A DIVERSIDADE DA LÍNGUA
A linguagem, ao longo dos anos, tem crescido em grau de importância na comunicação humana. Em verdade tem sido peça fundamental para o entendimento, a transmissão de mensagens e a interação entre os sujeitos.
A lingüística, por sua vez, surge como uma ciência que se preocupa com as diversas variações que podem existir em uma língua e também com os aspectos semânticos da mesma.
Além da lingüística, a semiótica surge com um objetivo mais voltado para a análise do discurso, buscando um entendimento mais completo de algo que se expressa através da escrita e em contrapartida as relações existentes nesses textos. Tem o intuito de estabelecer interação entre o conteúdo de um discurso e sua simbologia e a partir disso perceber que outros discursos estão inseridos nele.
Nesta análise da crônica "A aldeia que nunca mais foi a mesma", de Rubem Alves, será feito um percurso gerativo do texto, partindo do nível fundamental, ou seja, simples e abstrato, passando pelo nível narrativo e finalmente ao nível discursivo,ou seja, o mais complexo e concreto. Certamente esse percurso gerativo trará um entendimento mais abrangente dos caminhos percorridos pelo texto, proporcionando a oportunidade de perceber os diversos discursos, que dialogam com o mesmo, e que nele estão inseridos.
CRÔNICA: UM GÊNERO LITERÁRIO
A crônica é um gênero literário que, a princípio, era um "relato cronológico dos fatos sucedidos em qualquer lugar"1, isto é, uma narração de episódios históricos. Era a chamada "crônica histórica" (como a medieval). Essa relação de tempo e memória está relacionada com a própria origem grega da palavra, Chronos, que significa tempo. Portanto, a crônica, desde sua origem, é um “relato em permanente relação com o tempo, de onde tira, como memória escrita, sua matéria principal, o que fica do vivido.” No Brasil, a crônica se consolidou por volta de 1930 e atualmente vem adquirindo uma importância maior em nossa literatura graças aos excelentes escritores que resolveram se dedicar exclusivamente a ela, como Rubem Braga e Luís Fernando Veríssimo, além dos grandes autores brasileiros, como Machado de Assis, José de Alencar e Carlos Drummond de Andrade, que também resolveram dedicar seus talentos a esse gênero. Tudo isso fez com que a crônica se desenvolvesse no Brasil de forma extremamente significativa.
Na crônica, "Tudo é vida, tudo é motivo de experiência e reflexão, ou simplesmente de divertimento, de esquecimento momentâneo de nós mesmos a troco do sonho ou da piada que nos transporta ao mundo da imaginação. A crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser vinculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.
Em regra geral, a crônica é um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano. Algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã, na feliz expressão de Fernando Sabino. O comentário pode ser poético ou irônico mas o seu motivo, na maioria dos casos, é o fato miúdo: a notícia em quem ninguém prestou atenção, o acontecimento insignificante, a cena corriqueira. Nessas trivialidades, o cronista surpreende a beleza, a comicidade, os aspectos singulares. Uma conversa aparentemente banal.
A mistura entre jornalismo e literatura leva o cronista a um freqüente impasse: para se constituir como texto artístico, o seu comentário sobre o cotidiano precisa apresentar uma linguagem que transcenda a da mera informação. Ou seja, precisa de uma linguagem menos denotativa e mais pessoal. Isso não significa elaboração muito sofisticada ou pretensiosa. Significa que o estilo deve dar a impressão de naturalidade e a língua escrita aproximar-se da fala.
Nem sempre o cronista atinge o duplo alvo: fazer literatura e expressar-se com simplicidade. Em função do grande público, é preciso buscar primeiramente a clareza e uma dimensão de oralidade na escrita.
AS CARACTERÍSTICAS DA CRÔNICA
As características abaixo foram citadas por vários autores que tentaram entender a crônica enquanto estilo literário:
•Ligada à vida cotidiana;
•Narrativa informal, familiar, intimista;
•Uso da oralidade na escrita: linguagem coloquial;
•Sensibilidade no contato com a realidade;
•Síntese;
•Uso do fato como meio ou pretexto para o artista exercer seu estilo e criatividade;
•Dose de lirismo;
•Natureza ensaística;
•Leveza;
•Diz coisas sérias por meio de uma aparente conversa fiada;
•Uso do humor;
•Brevidade;
•É um fato moderno: está sujeita à rápida transformação e à fugacidade da vida moderna.
ALGUNS TIPOS DE CRÔNICA
A rigor, podemos falar na existência de três tipos de crônica, que muitas vezes se confundem:
Crônica lírica ou poética
Caracteriza-se pelo flagrante de aspectos sentimentais, nostálgicos ou de simples beleza da vida urbana, especialmente do Rio de Janeiro. Seu maior expoente é Rubem Braga, seguido por legítimos poetas-prosadores como Carlos Drummond de Andrade, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e outros. Este tipo de comentário poético parece em desuso, provavelmente devido à violência e a degradação na vida das grandes cidades brasileiras.
CRÔNICA DE HUMOR
Procura basicamente o riso, com certo registro irônico dos costumes. Apresenta-se, como já vimos, tanto sob a forma de um comentário quanto de um relato curto, próximo do conto.
CRÔNICA-ENSAIO
Apesar de ser escrita em linguagem literária, ter uma veia humorística e valer-se inclusive da ficção, este tipo de crônica apresenta uma visão abertamente crítica da realidade cultural e ideológica de sua época, servindo para mostrar o que autor quer ou não quer de seu país. Aproxima-se do ensaio, do qual guarda o aspecto argumentativo Nelson Rodrigues é o grande nome dessa linha, mas devemos citar também Paulo Francis, Arnaldo Jabor, Carlos Heitor Cony e, em alguns textos, Luís Fernando Veríssimo.
Tendo em vista os tipos de crônica que foram citados acima, percebemos que " A aldeia que nunca mais foi a mesma" se encaixa nas características de crônica-ensaio, pois aborda, claramente, uma crítica ao período da ditadura militar e à sua ideologia de opressão, Rubem Alves, de maneira sutil e através da ficção, o que pensa e o que desejava para seu país.
As características de crônica são facilmente percebidas no discurso. A maneira como o autor fala de coisas sérias, por meio de uma estória aparentemente banal. Há uma fuga da modernidade, a estória se passa numa aldeia. Uma dose de lirismo nas expressões dos pensamentos das mulheres da aldeia. Um toque de humor quando os homens da aldeia questionam o comportamento das mulheres e acabam sentindo ciúmes de um morto. A brevidade com que o autor, de maneira tão objetiva, fala de tantos assuntos ao mesmo tempo, pois além das palavras opositoras principais ( vida versus morte ),outras palavras circulam pelo discurso, tristeza e alegria, monotonia e movimento, liberdade e prisão. Essa crônica traz tudo isso de forma muito inteligente e sucinta.
ANÁLISE DOS NÍVEIS DE DISCURSO
Nessa crônica, a categoria semântica fundamental se apresenta nas palavras vida versus morte. Essas palavras resumem de forma simples e abstrata , o conteúdo geral do texto sendo que, ao decorrer da análise, se expressam em diversos campos semânticos.
NÍVEL FUNDAMENTAL
No nível fundamental, que é a etapa mais abstrata e simples, percebemos a oposição semântica vida versus morte, na qual a vida é o elemento eufórico e a morte é o elemento disfórico, ou seja, a vida é algo atraente,alegre, e a morte algo que causa repulsa, sendo a vida em si própria sinônimo de movimento, dinamismo, enquanto que a morte denota monotonia , prisão, inércia, falta de esperança e perspectiva.
Inicialmente, há uma afirmação da morte "...os rostos vazios de sorrisos e de surpresas, a morte prematura morando no enfado...", depois uma negação à morte que é perceptível no trecho: "...às vezes é mais grato preparar os mortos para sepultura que acompanhar os vivos na morte que perderam ao viver." Em seguida uma nova afirmação pela vida "...o milagre: a vida que voltava, ressurreição de mortos..."
Quando o sujeito retira do morto esses valores, podemos chamar de vida nova e liberdade, o morto por sua vez, não mais os possui, privando-se deles. Fazendo analogia com o contexto social da época, podemos dizer que o morto era a ditadura, e que o povo retirou dela valores que há muito estavam reprimidos e enterrados, como a liberdade de expressão e perspectivas de mudanças.
NÍVEL NARRATIVO
No nível narrativo observamos os três percursos que compõem a sua estrutura. No percurso da manipulação observado nessa crônica, as mulheres da aldeia são entendidas como destinatário e o morto como destinador, pois percebe-se com a presença do morto, o ato de persuadir as mulheres, elas agem sobre suas supostas ações e seus supostos desejos. Podemos exemplificar essa manipulação com os trechos:"Fico a pensar como teria sido a sua voz", disse uma outra. Teria sido como o quebrar das ondas ? Como a brisa nas folhas? Será que ele conhecia a magia das palavras que, uma vez ditas fazem uma mulher colher uma flor e a colocar nos cabelos ?". "Estas mãos ...Que terão feito ? Terão tomado no seu vazio um rosto de mulher? Terão sido ternas? Terão sabido amar?
No percurso da ação o sujeito dos fazer executa sua ação após o processo de manipulação. O destinatário, que aceitou o contrato proposto pelo destinador-manipulador, torna-se sujeito e realiza a ação acordada, operando a transformação principal daquela narrativa e agindo sobre os objetos e seus valores. Essa transformação ao processo de disjunção e conjunção, ou seja, os sujeitos (as pessoas da aldeia) procuram transformar seu estado de disjunção com a vida (liberdade) em estado de conjunção, a partir da ação do morto com sua chegada ocorrem as mudanças. No trecho: "E elas sentiram que coisas belas e sorridentes, há muito esquecidas passadas por mortas, nas suas funduras saiam do ouvido e vinham, mansas, se dizer no silêncio do morto. A vida renascia na morte graciosa de um morto desconhecido e que, por isto mesmo, por ser desconhecido, deixava que pusessem no seu colo os desejos que a morte em vida proibira..." E no que diz: "E os homens, do lado de fora, perceberam que algo estranho acontecia: os rostos das mulheres, maçãs em fogo, os olhos brilhante, os lábios úmidos, o sorriso selvagem, e compreenderam o milagre: vida que voltava, ressurreição de mortos... e tiveram ciúmes do afogado... Olharam para si mesmos, se acharam pequenos e domesticados, e perguntaram se aquele homem teria feito gestos nobres (que eles não mais faziam) e pensaram que ele teria travado batalhas bonitas, e o viram brincando com crianças, e o invejaram amando como nenhum outro..." Nota-se claramente a disjunção da morte que se contextualiza com a ditadura, a conjunção com vida, o surgimento com a democracia e com ela a liberdade de expressão.
A sanção, por conseguinte, foi positiva. O morto foi devidamente enterrado, tendo seu merecido descanso, e a aldeia, como o próprio título diz, nunca mais foi a mesma, pois a vida ressurgiu para eles, dos mortos, trazendo de volta os valores que há muito tempo estavam sucumbidos dentro deles mesmos, e que foram aflorados, dando sentido a essa nova realidade. O mesmo aconteceu no nosso contexto histórico, assim como o morto, a ditadura foi enterrada e o Brasil nunca mais foi o mesmo, pois aflorou no povo, os valores trazidos pela democracia, como a liberdade e a perspectiva de um país melhor.
NÍVEL DISCURSIVO
A tematização e a figuratização estão presentes nessa crônica, este texto é predominantemente temático-figurativo. Na tematização há traços semânticos de forma abstrata como: ... sem esperanças... surpresa triste... desejos que a morte em vida proibira... liberdade... Na figuratizacao há traços semânticos sensoriais ou concretos, como: ... as coisas verdes (cor) .... o silencio de sua boca (som e lábios) ... maças em fogo... olhos brilhantes (rosto e olhos) ...Como a brisa nas folhas ? (tato) ... céu azul e de vento manso (cor e tato)... tenham surgido canções (audição).
Nesse nível, observamos a crônica do ponto de vista temporal, espacial e os atores do discurso. Com relação a crônica em questão, é perceptível , inicialmente, um distanciamento pela presença da 3ª pessoa, ou seja, o distanciamento acontece num tempo e num espaço que não estão próximos da enunciação, o que chamamos de desembreagem enunciva. Os trechos abaixo exemplificam bem esse distanciamento:
Era uma aldeia (espaço) de pescadores de onde a alegria fugira e os dias e as noites (tempo- pretérito perfeito do indicativo) numa monotonia... prisão daqueles que se haviam...( 3ª pessoa). Num outro momento a crônica passa do distanciamento (3ª pessoa) para a aproximação (1ª pessoa), ou seja, o discurso acontece num tempo e num espaço que estão próximos da enunciação, que chamamos de desembreagem enunciativa que é exemplificada nos fragmentos abaixo:
... Não é à toa que conto essa estória (1ª pessoa- tempo presente do indicativo) Eu sabia da morte, mas havia em mim um riso teimoso (1ª pessoa) ... Foi naquele dia, fim de abril, o mês do céu azul e de vento manso (tempo)... Por favor: conte para alguém a estória da aldeia ( Brasil ) que, depois de enterrar um morto (ditadura) nunca mais foi a mesma. Nós ... ( povo ). O texto apresentou uma passagem de desembreagem enunciva para desembreagem enunciativa, o que chamamos de alternada.
O discurso da crônica está semanticamente coerente, ou seja, apresenta a perfeita reinteração de traços semânticos, originando no discurso uma ou mais isotopias temático-figurativas. A isotopia pode ser mostrada nesse discurso, através da polissemia do fragmento abaixo:
Por favor: conte para alguém a estória da aldeia que depois de enterrar um morto, nunca mais foi a mesma... Nós....
Nesse fragmento, a palavra " alguém "pode ser interpretada com dois sentidos, produzindo duas leituras.
A primeira é mais superficial, onde " alguém ", pode ser qualquer pessoa, qualquer um. Numa segunda leitura mais aprofundada, contemplando o contexto histórico do Brasil, " alguém "pode ser o povo brasileiro ou até mesmo o mundo. A palavra " aldeia " também tem dois sentidos. Num primeiro instante, uma aldeia qualquer, porém contextualizando, essa aldeia é o Brasil. Por sua vez, a expressão " depois de enterrar um morto, a aldeia nunca mais foi a mesma " denota o enterro de um morto que apareceu na aldeia da estória e que provocou muitas mudanças com sua chegada, mas mesmo assim foi enterrado. Numa segunda leitura essa expressão nos remete ao fim da ditadura, sendo ela, o morto que foi enterrado e em seguida o Brasil, que assim como a aldeia, nunca mais foi o mesmo, pois ocorreram mudanças no seu cenário político-social. Partindo da observação da análise acima, é perceptível a harmonia no discurso temático- figurativo dessa crônica.
Tomando como base a data 19-05-1984, em que foi publicada a crônica na Folha de São Paulo, notamos uma forte relação com o contexto histórico. Rubem Alves, utilizando-se da estória de Gabriel García Márquez, faz uso das relações intertextuais e reconta a estória à sua própria maneira, enquadrando-a em sua própria realidade.
Essa relação intertextual é do tipo paráfrase, ou seja, há um desenvolvimento do texto literário sem distorção das idéias do texto original. Rubem Alves parafrasea na crônica através de músicas de protesto, que foram censuradas na época da ditadura. São expostas assim:
...." Só que agora os rostos... pra ver a banda passar cantando coisas de amor... vem vamos embora... desculpa de um morto "...
Foi perceptível que essa análise proporcionou o conhecimento e o estudo de diversas categorias semânticas, permitindo perceber que os discursos devem ser enxergados como uma estrutura própria, com início, meio e fim, e que esses mesmos discursos dialogam com outros discursos. Essa análise discursiva teve o texto como objeto e buscou nele os seus sentidos e os mecanismos e procedimentos que constroem esses sentidos. Quando se analisa um texto nessa amplitude, percebe-se, entre outras coisas, a riqueza de nossa língua e suas variadas formas de interpretação.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1998.
ORLANDI, Eni. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.
MAINGUENEAU, Dominique. Termos-Chave da Análise do Discurso. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
ALVES, Rubem. A aldeia que nunca mais foi a mesma.