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O Estranho
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Fernando Paganatto
 
Por Fernando Paganatto
Publicado 18/09/2006
 
Era estória corriqueira, lá na vila, aparições de descomunais entidades de vez em qualquer quando. E que sempre um ou outro compadre havia presenciado. Crendo ou não, muito se falava a respeito e quem viu, não queria ver de novo, quem não viu, nem queria saber de ver. Duende, monstro, guinomo, puito, europeu, e outros tantos nomes o povo dava praquelas coisas que, se dizia, andavam e se mexiam lembrando muito a gente, mesmo.

O estranho
Era estória corriqueira, lá na vila, aparições de descomunais entidades de vez em qualquer quando. E que sempre um ou outro compadre havia presenciado. Crendo ou não, muito se falava a respeito e quem viu, não queria ver de novo, quem não viu, nem queria saber de ver. Duende, monstro, guinomo, puito, europeu, e outros tantos nomes o povo dava praquelas coisas que, se dizia, andavam e se mexiam lembrando muito a gente, mesmo. E apareciam, contava-se, sempre que na noite anterior uma estrela cadente se passava bem baixinho perto do canavial. Eu tinha medo era de que a estrela se caísse na minha casa e botasse tudo a se perder. Mas nunca houve causo assim, não. Tanto eram comuns tais visões, que até mesmo gente de muita importância da cidade dizia que viu. Não sei se era condição sine qua non, mas todo mundo que, na cercania, tinha alguma projeção popular, se dizia vidente dos estranhos seres.

Até que um dia a coisa virou causo sério. É que despautério tamanho foi ter aparecido justo pra filha do Prefeito. E que ela até desmaiou quando se deu com tal visão. Voltou pra casa toda suja, do mato onde ela caiu. O Prefeito ficou estarrecido e começou longo interrogatório. Como ele era? O que ele fez? Quando foi? Mas a menina nada respondia, talvez por estar ainda em estado de choque, abalada com o acontecido. Até seu rostinho, que era tão pálido normalmente, estava enrubescido do pavor que lhe atentou. Não se conformando com aquilo, deu-se a chamar o Delegado, que, no meio da noite de madrugada, botou todos os seus três subordinados pra buscar pistas do acontecimento. A coitadinha, nada falava ainda. O Delegado até tentou prosa, mas nada respondia, a assustada garota.

Conta a estória que, retornando à casa do Prefeito, pela manhã, os policiais haviam já, interrogado grande parte das pessoas que estavam nas ruas àquele horário. Não foi difícil, já que, além de serem em pouquíssimo número, ainda estavam a maior parte juntos, na Praça. E que nas entrevistas acharam certo sujeito, que disse que viu algo de estranho sim, no mato, e que até quis conferir, mas que ficou com medo. Aí escutou pequenos gemidos femininos de dor e foi espiar pra ver direito. E viu, ainda, quando o tal misterioso ser se embrenhou mato adentro. Até ia correr atrás, porém era um bicho muito grande. Ficou com medo. O Prefeito ficou furioso, além claro, de apavorado, pois que nenhum cidadão mais poderia sair de suas casas pela noite? Como seria? Como ele faria seus passeios noturnos? Logo ele que tanto gostava de caminhar, sozinho, pra arejar as idéias, não sabe? Caminhava até as bandas ruins da cidade, onde ficavam as moças da vida. É porque era o caminho mais plaino, dizia ele. Mas não, isso não podia e nem ia ficar assim.

Ao entrar em seu gabinete, começou a fazer ligações. Num repente a cidade estava cheia de gente. Eram pracinhas, bombeiros, homens engravatados, jornalistas, fotógrafos, churreiros, pipoqueiros, cachorreiros. Era tanta gente que a população da cidade se triplicou! Além de um monte de caminhão, carro, ambulância, barracas, e rádios e antenas e toda parafernália que mais parecia campo de batalha. Mas era mesmo. Era uma batalha do Prefeito. O que quer que fosse, que tivesse feito, o que fez com a filha dele, ia pagar caro. E, pela noite, os pracinhas saíam em busca do misterioso ser. Os engravatados faziam perguntas a todos os populares, pra ver se sabiam de algo que fosse estranho. Muitos relataram a tal estrela cadente. Outros diziam ter visto o duende. A maioria nada tinha a acrescentar.

E foram-se os dias passando. A operação de guerra foi sendo desmantelada aos poucos. Bombeiros foram chamados a outras emergências, os soldados, de pouco em pouco foram desmontando toda a arrumação e foram diminuindo o número, derrotados pela aparição misteriosa. Os homens de terno, esses ficaram mais um tempo. Diziam-se federais. Faziam, mesmo, perguntas federais. Mas chegaram à conclusão que muito do que se contava, senão tudo, era pura invencionice ou, simplesmente, livre adaptação do povo. Nem estrela cadente, nem ser esquisito, nem nada viram, ou provaram. Até que se cansaram e se foram. E foram tarde já, pois que a cidade queria mais era voltar à sua vida normal. Tudo tão movimentado assim deixou muita gente com os nervos a pino. Além do mais, o time da cidade havia ganhado o campeonato da várzea e ninguém mais falava no assunto do tal ser estranho.

Desde aquele dia, então, nunca mais encontrou-se ser nenhum. Isso por parte dos mais antigos, que nada entendiam da situação, pois que virava-e-mexia, uma ingênua jovem encontrava o tal guinomo e desmaiava pelo mato. Certo mesmo, é que o lugar ficou mais alegre, desdessas abduções.