Como vimos nas páginas anteriores é impossível fixar uma natureza ao homem. Segundo Pascal, a natureza é tão-somente hábito. Após a queda, o homem toma o que é acidental (hábito) por essencial (natureza). Mas, ainda que tomássemos o hábito por natureza, mesmo assim seria impossível fixar limite a ela, pois o hábito, por essência, não tem origem certa nem mesmo fim. Diante disso, mesmo se tomássemos o hábito por natureza seria impossível fixar a natureza humana. É mister afirmar que ao homem, cindindo pela queda, não se pode atribuir uma natureza, pois esta lhe é ausente.

Deste primeiro porto que o homem é expulso, isto é falta da sua primeira natureza, o homem só pode se compreender enquanto condição, a saber: perpétuo movimento. O homem, rei destronado, vaga, mas de forma alguma alcança o que busca, por mais que vague jamais poderá compreender os extremos, que são dados pela natureza, qu'elle a proposées aux hommes, non pas à concevoir, mais à admirer. 17 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 590), como Pascal afirma. Dentro destes extremos infinitos o homem é o ser que está entre eles, isto é, no meio. No meio (milieu) o homem vaga entre os extremos sem nunca poder se fixar nem em um nem em outro. Se o homem é este ser em perpétuo movimento entre os extremos infinitos sem poder abarcá-los e assim compreendê-los, então, o infinito impossibilita ao homem ter um conhecimento da totalidade do universo, uma vez que os extremos são ocultos ao homem.

O homem que, já foi expulso do porto de sua natureza, perde também o porto epistemológico. O conhecimento antropológico e epistemológico é como que arrancado das mãos do homem e lançado num lugar 18 onde o homem jamais poderá chegar para tê-los , ele só reivindicá-os.

Desta forma, sem ponto fixo ou porto seguro, o homem é atirado à mais extrema deriva num mar de possibilidades, é possível ao homem estar aqui como ali, ir por aqui ou por ali sem razão para preferir um ou outro. Todos os caminhos são iguais, todas as direções se equivalem. Diante deste fato à deriva o homem não encontra mais semelhanças no mar ao qual está a navegar; este mar (mundo) lhe é profundamente estranho. Mais essa estranheza que esse mundo causa ao homem, provoca nele agonia, pois a única coisa que o mundo lhe revela é que o homem não é dali, ele é portanto, um ser extraviado.

Esta deriva dá ao homem a oportunidade de se deparar com o infinito. Este, por sua vez, causa-lhe medo. O infinito apavora o homem, pois esconde dele o conhecimento, ou em outros termos, o infinito anula o conhecimento.

Podemos averiguar o extravio humano de três modos distintos: antropológico, uma vez que há nele uma ausência de natureza humana; situacional, posto que sua situação (pós-queda) no mundo é de um ser do meio situado entre a dupla infinitude; e epistemológico, uma vez que a investigação humana acerca do universo desemboca no conceito (matemático) de infinitude o qual anula o próprio conhecimento.