Pagamos o Pan com sangue
A abertura dos XV Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro foi linda. Digna de uma cerimônia de Jogos Olímpicos. Mas a que preço estes jogos estão sendo realizados no Brasil?
Não, não quero estragar a festa de ninguém. O povo mereceria sim, uma celebração como foi esta: celebração de sua cultura, de sua biodiversidade, de sua cidade (por que não?). Porém, é impossível deixar a realidade ser encoberta por um grande teatro, muito bonito por sinal, mas somente um show.
É impossível deixarmos passar o fato de que há uma guerra vigente nas ruas dos morros, que põe de lados opostos o povo, como policial ou como favelado (deixando de lado toda conotação pejorativa do termo) só para fazer crescer o sentimento de segurança dos turistas que foram ao Rio. Impossível deixar de lado que esta guerra, é baseada em uma limpeza social. Como se a criminalidade do pobre fosse menos curável que a do rico. Que jovens estão sendo mortos, executados, sem nenhum julgamento ou direito de defesa, como o que teve um tal síndico que assassinou seu vizinho no elevador, tendo como testemunhas do crime, as câmeras de segurança quais ele próprio mandara instalar. Irônico, não só o fato, mas seu final. Pena de morte e perseguição do Estado (que, como caçador, atropela suas presas sem nenhum sentimento de justiça) para os jovens sem formação, sem cultura, sem perspectivas de vida, tudo tirado deles pela sociedade, porém, ao síndico, assassino da pior espécie, que mata a sangue frio por motivo banal, só doze aninhos de prisão com direito a responder em liberdade, sem prisão preventiva.
Quatro bilhões de Reais foi o dinheiro gasto na adaptação da cidade do Rio de Janeiro para os Jogos Pan-americanos. Só o governo federal, desembolsou dois bilhões de Reais. O fato de o orçamento inicial ser 7,5 vezes menor (conhecendo o histórico de obras públicas no Brasil, podemos imaginar o porquê de ter-se inflacionado tanto), deixemos de lado, pois dados sobre isso são muito bem guardados. Nunca saberemos a verdade.
Imaginemos: ao invés de implantar uma guerra no seio da população pobre carioca em troca de um show (que, a essas cifras, já deveria nos deixar com cara de bobos), essa política de segurança estúpida, que em nada mudará a situação real da população, que daqui a pouco, quando a festa acabar e a poeira dos pés dos dançarinos e atletas baixar, as balas perdidas voltaram a voar, os meninos voltarão a perderem-se na marginalidade, as instituições criminosas voltarão a tomar o lugar do Estado entre a população miserável; ao invés de toda essa demagogia cretina, vistosa aos olhos da classe média alta, que tal seria termos gastado estes quatro bilhões de Reais na construção de escolas públicas, na desapropriação de terras para a reforma agrária, em políticas habitacionais urbanas, na construção e equipagem de postos de saúde, em saneamento básico? Quanto não se faria com quatro bilhões de Reais? Talvez nem fosse mais preciso pagar, além do alto custo aos cofres públicos das gigantescas (e dantescas) operações policia
is em voga no Rio de Janeiro, o preço das vidas de talentos desperdiçados nos morros hoje. Quantos atletas maravilhosos que podem estar sendo executados nas guerras urbanas? Quantos poetas, astrônomos, médicos, biólogos, antropólogos, enfim, quantas mentes brilhantes não podem estar sendo destroçadas por calibres trezentoseoitentas ou pontoquarentas? Quantos amores perdidos em corações atravessados por balas de fuzis? Quantos políticos respeitosos talvez não surgissem conhecendo esta população que somente nos são estatísticas?
É triste ver que o brasileiro ainda se compra com o Pan e circo.