Fora desempregado. Este verbo, desnaturação do homem, que amedronta a cada pequeno ser desde sua juvenil temperança tinha, enfim, lhe realizado. Desempregado – pensava – o que quer dizer que estou inútil.

Mas também, por outro lado, havia quatro anos que estava empregado naquela empresa. Quatro anos! Quem, hoje em dia, teria um emprego de quatro anos? Seguidos! Sem férias nem feriados! Davam-lhe valor! Ah... Já estava mesmo na hora de ser trocado. Não agüentava mais. Contas, contas e mais contas. A cabeça era um emaranhado de contas e datas inadiáveis, relatórios urgentes e balbúrdia de vozes e perfumes baratos. Começou trabalhando oito horas por dia e, agora, no final de seu tempo empregado, já fazia dez, com meia hora de almoço! Não. Não agüentava mais. Estava tornando-se um Arquivo, diria Giudico. Deus o livrasse.

Bem, cá estava. Livre, afinal. Jogado ao sofá em plena segunda-feira. Era, no mínimo, estranho o interior da casa iluminado pela luz do sol. Há quanto tempo – suspirava de admiração. Lembrou-se da infância, correndo e galhofando. Mas foi uma lembrança rápida. Como o suspiro. Não tinha tempo pra desperdiçar com pensamentos. Já havia perdido muito tempo empregado. Queria saber do mundo. Coisas novas! Precisava adquirir cultura! Adquirir cultura – bradou, estufando o peito de altivez! Ligou a tevê.

Estancou-se. A verdade é que ali havia tranqüilidade. Pensar, não pensava, já que não queria perder um só piscar de olhos dos apresentadores. Após a tarde inteira no sofá, cansado, levantou-se para tomar um banho e ir à cama para ter o sono sereno dos desempregados.

No dia seguinte, olhou o mundo pela janela, mas o dia era muito igual. Igual a todos aqueles dias de empregado. Mas agora ele era um desempregado, oras. E o dia teimava em continuar igual com suas ruas movimentadas, carros, pessoas andando apressadas pra lá e pra cá, e sol – sol fritando miolos de todos aqueles empregados que não podiam perder seus empregos ou haveria uma hecatombe na vida de cada um! Pobres diabos que não podem adquirir um pouco de cultura! Ele não. Estava desempregado! Podia voltar a adquirir cultura. Adquirir cultura – Adquirir cultura, suspirou. O que mais pode fazer alguém desempregado?

No terceiro dia nem olhou pela janela. Pensa que o mundo mudou? Mudou nada! A tevê mostrava, estava lá! Pra quê perder seu tempo olhando pela janela se já viu que o mundo não mudou? Também não foi cozinhar. Comeu os restos do dia anterior. Ainda levantou para ir até a cozinha, ao banheiro no máximo. Pela noite, quando pegou no sono, tardiamente, foi no sofá mesmo onde dormiu.

No quarto dia nem comeu. Aspirou as migalhas que por lá estavam. Já não raciocinava mais, preferia a informação assim, mastigadinha, pensada e repensada já. Hipnotizado, ao final do dia entrou em simbiose com a tevê. Os olhos mal piscavam. E os dias passaram-se assim. Teve raiva do mundo quando disseram para ter. Riu quando fizeram piada com a cara dos desempregados e chorou ao final da novela. Mas nenhum sentimento foi esboçado senão por pequenos movimentos de canto de boca e sobrancelhas. Concentrado, concentrava-se cada vez mais. O mundo? Ah, o mundo continuava o mesmo! As mesmas notícias, os mesmos programas, as mesmas caras plastificadas enviando-nos cultura! Mas já não queria adquirir mais nada! Não queria mais nada e nem precisava de mais nada. Seus olhos fritos e desgastados talvez já nem vissem mais as reais imagens da tevê. Se é que algum dia ele havia as visto.

Adorou a tevê, adorou como um filho! Idolatrou. Estava desempregado mas sua vida tinha um sentido. Era conectado, sabia de tudo o que acontecia. Estava desempregado mas fazia parte do mundo. Era só não se desconectar, desconcentrar. Pare, pare de pensar! Está louco? Concentre-se! E semanas se foram, uma atrás de outra.

Até que, simplesmente, cortaram-lhe a energia elétrica por falta de pagamento. Esquecera-se. Então a tevê desligou-se. E ele também.