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A Deriva Do Homem No Pensamento Pascaliano
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Fábio Moraes
 
Por Fábio Moraes
Publicado 8/03/2007
 
Esse trabalho pretende ressaltar a deriva do homem tal como é pensada por Pascal. O homem, segundo Pascal, é um ser extraviado, que após a queda se encontra entre dois infinitos. Esses infinitos se manifestam no universo, uma vez que as grandezas que constitui o universo podem ser aumentadas e diminuídas sem jamais se chegar ao todo ou ao nada. Deste modo, o infinitamente grande traduzido na imensidão do universo e o infinitamente pequeno é exprimido nas dimensões menores que o homem pode conceber. O homem estando entre esses dois extremos, se encontra em um campo intermediário, sempre em movimento. Movimenta sem jamais alcançar esses extremos e sem poder se fixar em um ponto seguro. É desta situação que o homem colhe sua condição: perpétuo movimento. Deste perpétuo movimento jamais o homem poderá construir uma antropologia racional. Jamais poderá discursar sobre qualquer conhecimento do que seja o homem em sua essência. Se não se pode conceber nada da essência humana então não se pode também tratar de uma natureza humana. Sem poder conceber a sua natureza, o homem se reconhecer sem um porto.

1 A queda
Para falarmos da antropologia pascaliana é imprescindível que abordemos o mito da queda humana. Esse tema remonta a filosofia antiga como também a patrística. Em Agostinho o mesmo mito é considerado como explicação para o cárcere atual da alma.

A concepção de que o homem, composto de corpo e alma, é decaído de um estado primeiro no qual a concupiscência não lhe era intrínseca perpassa o pensamento de diversos filósofos para citar apenas alguns: Platão, Agostinho, Tomás. Nesta linha de pensamento, o homem vivia, antes da queda, numa condição sadia. Gozava do pleno domínio sobre si e realizava-se, pois contemplava a Deus. No entanto, não pôde continuar assim e pecou.  Por causa deste pecado o homem decai de Deus. Por este fato, subtraiu-se ao domínio de Deus... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 430), o homem sofre as implicações diretas sobre a condição atual humana. Essa condição atual humana tem dois aspectos: dificuldades antropológicas e epistemológicas; como também vive num mundo que pode ser chamado de o reino da concupiscência.

Diante deste quadro, a antropológica pascaliana, fundado num princípio teológico (o homem é um ser decaído de Deus), é, antes de tudo, uma antropologia que se pode observar, pois é passível de verificação na realidade do homem (o homem não é soberano, tem limitações e conhecimento e principalmente o mal moral). A queda é um mito que explica o que vemos no cotidiano.

Este princípio da queda a qual explica e não cria o estado atual - que Pascal trabalha, tem sua origem no pecado do homem diante do seu criador. O homem quis fazer de si causa final e objeto de delícias prescindindo-se, deste modo, do único e digno de tal status: Deus. Por essa razão o homem criatura foi precipitado a um segundo estado de natureza. Já não mais em um estado sadio como fora criado outrora, mas sim num estado no qual suas misérias lhe são visíveis, e mais, são causa de inquietude e tormento.

Precipitado num reino de concupiscência e ignorância que constitui a prova experimental de uma decadência misteriosa o homem não encontra mais seu lugar nato, com efeito assevera Pascal: é visível que o homem está perdido (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 437) Ao contrário do que possa parecer, a queda não tira nada ao homem, apenas desorganiza o homem. Não há uma falta (no sentido ontológico), mas sim uma desordem de seu ser. Desordem no sentido de não mais se reconhecer, uma vez que ele perdeu seu referencial, ou seja, Deus.

Pascal trabalha com a concepção agostiniana de queda. Para o bispo de Hipona o fato de um Deus perfeito e criador de todas as coisas criar um homem ignorante e concupiscente trás em si uma contradição. Agostinho entende que: Dieu a créé le premier homme, et en lui toute la nature humaine. Il l'a créé juste, sain, fort. Sans aucume concupiscence. Avec le libre arbitre egalement flexible au bien et au mal. 1 (PASCAL, Oeuvres Complètes,1954, p.594) 2, porém, esse homem criado por Deus não foi capaz de manter esta perfeição. Ele deve, então, ter cometido alguma falta enquanto estava neste estado sadio. Essa falta, para Agostinho foi uma transgressão da lei divina. Assim afirma Agostinho "el hombre transgredió la ley de Dios" 3 (SAN AGUSTÍN, 1984, p. 254). Essa transgressão foi, deveras, de tamanha proporção para que ele tenha merecido tal destino: o atual estado que ele se encontra, isto é, mísero e ignorante. Assim, o mito de uma queda dissolve a contradição entre um Deus bom e um homem corrompido.

Notemos que essa explicação é de cunho teológico, contudo a constatação da miséria, da decadência do homem salta-nos aos olhos toda vez que contemplamos a limitação do homem. Este fato, da queda humana é tão evidente que, além de outros filósofos, também em Platão (séc. V a.C.) há uma idéia de um castigo dos deuses aos homens. Para ele, estamos em um exílio na Terra onde temos que nos libertar de nosso corpo para assim voltarmos a nossa pátria verdadeira.

A forma literária usada na explicação da queda adâmica é um jeito de se clarificar a realidade em que vivemos. Ela é só uma forma de se explicar o que por si só já nos leva a pensar a condição humana.

Essa queda pressupõe, como dissemos, uma falta por parte do homem. Essa falta é causada pelo orgulho do homem diante de Deus. Ainda que essa queda seja um mistério o importante é nos concentrarmo-nos em sua raiz: o orgulho. A queda pascaliana é, como afirma P. Sellier, uma rebelião orgulhosa. 4 Isto porque Adão tomou seu Eu 5 como fonte de suas delicias e prazeres. Adão tentou tornar-se causa do bem de si mesmo. Ora, o que fez Descartes quando constitui o sujeito como auto-suficiente senão abrir vias para levar o homem ao orgulho? 

Embora, a primeira vista, este estado após a queda possa parecer um castigo divino pela revolta orgulhosa do homem, esta se configura única e exclusivamente como desorganização ou, nas palavras de Pascal confusão natural (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 20). Se Pascal assumisse a idéia do castigo ele cairia no calvinismo onde se afirma que todos os homens estão sendo castigados pelo pecado adâmico. Diferentemente de Calvino, Pascal não trabalha com essa idéia, de uma condição imposto de fora, mas sim, a vê como uma conseqüência interna do homem da atitude egoísta do homem. Assevera Pascal que esse estado é uma: confusão sem objetivo está é a verdadeira ordem que marcará sempre seu fim pela própria desordem (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 373).

Essa conseqüência interna dá a condição do homem após a queda, ele é grande, porém miserável ao mesmo tempo. Ele é tudo e nada concomitantemente. Assim, entramos insensivelmente na condição humana paradoxal de grandeza e miséria. Sustenta nosso autor:

Eis o estado que os homens se acham hoje. Resta-lhes algum instinto importante de felicidade de sua primeira natureza, e estão mergulhados na miséria de sua cegueira e de sua concupiscência , a qual se tornou sua segunda natureza (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 430)


2 O homem: grandeza e miséria
No fragmento 72 dos Pensamentos, Pascal sustenta que o homem deve se encarar com um ser extraviado 6 que está preso em uma pequena cela 7 (mundo). Aqui está o primeiro elemento que queremos abordar. O homem está extraviado como se estivesse preso em uma pequena cela. Quando afirmamos isso dizemos implicitamente que tal estado não é natural ao homem, senão é a condição em que ele está.

Se o homem vive num extravio, como afirma Pascal: O homem não sabe em que lugar se colocar. Está visivelmente perdido e caiu de seu lugar sem conseguir reencontrá-lo. Busca-o por toda parte (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 427), é porque ele tem um lugar primeiro, o qual, de maneira nenhuma é onde ele se encontra atualmente. O homem vivia, na concepção pascaliana, em um estado de grandeza. Neste estado ele era.forte, santo e justo. Estava em posse da plena sabedoria e contemplava Deus face a face, como já tratamos. Para narrar esse estado primeiro, Pascal oferece-nos um fragmento onde a elocução da sabedoria de Deus, apontará a atitude do homem em seu estado anterior e atual situação da humanidade:

Criei o homem santo, inocente, perfeito; enchi-o de luz e de inteligência; comuniquei-lhe minha glória e minhas maravilhas. Os olhos do homem viam, então, a majestade de Deus. Não se achava nas trevas que o cegam, nem na mortalidade e nas misérias que o afligem. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 430).

Deus criou o homem para a felicidade! Por isso Pascal (Pensamentos, 1973, frag. 425) afirma todos os homens procuram ser felizes; não há exceção. Assim, todas as ações do homem, por mais medonha que possam parecer, no fundo sempre têm um desejo de encontrar felicidade: ... por mais diferentes que sejam os meios que empregam, tendem todos a esse fim felicidade... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 425), até mesmo para aqueles que vão se suicidar aponta Pascal: esse é o motivo a felicidade de todas as ações do homem, até os que vão enforcar-se (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 425). O desejo de ser feliz orienta o ser humano, e ele busca satisfazer esse seu coração que é voltado, de forma misteriosa, para o infinito com as coisas mais passageiras (ex.: as ciências) e, às vezes, com coisas que são até mais passageiras que o próprio homem (ex.:bens materiais). Sustenta Pascal: assim como o presente nunca nos satisfaz, a experiência nos engana e, de infelicidade em infelicidade, conduz-nos até a morte, que é o seu teto eterno (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 425). Faz isso porque até as coisas, por menor que sejam, podem, de alguma forma, aliviar sua inquietude de ser. No fundo, o homem aspira pelo Ser, o mesmo que um dia ele recusou deliberadamente ao pecar com sua revolta orgulhosa. Essa ânsia pelo Ser é como que a marca desta primeira natureza. A luz confusa a que Pascal se refere no fragmento 430 relaciona-se com esse instinto impotente de felicidade (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 430) ou de busca pelo verdadeiro Ser: Deus. Em resumo: o homem tem, uma vontade voltada ao infinito (marca da grandeza), como dissemos, e só o infinito lhe pode saciar plenamente como ele quer, como ele anseia. O homem um dia possuiu o infinito e este preenchia sua vontade. O homem contemplava a Deus, o único infinito capaz de satisfazê-lo. E é nesse momento de contemplação que se caracteriza a primeira e original natureza do homem. Este estado de grandeza constituía a primeira natureza humana. O homem não se encontra mais neste estado, não pôde manter tanta glória sem cair na presunção. Assim assevera Pascal:

Quis tornar-se o centro de si, independente do meu socorro. Subtraiu-se ao meu domínio; igualando-se a mim pelo desejo de encontrar a sua felicidade em si mesmo, abandonei-o; revoltando as criaturas que lhe estavam submetidas, tornei-as suas inimigas: de maneira que, hoje, o homem tornou-se semelhante aos animais, e num tal afastamento de mim que apenas lhe resta uma luz confusa do seu autor ... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 430).

O homem pascaliano quis tornar-se o centro de si. Seu grande erro foi querer encontrar a felicidade em si mesmo; este é o motivo de sua queda. A queda tem dois aspectos. O primeiro aspecto é que a perfeição do homem criado à imagem da glória de Deus não foi totalmente apagada pela queda (essa queda é incompleta, pois ainda resta-lhe traços da sua primeira natureza instinto impotente e luz confusa); o segundo aspecto é a inversão da causa da glória de Deus para si. O homem guiado pela presunção (por isso orgulho) tentou fazer-se centro de si igualando-se a Deus. Por causa desse seu orgulho, Deus o abandona e ele passa a viver no seu segundo estado que é de miséria. Este homem decaído perdeu a sua identidade, pois perdeu o ser que lhe dava o conhecimento de si. O homem após a queda perde sua relação com Deus. Sem relação com Deus não pode mais conhecê-lo e em se conhecer. Com a queda o homem perde a plenitude do ser: Deus. Sem Ele, o homem encontra-se no nada, uma vez que Deus é tudo. Esse termo tem um sentindo filosófico na perspectiva de Pascal. Nada em francês é néant pode ser traduzido por, falta de..., de nenhuma família, de nenhuma nação, de origem inatingível. Neste sentido, o homem é uma néant, pois sem identidade não pode saber com certeza sua origem, e nem sua finalidade (telos).

O homem decaído ainda traz vestígios de sua primeira natureza. Ele sabe, mesmo diríamos nos termos de hoje inconscientemente, que só Deus é capaz de preencher seu vazio e mostrar de fato qual é sua identidade.

Este indigente termo este que nos dias atuais tem um significado semelhante a néant já não possui a Deus: o único infinito capaz de satisfazer a sua vontade; por isso, vive em um vazio. Procuram nas coisas finitas algo que preencha este vazio, mas o que estas lhes proporcionam são apenas prazeres momentâneos. O homem nunca está feliz com o que possui, sempre coloca a sua felicidade em coisas que supostamente virá a possuir.

Como as coisas só preenchem seu vazio de forma momentânea, pois o presente nunca nos satisfaz, a experiência nos engana (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 425), logo o homem defronta-se consigo mesmo, olha para si e não suporta ver seu estado de miséria, não consegue encarar-se a si mesmo, e ver seu eu verdadeiro. A observação deste espetáculo do eu verdadeiro (vazio interior, abismo infinito) causa no homem um tédio que o coloca em incessante movimento para o divertissement. 8 Por não suportar a si mesmo o homem passa a divertir-se (divertissement).

Um dos sinais mais marcantes da miséria humana é fazer de si um obstáculo para si mesmo. Ele desvia-se de si mesmo. O divertimento, é a forma privilegiada que o homem encontra para desviar o olhar de si mesmo, já que seu eu verdadeiro lhe é insuportável. O divertimento é uma espécie de fuga, onde ele busca atividades que o consiga distrair. Segundo Pascal ocupam-se os homens com uma bola ou uma lebre; esse é o prazer, para os reis inclusive (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 141). Quando o homem olha para si mesmo, e se vê como um abismo infinito, como um ser incapaz de conhecer a si próprio, percebe que sua razão limitada não pode conhecer a Deus e, não podendo conhecer a Deus, jamais poderá afirma que houve uma criação divina. Mais ainda, não poderá dizer se ele próprio é criado por Deus ou não. Sustenta Pascal: é igualmente incompreensível que ... o mundo tenha sido criado e que não o tenha, etc... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 230)

Se o homem não tem acesso a criação e sua determinação, então ele não conceber que foi criado obedecendo a um modelo: a uma natureza humana 9. Se assim é aquilo que chamamos natureza humana, no fundo, é uma infinita maleabilidade. Nesta infinita maleabilidade, o homem, passa a forjar o seu ser. Ele cria uma imagem de si conforme gostaria que fosse e vive segundo esta imagem. Este ser que o homem forja, ou seja, a imagem que ele faz de si mesmo, leva-o a ser escravo da imagem que ele cria para ter reconhecimento do outro, para ganhar a estima alheia.

O modo como muitas pessoas se apresentam a nós não corresponde com o seu ser verdadeiro. É apenas uma máscara que ela cria para evitar o seu sofrimento, buscando ser amada e atrair a atenção das pessoas para si. No tédio, o homem troca o ser pelo parecer. Amamos no outro a sua aparência, sua beleza que é um acidente. portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 323).


3 a ausência da natureza humana

O pensamento pascaliano emerge em uma antropologia peculiar. Esta se reveste de uma forte conotação teológica. O homem é conhecido somente em seu ato de existir, em fazer-se, nunca nas origens e nem e em sua conclusão. Isto é o mesmo que dizer que não conhecemos o início, a gênesis e muito menos o fim, o desfecho do homem. Ora, isto remete a um problema antropológico que o próprio Pascal levanta quando pensa o homem, ou melhor, se o homem (pós-queda) é detentor de uma natureza, o que é a natureza humana?

Diante de um universo infinito e desconhecido, o homem não pode buscar nele explicações de si, uma vez que este lhe é mudo, indiferente, pois a infinitude do mundo torna nulo o conhecimento do homem, isto é, o finito se aniquila na presença do infinito e torna-se um puro nada (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 233). Mas a questão ainda permanece. Como discursar sobre uma natureza humana? É impossível tratarmos de uma natureza humana, como nos assevera Blaise Pascal: O hábito é nossa natureza. Quem se habitua à fé crê, e não pode deixar de temer o inferno; e não crê em outra coisa (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 89).

... o hábito é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas que é a natureza? Por que não é o hábito natural? Receio muito que essa natureza não seja ela própria senão um primeiro hábito, assim como o hábito uma segunda natureza. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 93)

Não dá para tratar de uma natureza no sentido clássico. Desde a filosofia antiga, os filósofos conceberam uma natureza do homem. Estas concepções têm suas expressões mais significativas nos pensamentos de Platão e Aristóteles. Para o primeiro, a natureza do homem se assentava em participar do mundo inteligível (mundus inteligibilis), mas, sobretudo em ser um ser próprio daquele mundo e não do mundo sensível (mundus sensibilis). O que nos importa aqui é perceber que em Platão a alma (homem) pré-existe ao existir no mundo sensível e continuará a existir após este; para o segundo, o homem tem sua natureza na composição do sinolo 10. Segundo Aristóteles, a natureza humana se funda no princípio do Zôon logikón.(animal racional; cf. livro II da Política). Deste conceito Aristóteles determina-se o ser humano e suas capacidades. É lhe atribuído uma natureza determinada. Essas duas formas de pensar o homem, dualismo ou monismo, vão ser retomadas em quase todos os filósofos. Naturalmente, cada um com nuanças muito distintas. Mas de certa forma em linhas gerais não será muito diferente.

Chamamos a atenção pelo fato de Pascal não poder se utilizar delas para tratar do homem. Nelas, o que dá sustentabilidade é o seguinte: em Platão é o mundo das idéias; em Aristóteles a análise particular do homem elevada à universalidade. Em Platão o fundamento da ousia(  é transcendente, em Aristóteles o fundamento é imante.)(substância)  Pascal já não tem mais essas bases para trabalhar, ou seja, a noção de substância que os clássicos usaram para fundamentar a natureza, porque essa noção, que sustenta as teorias dos antigos, se desfez no Renascimento quando as propriedades que eram essencialmente divinas se imanentisaram. A tal ponto que Descartes tenta uma nova metafísica, ainda idealista, a qual se assenta no sujeito que pensa, para escapar da necessidade de algo externo ao sujeito.

Fora destas teorias, Pascal descreve não determina a natureza humana como hábito, ou seja, costume.(coutume). Assim como o costume que não tem origem certa nem mesmo fim determinado, também a natureza do homem não tem origem certa nem mesmo fim determinado. O termo que Pascal usa para expressar esse conceito é néant conforme já tratamos acima.

Em síntese, a natureza humana, para Pascal, não passa de costume. Pascal usa deste termo costume - para descrever a natureza humana, segue-se disso a impossibilidade de uma  antropologia racional uma vez que, como o costume, não tem como se determinar objetivamente o que é o homem. Por isso o homem está à deriva da racionalidade. Ele não consegue captar a si mesmo em um discurso racional. O homem não é, assim, objeto da razão.

Assim, se o homem não encontra no universo sua explicação também é claro que se furta ao homem seu lugar no universo. O que deu sentido ao homem outrora já não mais lhe sustenta, o que era seu ponto fixo dissolveu-se em meio as descobertas das ciências, como por exemplo, a infinitude do universo. Esta situação causa no homem o medo: principio a ter medo como um homem que tivesse sido levado dormindo para uma ilha ... e lá fosse desperto sem saber onde se acha e sem meio de escapar (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 693).


4 O homem finito e a natureza infinita

O que é o homem? Segundo o autor: O homem não é nem anjo nem animal: homem apenas (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.140). Esta resposta Pascaliana é uma crítica direta a exacerbação do homem feita pelos estóicos e a degradação operada por Montaigne. Para os primeiros, a humanidade podia se elevar ao status de companheiro de Deus. Deste modo o homem se põe acima e mais sublime que todos os seres. Na verdade, os estóicos, de certa forma, destacam o homem do comum e lhe conferem uma espécie de dignidade metafísica. Para o segundo, o homem não passa de um animal que tem a capacidade de iludir a si mesmo se achando mais especial que os animais. Montaigne opera uma espécie de dessacralização da dignidade humana que fora construído pela filosofia medieval. 11

Diante deste cenário, Pascal busca descrever, sem extremos, a condição do homem. Para tanto, no fragmento 72, ele compara a Terra em relação ao universo, e depois o homem em relação ao infinito, justamente para mostrar o nada ontológico 12 do homem. O nada, que se manifesta em sua incapacidade de conhecer e dominar o universo, não tem só uma dimensão pejorativa, ao contrário, o nada é constitutivo da estrutura antropológica pascaliana.

No fragmento 347 Pascal sustenta:

O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas um caniço pensante. Não é preciso que o universo arme-se para esmagá-lo: uma vapor, um gota de água basta para matá-lo. Mas mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, pois sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhecesse isso. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 347).

Pascal descobre que esse mesmo nada ontológico diante do universo é mais sublime que o universo, porque ainda que o homem não possa nada diante do universo infinito, que tem o poder de exterminá-lo e com ele toda raça humana, mesmo assim ele (o homem) é mais sublime e mais nobre, pois sabe quem é e que morrerás, ao passo que o universo não sabe nada sobre si. O homem, nas palavras de Pascal, é aquele que é abarcado pelo universo, mas pelo pensamento é ele quem abarca o próprio universo. O homem é limitado pelo ser que ocupa, ou seja, seu corpo; em outras palavras, está limitado no aqui e agora, mas com o pensamento ele pode viajar pelo mundo, pelo o pensamento o homem habita as estrelas, inventa novos mundo, em uma palavra: transcende. Assim, mesmo mísero ele é grande, pois tem a capacidade de transcender e buscar o infinito, isso nada mais é do que a documentação de sua primeira natureza.

O estado de miséria que o homem se encontra é devido a sua queda, como tratamos acima, e por isso, Deus lhe é escondido. Antes de o homem cair, ele encontrava-se na presença de Deus e este lhe era íntimo: ... comuniquei-lhe minha glória e minhas maravilhas. Os olhos do homem viam, então, a majestade de Deus. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.430). No entanto, o homem confundiu o amor-de-si com o amor-para-si, ou seja, quis tornar-se centro de si mesmo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.430).  Desta forma ele decai de Deus e passa a um estado segundo, que é marcado justamente pela grandeza (vestígios da primeira natureza) e miséria (marca do segundo estado de natureza). Esse misto de grandeza e miséria no homem atual existe porque a queda não aconteceu de forma completa, se assim não fosse não restaria no homem atual o que Pascal chama de luz confusa de seu autor ... e instinto impotente.  (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.430).

Por esse motivo, este ser decaído diverte-se para aliviar a angústia provocada pelo tédio (Ennui) 13 , resultado de sua queda. Por não conseguir mais olhar para si com conforto, ele procura a felicidade em coisas finitas que lhe proporcionam um prazer momentâneo. Para Pascal o conceito de divertissement nasce da necessidade que o homem tem de alienar-se para não ficar face-a-face consigo mesmo, uma vez que o que encontra em seu estado atual (pós-queda) é a miséria.

Quando o homem não está no divertimento, ou seja, quando ele se defronta consigo mesmo: incontinenti subirá do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, a pena, o despeito, o desespero. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 131).

Após termos visto quais mecanismos o homem se utiliza para desviar o olhar de si, vamos ver em que condição ele se reconhece e, para tanto, se faz necessário conhecer a condição humana.

Para conhecermos a condição humana Pascal sugere ao homem que conheça primeiro a natureza e depois se volte para si mesmo para ver se há alguma proporção em relação a ela. Assim é só em relação a natureza que homem pode, de alguma forma, conhecer, ainda que minimamente, sua condição. Vejamos:

Antes de entrar em maiores indagações acerca da condição do homem, que ele a considere a natureza uma vez seriamente e com vagar, que se observe também a si mesmo e julgue se tem alguma proporção com ela. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

Partindo por primeiro da análise da Terra, o que será esta na imensidão do universo? A Terra, com sua imensidão, não passa de um ponto imperceptível na infinitude do universo. Sustenta o filósofo:

Todo esse mundo visível é apenas um traço imperceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado conhecer mesmo de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além dos espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas .... (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

O que será o homem dentro da infinitude? O homem em relação ao infinito é um nada (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72), um ponto imperceptível que se perde no infinito. E o que será o homem em relação ao nada? Tomemos uma lêndea como exemplo. A lêndea é um dos menores seres da natureza, sendo suas partes menores que seu corpo, o que será o homem diante deste nada? O homem em relação ao nada é um tudo, um colosso.

... como não admirar que nosso corpo há pouco imperceptível no universo, imperceptível no todo, se torne um colosso, um mundo, ou melhor, um tudo em relação ao nada a que não se pode chegar? (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

O que será o homem na natureza, uma vez que ele é um nada em relação ao tudo e um tudo em relação ao nada?

... nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre tudo e nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas como o seu princípio permanece ocultos num segredo impenetrável, e é lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

Se o homem é, tal como se expressa o autor, um ponto intermediário entre tudo e nada (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.72). então podemos afirmar que ele é um ser do meio. Como um ser do meio (milieu) o homem é incapaz de compreender os extremos. Por quê?

Pascal compara o mundo a uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).Como ser do meio o homem não possui um ponto fixo para se apegar, ora ele se dirige em um extremo ora para outro. Sendo sua razão finita e o universo infinito, ele não consegue abarcar a totalidade das coisas. Na esfera infinita não conseguimos determinar o seu início e o seu fim, sendo o mundo análogo a ela não conseguimos também determinar o seu início e o seu fim, pelo fato do homem ser um ser do meio e não conseguir abarcar os extremos. Somente uma capacidade infinita consegue compreender o infinito. Somente o autor destas maravilhas conhece-as; e ninguém mais. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).

O fato de nosso conhecimento não abarcar as coisas segundo a sua totalidade nos dá um conhecimento aparente das coisas mesmas. O homem vive na ilusão, pois sua razão vive na inconstância das aparências e nada pode fixar o finito no infinito. Aquele que julgar ser mais sábio que o outro está em puro engano, pois ele não pode ter um conhecimento verdadeiro..

Outro motivo que nos impede de conhecer as coisas como são, é o fato de que para isto precisamos conhecer o todo. Assevera Pascal: ... Mas as partes do mundo têm todas tais relações e tal encadeamento umas com as outras que considero impossível compreender uma sem alcançar as outras, e sem penetrar o todo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72). O homem para sobreviver é necessário prover-lhe o essencial a vida. Assim: Para conhecer o homem, portanto, mister se faz saber de onde vem o fato de precisar de ar para subsistir; e para conhecer o ar é necessário compreender donde provém essa sua relação com a vida do homem, etc (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72). Para conhecermos algo precisamos conhecer as partes que formam este algo e por sua vez as partes que formam estas partes. Assim se forma uma cadeia de ligações ao infinito. Todas as coisas são causadas e causadoras. Este conhecimento do todo é impossível - visto se estender ao infinito - ao homem por causa de sua condição: ser do meio.

As palavras não abarcam mais as coisas. Na palavra cidade, por exemplo, encontramos tudo o que a compõe e, como para conhecer uma cidade é preciso conhecer o todo que a compõe, conhecer a cidade nos é impossível. Todas as afirmações que fazemos são válidas para a natureza que conhecemos e não na sua totalidade: uma cidade, um campo de longe são uma cidade e um campo, mas à medida que nos aproximamos, são casas árvores, telhados, folhas, plantas, formigas, pernas de formigas, até o infinito. Tudo se inclui na palavra campo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag.115). Prescreve o autor no fragmento 72: E o que completa a nossa incapacidade de conhecer as coisas é o fato de serem simples em si, enquanto nós somos compostos por duas naturezas antagônicas e de gêneros diversos, alma e corpo. (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72). Essa mistura que somos nos impossibilita de conhecermos as coisas, porque em vez de recebermos a idéia pura das coisas, tingimo-las com qualidades que são nossas, impregnando-as de nosso ser composto. A capacidade natural do homem de conhecer, como muitos filósofos, de modo especial os medievais, louvam e com ela colocam o homem como o rei da criação, na verdade é motivo de humilhação para o homem.

Diante desta desproporção do homem em relação à natureza o que lhe resta? Resta-lhe a contemplação em silêncio. Resta-lhe voltar-se para o seu interior e nele encontrar-se com a oposição do seu eu em relação a Deus e a oposição do eu consigo mesmo; a desproporção em relação a Deus e a si mesmo: que o homem considere-se o que é diante do que existe (PASCAL, Pensamentos, 1973, frag. 72).


5 Epiteto e Montaigne

Para Pascal é impossível definir o homem por causa da maleabilidade infinita da sua natureza. É por sua maleabilidade que não consegue se encontrar, uma vez que está em perpetuo movimento sem se fixar a nada.

Pascal, em conversa com seu diretor espiritual, M Sacy, faz o contra ponto de sua filosofia com outros dois filósofos: Montaigne e Epiteto.

Segundo Pascal, Montaigne, cético, tenta explicar o homem partindo de sua miséria. Iguala o homem aos animais. Montaigne tece uma grande crítica à razão humana dizendo que esta é forjada segundo os interesse pessoais do homem. Para ele é loucura o desejo do homem querer se elevar a Deus. Assim, o homem deve conhecer seu verdadeiro estado, colocar-se no seu devido lugar e não procurar mudanças. Com efeito, Montaigne, coloca, aos olhos de Pascal, o homem no vício da preguiça. O erro de Montaigne, para Pascal, está no fato de resumir a razão humana somente ao estado de miséria.

Este cético do início do Renascimento, postula a incapacidade da razão. Deste modo, Pascal se expressa ao seu diretor espiritual M. de Sacy:

Je vous avoue, Monsieur, que je ne puis voir sans joie dans cet auteur la superbe raison si inveinciblement froissée par ses propres armes, et cette révolte si sanglante de l'homme contre l'homme, qui de la société avec Dieu, où il s'élevait par les maximes de sa faible raison, le précipite dans la nature des bêtes" (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 569) 14

Deste extremo, Pascal vai para o outro: Epiteto. Pascal tem grande consideração pela doutrina (renúncia e isolamento) de Epiteto, pois segundo nosso filósofo Epictète, lui dit'il, est un des philosophes du monde qui ait miex connu les devoirs de l'homme. 15 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p.562). Epiteto conheceu os deveres do homem, isto é, soube delimitar um ideal no qual consiste a grandeza do homem, porém o filósofo jamais considerou a fraqueza humana, jamais considerou a necessidade de algo exterior ao sujeito para ajudá-lo a cumprir seus deveres. Ora, tal doutrina leva o homem a uma soberba que Pascal chamará de soperbe diabolique. 16 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p.563).

O comum nos dois é que eles pecam pelos extremos, isto é, Montaigne considerando só a miséria atual e assim caindo na indolência; e Epiteto considerando só a grandeza e por sua vez caindo no orgulho, na soberba

Pascal critica tanto Epiteto como Montaigne. Segundo ele, o homem é um ser do meio, sendo este milieu ele não pode se fixar em nenhum dos extremos e não se pode defini-lo. O que faz Montaigne é fixar o homem no estado de miséria, isto é, somente num extremo e defini-lo como miserável. Pascal concorda com Montaigne no fato de dizer que o homem é miserável, mas em contrapartida diz que o erro de Montaigne está no fato de resumir o homem somente ao estado de miséria esquecendo-se do paradoxo humano, pois é da miséria que se retira a sua grandeza. Em relação a Epiteto, Pascal também a crítica pelo fato de fixar o homem em um extremo: a grandeza. O erro dele está no fato de o homem poder se assemelhar a Deus. Isto é impossível, pois segundo Pascal, Deus é escondido ao homem, ele não pode mais contemplar a Deus por causa da queda. Outro erro de Epiteto está no fato de colocar o homem como o rei da criação, pelo fato de possuir razão, mas, esta é finita e não consegue compreender e abarcar o infinito.

Montaigne e Epiteto encerram o homem em um sistema filosófico, reduzindo-o a um objeto, mas, segundo Pascal ele não é um objeto, é um ser fendido pelo sobrenatural,  incapaz de conhecer a si próprio. Mostrando o paradoxo humano, Pascal não define o homem, apenas o descreve tal como ele se apresenta.


6 O homem à deriva

Como vimos nas páginas anteriores é impossível fixar uma natureza ao homem. Segundo Pascal, a natureza é tão-somente hábito. Após a queda, o homem toma o que é acidental (hábito) por essencial (natureza). Mas, ainda que tomássemos o hábito por natureza, mesmo assim seria impossível fixar limite a ela, pois o hábito, por essência, não tem origem certa nem mesmo fim. Diante disso, mesmo se tomássemos o hábito por natureza seria impossível fixar a natureza humana. É mister afirmar que ao homem, cindindo pela queda, não se pode atribuir uma natureza, pois esta lhe é ausente.

Deste primeiro porto que o homem é expulso, isto é falta da sua primeira natureza, o homem só pode se compreender enquanto condição, a saber: perpétuo movimento. O homem, rei destronado, vaga, mas de forma alguma alcança o que busca, por mais que vague jamais poderá compreender os extremos, que são dados pela natureza, qu'elle a proposées aux hommes, non pas à concevoir, mais à admirer. 17 (PASCAL, Oeuvres Complètes, 1954, p. 590), como Pascal afirma. Dentro destes extremos infinitos o homem é o ser que está entre eles, isto é, no meio. No meio (milieu) o homem vaga entre os extremos sem nunca poder se fixar nem em um nem em outro. Se o homem é este ser em perpétuo movimento entre os extremos infinitos sem poder abarcá-los e assim compreendê-los, então, o infinito impossibilita ao homem ter um conhecimento da totalidade do universo, uma vez que os extremos são ocultos ao homem.

O homem que, já foi expulso do porto de sua natureza, perde também o porto epistemológico. O conhecimento antropológico e epistemológico é como que arrancado das mãos do homem e lançado num lugar 18 onde o homem jamais poderá chegar para tê-los , ele só reivindicá-os.

Desta forma, sem ponto fixo ou porto seguro, o homem é atirado à mais extrema deriva num mar de possibilidades, é possível ao homem estar aqui como ali, ir por aqui ou por ali sem razão para preferir um ou outro. Todos os caminhos são iguais, todas as direções se equivalem. Diante deste fato à deriva o homem não encontra mais semelhanças no mar ao qual está a navegar; este mar (mundo) lhe é profundamente estranho. Mais essa estranheza que esse mundo causa ao homem, provoca nele agonia, pois a única coisa que o mundo lhe revela é que o homem não é dali, ele é portanto, um ser extraviado.

Esta deriva dá ao homem a oportunidade de se deparar com o infinito. Este, por sua vez, causa-lhe medo. O infinito apavora o homem, pois esconde dele o conhecimento, ou em outros termos, o infinito anula o conhecimento.

Podemos averiguar o extravio humano de três modos distintos: antropológico, uma vez que há nele uma ausência de natureza humana; situacional, posto que sua situação (pós-queda) no mundo é de um ser do meio situado entre a dupla infinitude; e epistemológico, uma vez que a investigação humana acerca do universo desemboca no conceito (matemático) de infinitude o qual anula o próprio conhecimento.


Considerações finais

A deriva humana decorrem da perda do referencial: Deus. O homem, como concebe Pascal, vivia em um estado primeiro de natureza, (antes da queda), aliás no verdadeiro estado de natureza. Neste primeiro estado, tinha Deus como referência. Deus era, então, o seu porto. É nele que o homem se atracava. Não faltava nada ao homem, pois o homem era completado pelo ser divino, porém, após a queda o homem foi precipitado no reino da concupiscência. O que impera neste reino no qual o homem está atualmente, é a absoluta falta de porto, ou seja, de Deus. O que mais lhe era próprio no primeiro estado, isto é, Deus, não se faz mais presente neste segundo estado. Por isso, sem Deus, o homem navega à deriva, sem porto, sem referência, sem nada que alivie o fato de sua contingência. A explicação racional do universo acerca do homem encontra-se impotente e limitada sem poder se apoiar em algo sólido e seguro que dê conta de entender o homem.  Não há, portanto, uma antropologia racional em Pascal.

Referências

PARRAZ, I. Ciência e teologia nos caminhos de Pascal. 2004. p. 301 tese (Doutorado em Filosofia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

PASCAL, B. Oeuvres Complètes. França: Librairie Gallimard. 1954.

__________. Pensamentos. São Paulo: Nova cultura, 1973. (Os pensadores)

SAN AGUSTÍN. La perfeccion de la justicia Del hombre: In LANERO, M.F. et. Al. (Comp). Escritos antepelagianos 3º: La perfeccion de la justicia Del hombre.