A Identidade
- Por Zwinglio Rodrigues
- Publicado 26/09/2009
- Sociologia
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A Identidade
O conceito de identidade tem sido extensamente debatido pela teoria social ao longo do tempo. A questão tem gravitado em torno das versões filosóficas, antropológicas, psicológicas e sociológicas, e, com isso, suas definições têm se apresentado de maneira variegada. Nesse breve texto, é nossa intenção discutir a relevância do assunto a partir de um viés pós-estruturalista.
Conceituar identidade se faz necessário para que se possa compreender sua funcionalidade. Na perspectiva dos estudos culturais[1], a identidade é relacional (oposição de grupos), está vinculada às condições sociais e materiais (a questão da inclusão e exclusão), aos sistemas classificatórios, é fluida e polissêmica, é construída e sustentada pelos processos social e simbólico e envolve reivindicações essencialistas.
Segundo Woodward (2000), um dos debates centrais relacionados à identidade polariza-se entre as perspectivas essencialistas e não-essencialistas. A primeira afirma ser a identidade unificada, imutável, fixa, que não se altera com o passar do tempo, como era o pensar Iluminista sobre o sujeito. De acordo com Hall (2006, p. 10) "o sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado…" Já a segunda, destaca um enfoque pós-moderno que afirma ser a identidade não permanente, mas uma realidade processada e transformada sistematicamente.
O sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de varias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais 'lá fora' e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as 'necessidades' objetivas da cultura, estão entrando em colapso, com resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático (idem p. 12).
O trecho acima aponta para a discussão pós-moderna que insinua uma violenta mudança no campo da identidade. Aqui entra o conceito de descontinuidades que Giddens (1990, p. 21 apud HALL, 2006, p. 16) destaca dizendo:
Os modos de vida colocados em ação pela modernidade nos livraram, de uma forma bastante inédita, de todos os tios tradicionais de ordem social. Tanto em extensão, quanto em intensidade, as transformações envolvidas na modernidade são mais profundas do que a maioria das mudanças características dos períodos anteriores. No plano da extensão, elas serviram para estabelecer formas de interconexão social que cobrem o globo; em termos de intensidade, elas alteraram algumas das características mais íntimas e pessoais de nossa existência cotidiana.
Essas transformações têm levado os teóricos a discutirem e a sugerirem que uma crise de identidade já é uma realidade global.
Segundo K. Mercer (1990, p. 4, apud WOODWARD, 2000, p. 19 ),
Quase todo mundo fala agora sobre 'identidade'. A identidade só se torna um problema quando está em crise, quando algo que se supõe ser fixo,coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza.
A modernidade tardia[2], designação usada por Anthony Giddens e Stuart Hall para referirem-se à sociedade atual, que também é chamada de pós-moderna por outros teóricos como Zygmunt Bauman, tem se caracterizado pelas seguintes palavras e idéias: "identidade" e "crise de identidade". O fenômeno da globalização é um dos desestruturadores da identidade que também acabou por lançá-la em um contexto de crise. Woodward (2000, p. 20) diz que "a globalização envolve uma interação entre fatores econômicos e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as quais, por sua vez, produzem identidades novas e globalizadas".
Em outras palavras, o que a globalização em seu estado atual tem produzido é a convergência dos estilos de vida das sociedades e das culturas, gerando assim resultados diferentes de identidades. A dinamização e a contínua mudança das sociedades modernas são aspectos peculiares que lhes distinguem das sociedades tradicionais. Nestas, venera-se o passado e exalta-se os seus símbolos visto que os mesmos trazem em si a experiência de gerações e a tornam sucessivas. Já nas primeiras, as práticas sociais são processadas e reprocessadas à luz das novas informações repassadas que acabam por alterar seu caráter.
Um exemplo da interferência direta da globalização nas identidades é a migração. Os trabalhadores, na necessidade da sobrevivência, acabam por se espalhar pelo mundo gerando um forte impacto tanto em seus países de origem bem como sobre os países que os acolhem. O fenômeno da migração, que não é novo, acaba produzindo identidades plurais e gerando um processo nada igualitário em relação ao desenvolvimento (WOODWARD, 2000).
Para Hall (2000) torna-se inviável discutir as questões relativas a identidade sem levar em conta esses dois fenômenos globais – característicos do chamado mundo pós-colonial – chamados de "processos de globalização" e "processos de migração livre." Essa combinação de "processos" inviabilizam a mobilidade das identidades em torno do essencialismo, do fixismo e de uma unidade racional.
Nesse processo migratório as identidades acabam sendo modeladas e localizadas em e por lugares diferentes, fazendo surgir assim novas identidades que em hipótese alguma podem ser admitidas como não desestabilizáveis e não desestabilizadoras. Algumas dessas identidades destituídas de "pátria" e não provenientes de uma única fonte são melhores compreendidas quando observadas a partir do conceito de diáspora (esta acaba por produzir uma hibridização cultural) de Paul Gilroy. Segundo ele:
Sob a chave da diáspora nós poderemos então ver não a raça, e sim formas geopolíticas e geoculturais de vida que são resultantes da interação entre sistemas comunicativos e contextos que elas não só incorporam, mas também modificam e transcendem[3]
Em outras palavras Gilroy está dizendo que os cruzamentos de fronteiras acabam por produzir deslocamentos contestadores e produtores de identidades. Assim, a diáspora seria uma representação simbólica das lutas políticas que objetivam definir as comunidades locais como distintas e inseridas em contextos históricos de deslocação.
Essa idéia de "crise de identidade" que se apresenta nos textos de Woodward e Hall está vinculada ao colapso da antiga União Soviética e do bloco comunista do Leste Europeu. Talvez esse fato histórico seja a figura simbólica que mais denota a realidade das identidades em crise. De acordo com Woodward (2000,p. 22),
O colapso do comunismo, em 1989, na Europa do Leste e na ex-União soviética, teve importantes repercussões no campo das lutas e dos compromissos políticos. O comunismo simplesmente deixava de existir como um ponto de referência na definição de posições políticas. Para preencher esse vazio, têm ressurgido na Europa Oriental e na ex-União Soviética formas antigas de identificação étnica, religiosa e nacional.
O trecho destacado trata do violento revival do nacionalismo ético vinculado ao ideal da pureza racial e da ortodoxia religiosa. Diante de toda fragmentação da identidade cultural iniciada pelos processos de globalização e de migração, uma intensa luta é travada em busca do reconhecimento de identidades étnicas no âmago de um passado esquecido de antigos estados-nações. S. Daniels (1993, p. 5, apud WOODWARD, 2000, p.23) explica que esse passado perdido é "ordenado… por lendas e paisagens, por histórias de eras de ouro, antigas tradições, por fatos heróicos e destinos dramáticos localizados em terras prometidas, cheias de paisagens e locais sagrados…" Como prova da realidade dessas incursões, podem ser citados os movimentos separatistas da Estônia, Letônia e Lituânia, da desintegração da antiga Iugoslávia e da marcha em busca da independência das velhas repúblicas soviéticas (Hall 2006).
Em
outras partes do mundo esse tipo de disputa de antigas identidades
também ocorre. Segundo o antropólogo argentino Néstor García Canclini,
o fenômeno do hibridismo cultural na América Latina se deu pelo agrupamento de
sociedades dispersas em milhares de comunidades rurais com culturas tradicionais, locais e homogêneas, em algumas regiões com fortes raízes indígenas, com pouca comunicação com o resto de cada nação, a uma trama majoritariamente urbana, em que se dispõe de uma oferta simbólica heterogênea, renovada por uma constante interação do local com redes nacionais e transnacionais de comunicação.[4]
Aqui também encontramos uma transformação marcante no universo rural e urbano que acabou por gerar conflitos inevitáveis entre o que é análogo, culturalmente falando, e o que é plural.
O fato é que a questão da identidade apenas se constitui em um problema quando ela está em crise. De acordo com os teóricos dos estudos culturais, essa "crise" tem relação com o deslocamento da identidade via as incertezas daquilo que pensava-se ser fixo e imutável.
Referências e Notas
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. São Paulo: DP&A, 2005.
SILVA, Tomaz Tadeu (org.); WOODWARD, Katheryn; HALL, Stuart. Identidade e Diferença: A Perspectiva dos Estudos Culturais. São Paulo: Vozes, 2004.
[1] Os estudos culturais são estudos que tratam da diversidade das diferentes culturas e suas complexidades e multiplicidades presente em cada cultura. De acordo com Silva (2002) o envolvimento dos estudos culturais é declaradamente político e posiciona-se ao lado dos grupos sociais que estão em desvantagens quanto às relações de poder socialmente constituídas.
[2] Nesse debate etimológico sobre como designar a sociedade atual, talvez, o que menos importa, seja exatamente a questão etimológica. O foco da discussão sobre esse tempo deve gravitar em torno de suas transformações sociais e da complexidade quanto à determinação de quando termina a modernidade e começa a pós-modernidade. Esse último pode ser caracterizado como um tempo de mudanças sociais no campo da arte, ciência, política, educação e relações humanas. Para uma compreensão mais apurada dessa época, faz-se necessário voltarmos nossas lentes para a modernidade e sua desentronização de Deus como o centro do universo com o objetivo de se elevar um ideal antropocêntrico e suficiente. O teísmo deveria ser substituído pela divinização do próprio homem. Nessa época a razão e o Poder Estatal passariam a ser as instâncias fomentadoras do convívio social, regulando e disciplinando o gênero humano. Contudo, a decepção veio a galope e os ideais iluministas, junto a outras fontes filosóficas e científicas, não subsistiram como pensado e pretendido. O desmoronamento da ordem e a prevalência do caos (a razão que propunha ser o instrumento de esclarecimento em detrimento do obscurantismo gerou o caos porque tornou-se um agente de dominação) ordem evindenciam-se como fenômenos deslocadores daquilo que se supunha ser fixo, coerente, estável e acertado. Aquele fenômeno passou a produzir experiências de dúvidas e incertezas. Assim, chegamos ao século XX marcado pelas crises humanas. É aqui que para alguns teóricos apresenta-se a pós-modernidade como uma "ruptura" com a modernidade. O estável e fixo caracterizou-se perfeitamente duvidoso e incerto, por isso fora deslocado cedendo lugar a uma realidade niilista que faz com que o tecido social seja visto como suspeito e efêmero por ser meramente experimental. Fonte Consultada: http://www.scribd.com/doc/6167586/O-que-e-posmodernidade-modernidade-tardia-ou-era-do-vazio
[3] Extraído de http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77012002000100013&script=sci_arttext
[4] Extraído de http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0212125_06_cap_03.pdf
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Zwinglio Rodrigues
Zwinglio Rodrigues é pastor, graduado em Teologia, Pedagogia e pós-graduado em Ciências da Religião: História e Filosofia.
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