A Deriva Do Homem No Pensamento Pascaliano
- Por Fábio Moraes
- Publicado 8/03/2007
- Filosofia
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3 a ausência da natureza humana
O pensamento pascaliano emerge em uma antropologia peculiar. Esta se reveste de uma forte conotação teológica. O homem é conhecido somente em seu ato de existir, em fazer-se, nunca nas origens e nem e em sua conclusão. Isto é o mesmo que dizer que não conhecemos o início, a gênesis e muito menos o fim, o desfecho do homem. Ora, isto remete a um problema antropológico que o próprio Pascal levanta quando pensa o homem, ou melhor, se o homem (pós-queda) é detentor de uma natureza, o que é a natureza humana?
Diante de um universo infinito e desconhecido, o homem não pode buscar nele explicações de si, uma vez que este lhe é mudo, indiferente, pois a infinitude do mundo torna nulo o conhecimento do homem, isto é, o finito se aniquila na presença do infinito e torna-se um puro nada (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 233). Mas a questão ainda permanece. Como discursar sobre uma natureza humana? É impossível tratarmos de uma natureza humana, como nos assevera Blaise Pascal: O hábito é nossa natureza. Quem se habitua à fé crê, e não pode deixar de temer o inferno; e não crê em outra coisa (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 89).
... o hábito é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas que é a natureza? Por que não é o hábito natural? Receio muito que essa natureza não seja ela própria senão um primeiro hábito, assim como o hábito uma segunda natureza. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 93)
Não dá para tratar de uma natureza no sentido clássico. Desde a filosofia antiga, os filósofos conceberam uma natureza do homem. Estas concepções têm suas expressões mais significativas nos pensamentos de Platão e Aristóteles. Para o primeiro, a natureza do homem se assentava em participar do mundo inteligível (mundus inteligibilis), mas, sobretudo em ser um ser próprio daquele mundo e não do mundo sensível (mundus sensibilis). O que nos importa aqui é perceber que em Platão a alma (homem) pré-existe ao existir no mundo sensível e continuará a existir após este; para o segundo, o homem tem sua natureza na composição do sinolo 10. Segundo Aristóteles, a natureza humana se funda no princípio do Zôon logikón.(animal racional; cf. livro II da Política). Deste conceito Aristóteles determina-se o ser humano e suas capacidades. É lhe atribuído uma natureza determinada. Essas duas formas de pensar o homem, dualismo ou monismo, vão ser retomadas em quase todos os filósofos. Naturalmente, cada um com nuanças muito distintas. Mas de certa forma em linhas gerais não será muito diferente.
Chamamos a atenção pelo fato de Pascal não poder se utilizar delas para tratar do homem. Nelas, o que dá sustentabilidade é o seguinte: em Platão é o mundo das idéias; em Aristóteles a análise particular do homem elevada à universalidade. Em Platão o fundamento da ousia( é transcendente, em Aristóteles o fundamento é imante.)(substância) Pascal já não tem mais essas bases para trabalhar, ou seja, a noção de substância que os clássicos usaram para fundamentar a natureza, porque essa noção, que sustenta as teorias dos antigos, se desfez no Renascimento quando as propriedades que eram essencialmente divinas se imanentisaram. A tal ponto que Descartes tenta uma nova metafísica, ainda idealista, a qual se assenta no sujeito que pensa, para escapar da necessidade de algo externo ao sujeito.
Fora destas teorias, Pascal descreve não determina a natureza humana como hábito, ou seja, costume.(coutume). Assim como o costume que não tem origem certa nem mesmo fim determinado, também a natureza do homem não tem origem certa nem mesmo fim determinado. O termo que Pascal usa para expressar esse conceito é néant conforme já tratamos acima.
Em síntese, a natureza humana, para Pascal, não passa de costume. Pascal usa deste termo costume - para descrever a natureza humana, segue-se disso a impossibilidade de uma antropologia racional uma vez que, como o costume, não tem como se determinar objetivamente o que é o homem. Por isso o homem está à deriva da racionalidade. Ele não consegue captar a si mesmo em um discurso racional. O homem não é, assim, objeto da razão.
Assim, se o homem não encontra no universo sua explicação também é claro que se furta ao homem seu lugar no universo. O que deu sentido ao homem outrora já não mais lhe sustenta, o que era seu ponto fixo dissolveu-se em meio as descobertas das ciências, como por exemplo, a infinitude do universo. Esta situação causa no homem o medo: principio a ter medo como um homem que tivesse sido levado dormindo para uma ilha ... e lá fosse desperto sem saber onde se acha e sem meio de escapar (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 693).
