Nos Dédalos Da Memória
- Por Luiz Carlos Cappellano
- Publicado 30/11/2007
- Arte e Ciência , História
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Biografias
BIOGRAFIAS REMISSIVAS DE LUIGI BRIZZOLARA E NICOLA ROLLO:
Luigi Brizzolara nasceu em Chiavari em 11 de julho de 1868, filho de Antonio e de Giuseppina Della Cella. Dedicando-se desde jovem à escultura, transferiu-se com a idade aproximada de vinte anos para Gênova, matriculando-se na Academia Linguística de Belas Artes, local para aperfeiçoar-se na escultura na escola do escultor G. Scanzi, de quem foi o discípulo predileto.
Já nestes primeiros anos, distinguiu-se muito com a estátua representando Ismael Moribundo (localização ignorada), premiada com uma medalha de prata na mostra colombiana de Gênova (1892). Venceu, pouco depois, o concurso para a tumba de G.B. Castagnola (com a representação da Visão de Cristo) para o Cemitério Monumental de Staglieno (Gênova).
Destaca-se na produção de monumentos fúnebres (túmulo Risso-Zerega, no cemitério de Staglieno, o altar para a capela votiva comemorativa ao término da I Guerra Mundial, no cemitério de Gênova, Sampierdarena, e o monumento a Emanuel Gonzales, no cemitério de Chiavari) e também na de retratos (busto de Paolo Giacometti, 1916, Gênova "viletta di Negro"; busto de Elia Lavarello, Gênova, Villa Lavarello).
Em 1898 Brizzolara executou um complexo monumento a Vitor Emanuel II, na Praça de Nossa Senhora do Horto, em Chiavari (cfr. "Ill ital."", 21 ago. 1898, p. 136). Sempre em Chiavari – mas trabalhando também em numerosas cidades do litoral oriental – executou as mais diversas estátuas, entre elas aquelas para a Igreja de São João Batista, a dos profetas Isaías e Malaquias (capela do crucifixo), de São João e São Marcos Evangelistas, que foram colocados sobre a fachada restaurada.
Em 19 de novembro de 1904 desposou, em Gênova, Maria Ranzini.
Em março de 1907, em colaboração com o arquiteto G. Morelli, Brizzolara participou de um concurso promovido pela República Argentina para um monumento a ser erigido em Buenos Aires em comemoração ao Centenário da Independência (25 de maio de 1910). Foram vencedores (1909) e receberam o primeiro prêmio de 10.000 pesos de ouro.
O projeto – elaboradíssimo, seguindo o gosto retórico e cinematográfico da época – apresentava um verdadeiro complexo monumental, que previa para o seu interior um salão, adornado de mosaicos e mármores preciosos, destinado ao Museu da Independência, também uma escadaria e um grupo estatuário (cfr. "Ill ital.", 23 de agosto 1908, p. 178; 18 de julho de1909).
Em 1919 Brizzolara veio a São Paulo para participar de um concurso para o monumento comemorativo da Independência Brasileira. Classificou-se em segundo lugar e, portanto, o seu projeto não foi realizado.
Em São Paulo deixou outras obras: o mausoléu da família Matarazzo, no cemitério da Consolação, que pelas suas proporções é ainda hoje um dos maiores monumentos fúnebres do mundo; o brasão de armas de Ermelino Matarazzo (hospital Matarazzo); estátuas para particulares e diversos monumentos fúnebres (por exemplo, para a família Machado). No peristilo do Museu da Independência, sobre a colina do Ipiranga, erguem-se à direita e à esquerda duas estátuas de Brizzolara de três metros e meio de altura: Antonio Raposo Tavares e Fernão Dias Paes Leme. Uma estátua de Fernão Dias Paes, quase idêntica a do museu, mas em pedra, encontra-se no Jardim Público da Avenida Paulista.
Naqueles anos uma comissão da colônia italiana de São Paulo entregou a Brizzolara uma encomenda do projeto e da execução de um monumento a Carlos Gomes, a ser oferecido à cidade pelo centenário da independência brasileira. Este conjunto foiinaugurado no dia 12 de outubro de 1922 com uma grandiosa festa cívica. É constituído de grupos de estátuas , distribuídos sobre a escadaria que une o Anhangabaú, artéria principal da cidade na época, ao Teatro Municipal. A estátua de Carlos Gomes fica sobre um largo pedestal sob o qual há um tanque com um grupo de cavalos marinhos trazendo a glória do Brasil através do oceano; espalhadas sobre a elevação, numa base de granito vermelho, estão dispostas numerosas estátuas simbólicas em bronze – exceto os grupos da Música e da Poesia, que foram realizados em mármore.
Brizzolara participou também de um concurso (1923) para um monumento à Proclamação da República, a ser erigido no Rio de Janeiro, numa praça central, numa área de 2.000 metros quadrados; obteve a primeira colocação dentre uma centena de escultores de todo o mundo, mas o governo brasileiro, valendo-se da possibilidade de escolher entre os três primeiros colocados, escolheu o trabalho do italiano Ximenes, que havia obtido a segunda colocação. Nenhum dos dois projetos foi executado.
Brizzolara, que retornou pouco depois à Itália, executou em Chiavari, em 1928, o monumento comemorativo ao término da I Guerra Mundial (cfr. "Ill ital.", 1928, II, p. 16) e também numerosas outras obras.
Morreu em Gênova em 11 de abril de 1937, professor junto à Academia Linguística de Belas Artes de Gênova, tendo reconhecimentos e honras. Foi também nomeado acadêmico de Brera, honoris causae.
Verbete BRIZZOLARA, Luigi, por A. Salmoni Cevidalli – F. Sborgi para o Dizionario Biografico degli italiani , vol. 14, Instituto della Enciclopedia Italiana Fondata da Giovanni Treccani, Roma, Società Grafica Romane, 1972.
Fontes e Bibliografia: Arquivo do Estado de São Paulo, nº 8822, necr. em "L'ill ital.", 25 de abril de 1937, p. 424; La Colonia, São Paulo, 15 de abril de 1920; Fanfulla, São Paulo, 30 de agosto, 31 de agosto, 13 de setembro, 12 de outubro, 13 de outubro, 1922; Emporium, LVIII (1923), p. 319; Vice d'Italia e dell'America Latina, 1928, pp. 517-524; A. Cappellini, Ville Genovesi, Genova, 1931, p. 105. A. deE. Taunay, Guia de secção Histórica do Museu Paulista, São Paulo, 1937, p. 57 e ill. X, XI, XII, XIII; A. Balbi, L.B. in Gênova, XV (1937), pp. 81s, pp. 101, 103, 178s; N. Vollmer, Kunstlerlexikondes XX. Fahrhs, I, pp. 317s.
Nicola Rollo nasceu em Bari em 1889, provavelmente em 10 de novembro¹. Com a idade aproximada de 18 anos deslocou-se para Roma, indo estudar na Academia de Belas Artes, segundo depoimento de seu discípulo, Raphael Galvez. Segundo outras fontes, ele teria estudado escultura, já no Brasil, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, tendo sido aluno do escultor Adolfo Adinolfi.
Segundo depoimento de seu discípulo Raphael Galvez, chegou ao Brasil com 24 anos (1913), mas, não teremos qualquer menção de sua atividade até a sua participação no concurso para o monumento comemorativo ao Iº Centenário da Independência do Brasil, realizado em 1º de junho de 1919.
Não sabemos se Rollo já era casado quando chegou da Itália ou se foi em São Paulo que desposou D. Raphaela, com quem teve cinco filhos: Antonio, Alba, Laura, Mário e Raphael, que veio a falecer ainda menino (a mãe morrera no parto). Além da esposa, dos alunos mais chegados (dentre eles Raphael Galvez,que residiu muitos anos com o mestre) e dos filhos, Rollo convivia com seu irmão Adolpho, que também era escultor e o ajudou muito na montagem final da decoração do Palácio das Indústrias.
Além das atividades de professor no Liceu de Artes e Ofícios e da Escola de Belas Artes, Nicola Rollo executou inúmeras obras tumulares para particulares e, pelo menos uma obra pública, a decoração do Palácio das Indústrias (Palácio 9 de julho) onde, por muito tempo, ocupou uma sala que era utilizada como ateliê. Vicente Di Grado, Tereza D'Amico, Alfredo Oliani, Figueira e Raphael Galvez foram alguns dos seus alunos.
Participou, além do concurso para o monumento ao 1º Centenário daIndependência, também sem sucesso, do concurso para o monumento em homenagem a Verdi e do concurso para o monumento dos Andradas, a ser erigido em Santos (1920). Para este último, Rollo elaborou uma maquete que já carregava muitos dos elementos que tanto o seu projeto quanto o de Victor Brecheret iriam utilizar para o monumento às bandeiras: os dois cavalos emparelhados com os respectivos cavaleiros, a tensão muscular e o cortejo de figurações que se seguem aos mesmos, que são quase que exatamente os mesmos elementos.
Algumas obras avulsas (como a cabeça de Fauno, em bronze, legada a Raphael Galvez), três bandeirantes em bronze para o Museu da Independência (Francisco Dias Velho, Manoel da Borba Gato – cujo modelo foi Raphael Galvez – e Bartolomeu Bueno da Silva), o túmulo da família Trevisioli (Cemitério da Consolação, 1920), o túmulo do maestro Chiafarelo (Cem. da Consolação, 1923) e o túmulo de Luís Ísola (Cemitério da Consolação, 1927) são as obras acabadas que Nicola Rollo produziu na década de 1920.
Chegou a construir inúmeras maquetes e modelos em argila – em escala cada vez mais ampliada, inicialmente 60 figuras em tamanho natural – para um colossal monumento aos bandeirantes, que seria colocado em um tanque em frente ao Museu do Ipiranga (encomenda de Mário Etman). Elaborou também, em 1928, quatro diferentes projetos para o monumento à memória de Del Prete, a ser erigido no Rio de Janeiro, bem como um poema em prosa que acompanhava o projeto, "Il trittico dell'amore". Este terceiro projeto foi considerado o mais "espiritual", enquanto o quarto, "a mensagem de Roma" foi considerado o mais monumental. Em 1926 Rollo ilustrou e criou a capa do livro Hommo Infinito, de Pappini, quando este foi editado em São Paulo, por uma editora italiana.
Realizou um túmulo muito simples, no cemitério do Araçá, em 1932. Em 1939 integrou o júri do IV Salão Paulista de Belas Artes, ao lado dos professores Ricardo Cipicchia e Vicente Larocca.
Em 1940 Rollo enviou um projeto magnífico, onde a simplicidade e a clareza são a tônica, para o concurso para o monumento a Oswaldo Cruz, utilizando o pseudônimo de 10 de novembro.
Em 1941 assombra São Paulo quando anunciou aos professores de física da Universidade e aos jornalistas que inventara o moto-perpétuo² e que daria demonstração do mesmo no anfiteatro da Gazeta, a R. Casper Libero. Como era de se esperar, o desfecho da experiência foi um completo fracasso.
Foram o leiloeiro Florestano Felice e Mario Graciotti, ambos amigos pessoais de Rollo, os financiadores do empreendimento que foi analisado, entre outros, pelos doutores Samuel Ribeiro e Souza Andrade, das máquinas Piratininga.
Além da física e da metafísica, das elocubações teóricas em companhia de Mário Graciotti, que afastarão Nicola Rollo da escultura nos próximos anos, ele terá certamente pintado e desenhado. Infelizmente, nenhuma das suas telas chegou até nós.
Sabemos da excelência do seu traço pela composição de Galhos, feita à partir da observação do natural, executada em betume sobre papel resinado. Tal desenho em posse de Raphael Galvez nos reporta a uma intimidade muito grande com o pincel, como podem notar todos que conhecem o processo do betume.
Há também um outro desenho seu, que foi ofertado a Mayra Laudanna por Mário Graciotti, que o recebeu das mãos do artista. A lápis, com uma economia muito grande de meios, Rollo executou uma virgem extremamente longilínea, de cânone ultrapassado, que cruza os braços sobre o peito e curva a cabeça. Esta virgem, etérea, "espiritualizadíssima" , lembra alguns dos seus trabalhos tumulares. No entanto, a exemplo de outros artistas, Rollo considerava a pintura e o desenho como uma parte menor da sua produção. Ele foi, por profissão e por convicção, um escultor.
É um sublime escultor quem executa, em 1956, o Ecce Agnus Dei, encomendado por José Florestano Felice e Odilo Checchine para ornar a praça da matriz do Guarujá.Trata-se da figura de Cristo, executada com extrema economia de meios, lembrando um torpedo ao qual foram aplicados braços que sustém um cordeirinho.
O Cristo do Guarujá é a última obra conhecida de Nicola Rollo, que morre em São Paulo em 29 de julho de 1970, aos 81 anos. Está enterrado no Cemitério São Paulo.
NOTAS:
1.Segundo Aracy Amaral – Artes Plásticas na semana de 22 , col. "debates"-arte, Ed. Perspectiva, SP,
1979, p. 67.
2. vide Correio Paulistano, domingo, 16 de fevereiro de 1941
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