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A Deriva Do Universo Na Filosofia Pascaliana
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Fábio Moraes
 
Por Fábio Moraes
Publicado 8/03/2007
 
O universo, na filosofia de Pascal, se encontra à deriva. Concebido como infinito, é expurgado dele toda referência e identidade. Na Filosofia Medieval, e naturalmente na filosofia aristotélica, o mundo era finito e havia os lugares naturais, ou seja, havia para o universo, nestas filosofias, referências e identidades. No século XVII, com a aplicação da geometria euclidiana este passou a ser concebido como infinito. Com isso, não há mais sentido fazer a mesma leitura do universo tal como faziam os medievais, uma vez que essa leitura pressupunha um universo finito. Num universo infinito todos os lugares se equivalem, eles são todos homogêneos e isótopos. Sem referencial, o universo se encontra também à deriva, visto o homem não poder afirmar nada dele, ou seja, não poder discursar racionalmente sobre o universo. .Por isso, o universo se encontra à deriva, em virtude do homem não poder delimitar racionalmente nada com respeito ao mundo.
Palavras-chave: infinito, quebra de relação, deriva.

A deriva do universo na filosofia pascaliana
Pascal concebe, como característica essencial do universo, o duplo infinito, isto é, as grandezas de que é composto o universo podem ser aumentadas ou diminuídas infinitamente sem nunca chegar a um todo ou a um nada dessas grandezas, por isso há um infinito para mais como também um infinito para menos. Esses infinitos estão longe da condição do homem uma vez que eles não são concebidos pelo homem. Desta forma, o homem está longe, distante desses infinitos. Longe dos infinitos ele se encontra num campo intermediário entre eles (os infinitos), num campo onde nunca se fixa, o que lhe reta é um perpétuo movimento. Nesse perpétuo movimento o homem se apresenta como um ser do meio entre esses infinitos. Sendo essa sua condição, ele não pode conceber sua natureza, uma vez que, como ser do meio, não se fixa em lugar nenhum. Ele está sempre num perpétuo movimento e desta forma tudo ao mesmo tempo lhe é natural e estranho. Por isso, ele não tem lugar num universo infinito, isto é, não tem assento natural neste lugar.

O conhecimento do homem leva ao conhecimento do universo. O universo, pensado via geometria, que para o século XVII era o conhecimento mais seguro que temos, passa a ser concebido de forma infinita, o universo infinito apaga todos os vestígios de Deus presente nas criaturas. Esta falta das marcas de Deus nas criaturas torna o universo mudo. Mudo porque não há mais como o homem significar o universo como fazia os medievais, uma vez que não há mais lugares naturais. Como pode o infinito ter centro ou periferia? (PARRAZ, 2004, p. 52 apud, Aristóteles, 1926, p. 103,)

Assim, em um universo desordenado, pois lhe falta centro, qual o conhecimento que o homem pode ter deste universo? Qual é o ponto em que se apóia este universo? Há uma referência para ele?  Ora, o universo está, segundo o pensamento pascaliano, sem referência sólida pelas quais se justifique então o universo está à deriva uma vez que tais referências sólidas não lhe são presentes. Segue-se, então, a pergunta que permeará nosso trabalho: o como e o por quê da deriva do universo?

1 Análise do fragmento 693, Ilha deserta

Os termos chaves para podermos entender a antropologia pascaliana servem também para entendermos sua concepção de mundo. Cela, calabouço, prisão e Ilha Deserta, entre outro, são termos chaves para este entendimento.

Todos esses termos são importantes, mas, sobretudo, nossa reflexão se assentará no fragmento 693, onde encontraremos junto com o fragmento 72 sua visão do universo

No fragmento 693 Pascal diz

Vendo a cegueira e a miséria do homem, observando todo o universo mudo e sem luz, abandonado a si mesmo, e como que exilado neste recanto do universo, sem saber quem o pôs lá e o que veio aqui fazer, o que se tornará ao morrer, incapaz de qualquer conhecimento, eu caio em terror como um homem que tivesse sido levado dormindo para uma ilha deserta e aterrorizante, e que acordasse sem saber onde estava e sem meios de escapar (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 693)

Analisemos esse fragmento em partes.

O homem pascaliano é paradoxal, trás em si marcas de grandeza e miséria concomitantemente: Vendo a cegueira e a miséria do homem (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 693). A cegueira e a miséria, não permite ao homem ver a si mesmo e à sua volta, por isso, ele não pode conceber a totalidade do universo, nem sua origem, nem seu fim. A cegueira atemoriza o homem, pois revela, ou melhor, confirma o que ele já sabe: é nada diante do infinito. o finito se aniquila diante do infinito (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 233)

O mesmo homem que se encontra mísero, observa: observando todo (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). Não investiga, mas contempla em silêncio ao invés de investigar com presunção. transformando sua curiosidade em admiração, preferirá contemplá-las em silêncio a investigá-las com presunção (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). Na verdade, observa porque nada mais pode fazer diante do espetáculo do duplo infinito. No fragmento 72, Pascal nos mostra o que é o universo. O universo é um espetáculo, isto é, algo que se apresenta a alguém para admirá-lo: entre esses dois abismos do infinito ... tremerá à vista de tantas maravilhas (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). O universo causa admiração no homem, porque ele revela ao ser humano mais do que ele pode conceber. mas se nossa vista aí se detém, que nossa imaginação não pare; mais rapidamente se cansará de conceber que a natureza de revelar (PASCAL, Pensamento, 1973, frag 72).

A observação do infinito é utilizada por Pascal como mecanismo de autoconhecimento: Sur quoi on peut apprendre à sestimer à son juste prix, et former des réflexions qui valent mieux que tout lê reste de la géométrie même 1 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 591). É olhando para o que existe que o homem reconhece quem é: que o homem ... considere o que é diante do que existe (PASCAL, Pensamento, 1973, frag 72). É aqui que o homem conhece sua desproporção com relação à natureza.

O que Pascal está sustentando é que esse homem fendido, abandonado a si não tem mais cumplicidade com a natureza, ou seja, é desproporcional a ela. A natureza, tal como era concebida pela filosofia medieval fazia como que a ponte entre o homem e Deus, posto que ela era a via de acesso da razão a Deus. Havia, desta forma, uma cumplicidade entre o homem, a natureza e Deus, uma vez que por meio dela o homem podia chegar ao conhecimento de Deus e, por conseguinte, ao conhecimento de si próprio. Mas, quebrada essa relação (pela queda) do homem com a natureza, isto é, marcada a desproporção entre ambos, a natureza deixa de ser cúmplice do homem, ou em outras palavras, a natureza não revela mais Deus ao homem, muito menos revela-lhe sua própria imagem, isto é, sua essência.

O homem é um ser que não tem relação com a natureza: conhecemos a existência do infinito e ignoramos a sua natureza, porque tem extensão como nós, mas não tem limite como nós (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 233). É essa falta de relação, causada pela queda, que torna o homem cindido, estranho à natureza. Esta estranheza, manifestada na desproporção do homem com relação à natureza, marca a quebra do elo entre o homem e Deus. Por isso que o universo de Pascal é mudo.

Em toda filosofia medieval a concepção de que Deus falava por meio da natureza era muito forte. As marcas do Criador estavam impregnadas em toda parte. Com a aplicação da geometria euclidiana no conhecimento do universo, este, o universo, passa a ser concebido de forma infinita. Com a infinitude do universo as cosias não carregam mais as marcas de Deus, os vestigias Dei, pois os espaços sagrados, privilegiados, esvaem-se no cosmo infinito. No infinito não há referência, daí a negação da possibilidade de haver direções, lugares naturais como afirmava Aristóteles. O cosmos aristotélico cai por terra em meio a infinitude (via matemática, do cosmo na Idade Moderna). Há a dessacralização do mundo. A geometria ausenta Deus do mundo, em outras palavras, o mundo perde Deus. E esse Deus perdido 2, ou mesmo, a perda da figura e do lugar de Deus na ordem do cosmos faz com que o universo seja lançado ao léu, ou seja, lançado à deriva. O infinito do universo revela o rompimento entre Deus e o mundo, o mundo e o homem.

Outrora podia-se fazer uma espécie de hermenêutica do universo, dado o fato de estarmos em uma posição privilegiada, a saber, o centro do universo, daí poderíamos inferir o que estava acima e abaixo; do lado direito do lado esquerdo etc. Partindo da afirmação, que o homem estava no centro do universo, era possível a ele classificar as outras coisas a partir de seus lugares naturais, suas direções. Porém, com a infinitude do universo isso se torna impossível, pois se perde toda referência. A idéia de infinitude implica que todos os lugares são equivalentes, uma vez que perde-se os lugares privilegiados. Não há lugares naturais. No universo infinito os espaços são isótropos e homogêneos.

O universo que falava 3 outrora aos homens, pois havia em todas as coisas os vestígios de Deus, torna-se mudo. Não há como afirmar mais nada acerca do mundo, senão sua infinitude. E isso é que mais causa temor ao homem, é insuportável a ele: o silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 206). Esse pavor supera em magnitude a transferência de centro operada por Copérnico, uma vez que a mudança de centro do mundo não implica necessariamente na infinitude, mas ao homem acarreta a perda do seu lugar privilegiado.

Diz Pascal: sem luz natural, abandonado a si mesmo (Pensamentos, 1973, frag 693), o homem encontra-se no mundo numa total falta de sentido, garantia e paz. Ele não tem uma luz no sentido de uma luz natural como havia em Descartes que revelava a ele a verdade acerca de todas as cosias existentes no universo. O homem está no universo, segundo Pascal, abandonado e sem luz, por isso, não pode tratar racionalmente de uma criação, visto que conceber o ato criador no pensamento de Pascal é da ordem de uma revelação sobre natural e não racional.

Sem poder encontrar um fundamento para o seu existir, posto não poder compreender Deus, nem sua criação, o homem está abandonado a si. Neste abandono ele só pode encontrar-se em uma profunda inquietude. num mundo que o relembra sempre de sua verdadeira existência, ou seja, estar como que perdido neste recanto do universo (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 693).

Em Platão tínhamos o corpo como cárcere do homem, em Pascal é o universo o cárcere da alma: imagine-se um homem na prisão, não sabendo se sua sentença ... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 200). O homem está perdido. A mais notável característica de quem está perdido é que todas as direções se equivalem. Quem está perdido está sem referência, e mais ainda, a pessoa perdida sente-se estranha e num lugar estranho. Por isso que o homem, diante da nova cosmologia ou nova ciência do cosmo, só pode estar perdido, sem referência, com sentimento de estranheza com relação ao mundo; e este sentimento é conseqüência de se afirmar a infinitude do universo, pois o ser cindido percebe sua desproporção em relação ao universo e se pergunta: o que é o finito diante do infinito? (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72).


2 A impossibilidade de o homem conhecer a totalidade do universo

... todo esse mundo visível é apenas um traço imperceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado conhecer mesmo de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além dos espaços imagináveis, concebemos tão-somente átomo em comparação com a realidade das coisas. Esta é uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma. E o fato de nossa imaginação perder-se nesse pensamento constitui, em suma, a maior característica sensível da onipotência de Deus.

Que o homem, voltado para si próprio, considere o que é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste canto afastado da natureza, e que, da pequena cela onde se acha preso, isto é, do universo aprenda a avaliar em seu valor exato a Terra, os reinos, as cidades e ele próprio. (PASCAL, Pensamentos, 1973 frag. 72).

Para Pascal, jamais o homem terá um conhecimento objetivo da totalidade do universo. Com efeito, assevera Pascal como pode uma parte conhecer o todo? (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). Por isso, o homem sempre conhecerá uma ínfima parcela do universo, daí o fato de concebermos tão-somente átomos em comparação com as realidades das coisas (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72), como afirma Pascal, posto a natureza ser infinita. Validamente, não é dado ao finito abarcar o infinito, pois o finito se aniquila diante do infinito (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 233). O infinito não será objeto de conhecimento do homem, o primeiro sempre será objeto de admiração e não de conhecimento positivo para o homem: quelle a porposées aux hommes, non pas à concevoir, mais à admirer 4 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 590). O infinito ultrapassa o homem (razão finita) e mostra o quanto ele é insuficiente: todo esse mundo visível é apenas um traço imperceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado conhecer mesmo de um modo vago (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72).

Pascal, quando pensa no universo, concebe-o como caracterizado pelo duplo infinito: todas as coisas isto é, o universo participam de seu duplo infinito (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). Este duplo infinito se traduzir na possibilidade das coisas do universo de serem aumentadas ou diminuídas ao infinito. Assim sendo assevera Pascal:

on peut en concevoir un plus grand, et encore un qui le soit davantage; et ainsi à linfini, sans jamais arriver à un qui ne puisse plus être augmenté. Et au petit que soit un espace, on peut encore en considérer un moindre, et toujours à linfini, sans jamais arriver à un indivisible qui nait plus aucune étendue.(PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 584) 5

Por isso, a dupla infinitude se traduz no universo infinitamente grande como também no infinitamente pequeno. O infinitamente grande e o infinitamente pequeno são para Pascal dois extremos aos quais o homem não poderá atingir, por isso, Pascal protesta: não nos falta menos capacidade para chegar ao nada do que para chegar ao todo, falta-nos uma capacidade infinita (Pensamentos, 1973, frag 72). Assim, esses dois extremos (que se encontram somente em Deus) estão como que velados ao homem: nossos sentidos não percebem os extremos (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). É o coração que sente o infinito.

Os dois abismos infinitamente grande e infinitamente pequeno são para o homem a barreira que não permite a ele o conhecimento total da essencialidade do universo, uma vez que não compreende seu inicio e seu fim. O duplo infinito da natureza sugere o limite do conhecimento racional, isto é, o privilégio do conhecimento é dado somente ao autor dessas maravilhas ... e mais ninguém (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72). À medida que o homem, ser limitado (finito), reconhece a si mesmo como tal, ele percebe sua desproporção com relação ao universo, porém, essa desproporção refere-se à natureza do universo e não à sua extensão infinita. Essa desproporção do homem com relação ao universo inviabiliza a pretensão humana de conhecer a totalidade do universo como também qualquer conhecimento ontológico racional 6. Pois, discursar sobre esses campos ciências naturais e ontologia é afirmar mais do que se pode compreender racionalmente, isto é, estabelecer relações 7. Não passa, na verdade, de especulação sem fundamento empreendidas pelos homens para, no fundo, escapar de sua contingência frente ao um universo infinito: eis nossa verdade ... incapaz de saber com segurança e de ignorar totalmente (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 72).

Todavia, a razão não é monopólio do conhecimento, há assuntos que não estão em seu alcance como afirma Pascal: esse assunto ultrapassa o alcance da razão (Pensamentos, 1973, frag 73). Neste sentido, há outras coisas que também dão origem ao conhecimento para Pascal.

Neste ponto faz-se necessário fazer uma distinção entre esprit géométrique (espírito geométrico) e esprit finesse (espírito de finura) que Pascal salienta no primeiro fragmento dos Pensamentos. O primeiro identifica-se com a razão (estabelecimento de relações) e o segundo identifica-se com a intuição (sem demonstração).

Segundo Pascal, no espírito geométrico os princípios são palpáveis, porém fora do uso das pessoas comuns; ao contrário, no espírito de finura, os princípios são comuns aos homens, no entanto, não é tão substancioso, objetivos, longe de erros quanto o primeiro (espírito geométrico).

Desta forma podemos identificar, como faz Mora no dicionário de filosofia, o espírito geométrico com intelecto abstrato e o espírito de finura com a inteligência concreta. Daí segue-se que há objetos próprios do espírito geométrico, ou seja, formas abstratas, como também há objetos próprios do espírito de finura, isto é, coisas concretas.

Se assim é, não há nada mais errado do que querer raciocinar abstratamente sobre as realidades concretas, como o homem, o mundo, a criação:

a verdadeira eloqüência zomba da eloqüência isto é, das regras abstratas da eloqüência. A verdadeira moral zomba da moral, que dizer a moral do juízo zomba da moral do espírito, já que a verdadeira moral, a moral do juízo não tem regras. Pois é ao juízo que pertence o sentimento, como as ciências pertencem ao espírito. A finura é a parte do juízo. A geometria a do espírito (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 4)

Neste sentido, é como se Pascal dissesse: as coisas que são importantes para nós não podemos conhecer racionalmente, ou seja estabelecer relações entre elas, ao passo que as coisa que temos acesso pela razão não são tão importantes assim: ... il peut néanmoins arriver que ce discours, qui sera nécessaire aux uns, ne sera pas entèrment inutile aux autres 8 (PASCAL, Oeuvres complètes, 1954, p. 592).

O que nos interessa propriamente é o fato da razão ser impotente para conceber as coisas que mais nos preocupa , por exemplo, o princípio e o fim das coisas. Ainda mais, escapa à nossa razão a resposta do fim das coisas, do universo, da criação em geral e, talvez o que mais nos amedronta é a falta de compreensão de nossa própria origem e fim. Pascal afirma que essa impotência da razão em responder às questões que angustiam o homem nasce de sua própria situação existencial, ou seja, de sua própria situação entre dois extremos. O homem, ser do meio(milieu) é obrigado a reconhecer que a última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassa (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 267).

Assevera Pascal: ... é igualmente incompreensível que ... o mundo tenha sido criado e que o não tenha (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 230). A incompreensibilidade do universo não se deve somente ao fato do homem ser desproporcional com relação ao universo (infinito) e, por isso, a razão não pode estabelecer nenhuma relação entre o homem e a natureza, mas decorre também do fato de o homem querer conhecer abstratamente objetos que exigem o intermédio dos sentidos, como é o caso dos objetos materiais (corpos). Ou seja, é impossível, para Pascal, o homem conhecer metafisicamente o mundo, uma vez que não compreendemos o ato criador divino. Não compreendendo o ato criador, o homem não conhece o inicio e o fim do universo. Com efeito, o fundamento do universo escapa à razão humana. Não encontramos, pela razão, sustento para o mundo.

Na verdade, o homem se perde nos caminhos do conhecimento e confunde a forma de como conhecer o objeto posto a ele: nossos conceitos não são os materiais de que é feito o universo: não tem nenhuma proporção com ele. (OLIVA, L. C. G, 1997, p. 44 apud CHEVALIER, 1989 p.184).


3 O mundo sem fundamento e finalidade
3 O mundo sem fundamento e finalidade

Acreditava-se na Idade Média que o mundo era finito e Deus era sua base e justificação. A Teologia Natural ou a Teologia da Criação sustentava o universo e dava-lhe uma finalidade. Porém, começando no século XV, com Nicolau de Cusa, que negava o a finitude do mundo e sua contenção pelas paredes da esfera celeste, ocorre uma revolução no pensamento cosmológico.

Como comenta Koyré, (1979), os primeiros fundamentos caem quando Nicolau afirma que o universo é infinitamente rico, infinitamente diversificado e organicamente inter-relacionado e que não há um ponto privilegiado para onde todos os astros devem ser subservientes. Disso segue-se a teoria de Copérnico

A teoria copernicana, removendo a Terra do centro do mundo e colocando-a entre os planetas destruiu os próprios alicerces da ordem cósmica tradicional, como a sua posição hierárquica imutável e a região terrestre ou sublunar de mudança e de corrupção (Koyré, 1979, p.38)

A nova astronomia rouba o fundamento e a finalidade do cosmo ordenado pelos medievais. Com efeito, ela tira os vestígios de Deus da criação. Assim, a única via pela qual o homem podia conhecer o fundamento e a finalidade do mundo se esfacela perante a nova astronomia, uma vez que não há na criação os vestigias Dei (a ponto de Descartes sustentar que os vestígios que Deus deixa na criação só se encontram no interior do homem).

Ora, posto não haver a possibilidade de o homem discursar sobre o fundamento e a finalidade do universo, pois a razão é incapaz de compreender os vestígios de Deus no mundo, a concepção infinitista do universo interdita à razão humana sustentar o seu fundamento. Aliás, é impossível afirmar qualquer coisa sobre o universo. Como afirma Parraz, não podemos representar o infinito. Não conseguimos trazê-lo à presença do espírito centro e circunferência de uma esfera infinita. Somos incapazes de conceber a Natureza (2004, p.65).

Se o universo é infinito e o infinito não pode ser representado, isto é, concebido, ou ainda, é impossível estabelecer relações com ele e trazê-lo a presença de nosso espírito, segue-se, que esse universo é estranho para nós, ele é uma incógnita.

Assim, para nossa razão, o universo só pode ser sem fundamento e finalidade. Diante da impossibilidade de se representar o infinito não se pode falar da origem e do fim do universo. A infinitude tornou nosso conhecimento nulo a respeito do universo.


4 Não há relação entre o mundo e Deus
Os princípios primeiros a partir dos quais o homem pensa o universo são: espaço movimento, número e tempo. Esses princípios são concebidos como grandezas matemáticas, pois. todos podem ser aumentados sem jamais chegar a uma quantia da qual não possa mais ser aumentado, como também podem ser diminuídos sem que se chegue ao um nada de espaço, movimento, número e tempo. Essas grandezas, segundo Pascal, são as características principais do universo: o duplo infinito. Este universo, pensado geometricamente, corresponde ao infinito potencial de Aristóteles: ... a possibilidade de ir sempre além (PARRAZ, 2004, p. 52 apud, Aristóteles, 1926, p. 106,). Se o infinito potencial corresponde ao universo então o universo é infinito porém potencial. Este infinito é totalmente distinto do infinito atual (Deus).

O infinito atual, tal como afirma por exemplo Leibniz, encontra-se somente no absoluto está em seu máximo que é anterior a qualquer composição e não é formado pela adição das partes (LEIBNIZ, 180, p. 109 LII c. XVII). Assim, o infinito atual, diferentemente do infinito potencial, não se encontra presente nas grandezas, uma vez que nele não há adição de parte. Esta adição de parte, satisfaz apenas ao infinito potencial. Segue-se que infinito potencial e infinito atual não são da mesma ordem. Eles são heterogêneos, posto um conter limite a ser  transposto e o outro não conter limite algum.

Assim, enquanto o infinito potencial caracteriza-se pelo limite que é sempre transposto sem nunca chegar ao fim; o infinito atual é caracterizado por não se encontrar limite a ser transposto. Segue-se, então, que ambos são distintos na extensão, pois o infinito atual não contendo partes não contém também extensão; não contendo extensão, é impossível estabelecer relações entre o infinito atual e o infinito potencial. Sem a possibilidade de estabelecer relações, a razão (geométrica) não poderá penetrá-los em suas naturezas, ou seja conhecê-los, pois estabelecer relações é conhecer.

Assim, não tendo o infinito atual (Deus) relação com o infinito potencial (mundo) conhecer o infinito potencial (isso é possível, pois somos extensos como ele) não é o mesmo que conhecer o infinito atual, visto que, o infinito potencial (mundo) e infinito atual (Deus) são heterogêneos. Há portanto, uma distância infinita, ou seja, uma total ausência de relação entre ambos. Sustenta nosso autor: ... Deus não tendo partes nem limite, não tem relação conosco (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag 233).

Não tendo relação conosco e também com o universo, Deus se torna incompreensível e distante da razão humana. Distante de Deus como também do próprio mundo o homem encontra-se à deriva, sem compreender sua origem e finalidade. Nesta total falta de relação entre Deus e o mundo, este se torna para o homem como se fosse uma Ilha deserta, tal como vimos acima.


5. Considerações finais
Percebemos, diante do que foi exposto acerca do universo, a plena deriva do mesmo. O universo é concebidos por Pascal como ser à deriva, como algo que não tem um porto tal qual um barco que está ao acaso das ondas, em meio ao mar sem ter onde se fixar. A analogia do barco, talvez seja a forma mais poética para se falar  do universo à deriva. Qual a gênese dessa deriva?

O universo é concebido no século XVII, via geometria euclidiana, como infinito. O universo concebido pelos medievais era finito e tinha relação com Deus, uma vez que a teológica natural postulava o ato criador e, por isso, pela criação, podia se chegar a Deus Criador. Ora, isso só é possível se o mundo for concebido de modo finito. O criado implica finitude. Com o universo concebido na filosofia de Pascal, há o divórcio do mundo e de Deus, posto o universo passar a ser entendido como infinito potencial, ser totalmente distinto e não ter relação com infinito atual como tratamos no texto. Se na filosofia medieval Deus era a referência ou a forma de se entender o universo, uma vez que havia relação entre os dois, na filosofia pascaliana, com a nova ciência e a nova concepção do mundo, Deus não é mais a explicação do universo, aliás o universo nem tem mais explicação, pois o homem não pode conceber o infinito, isto é, não pode representá-lo ao espírito. O universo sem explicação, se torna, para o homem, uma grande incógnita. Assim, uma vez que o universo é distinto de Deus (distinção entre infinito atual e infinito potencial), ou seja, não tem relação com Deus ele, se encontra desordenado nessa ausência de Deus. A falta de relação com Deus joga o universo à deriva, uma vez que lhe tira sua base de justificação e identidade, pois é impossível conceber o ato criador de Deus. Deste modo é impossível dizer qualquer coisa sobre o universo. A explicação racional do universo, tal qual a explicação racional acerca o homem, encontra-se impotente e limitada sem poder se apoiar em algo sólido e seguro que dê conta de entender o homem e o universo. Portanto, na filosofia pascaliana é impossível construir uma cosmologia racional.

6. Referência

KOYRÉ, A. Do mundo fechado ao universo infinito. Rio de Janeiro; São Paulo: Forense-universitária; Editora da Universidade de São Paulo, 1979.

LEIBNIZ, G.W. Novos ensaios sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os pensadores)

MORA. F. J.. Dicionário de filosofia . Tomo 2: E-J. São Paulo: Loyola, 2001..

OLIVA, L. C. G. A questão da graça em Pascal. 1995. p. 163 tese (Mestrado em Filosofia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

PARRAZ, I. Ciência e teologia nos caminhos de Pascal. 2004. p. 301 tese (Doutorado em Filosofia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

PASCAL, B. Oeuvres Complètes. França: Librairie Gallimard. 1954.

__________. Pensamentos. São Paulo: Nova cultura, 1973. (Os pensadores)

SAN AGUSTÍN. La perfeccion de la justicia Del hombre: In LANERO, M.F. et. Al. (Comp). Escritos antepelagianos 3º: La perfeccion de la justicia Del hombre. El matrimonio y la concupsicencia. Réplica a Juliano. Madrid: Biblioteca de autores Cristianos, 1984. p. XX-XX (Coleção obras completas de San Agustín, 35)


1 Sobre o que nós podemos apreenda a estimar a seu justo valor, e formar das reflexões que vale mais que todo o resto da geometria mesma. Tradução nossa.

2 Grifo nosso

3 Grifo nosso

4 Que ela tem proposto aos homens, não a conceber, mas a admirar. Tradução nossa.

5  Nós podemos conceber um maior, e ainda um que o seja ai alto grau; e assim ai infinito, sem jamais chegar a que não se possa mais ser aumentado. E ao menor que seja um espaço, nós podemos ainda um menor, e sempre ao infinito sem nunca chegar a um indivisível que não tenha mais alguma extensão. Tradução nossa.

6  Esse termo conhecimento ontológico racional é usado no texto para se referir a todo conhecimento que pressupõe as substâncias metafísicas. As doutrinas que pretendem encerrar as ciências em conceitos .herméticos

7 Razão em Pascal é a capacidade de fazer relações entre elementos que a primeira vista não tem ligação entre si. uma razão que trabalha não mais sobre as essências mas sobre as relações.

8 Ele não pode chegar a lugar nenhum com esse discurso, o que será necessário a uns não era inteiramente inútil a outros, Tradução nossa.