Caminhava como havia feito todos os dias nos últimos quatro meses. Marivaldo – jovem filho de D. Maria das Graças, parteira, dona de casa e generosa mãe, e de Sêo Genivaldo, experiente tocador de gado, prosador vaqueiro e contador de causos – era só esplendor por debaixo da grossa camada de terra fina que lhe cobria e da carranca forçada, não se sabe se pelo sol a pino nos olhos ou se pela brabeza do sertão. Andava nas nuvens apesar de crer que o céu é bem diferente daquele lugarejo. Pra bem da verdade, crê mesmo no contrário. Mas como a vida é arengosa, até no inferno se encontra o amor e ele o havia encontrado.
No horizonte longínquo esperava ver, quanto mais suas alpargatas avançavam, novamente, a pau-a-pique que guardava o objeto de seu amor. Mais arrastava as pernas cansadas de forçar lombo de cavalo, levantando uma névoa de poeira que o ia acompanhando, pois vento não havia. Certamente ela já estaria na janela esperando-o, como de costume, imaginava. E assim, distraído nos pensamentos continuava, que a paisagem não oferecia nunca nada de novo. E Marivaldo pensava nela e na janela, e se via se aprochegando e nela dando um beijo como aqueles da novela, em seus lábios.
À medida em que os metros iam-se por sob as sandálias de Marivaldo, o horizonte, antes de trazer mesmice, criava um suspense: vultos de muita movimentação ao longe e um emaranhado barulhento que fortalecia-se conforme os segundos se esvaíam. Marivaldo via aquilo distante com preocupação e espanto. Jamais havia avistado alma viva (houve caso em que, contava, viu alma penada, sim senhor) e ali o que parecia era ser um bocado de gente. Apesar das pernas bambas e do suor gelado debaixo do sol escaldante, o jovem peão continuou a continuar, como que fascinado. Até que, próximo já, percebeu: eram homens fardados com roupas camufladas! Os olhos de Marivaldo arregalaram, o corpo resto endureceu e a carranca empalideceu. Sim, não havia dúvidas! Estávamos em guerra!
O pavor retomou-lhe as forças que lhe puseram prontamente a correr. Ao chegar na fazenda propagou a notícia, na qual ninguém acreditou, apesar de não demonstrarem. O jovem era um tanto devaneador, era sabido, afinal. Mas a verdade é que Marivaldo não conseguiu visitar seu amor, nem naquele dia nem por um longo tempo pois que o medo da guerra não o deixou mais que saísse da fazenda.
Certo dia de preocupação de Sêo Genivaldo, Marivaldo resolveu que aquilo deveria cessar. Pois que se a guerra não havia chegado na fazenda até aquele momento é porque não chegaria em momento algum, por certo. E ainda que o bicho estivesse solto lá fora, tinha que enfrentá-lo pois que sua namorada estava lá. Tomou coragem, apanhou o chapéu e pegou o rumo da pau-a-pique mais uma vez. Ora sem andar em nuvens ou imaginar situações embaraçosas como na última, há longo tempo atrás, antes, pisando firme e com olhos de águia no horizonte a procurar pela movimentação de guerra, Marivaldo rapidamente comia caminho.
Nada havia de movimentação militar mais. Porém, não pôde, Marivaldo, continuar rumo à janela de sua paixão. No meio do caminho, havia brotado um rio. Um rio! A vida é arengosa, pensou e teve certeza. Arengosa por demais: em pleno sertão, quem diria, brotar um rio! Um rio!