Nos Dédalos Da Memória
- Por Luiz Carlos Cappellano
- Publicado 30/11/2007
- Arte e Ciência , História
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Conclusão
E a arte se faz silêncio, o silêncio invade a arte.
Lasar Segall, no catálogo do 2º salão de maio, disse:
"Sob a denominação de artistas modernos entendo aqueles que exprimem livremente as suas verdadeiras qualidades artísticas, descartando as fórmulas mortas estabelecidas pelas academias e as regras e convenções sufocadoras da personalidade
Em todas as épocas houve artistas modernos: entende-se por aquilo os talentos independentes que, criando novas formas, novas técnicas e novos modos de expressão tiveram que lutar contra a incompreensão e a hostilidade dos meios em que viviam, mas foram finalmente considerados pela posteridade como a expressão artística de suas épocas respectivas..."
Rollo, um espírito livre e artista liberto, foi inequivocamente um homem da modernidade. Suas obras, bem como sua vida, o testemunham. No entanto, e Luigi Brizzolara? Em que medida podemos dizer se ele foi ou não um artista "moderno"?
E qual é, afinal, a "função social" da obra dos nossos estudados? Qual o papel que os mesmos desempenharam frente aos seus contemporâneos? O que "significaram" efetivamente as suas obras, no momento em que foram acabadas?
Rollo, representante do imigrante italiano radicado em São Paulo, é o novo. Suas obras permitem a estes imigrantes um auto-reconhecimento, a criação e a apropriação de uma nova identidade cultural , que é fruto híbrido das recordações da Europa e das experiências vividas no Brasil.
O carro de boi, tornado carro da Glória, é um exemplo bastante rico de como a linguagem universal foi enriquecida com o acréscimo de neologismos. Mais do que isto, a simbólica "tradicional" foi profundamente modificada ao longo de sua obra(como fruto dos inúmeros acréscimos e supressões, impostas á mesma pela contaminação "brasileira"), criando, ao final do processo, uma nova linguagem plástica, que é moderna, é imigrante, mas é também paulista.
Esta linguagem expressiva, que é fruto ao mesmo tempo de uma experiência individual e coletiva (individual porque fruto de um processo de "espiritualização" e reflexão pessoal, e coletiva porque é fruto das experiências vividas à partir do fenômeno da imigração) é profundamente datada e localizada: a chave da decriptação da semântica das obras de Rollo também dá acesso a muitos pontos nevrálgicos do imaginário do imigrante.
Brizzolara, pelo contrário, representa a revivescência da Europa: é a nostalgia da Roma e da Paris "fin-de-siècle" que engendram a vontade de encontrar, nos recantos pitorescos da metrópole paulista, citações dos monumentos das referidas cidades.
Mais do que isto, a inserção da cidade de São Paulo na simbólica da cultura Universal permite aos imigrantes afirmarem-se enquanto membros ainda ativos desta cultura.
A saudade e a vontade de um regresso, que jamais ocorreria (porque a Europa que os imigrantes deixaram, a Europa da "Belle Èpoque", não é absolutamente a Europa da década de 1920), além do desejo de readquirir a própria identidade cultural, para todo o sempre perdida, é que fazem com que o imigrante enxergue na Praça Ramos "o mais belo conjunto escultural de São Paulo".
As próprias elites locais, movidas pelo desejo de auto-legitimação cultural, perceberam o quanto a arte de Brizzolara era propícia para consumar este desejo, sentiram-se da mesma maneira.
A "fonte dos desejos", que lembra muitas das fontes da velha Roma, é o regresso sentimental do imigrante. Regresso este que é, no entanto, o retorno á Europa que eles deixaram, uma Europa que já não mais existia.
Rollo, o aqui e o agora, representa a nova identidade, adquirida à partir da sua vivência em seu novo espaço urbano. Brizzolara, o ontem, é o regresso impossível à identidade cultural perdida.
Esta foi a nossa incursão, pelos dédalos da memória, correndo ao encontro destes dois enigmas.
"Demais, ao nosso individualismo estético, repugna a jaula de uma escola. Procuramos, cada um, atuar de acordo com nosso temperamento, dentro da mais arrojada simplicidade."
Menotti Del Picchia
Bibliografía Geral;
- GABORIT, J. R. – Sculpture (verbete) Enciclopaedia Universalis
- GOMBRICH, E. H. – História da Arte . São Paulo, Círculo do Livro S/A, 1ª ed., 1982.
- ROBERTSON, Martin, Uma breve História da arte Grega, R.J., Zahar Ed., 1982.
- WOLFFLIN, Heinrich, Conceitos Fundamentais de História da Arte, São Paulo, Martins Fontes Ed., 1ª ed., 1984.
- ZANINI, Walter, Tendências da Escultura Moderna, São Paulo, Ed. Cultrix Ltda., 2ª ed., 1980.
Bibliografia Específica:
Dizionario Biográfico degli italiani, verbete Luigi Brizzolara, A. Salmoni Cevidalli e J. Sbrogi Societá, Gráfica Romane 1972, vol. 14.
Bibliografia – capítulo 1:
- ANDRADE, Mário Raul de Morais, Poesias Completas, 3ª edição, São Paulo, Martins- MEC, Brasília, INL, 1972.
- idem , Anhangabaú (palma) in: revista O Echo, setembro de 1918.
- AMARAL, Aracy, Artes Plásticas na semana de 22, 4ª ed., São Paulo, Ed. Perspectiva, série "debates" artes, 1979.
- BRUAND, Yves , Arquitetura Contemporânea no Brasil; trad. Ana Maria Goldberger, São Paulo, Ed. Perspectiva, 1981.
- SESSO JR., Geraldo, retalhos da velha São Paulo, 2ª ed. Rev., São Paulo, OESP-Maltese, 1986.
- SEVCENKO, Nicolau, Literatura como missão,
- TOLEDO, Benedito Lima de , São Paulo: três cidades em um século, 2ª ed., São Paulo, ed. Duas Cidades, 1983.
E as obras incluídas nas "notas" do capítulo.
Bibliografia- capítulo 2:
- ALVIM, Zuleika M. F., Brava Gente!, ed. Brasiliense S/A, São Paulo, 1986.
- LOS RIOS FILHO, Adolfo Morales de, Teoria e Filosofia da Arquitetura, Ed. A noite, Rio de Janeiro, 1955.
- MACHADO, Antonio de Alcântara, Novelas Paulistanas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 6ª ed., 1979
- PEPE, Gaetano, La scuola italiana in San Paolo Del Brasile, Pocai & comp., São Paulo , 1916.
- SALMONI, Anita & DEBENEDETTI, Emma, Arquitetura italiana em São Paulo, 1ª ed., Ed. Perspectiva, São Paulo, 1981.
- TUFANO, Douglas, Estudos de Língua e Literatura, Ed. Moderna, 1977-79.
E as obras incluídas nas "notas" do capítulo.
Bibliografia –capítulo 5:
GRACIOTTI, Mário, Os deuses governam o mundo, Nova época Ed. Ltda., São Paulo, 1980.
E as obras incluídas nas "notas" do capítulo.
Bibliografia- psicologia da arte:
- FREUD, S., Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci
- idem, O Moisés de Michelangelo
- JUNG, C. G. , Tipos psicológicos, Buenos Aires, Sudamericana, 1964.
- LACAN, J., Os quatro conceitos Fundamentais de Psicanálise.
- GOMBRICH, E.H., Arte e Ilusão, um estudo da psicologia da representação pictórica, Martins Fontes, São Paulo, 1986.
Bibliografia- literatura:
1.ANDRADE, Mário Raul de Morais, Poesias Completas, 3ª edição, São Paulo, Martins- MEC, Brasília, INL, 1972.
2.MACHADO, Antonio de Alcântara, Novelas Paulistanas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 6ª ed., 1979
Fonte: .
Luiz Carlos Cappellano
Nasci em São Paulo, em 29/ 12/1965. Escolhi estudar, viver e trabalhar em Campinas. Graduei-me em História e em Pedagogia e pós-graduei-me em História Social do Trabalho e História da Arte e da Cultura. Atuo na Secretaria Municipal de Educação de Campinas desde 1991 e na FESB, Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista, desde 1995. Desde junho de 2006 divido minha vida com Carlos Eduardo Valim Rocha, também docente e administrador de empresas, com vários artigos publicados.
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Eliana
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comentou em 11 Dec 2007 7:59:42 AM BRT
Num país onde muito pouco se investe em arte e onde existe muito pouco material bibliográfico sobre escultura foi excelente poder encontrar este texto, que trabalha a escultura (e a arte) sempre inserindo-a num panorama maior de transformações históricas e sociais.
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C. A. P. B.
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comentou em 25 Feb 2010 9:30:47 PM BRT
Um dos melhores textos que já li neste sítio!
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