O que é o homem? Segundo o autor: O homem não é nem anjo nem animal: homem apenas (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.140). Esta resposta Pascaliana é uma crítica direta a exacerbação do homem feita pelos estóicos e a degradação operada por Montaigne. Para os primeiros, a humanidade podia se elevar ao status de companheiro de Deus. Deste modo o homem se põe acima e mais sublime que todos os seres. Na verdade, os estóicos, de certa forma, destacam o homem do comum e lhe conferem uma espécie de dignidade metafísica. Para o segundo, o homem não passa de um animal que tem a capacidade de iludir a si mesmo se achando mais especial que os animais. Montaigne opera uma espécie de dessacralização da dignidade humana que fora construído pela filosofia medieval. 11

Diante deste cenário, Pascal busca descrever, sem extremos, a condição do homem. Para tanto, no fragmento 72, ele compara a Terra em relação ao universo, e depois o homem em relação ao infinito, justamente para mostrar o nada ontológico 12 do homem. O nada, que se manifesta em sua incapacidade de conhecer e dominar o universo, não tem só uma dimensão pejorativa, ao contrário, o nada é constitutivo da estrutura antropológica pascaliana.

No fragmento 347 Pascal sustenta:

O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas um caniço pensante. Não é preciso que o universo arme-se para esmagá-lo: uma vapor, um gota de água basta para matá-lo. Mas mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, pois sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhecesse isso. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 347).

Pascal descobre que esse mesmo nada ontológico diante do universo é mais sublime que o universo, porque ainda que o homem não possa nada diante do universo infinito, que tem o poder de exterminá-lo e com ele toda raça humana, mesmo assim ele (o homem) é mais sublime e mais nobre, pois sabe quem é e que morrerás, ao passo que o universo não sabe nada sobre si. O homem, nas palavras de Pascal, é aquele que é abarcado pelo universo, mas pelo pensamento é ele quem abarca o próprio universo. O homem é limitado pelo ser que ocupa, ou seja, seu corpo; em outras palavras, está limitado no aqui e agora, mas com o pensamento ele pode viajar pelo mundo, pelo o pensamento o homem habita as estrelas, inventa novos mundo, em uma palavra: transcende. Assim, mesmo mísero ele é grande, pois tem a capacidade de transcender e buscar o infinito, isso nada mais é do que a documentação de sua primeira natureza.

O estado de miséria que o homem se encontra é devido a sua queda, como tratamos acima, e por isso, Deus lhe é escondido. Antes de o homem cair, ele encontrava-se na presença de Deus e este lhe era íntimo: ... comuniquei-lhe minha glória e minhas maravilhas. Os olhos do homem viam, então, a majestade de Deus. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.430). No entanto, o homem confundiu o amor-de-si com o amor-para-si, ou seja, quis tornar-se centro de si mesmo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.430).  Desta forma ele decai de Deus e passa a um estado segundo, que é marcado justamente pela grandeza (vestígios da primeira natureza) e miséria (marca do segundo estado de natureza). Esse misto de grandeza e miséria no homem atual existe porque a queda não aconteceu de forma completa, se assim não fosse não restaria no homem atual o que Pascal chama de luz confusa de seu autor ... e instinto impotente.  (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.430).

Por esse motivo, este ser decaído diverte-se para aliviar a angústia provocada pelo tédio (Ennui) 13 , resultado de sua queda. Por não conseguir mais olhar para si com conforto, ele procura a felicidade em coisas finitas que lhe proporcionam um prazer momentâneo. Para Pascal o conceito de divertissement nasce da necessidade que o homem tem de alienar-se para não ficar face-a-face consigo mesmo, uma vez que o que encontra em seu estado atual (pós-queda) é a miséria.

Quando o homem não está no divertimento, ou seja, quando ele se defronta consigo mesmo: incontinenti subirá do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, a pena, o despeito, o desespero. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 131).

Após termos visto quais mecanismos o homem se utiliza para desviar o olhar de si, vamos ver em que condição ele se reconhece e, para tanto, se faz necessário conhecer a condição humana.

Para conhecermos a condição humana Pascal sugere ao homem que conheça primeiro a natureza e depois se volte para si mesmo para ver se há alguma proporção em relação a ela. Assim é só em relação a natureza que homem pode, de alguma forma, conhecer, ainda que minimamente, sua condição. Vejamos:

Antes de entrar em maiores indagações acerca da condição do homem, que ele a considere a natureza uma vez seriamente e com vagar, que se observe também a si mesmo e julgue se tem alguma proporção com ela. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

Partindo por primeiro da análise da Terra, o que será esta na imensidão do universo? A Terra, com sua imensidão, não passa de um ponto imperceptível na infinitude do universo. Sustenta o filósofo:

Todo esse mundo visível é apenas um traço imperceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado conhecer mesmo de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além dos espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas .... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

O que será o homem dentro da infinitude? O homem em relação ao infinito é um nada (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72), um ponto imperceptível que se perde no infinito. E o que será o homem em relação ao nada? Tomemos uma lêndea como exemplo. A lêndea é um dos menores seres da natureza, sendo suas partes menores que seu corpo, o que será o homem diante deste nada? O homem em relação ao nada é um tudo, um colosso.

... como não admirar que nosso corpo há pouco imperceptível no universo, imperceptível no todo, se torne um colosso, um mundo, ou melhor, um tudo em relação ao nada a que não se pode chegar? (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

O que será o homem na natureza, uma vez que ele é um nada em relação ao tudo e um tudo em relação ao nada?

... nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre tudo e nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas como o seu princípio permanece ocultos num segredo impenetrável, e é lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

Se o homem é, tal como se expressa o autor, um ponto intermediário entre tudo e nada (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.72). então podemos afirmar que ele é um ser do meio. Como um ser do meio (milieu) o homem é incapaz de compreender os extremos. Por quê?

Pascal compara o mundo a uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).Como ser do meio o homem não possui um ponto fixo para se apegar, ora ele se dirige em um extremo ora para outro. Sendo sua razão finita e o universo infinito, ele não consegue abarcar a totalidade das coisas. Na esfera infinita não conseguimos determinar o seu início e o seu fim, sendo o mundo análogo a ela não conseguimos também determinar o seu início e o seu fim, pelo fato do homem ser um ser do meio e não conseguir abarcar os extremos. Somente uma capacidade infinita consegue compreender o infinito. Somente o autor destas maravilhas conhece-as; e ninguém mais. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

O fato de nosso conhecimento não abarcar as coisas segundo a sua totalidade nos dá um conhecimento aparente das coisas mesmas. O homem vive na ilusão, pois sua razão vive na inconstância das aparências e nada pode fixar o finito no infinito. Aquele que julgar ser mais sábio que o outro está em puro engano, pois ele não pode ter um conhecimento verdadeiro..

Outro motivo que nos impede de conhecer as coisas como são, é o fato de que para isto precisamos conhecer o todo. Assevera Pascal: ... Mas as partes do mundo têm todas tais relações e tal encadeamento umas com as outras que considero impossível compreender uma sem alcançar as outras, e sem penetrar o todo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72). O homem para sobreviver é necessário prover-lhe o essencial a vida. Assim: Para conhecer o homem, portanto, mister se faz saber de onde vem o fato de precisar de ar para subsistir; e para conhecer o ar é necessário compreender donde provém essa sua relação com a vida do homem, etc (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72). Para conhecermos algo precisamos conhecer as partes que formam este algo e por sua vez as partes que formam estas partes. Assim se forma uma cadeia de ligações ao infinito. Todas as coisas são causadas e causadoras. Este conhecimento do todo é impossível - visto se estender ao infinito - ao homem por causa de sua condição: ser do meio.

As palavras não abarcam mais as coisas. Na palavra cidade, por exemplo, encontramos tudo o que a compõe e, como para conhecer uma cidade é preciso conhecer o todo que a compõe, conhecer a cidade nos é impossível. Todas as afirmações que fazemos são válidas para a natureza que conhecemos e não na sua totalidade: uma cidade, um campo de longe são uma cidade e um campo, mas à medida que nos aproximamos, são casas árvores, telhados, folhas, plantas, formigas, pernas de formigas, até o infinito. Tudo se inclui na palavra campo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.115). Prescreve o autor no fragmento 72: E o que completa a nossa incapacidade de conhecer as coisas é o fato de serem simples em si, enquanto nós somos compostos por duas naturezas antagônicas e de gêneros diversos, alma e corpo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72). Essa mistura que somos nos impossibilita de conhecermos as coisas, porque em vez de recebermos a idéia pura das coisas, tingimo-las com qualidades que são nossas, impregnando-as de nosso ser composto. A capacidade natural do homem de conhecer, como muitos filósofos, de modo especial os medievais, louvam e com ela colocam o homem como o rei da criação, na verdade é motivo de humilhação para o homem.

Diante desta desproporção do homem em relação à natureza o que lhe resta? Resta-lhe a contemplação em silêncio. Resta-lhe voltar-se para o seu interior e nele encontrar-se com a oposição do seu eu em relação a Deus e a oposição do eu consigo mesmo; a desproporção em relação a Deus e a si mesmo: que o homem considere-se o que é diante do que existe (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).


Fonte: .