O presente trabalho faz um apanhado desde a composição química da água, os tipos de água existentes e seus percentuais estimados, até chegar aos conceitos de água virtual e pegada hídrica, elencando as premissas conceituais envolvidas, os critérios usados na mensuração da água tida por virtual, água vinculada e partícipe da produção dos diversos tipos de produtos, notadamente os agropecuários. Além disso, verifica que o crescimento da população agrava o problema da escassez desse recurso e investiga o que há além da água propriamente dita no conceito de pegada hídrica, de modo a perceber que impactos a produção e o comércio internacional de alimentos causam nos ecossistemas dos locais de produção, por não serem sustentáveis. Palavras-Chave: Água, Água Virtual, Comércio, Ecologia, Escassez, Meio-Ambiente, Pegada Hídrica, População e Produção de Alimentos.

1.Introdução

Talvez, por ocupar dois terços da superfície da Terra, a água foi considerada ao longo dos séculos um recurso infinito. Mas se está aprendendo que água existente não significa água própria para o consumo humano. E face à escassez de água doce já presente em muitos lugares, seja pela pouca disponibilidade, pela poluição que a torna inservível para os usos humanos, pelo desperdício, seja por quaisquer outras razões que reduzam a sua oferta, este estudo revela-se oportuno.

Diante do crescimento da população global, que impõe a produção de mais alimentos, e levando em conta que “a produção e a demanda por alimento não estão adequadamente distribuídas pelo planeta, e como conseqüência, o alimento consumido em uma área não é sempre produzido no local de consumo” (NASCIMENTO, 2005), e diante ainda da já dramática falta de água para o consumo básico e mínimo para alguns povos, é apropriado, a partir do entendimento do que seja água virtual (virtual water), que se busque identificar que outras componentes, para além da quantificação dessa água virtual, impactam a disponibilidade do recurso água, e se essas componentes são mensuradas, contabilizadas e/ou precificadas.

A água doce, como o exemplo mais singular de recurso natural finito, já sinaliza sua exaustão para atender às necessidades humanas. O aumento do consumo de água quase dobrou no século XX, na proporção do aumento populacional, o que se reflete na redução da capacidade natural de reciclagem dessa água, pelo uso mais intensivo. Quer dizer, mantidos os níveis de crescimento da população, haverá, descartada aqui a visão malthusiana, cada vez menos água para a satisfação das necessidades básicas das pessoas. E por uma razão nem sempre muito fácil de perceber, embora lógica: com o aumento da população, há necessidade de produzir mais alimentos e mais casas; com o aumento a urbanização, mesmo com toda verticalidade que a tecnologia possibilita, são reduzidas as áreas para a agricultura ; com menos área para produzir mais alimentos, impõe-se o uso e aprimoramento da tecnologia para a maximização da produção e a eliminação dos desperdícios verificados ao longo do ciclo de produção, estocagem e distribuição.

O comércio internacional das commodities ditas agrícolas embute a transferência de um enorme volume de água, a água virtual, que é, via os produtos efetivamente comercializados, transferida dos locais de produção, onde existe com fartura e sem custos ou com custos insignificantes, para os locais compradores, onde pode ser escassa e, por isso, ter custos proibitivos.

O nosso interesse específico recai então sobre a produção de alimentos e produtos agrícolas pela elevada quantidade de água que é apropriada pela agricultura. Conforme Shiklomanov, num artigo citado pela autora já referida, (SHIKLOMANOV, 1999 apud NASCIMENTO, 2005), já no distante 1995, 66% de toda água doce do planeta foi utilizada pela agricultura, o que não é pouco, conforme se verificará.

O tema presente é rico, amplo e útil à sociedade. Demandaria, porém, para oferecer um contributo a reflexões futuras, investigação mais aprofundada e exposição muito além dos limites estabelecidos para este trabalho. Que isto não seja tomado como desculpa para as muitas omissões que serão certamente verificadas, mas que seja como uma pequena lanterna que, mesmo com o seu lume fraco, serve para apontar uma ponte que liga ciências já consagrada à Ecologia Humana.

2.Água da Terra. Tipos e Percentuais

A água resulta da combinação de duas moléculas de Hidrogênio com uma de Oxigênio - H2O. Tão simples e tão fantasticamente importante. Seu estado natural é o líquido, sendo encontrada também nos estados sólido (gelo, neve) e gasoso (evapotranspiração, nuvens). Mesmo a água pura, dependendo das fontes em que é encontrada, apresenta diferenças na sua característica físico-química e na variação do seu Potencial de Hidrogênio (ph). Estas são as informações básicas sobre a água que se recebe ao longo da vida escolar e por entre as quais transita a compreensão ordinária.

Aprende-se, também, que a água ocupa quase 70% da superfície do planeta, embora muito pouco dessa água seja prestável para o consumo direto das pessoas.

Em números arredondados, 97,5% de toda água do planeta é salgada. E como 2% do restante estão nas calotas polares e geleiras, temos disponibilidade real de menos de 0,5% de toda água do planeta para o consumo. E é desse 0,5% aproximado que a agricultura seqüestra os 66%, conforme os dados de 1995 referidos anteriormente. A Tabela 1 relaciona a equivalência entre volume e percentual dos vários tipos de água:

LocalVolume (km3)Percentual do total (%)

Oceanos1.370.00097,61

Calotas polares e geleiras29.0002,08

Água subterrânea4.0000,29

Água doce de lagos1250,009

Água salgada de lagos1040,008

Água misturada no solo670,005

Rios1,20,00009

Vapor d’água na atmosfera140,0009

Tabela 1 - Relação entre volumes e percentuais de tipos de águas.

Fonte: R.G. Wetzel, 1983. (extraído e adaptado de Jacobi, s.d.)

A água é a base da vida. É, junto com o ar, um recurso natural indispensável para que haja a continuidade da vida na Terra. Seja sob a ótica das atividades humanas, do sistema de produção, seja, ainda, sob a dos valores sociais, políticos e ambientais, a quantidade e qualidade da água ofertada sempre refletirá na saúde e na qualidade de vida de quem a consome.

Por tudo isso, e por ter um valor econômico já percebido, a água ocupa espaço privilegiado na agenda dos governantes, sejam os dos países que a têm abundante, sejam os dos países que já lidam com a sua escassez. Tanto é assim que, face às preocupações e reflexões que enseja, teve celebrados e aprovados quatro Princípios na Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente realizado em Dublin, em 1992, a seguir transcritos:

•Princípio n° 1 - A água doce é um recurso finito e vulnerável, essencial para sustentar a vida, o desenvolvimento e o meio ambiente.

Já que a água sustenta a vida, o gerenciamento efetivo dos recursos hídricos demanda uma abordagem holística, ligando desenvolvimento social com o econômico e proteção dos ecossistemas naturais. Gerenciamento efetivo liga os usos da terra aos da água nas áreas de drenagem ou aqüífero de águas subterrâneas.

•Princípio n° 2 - Gerenciamento e desenvolvimento da água deverão ser baseados numa abordagem participativa, envolvendo usuários, planejadores legisladores em todos os níveis.

A abordagem participativa envolve uma maior conscientização sobre a importância da água entre os legisladores e o público em geral. Isto significa que as decisões são tomadas no menor nível possível com participação total do público e envolvimento de usuários no planejamento e implementação de projetos de água.

•Princípio n° 3 - As mulheres formam papel principal na provisão, gerenciamento e proteção da água. Este papel de pivô que as mulheres desempenham, como provedoras e usuárias da água e guardiãs do ambiente diário não tem sido refletido na estrutura institucional para o desenvolvimento e gerenciamento dos recursos hídricos.

A aceitação e implementação deste princípio exige políticas positivas para atender as necessidades específicas das mulheres e equipar e capacitar mulheres para participar em todos os níveis dos programas de recursos hídricos, incluindo tomada de decisões e implementação, de modo definido por elas próprias.

•Princípio n° 4 - A água tem valor econômico em todos os usos competitivos e deve ser reconhecida como um bem econômico.

No contexto deste princípio, é vital reconhecer inicialmente o direito básico de todos os seres humanos do acesso ao abastecimento e saneamento a custos razoáveis. O erro no passado de não reconhecer o valor econômico da água tem levado ao desperdício e usos deste recurso de forma destrutiva ao meio ambiente. O gerenciamento da água como bem de valor econômico é um meio importante para atingir o uso eficiente e eqüitativo, e o incentivo à conservação e proteção dos recursos hídricos. (UERJ, s.d.)

3.Água Virtual

O conceito de água virtual (virtual water) é de autoria do professor britânico John Anthony Allan , que em meados da década 90, apresentou ao mundo um modo de calcular a água efetivamente envolvida nos processos produtivos, mas que não era contabilizada.

Calcular os volumes da água virtual envolvida na produção de um bem, produto ou serviço é muito complexo, já que, segundo Carmo, “Para estimar estes valores, deve-se considerar a água envolvida em toda a cadeia de produção, assim como, as características específicas de cada região produtora, além das características ambientais e tecnológicas.” (CARMO et al, 2007)

A água virtual, portanto, é a água envolvida em todos os passos da cadeia produtiva de um bem, seja ele um serviço, um produto industrial ou agrícola, e o cálculo para um mesmo bem produzido em locais distintos poderá apresentar volumes diferentes, pois levará em conta um conjunto de variáveis geográficas - clima, produtividade etc., e tecnológica – mecanização, biotecnologia etc.

Segundo dados da UNESCO apenas o comércio global de alimentos movimenta um volume de água virtual na ordem de 1.000 a 1.340 km³ por ano, dos quais 67 % são relacionados com o comércio de produtos agrícolas, 23 % relacionados com o comércio de produtos animais e 10% relacionados com produtos industriais. (WWC, 2003)

A Tabela 2 oferece uma idéia, tênue que seja, sobre o quanto de água virtual é necessário para a produção de um quilo de produto.



Logo se depreende que o conceito da água virtual tem caráter revolucionário na mensuração do uso da água doce na cadeia dos suprimentos humanos, evidenciando mais expressiva e especialmente os impactos causados pelo sistema de produção dos agropecuários e no comércio internacional desses produtos, já que maior parte de toda água doce disponível é utilizada pela agricultura. Presume-se já o elaborado arcabouço mental requerido para homogeneizar dados tão díspares na forma como são obtidos, de modo a ter números confiáveis da transferência de água virtual entre os países, conforme os fluxos que se verificam na Figura 1.

O AQUASTAT (Sistema de Informação sobre o Uso da Água na Agricultura e o Meio Rural do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) vem se ocupando para minorar a complexidade dos métodos de avaliação utilizados pelos diversos países e para implementar sistemas de medição efetiva de toda água usada na agricultura, já que esses números são indicadores dos mais expressivos para a confiabilidade do monitoramento do uso da água doce no planeta, e a medição mais real da nossa humana pegada hídrica.



Figura 1- Mapa das transferências de água virtual entre os diversos países. (extraído de Carmo et al, s.d.)

4. Pegada Hídrica

A pegada hídrica (water footprint) é o conceito que se descortina como a conseqüência natural do da água virtual, por isso que ambos os conceitos se interpenetram e até são tomados um pelo outro algumas vezes. Foi introduzido por Arjen Y. Hoekstra em 2002, e diz que a pegada hídrica “é um indicador do uso de água doce que não considera apenas o uso direto de água pelo consumidor ou pelo produtor, mas também o uso indireto.” (HOEKSTRA et al, 2009). Por exemplo, para contabilizar a água envolvida no ciclo de produção de 1 kg de carne, leva-se em conta, também, a água que foi utilizada na produção das componentes da ração consumida pelo animal, mais a água que foi poluída ao longo dos processos, ou seja, a água usada indiretamente.

A pegada hídrica, como índice de referência da quantificação dos usos da água doce nos sistemas de produção, difere, portanto, da concepção básica de água virtual que só contabiliza a água doce retirada dos mananciais. Difere, segundo Hoekstra, por três razões, a saber:

1- Não se restringe ao cômputo apenas das águas superficiais e subterrâneas (água azul); mas inclui também as águas da chuva armazenadas no solo como umidade (água verde) e as águas poluídas (água cinzenta);

2- Não é restrito ao uso de água direta, mas também inclui o uso de água indireto; e

3- Não contabiliza a água azul que, logo após ser utilizada, é devolvida ao local de origem. (IDEM)

Tal como a ecológica, da qual é um dos elementos, a pegada hídrica pode ser calculada para um produto, um setor produtivo, um indivíduo, para uma nação etc. A pegada hídrica não quantifica a degradação que o uso da água nos processos produtivos causa ao meio ambiente; ela dá informações espaciais etemporais sobre o volume das águas doces utilizadas nas cadeias dos usos humanos. Definindo-se por espaciais e temporais o país onde, por exemplo, foi produzida uma commodity e a duração do ciclo inteiro da produção até chegar ao destino final.

O Relatório da WWF reporta que a pegada hídrica total de um país resulta das componentes interna e externa. A pegada interna “(...) é o volume de água necessário para gerar e fornecer bens e serviços que se produz e consome dentro desse país (...).” e a externa “(...) é a resultante do consumo de bens importados (...) é a água que se utiliza para a produção de bens e serviços no país exportador.” E conclui: “As exportações de um país não estão incluídas como parte da sua pegada hídrica.” (WWF, 2008, p.18). Ainda se voltará a este ponto, já que nele reside uma das bases de reflexão deste trabalho.

O modo de avaliar a pegada hídrica foge ao escopo do presente trabalho. Todavia, é oportuno referir que essa avaliação se dá em quatro etapas que se sucedem e que são as seguintes, conforme HOEKSTRA et al, 2009: 1- a definição de objectivos e âmbito; 2- a Contabilidade (recolha de dados e desenvolvimento das contas); 3- a avaliação de sustentabilidade; e 4- a formulação da resposta.

Numa das tabelas constantes do Relatório do WWF há dados significativos que se referem à pegada hídrica do consumo mundial relativa aos anos 1997 a 2001. Para uma população de 6.476 milhões de habitantes, é estimado o consumo de 1243 m3 por pessoa/ano. Desse total, 1043 m3 correspondem à pegada interna e 199 m3 à externa. (Op. Cit., p. 32).

A partir desses números, para atender às necessidades médias de cada habitante naqueles anos, eram mobilizados quase 3.500 litros de água por dia.

4.Crescimento da População

Precisa ser considerado que a oferta de água doce é desigual no planeta, e que uma parcela significativa da população já não a tem disponível para o consumo mínimo. Como agravante temos o crescimento populacional, que tende a tornar ainda mais dramática a sobrevivência para as populações já assoladas pela escassez. O Relatório da UNFPA apresenta três cenários de crescimento da população humana para 2050. No melhor deles, quer dizer, no cenário de menor crescimento da população, a uma taxa de fecundidade de apenas 1,54%, a Terra terá aproximados 7,96 bilhões de habitantes; no cenário intermediário, cuja taxa é projetada para 2,02%, essa população será de 9,15 bilhões; por fim, no último e pior dos cenários apresentados, a uma taxa de 2,51%, a população do planeta saltará para 10,46 bilhões de habitantes. (UNFPA, 2009, p.26)

Para simples efeito de ilustração, já que o que se apresentará é uma impossibilidade material, se se mantiver o uso per capita/ano de 1997 a 2001 do Relatório do WWF referido antes, de 1.243 m3, do primeiro ao último cenários, a diferença aproximada de 2,5 bilhões de pessoas representaria a morte pela sede de uma quantidade absurdamente grande pessoas.

Embora o volume de água não tenha se alterado ao longo das idades, o crescimento da população impacta severamente e de modo não linear a disponibilidade de água doce.

Como já foi descartada a visão malthusiana, o que se aponta além do consumo é que o crescimento da população exige o aumento da área construída para que esses habitantes tenham onde morar. Para exemplificar, só a China, como o país que mais constrói no planeta, “acrescenta quase 2 bilhões de metros quadrados de área construída por ano.”, conforme análise de um estudo efetuado pela UNEP - United Nations Environment Programme, sobre a importância das casas verdes. (S.A., 2007) Mesmo não correspondendo o acréscimo da área construída a toda a área ocupada de fato no território, uma vez que as tecnologias permitem a verticalização das construções, o crescimento dessa lâmina construída importará sempre no aumento da urbanização e na conseqüente redução das áreas destinadas à agricultura, pois que nenhum grupo humano optará por viver nos desertos ou nos Polos, por exemplo, se de lá não são naturais.

Há, também, o fato de que com o aumento da população, por menos que as pessoas consumam, sempre consumirão o suficiente para produzir mais lixo, lixo que demandará mais espaço para ser depositado, beneficiado e/ou reciclado, aumentando o risco de infiltrações pelo solo que atinjam os lençóis freáticos, poluindo-os. O aumento da população significa, também, a exigência de mais água potável para o consumo direto, o que resulta na produção de mais esgoto, que exigirá mais área para este ser tratado.

Considerando que as cidades sejam capazes de oferecer para todos os seus habitantes condições ótimas de saneamento básico, água tratada e sistema de esgoto, haverá, ainda assim, um impacto evidente.

Se o aumento da população exige o aumento da área construída, da urbanização, exige, em contrapartida, o aumento da produção de alimentos. Eis que se apresenta o conflito mais impactante da questão: Como produzir mais alimentos em menos área? E não se trata mais de só produzir, a produção deverá ser sustentável. O nó começa a apertar.

5.Agricultura e Comércio Internacional

Ao longo deste trabalho já se disse à exaustão que a agricultura é a grande consumidora de água doce do planeta. E ter que produzir mais alimentos em menos áreas disponíveis implicará, não só no aperfeiçoamento e desenvolvimento de tecnologias, a biotecnologia incluída, e técnicas mais eficientes de cultivo, mas na utilização de mais e mais fertilizantes químicos, artificialidade para devolver à terra o fósforo, o nitrogênio e os demais nutrientes que lhe são roubados; e mais os pesticidas também químicos, contra o ataque das pragas sempre mais presentes porque seus predadores foram extintos.

Por esse enorme esforço para manter o equilíbrio entre o que se precisa produzir e a tentativa de reposição química dos nutrientes seqüestrados na produção, a agricultura acaba gerando um passivo ambiental que não é contabilizado ainda. A agricultura também polui, modifica e empobrece ecossistemas e reduz a biodiversidade quando avança suas fronteiras (exemplo oportuno é o desmatamento da floresta amazônica brasileira para a expansão das fronteiras da cultura de soja).

A produção de mais alimentos, pois, envolve a apropriação de mais que água pela agricultura. Quando um país exporta os alimentos que produz, além de soja, carne, café e qualquer outra commodity, está exportando água também, a água virtual. Nascimento afirma que “(...) o comércio entre países também corresponde a uma troca virtual de degradação ambiental.” (NASCIMENTO, 2005), mas essa troca não existe de modo nenhum.

O país exportador, além de nada cobrar pela água que vai embutida nos produtos exportados, arca sozinho com a degradação ambiental que a produção daqueles produtos exportados proporcionou; o país importador, além de brindado com a quantidade da água virtual que recebe e pela qual nada pagou, não sofre nenhum impacto não herda os passivos ambientais deixados pela produção dos produtos que importou.

Essa distorção começa a ser percebida naqueles países exportadores de água virtual, mas muito timidamente e só no que se refere à água virtual. Segundo Anders Berntell, diretor-geral do SIWI - Instituto Internacional da Água em Estocolmo, organização que se dedica ao estudo de gestão de recursos hídricos, “(...) já há governos colocando em prática cálculos de custo-benefício antes de usarem suas reservas de água.” (FALEIROS, 2009)

Mas só no que se refere ao uso da água. As questões do passivo ambiental acabam nem sendo tratadas como relevantes para os governos desses países exportadores. A visão dos resultados econômicos imerge-os numa espécie de autismo e os afasta da realidade efetiva. Vêm tratando os ecossistemas a partir da mesma visão com que viram o recurso água ao longo do tempo: como infinitos.

Colabora muito fortemente para isto o fato de as exportações de um país não serem contabilizadas na sua pegada hídrica, conforme já apontado neste trabalho quando no tópico 4. Pegada Hídrica, cita o Relatório Planeta Vivo 2008. E por essa não contabilização, esses governos valem-se dos dados colhidos pelos organismos internacionais para defenderem como sustentáveis a insustentabilidade de suas práticas.

6.Considerações Finais

A sociedade humana já dita e tida de hiperconsumo (Lipovetsky, 2009), necessita rever suas práticas e seus valores. Há hoje, mais que em qualquer outro tempo, a preocupação com o esgotamento percebido dos recursos naturais do planeta pelo uso intensivo, perdulário e até irresponsável, apontando a imperiosa necessidade dessa revisão.

Individualmente, uma boa e simples prática é a modificação das dietas alimentares, privilegiando os produtos de mesmo valor nutricional, mas que consumam menos água no seu ciclo de produção, em detrimento daqueles mais gastadores, idéia corroborada por Carmo citando Pimentel: “Pimentel (2004) afirma a necessidade de que se reestruture o cardápio, de maneira que ele seja mais “sustentável”, privilegiando os produtos que exigem menos água para sua produção.” (PIMENTEL,2004 apud CARMO et al, 2007)

A agricultura, como se depreende, ocupa um papel central no que respeita ao Homem. Se é a responsável pela sua alimentação, é, igualmente, responsável pela degradação dos ecossistemas, pela poluição da terra e da água que a humanidade também depende para sobreviver.

Pelo modo como vem sendo praticada, de modo a só perseguir produtividade e as conseqüentes divisas econômicas, tendo o ambiente e os recursos naturais como se mais não fossem que descartáveis apêndices, revela-se insustentável. Se não houver a compreensão de que as práticas agrícolas necessitam ser revistas para que continue havendo agricultura, resultará inevitável a pergunta: É melhor morrer de fome ou de sede? Pois que não haverá água própria para atender às duas necessidades.

Os países exportadores de alimentos não poderão manter por muito tempo a generosa gratuidade da água virtual. Por uma questão de eqüidade, os organismos internacionais, apoiados por estudos criteriosos e fundamentados, haverão de considerar uma agenda para o debate de protocolo que endosse a precificação da água virtual e dos passivos ambientais gerados pela produção de alimentos.

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