Conclusão:

E a arte se faz silêncio, o silêncio invade a arte.

Lasar Segall, no catálogo do 2º salão de maio, disse:

"Sob a denominação de artistas modernos entendo aqueles que exprimem livremente as suas verdadeiras qualidades artísticas, descartando as fórmulas mortas estabelecidas pelas academias e as regras e convenções sufocadoras da personalidade

Em todas as épocas houve artistas modernos: entende-se por aquilo os talentos independentes que, criando novas formas, novas técnicas e novos modos de expressão tiveram que lutar contra a incompreensão e a hostilidade dos meios em que viviam, mas foram finalmente considerados pela posteridade como a expressão artística de suas épocas respectivas..."

Rollo, um espírito livre e artista liberto, foi inequivocamente um homem da modernidade. Suas obras, bem como sua vida, o testemunham. No entanto, e Luigi Brizzolara? Em que medida podemos dizer se ele foi ou não um artista "moderno"?

E qual é, afinal, a "função social" da obra dos nossos estudados? Qual o papel que os mesmos desempenharam frente aos seus contemporâneos? O que "significaram" efetivamente as suas obras, no momento em que foram acabadas?

Rollo, representante do imigrante italiano radicado em São Paulo, é o novo. Suas obras permitem a estes imigrantes um auto-reconhecimento, a criação e a apropriação de uma nova identidade cultural , que é fruto híbrido das recordações da Europa e das experiências vividas no Brasil.

O carro de boi, tornado carro da Glória, é um exemplo bastante rico de como a linguagem universal foi enriquecida com o acréscimo de neologismos. Mais do que isto, a simbólica "tradicional" foi profundamente modificada ao longo de sua obra(como fruto dos inúmeros acréscimos e supressões, impostas á mesma pela contaminação "brasileira"), criando, ao final do processo, uma nova linguagem plástica, que é moderna, é imigrante, mas é também paulista.

Esta linguagem expressiva, que é fruto ao mesmo tempo de uma experiência individual e coletiva (individual porque fruto de um processo de "espiritualização" e reflexão pessoal, e coletiva porque é fruto das experiências vividas à partir do fenômeno da imigração) é profundamente datada e localizada: a chave da decriptação da semântica das obras de Rollo também dá acesso a muitos pontos nevrálgicos do imaginário do imigrante.

Brizzolara, pelo contrário, representa a revivescência da Europa: é a nostalgia da Roma e da Paris "fin-de-siècle" que engendram a vontade de encontrar, nos recantos pitorescos da metrópole paulista, citações dos monumentos das referidas cidades.

Mais do que isto, a inserção da cidade de São Paulo na simbólica da cultura Universal permite aos imigrantes afirmarem-se enquanto membros ainda ativos desta cultura.

A saudade e a vontade de um regresso, que jamais ocorreria (porque a Europa que os imigrantes deixaram, a Europa da "Belle Èpoque", não é absolutamente a Europa da década de 1920), além do desejo de readquirir a própria identidade cultural, para todo o sempre perdida, é que fazem com que o imigrante enxergue na Praça Ramos "o mais belo conjunto escultural de São Paulo".

As próprias elites locais, movidas pelo desejo de auto-legitimação cultural, perceberam o quanto a arte de Brizzolara era propícia para consumar este desejo, sentiram-se da mesma maneira.

A "fonte dos desejos", que lembra muitas das fontes da velha Roma, é o regresso sentimental do imigrante. Regresso este que é, no entanto, o retorno á Europa que eles deixaram, uma Europa que já não mais existia.

Rollo, o aqui e o agora, representa a nova identidade, adquirida à partir da sua vivência em seu novo espaço urbano. Brizzolara, o ontem, é o regresso impossível à identidade cultural perdida.

Esta foi a nossa incursão, pelos dédalos da memória, correndo ao encontro destes dois enigmas.

"Demais, ao nosso individualismo estético, repugna a jaula de uma escola. Procuramos, cada um, atuar de acordo com nosso temperamento, dentro da mais arrojada simplicidade."

Menotti Del Picchia

Bibliografía Geral;

  1. GABORIT, J. R. – Sculpture (verbete) Enciclopaedia Universalis
  2. GOMBRICH, E. H. – História da Arte . São Paulo, Círculo do Livro S/A, 1ª ed., 1982.
  3. ROBERTSON, Martin, Uma breve História da arte Grega, R.J., Zahar Ed., 1982.
  4. WOLFFLIN, Heinrich, Conceitos Fundamentais de História da Arte, São Paulo, Martins Fontes Ed., 1ª ed., 1984.
  5. ZANINI, Walter, Tendências da Escultura Moderna, São Paulo, Ed. Cultrix Ltda., 2ª ed., 1980.

Bibliografia Específica:

Dizionario Biográfico degli italiani, verbete Luigi Brizzolara, A. Salmoni Cevidalli e J. Sbrogi Societá, Gráfica Romane 1972, vol. 14.

Bibliografia – capítulo 1:

  1. ANDRADE, Mário Raul de Morais, Poesias Completas, 3ª edição, São Paulo, Martins- MEC, Brasília, INL, 1972.
  2. idem , Anhangabaú (palma) in: revista O Echo, setembro de 1918.
  3. AMARAL, Aracy, Artes Plásticas na semana de 22, 4ª ed., São Paulo, Ed. Perspectiva, série "debates" artes, 1979.
  4. BRUAND, Yves , Arquitetura Contemporânea no Brasil; trad. Ana Maria Goldberger, São Paulo, Ed. Perspectiva, 1981.
  5. SESSO JR., Geraldo, retalhos da velha São Paulo, 2ª ed. Rev., São Paulo, OESP-Maltese, 1986.
  6. SEVCENKO, Nicolau, Literatura como missão,
  7. TOLEDO, Benedito Lima de , São Paulo: três cidades em um século, 2ª ed., São Paulo, ed. Duas Cidades, 1983.

E as obras incluídas nas "notas" do capítulo.

Bibliografia- capítulo 2:

  1. ALVIM, Zuleika M. F., Brava Gente!, ed. Brasiliense S/A, São Paulo, 1986.
  2. LOS RIOS FILHO, Adolfo Morales de, Teoria e Filosofia da Arquitetura, Ed. A noite, Rio de Janeiro, 1955.
  3. MACHADO, Antonio de Alcântara, Novelas Paulistanas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 6ª ed., 1979
  4. PEPE, Gaetano, La scuola italiana in San Paolo Del Brasile, Pocai & comp., São Paulo , 1916.
  5. SALMONI, Anita & DEBENEDETTI, Emma, Arquitetura italiana em São Paulo, 1ª ed., Ed. Perspectiva, São Paulo, 1981.
  6. TUFANO, Douglas, Estudos de Língua e Literatura, Ed. Moderna, 1977-79.

E as obras incluídas nas "notas" do capítulo.

Bibliografia –capítulo 5:

GRACIOTTI, Mário, Os deuses governam o mundo, Nova época Ed. Ltda., São Paulo, 1980.

E as obras incluídas nas "notas" do capítulo.

Bibliografia- psicologia da arte:

  1. FREUD, S., Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci
  2. idem, O Moisés de Michelangelo
  3. JUNG, C. G. , Tipos psicológicos, Buenos Aires, Sudamericana, 1964.
  4. LACAN, J., Os quatro conceitos Fundamentais de Psicanálise.
  5. GOMBRICH, E.H., Arte e Ilusão, um estudo da psicologia da representação pictórica, Martins Fontes, São Paulo, 1986.

Bibliografia- literatura:

1.ANDRADE, Mário Raul de Morais, Poesias Completas, 3ª edição, São Paulo, Martins- MEC, Brasília, INL, 1972.

2.MACHADO, Antonio de Alcântara, Novelas Paulistanas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 6ª ed., 1979


Fonte: .