Para Pascal é impossível definir o homem por causa da maleabilidade infinita da sua natureza. É por sua maleabilidade que não consegue se encontrar, uma vez que está em perpetuo movimento sem se fixar a nada.

Pascal, em conversa com seu diretor espiritual, M Sacy, faz o contra ponto de sua filosofia com outros dois filósofos: Montaigne e Epiteto.

Segundo Pascal, Montaigne, cético, tenta explicar o homem partindo de sua miséria. Iguala o homem aos animais. Montaigne tece uma grande crítica à razão humana dizendo que esta é forjada segundo os interesse pessoais do homem. Para ele é loucura o desejo do homem querer se elevar a Deus. Assim, o homem deve conhecer seu verdadeiro estado, colocar-se no seu devido lugar e não procurar mudanças. Com efeito, Montaigne, coloca, aos olhos de Pascal, o homem no vício da preguiça. O erro de Montaigne, para Pascal, está no fato de resumir a razão humana somente ao estado de miséria.

Este cético do início do Renascimento, postula a incapacidade da razão. Deste modo, Pascal se expressa ao seu diretor espiritual M. de Sacy:

Je vous avoue, Monsieur, que je ne puis voir sans joie dans cet auteur la superbe raison si inveinciblement froissée par ses propres armes, et cette révolte si sanglante de l'homme contre l'homme, qui de la société avec Dieu, où il s'élevait par les maximes de sa faible raison, le précipite dans la nature des bêtes" (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 569) 14

Deste extremo, Pascal vai para o outro: Epiteto. Pascal tem grande consideração pela doutrina (renúncia e isolamento) de Epiteto, pois segundo nosso filósofo Epictète, lui dit'il, est un des philosophes du monde qui ait miex connu les devoirs de l'homme. 15 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p.562). Epiteto conheceu os deveres do homem, isto é, soube delimitar um ideal no qual consiste a grandeza do homem, porém o filósofo jamais considerou a fraqueza humana, jamais considerou a necessidade de algo exterior ao sujeito para ajudá-lo a cumprir seus deveres. Ora, tal doutrina leva o homem a uma soberba que Pascal chamará de soperbe diabolique. 16 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p.563).

O comum nos dois é que eles pecam pelos extremos, isto é, Montaigne considerando só a miséria atual e assim caindo na indolência; e Epiteto considerando só a grandeza e por sua vez caindo no orgulho, na soberba

Pascal critica tanto Epiteto como Montaigne. Segundo ele, o homem é um ser do meio, sendo este milieu ele não pode se fixar em nenhum dos extremos e não se pode defini-lo. O que faz Montaigne é fixar o homem no estado de miséria, isto é, somente num extremo e defini-lo como miserável. Pascal concorda com Montaigne no fato de dizer que o homem é miserável, mas em contrapartida diz que o erro de Montaigne está no fato de resumir o homem somente ao estado de miséria esquecendo-se do paradoxo humano, pois é da miséria que se retira a sua grandeza. Em relação a Epiteto, Pascal também a crítica pelo fato de fixar o homem em um extremo: a grandeza. O erro dele está no fato de o homem poder se assemelhar a Deus. Isto é impossível, pois segundo Pascal, Deus é escondido ao homem, ele não pode mais contemplar a Deus por causa da queda. Outro erro de Epiteto está no fato de colocar o homem como o rei da criação, pelo fato de possuir razão, mas, esta é finita e não consegue compreender e abarcar o infinito.

Montaigne e Epiteto encerram o homem em um sistema filosófico, reduzindo-o a um objeto, mas, segundo Pascal ele não é um objeto, é um ser fendido pelo sobrenatural,  incapaz de conhecer a si próprio. Mostrando o paradoxo humano, Pascal não define o homem, apenas o descreve tal como ele se apresenta.