele expressa Seu amor em nós para com todos.
O amor de Jesus ficou evidente quando ele assumiu a forma de servo (cf. Phil. 2:7) desejando morrer pelos outros. Desse modo, o serviço de amor é a evidência do discipulado cristão (Jo 13:35). Escrevendo aos Coríntios, Paulo explicou: "Porque sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível." (1Co 9:19).
É interessante notar que a expressão uns (dos) aos outros aparece no cap. 5 nos versos 13, 15, 26 (duas vezes); e em 6:2; para revelar que não se pode exercer a liberdade cristã (amar servindo) numa perspectiva individual, pois a dinâmica do amor de Cristo é sempre orientada para o outro, sendo necessária a interdependência entre os cristãos.
Assim, onde houver "dois ou três" comprometidos com a liberdade cristã, aí existe amor mútuo, mesmo que imersos numa atmosfera de religiosidades.
Adir Freire
Acadêmico do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Sergipe.
Ver todos os artigos por Adir Freire