Cristianismo puro e simples
por Marlon Meira
Cristianismo puro e simples, de C. S. Lewis, foi considerado pela revista Christianity Today o terceiro livro cristão mais influente desde 1945.[1] C. S. Lewis é considerado “um dos gigantes intelectuais do século XX e provavelmente o escritor cristão mais influente de sua época”.[2] O livro é uma adaptação de uma série de programas de rádio que foram ao ar entre 1941 e 1944, pela Rádio BBC. As transcrições desses programas foram publicadas em três partes separadas, The case for Christianity (também conhecido como Broadcast talks), em 1942; Christian behaviour, em 1943; e Beyond personality em 1944. Cristianismo puro e simples é considerado um clássico de apologética cristã. Lewis pretendia expor mero Cristianismo, “que é o que é e sempre o foi, bem antes de eu nascer, quer eu goste ou não”.[3]
O título do livro em português não faz jus à intenção do autor. Lewis é direto, não faz rodeios. A intenção de Lewis, provavelmente, era que, ao pegar o livro (ou ouvir os programas), uma pessoa tivesse uma ideia imediata de seu assunto pelo título. Além disso, ao ler duas ou mais obras de Lewis em inglês, nota-se facilmente que, por sera direto como era, o autor usa a palavra mero (em suas formas adjetiva e adverbial mero, mera, meramente) com muita frequência: 64 vezes apenas em Cristianismo puro e simples. O título deveria então ser meramente Mero Cristianismo. É, afinal, do que se trata a obra.
É necessário conhecer Clive Staples Lewis para absorver melhor sua obra. Lewis, conhecido por alguns apenas por suas clássicas Crônicas de Nárnia, foi ateu antes de se tornar cristão e se converteu através da influência de, além de outros, J. R. R. Tolkien, seu amigo e colega de trabalho, autor de O senhor dos aneis. A definição de cristão proposta por Lewis em Cristianismo puro e simples é bem característica dele mesmo: "alguém que aceita as doutrinas comuns do Cristianismo".[4] A descrição que se segue a essa definição é a primeira de várias comparações usadas através do livro como explicações diversas. Compara o mal uso atual da palavra cavalheiro (gentleman) e sua definição original, com o mal uso de cristão hoje e o uso dirigido aos discípulos de Antioquia, de acordo com Atos 11:26, que aceitavam os ensinamentos dos Apóstolos.[5] Seria apropriado—e aconselhável—ler Lewis em outras obras, tais como Cartas de um diabo a seu aprendiz (resenhado aqui em breve) ou O problema da dor para ter uma ideia melhor de quem foi C. S. Lewis. Em O grande divórcio, capítulo 9, Lewis dá alguns detalhes autobiográficos que constroem uma melhor ideia sobre o autor.
Lewis tem um modo irônico e pontual de demonsrar suas ideias. A primeira parte do livro trata de moralidade. Lewis propõe que, mesmo havendo pequenas diferenças de moralidades entre várias civilizações e épocas, elas nunca chegam a uma diferença total. Lewis então convida o autor a imaginar como seria uma moralidade totalmente diferente: “Imagine um país onde as pessoas fossem admiradas por desistirem de batalhas, ou onde um homen se orgulhasse por trair a confiança de todos que foram gentis com ele. Você poderia simplesmente imaginar um país onde dois mais dois fosse cinco”.[6] Lewis usa esse tipo de linguagem em suas obras. Ela é muito evidente no trecho em que Lewis propõe o que passou a ser chamado de o “Trilema de Lewis”. Tendo Cristo alegado ser Deus, Lewis usa lógica para argumentar que Cristo era 1) realmente Deus; 2) estava mentindo deliberadamente, sabendo não ser Deus; ou 3) não era Deus, mas pensava ser, o que faria dele um louco. O trilema conclui que, sendo as duas últimas alternativas inconsistentes com o caráter de Cristo, apenas a primeira seria verdadeira. O trilema foi pensado e elaborado por Lewis como resposta à pessoas que dizem: "estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre moralista, mas eu não aceito sua alegação de ser Deus".[7]
Lewis trata de vários aspectos da vida cristã em Cristianismo puro e simples. Começa com ética e moral em um capítulo polêmico em que defende que o certo e o errado são naturalmente conhecidos por todos e que não há diferenças de moralidades que justifiquem que o certo e o errado dependam de fatores específicos, tais como cultura, época, ou costumes. Além disso, Lewis alega que, não apenas o homem distingue entre certo e errado, mas nem sempre pratica o certo. Lewis trata do comportamento cristão, passando por casamento, moralidade sexual e social, perdão, fé e esperança; do que realmente o cristão acredita, tal como o conceito de Deus, da trindade e outras características do Cristianismo.
Não se trata de um manual, mas pode ser usado por jovens a caminho da universidade, onde um bom conhecimento de apologética cristã dará uma posição muito mais confortável em sala de aula; deve ainda ser usado por adultos que enfrentam questionamentos honestos—nem sempre—em ambientes profissionais, onde a busca por dinheiro—igualmente nem sempre honesta—tenta colocar uma vida cristã honesta em xeque diariamente.
Uma leitura cuidadosa de Cristianismo puro e simples dá uma base para qualquer discussão sobre a legitimidade de ser um cristão honesto e omprometido em pleno século 21. Em meio à redação dessa resenha, eu tive a oportunidade de usar o Trilema de Lewis em um ambiente inóspito ao Cristianismo e obtive dois resultados: em primeiro lugar, notei pela fisionomia do meu interlocutor que no mínimo houve certa relutância em questionar o Trilema, ao menos imediatamente; além disso, me senti confortável usando um argumento válido, que tem sido aprovado por milhares de cristãos todos os dias e por muitos estudiosos, em debates variados, além, é claro, de ter convencido muitas pessoas de que Cristo não pode ter sido apenas um mestre moralista, como muitos alegam.
Ler C. S. Lewis é saber que, além de nossa fé, há meios igualmente contundentes de se defender um Cristianismo puro, mas simples.
[1] http://www.christianitytoday.com/ct/2006/october/23.51.html
[2] LEWIS, C. S. Mere Christianity, edição Harper One, ISBN 9780060652920. Contracapa.
[3] Ibid, p. IX.
[4] Ibid, p. XII.
[5] Ibid, p. XV.
[6] Ibid, p. 6.
[7] Ibid, p. 52.