Introdução à Filosofia
- Por Wilson Correia
- Publicado 12/11/2007
- Filosofia
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Os diversos tipos de conhecimento
1 O que é conhecer?
De modo simples, pode-se dizer que "conhecer é elaborar um modelo de realidade" e "projetar ordem onde havia caos" (CYRINO & PENHA, 1992, p. 13). Nesse sentido, três elementos são necessários para que haja conhecimento:
a) O sujeito, que é o ser que conhece;
b) O objeto, aquilo que o sujeito investiga para conhecer;
c) A imagem mental em forma de opinião, idéia ou conceito que resultam da relação sujeito-objeto e que passa a habitar a subjetividade daquele que conhece.
Nesse processo, dado que o humano é pensante-sentinte-comunicante, ele articula sentimentos e pensamentos e os transmite por meio da linguagem simbólica, a qual o diferencia dos demais seres existentes. Essa linguagem pode ser oral ou escrita, verbal ou não-verbal.
Falar, escrever e gesticular seriam maneiras elementares de o sujeito humano produzir e veicular informações, conhecimentos e saberes. As informações ele as registra em suportes materiais palpáveis. O conhecimento ele o apreende em sua subjetividade, de maneira dinâmica para sempre ser reelaborado. O saber são aquelas informações e aqueles conhecimentos que ele, humano, mobiliza para relacionar-se com o mundo, interagir com os semelhantes, com a sociedade, com o universo e com a vida (CHARLOT, 2000).
Por meio da relação sujeito-objeto, da qual resultam informações, conhecimentos e saberes, o humano cognoscente busca compreender, representar e explicar os objetos com os quais convive em sua vida prática e até aqueles que ele imagina possam existir como idéia formal apenas. A isso chamamos conhecimento, esse produto da inteligência simbólica humana por meio da qual o múltiplo ganha uma unicidade, a diversidade recebe certa harmonia e o vazio é preenchido por um sentido, sendo o principal deles o sentido existencial, a razão de ser da vida, o motivo pelo qual o homem e a mulher são, pensam, sentem, julgam, valoram, decidem e agem no aqui-agora de seu ser-estar no mundo.
2 Conhecer e pensar
Decididamente, pode-se dizer que os humanos se diferenciam do animal que não possui inteligência simbólica pela capacidade que o homem e a mulher têm de pensar e, ao fazê-lo, problematizar o seu entorno físico e cultural.
Entorno físico identifica-se com a natureza natural. O entorno cultural refere-se a tudo o que o humano produz ao ser, estar e agir no mundo. Enquanto o humano interfere naquela realidade natural e a modifica, os outros animais apenas são predominantemente adaptativos ao ambiente em que se encontram.
Um exemplo que ilustra com simplicidade essa constatação é o caso do João-de-barro, o passarinho que, desde que existe na face da Terra, constrói a mesma moradia. Você já viu a casa do joão-de-barro. Se viu, notou que, aquilo que, nele, aparentemente, resulta de uma inteligência simbólica, é, na verdade, produto de uma programação instintiva, da qual o João-de-barro não foge e à qual ele obedece às cegas.
O humano começou morando em cavernas. Mas, ao contrário do João-de-barro, fez choças e cabanas. Passos à frente o levaram a fazer casas de madeira, tijolos e cimento. Atualmente, ele utiliza estruturas sofisticadíssimas para construir todo tipo de moradia: edifícios altíssimos e casas que tentam ser à prova de terremotos e furacões.
Por que o humano progrediu e o João-de-barro, não? Uma pista para respondermos a essa pergunta é o fato de que o homem e a mulher, à medida que iam explorando seu objeto, a casa, eles também iam pensando sobre ele, objeto, e problematizando a arte de fazer casa, coisa que o João-de-barro, até onde sabemos, não dá conta de realizar.
Conclusão: pensar, sentir, problematizar e agir são ações importantíssimas no processo de produzir informações, conhecimentos e saberes.
3 Os diversos tipos de conhecimento e saberes
É a inteligência simbólica, diferente de uma programação instintiva, que possibilita ao ser humano pensar, sentir, problematizar e agir, dando-lhe a possibilidade de produzir uma gama variada de conhecimento.
a) O saber da vida
Esse tipo de saber baseia-se na vivência espontânea da vida e começa a ser construído tão logo o homem seja lançado no mundo. Ele vive esse processo até o dia de sua morte. Por isso, tudo o que diz respeito à condução da vida na terra pode se tornar objeto a ser "explorado" e representado nesse nível de conhecimento da realidade.
As características desse tipo de saber compreendem a não-sistematicidade, razão pela qual ele não é produzido com base em procedimentos metodológicos, feitos para conduzir a relação sujeito-objeto. O que resulta dessa relação com o mundo é um saber que muitos chamam saber empírico, vulgar ou, ainda, senso comum.
b) O conhecimento mítico
Trata-se de uma modalidade de conhecimento baseado na intuição e que deriva do entendimento de que existem modelos naturais e sobrenaturais dos quais brota o sentido de tudo o que existe. É um tipo de conhecimento que ajuda o ser humano a "explicar" o mundo por meio de representações que não são logicamente raciocinadas, nem resultantes de experimentações científicas.
O conhecimento mítico é "expresso por meio de linguagem simbólica e imaginária" (CYRINO & PENHA, 1992, p. 14). Assim, ainda que o conhecimento mítico crie representações para atribuir um sentido às coisas, ele ainda se baseia na crença de que seres fantásticos e suas histórias sobrenaturais é que são os responsáveis pela razão de ser do existente.
C) Conhecimento teológico
Se o saber da vida se baseia na experiência de vida e é espontâneo, e se o conhecimento mítico fundamenta-se na crença em seres fantásticos, e é elaborado fora da lógica racional, o saber teológico fundamenta-se na fé. É dedutivo por partir de uma realidade universal para representar e atribuir sentido a realidades particulares.
Desse modo, o conhecimento teológico parte da compreensão e da aceitação da existência de um Deus, ou de deuses, os quais constituem a razão de ser de todas as coisas. Esses seres "revelam-se" aos humanos. Dão ao homem e à mulher as suas verdades, as quais se caracterizam por ser indiscutíveis, inquestionáveis. Se assim são, a razão não precisa compreender esses dogmas, mas aceitá-los. É esse processo que o conhecimento teológico investiga e tenta explicar.
d) Conhecimento filosófico
O conhecimento filosófico é racional. Baseia-se na especulação em torno do real, tendo como objeto a busca da verdade. Por isso, diz-se que é uma atitude. Ele é sistemático, mas não experimental. Vai à raiz das coisas e é produzido segundo o rigor lógico que a razão exige de um conhecimento que se quer buscando a verdade do existente.
Nessa investigação, o conhecimento filosófico visa aos "porquês" de tudo o que existe. É ativo, pois coloca o humano à procura de respostas para as inúmeras perguntas que ele próprio pode formular. Exemplos: Quem é o homem? De onde ele veio? Para onde ele vai? Qual é o valor da vida humana? O que é o tempo? O que é o sentido da vida?
e) Conhecimento científico
Semelhantemente ao conhecimento filosófico, o saber científico também é racional e é produzido mediante a investigação da realidade, seja por meio de experimentos seja por meio da busca do entendimento lógico de fatos, fenômenos, relações, coisas, seres e acontecimentos que ocorrem na realidade cósmica, humana e natural.
Trata-se de um conhecimento que é sistemático, metódico e que não é realizado de maneira espontânea, intuitiva, baseada na fé ou simplesmente na lógica racional. Ele prevê, ainda, experimentação, validação e comprovação daquilo a que chega a título de representação do real. Mediante as leis que formula, o conhecimento científico possibilita ao ser humano elaborar instrumentos os quais são utilizados para intervir na realidade e transformá-la para melhor ou para pior.
f) Conhecimento técnico
O fundamento básico desse tipo de conhecimento é o saber fazer, a operacionalização. Tem como objeto o domínio do mundo e da natureza. É especializado e específico e se esmera na aplicação de todos os outros saberes que lhe podem ser úteis.
Trata-se de um tipo de saber que auxilia o homem e a mulher a agirem no mundo, levando-os às mais diversas atividades visando à produção técnica da vida. A supervalorização da técnica pode levar a um ativismo que coloca em segundo plano as atividades de pensar e de compreender os "porquês" das coisas, razão pela qual o emprego da tecnologia requer prudência e bom senso.
g) O saber das artes
As artes e os saberes que elas possibilitam valorizam os sentimentos, a emoção e a intuição racio-sentimental humana. Se o saber da vida busca ordem para preencher o vazio de sentido advindo do caos; se o conhecimento mítico busca na crença a razão de ser de todas as coisas; se a teologia fundamenta-se na idéia de deuses para buscar as verdades acabadas a serem observadas pelo ser humano; se a filosofia busca as representações racionais da realidade; se a ciência almeja conhecer de maneira comprovada e segura; se a técnica busca aplicar conhecimentos... o saber das artes busca o belo.
Nesse sentido, o saber das artes valoriza as experiências estéticas do humano, proporcionando-lhe o refinamento do espírito ao oferecer-lhe a relação com senso do gosto, do bonito e do grotesco. Experimentar a belza e extrair dela a matéria fundamental para o refinamento de si mesmo é a finalidade maior de tudo aquilo que se produz em termos de artes e sem as quais o ser humano se vê empobrecido e pequenificado.
4 Conclusão
Como se vê, o ser humano produz diversos tipos de informações, conhecimentos e saberes. E disso ele é capaz porque pensa, problematiza, raciocina, julga, avalia, decide e age no mundo. O humano é interacional. É relacional, e é em meio às múltiplas relações que vivencia no mundo que ele pode construir representações aproximativas deste mundo.
Nesse sentido, um tipo de conhecimento não é melhor que o outro. Eles devem ser vistos numa perspectiva de complementaridade, interdisciplinaridade e até de transdisciplinaridade. Ou os seres humanos não precisam deles para se compreender e viver?
Referências bibliográficas
CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Trad. B. Magne. Porto Alegre: Artmed, 2000.
CHAUÍ, M. Primeira filosofia: aspectos da história da filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1987.
CYRINO, H. & PENHA, C. Filosofia hoje. 2. ed. Campinas: Papirus, 1992.
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Wilson Correia
Wilson Correia é Doutor em Educação pela UNICAMP. É mestre em Educação pela UFU. Cursou especialização em Psicopedagogia pela UFG. Graduou-se em Filosofia pela UCG. É professor universitário. É autor de Saber Ensinar. São Paulo: EPU, 2006. Endereço eletrônico: wilfc2002@yahoo.com.br.
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21 Comentários em "Introdução à Filosofia" 
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comentou em 17 Nov 2007 5:59:16 PM CDT
Artigo, excelente, rico em detalhes, linguagem esmerada, de uma profundidade esclarecedora e com tópicos onde Universalisa os seres e a vida em todos os sentidos!
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comentou em 01 Feb 2008 5:47:22 AM CDT
Objetivo, conciso e extremamente racional. Vale a leitura, letra por letra.
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comentou em 10 Mar 2008 7:48:38 PM CDT
me ajudou em uma pesquisa muito importante..aqui eu pude encontrar o que eu queria
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comentou em 10 Mar 2008 7:49:51 PM CDT
com detalhes exelentes.
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comentou em 28 Mar 2008 11:29:35 AM CDT
Basicamente é um bom artigo,tratar do conhecimento mitico é sempre necessario para se compreender a necessidade que as etnias tem em possuir respostas para todas as questões, o que não é obviamente inteligente!!!!!
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comentou em 28 Mar 2008 11:37:48 AM CDT
acredito tambem que a filosia e suas pesquisas merecem um valor ainda maior que possui,trata-se não apenas de uma ciência mas sim de um "mundo"nd65xu
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comentou em 08 Apr 2008 5:59:21 AM CDT
eu axo q tudo isso, mas q eu nem li, deve estar propriamente adequado a tudo q se diz respeito contínuo a humanidade. Desconhecendo os poderes de qm esta ao meu lado, e nem sabendo o q ele esta pensando, eu concluo q este é o caminho da evolução.
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comentou em 08 Apr 2008 11:47:53 AM CDT
Excelente. Artigo objetivo capaz de fazer uma aluno iniciante compreender sobre o conhecimento de forma fácil, principalmente pela gama de exemplos ofertados.
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comentou em 15 May 2008 1:58:49 PM CDT
ótimo le ajudou muito a aprender sobre os conhecimentos
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comentou em 12 Jun 2008 12:37:39 PM CDT
Parabéns para quem fez este comentário. Excelente! Gostaria de receber mais, sempre que disponíveis. Obrigado!
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comentou em 05 Jul 2008 10:10:52 PM CDT
Parabéns, era isso que eu estava procurando ,ler filisifia de uma maneira fácil de entender. pretendo ser professora de filosofia.
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comentou em 06 Jul 2008 10:56:26 AM CDT
Como um todo, saber é sembre importante em nossa vida:::: viveremos, aprenderemos e morreremos sem saber, foi dito por ATAIDE meu tiu de 110 anos. Me disse em nosso ultimo dia juntos. bjos gostei muito de tudo.
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comentou em 20 Oct 2008 1:07:43 PM CDT
É excilente comentario, pois é muito claro e conciso, gostaria que quem o fez, o fize-se bmais vezes.
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comentou em 20 Oct 2008 1:15:52 PM CDT
É de louvar, espero tenham mais sucsso.
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comentou em 20 Oct 2008 1:24:06 PM CDT
O saber é oque todo mundo procura, mas para se saber é necessário ter a coragem e o espirito do saber, estão num bom caminho.
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comentou em 24 Feb 2009 9:03:24 PM CDT
Esclarecedor e objetivo.
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comentou em 09 Mar 2009 4:41:57 PM CDT
muito bom ajudou do meu trabalho da escola
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comentou em 26 Mar 2009 10:37:21 AM CDT
g) O saber das artes
As artes e os saberes que elas possibilitam valorizam os sentimentos, a emoção e a intuição racio-sentimental humana. Se o saber da vida busca ordem para preencher o vazio de sentido do caos; se o conhecimento mítico busca na crença a razão de ser de todas as coisas; se a teologia fundamenta-se na idéia de deuses para buscar as verdades acabadas a serem observadas pelo ser humano; se a filosofia busca as representações racionais da realidade; se a ciência busca conhecer de maneira comprovada e segura; se a técnica busca aplicar conhecimentos... o saber das artes busca o belo.
Nesse sentido, o saber das artes valoriza as experiências estéticas do humano, proporcionando-lhe o refinamento do espírito ao oferecer-lhe a relação com senso do gosto, do belo e do grotesco. Experimentar o belo e extrair dele a matéria fundamenta para o refinamento de si mesmo é a finalidade maior de tudo aquilo que se produz em termos de artes e sem as quais o ser humano se vê empobrecido e pequeneficado.
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comentou em 20 May 2009 8:25:32 AM CDT
Parabens pela qualidade, profissionalismo e a seriedade desse trabalho.
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comentou em 05 Jun 2009 2:02:33 PM CDT
muito bom esse texto!!
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comentou em 29 Jun 2009 3:48:17 AM CDT
Foi com muito amor e desejo de deixar o q achei ideal na minha analisa perante este informe, e tambem deixar minhas felicitacoes e continuar a desejar feliz trabalho e muita vontade de nos servir...!
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