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Poemas da Obra Tríptico
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João Felinto Neto
No dia 04 de outubro de 1966, nasce João Felinto Neto, em Apodi, Rio Grande do Norte. Em 1969, parte com sua família para Tabuleiro do Norte no Ceará. No mesmo ano passa a residir em Limoeiro do Norte, sua pátria emotiva e ponto de partida de uma fase migratória que duraria toda a sua infância, e o levaria até Santa Isabel/PA (1971), Limoeiro do Norte/CE (1973), e Mossoró/RN (1974), onde ingressa, no Instituto Dom João Costa no ano de 1975. Retorna novamente a Limoeiro do Norte (1977), onde permanece até 1982, ano em que conclui o 1º grau no Liceu de Artes e Ofícios. Retorna definitivamente, com sua família à cidade de Mossoró. Conclui em 1985 o 2º grau na Escola Estadual Prof. Abel Freire Coelho. Em 1986 ingressa no serviço público, como técnico de biodiagnóstico do Hospital Regional Tancredo Neves, atual Tarcísio Maia. Conclui o curso de Ciências Econômicas, pela UERN, em 1991. Somente aos 34 anos, começa escrever e catalogar poemas e crônicas. Até então seu mundo literário se resumia à leitura e ao pensamento.  
Por João Felinto Neto
Publicado 21/11/2008
 
Gostaria de ressaltar que escrevo pela segunda vez, um prefácio para Tríptico (O primeiro extraviou-se). A maior dificuldade para seguir a vida fazendo poesia é o menor apreço dado pelo leitor ante outros gêneros literários. Mas, pelo que eu conheço do poeta, a sua devoção a tão bela arte, o seu intenso desprendimento para escrever versos e sua disposição, completam uma trilogia que supera qualquer dificuldade. Tríptico poderia ressaltar nas diversas vertentes por onde o poeta segue numa escorredura de inquietação, de vislumbre e de solidão, o poeta, o poema e o leitor. Não sei depurar situações insones nem trabalhos específicos, apenas me situo entre o poeta e seus versos; sou um leitor que revitaliza a obra pelo empenho em extrair toda a essência curadora que a poesia exala. Dessa forma, eu me renovo nas páginas de Tríptico. Aparar arestas, lapidar o pensamento em busca de uma confluência entre verbo e harmonia, arranca do mais profundo âmago, a vitalidade racional confrontada à emotiva. Eu entendo o extraordinário esforço de criação do poeta em seu movimento pendular entre a loucura e a arte. Há versos que surpreendem com seu sentido nato para o óbvio, enquanto outros, para o absurdo. Em tríptico, o poeta norte-riograndense João Felinto Neto (Tratamento formal) estabelece, em minha visão, divisões precisas em sua poesia: o Alento, aonde galga a certeza da paz; o Extenso, onde conserva na síntese, o amontoado de sentidos e a Continuidade, a reticência aberta para ir além.

Poesia

Tríptico

 

Numa capa se destacam,

três dobras desenhadas.

Uma simboliza o sorriso,

outra os degraus de uma escada,

e a do centro, 

a recoberta,

a capa deste livro.

 

Não importa o motivo

que define estas páginas,

seja o pai, a mãe e o filho;

ontem, hoje e amanhã;

uva, pêra e maçã

em um cesto colorido.

 

Verso, estrofe e poema

é o tríptico do poeta.

Um desenho em linha reta

onde a mão serve de guia,

a caneta solta a letra

resultando em poesia.

 

 

Esta casa

 

Seja bem-vindo

ao meu recinto.

Sem cerimônias,

pode adentrar.

Lá fora, o mar

jorrando espumas,

também as dunas,

vento a soprar.

 

Se o meu piso

retém areia,

não se acanhe,

pode limpar.

E se quebrar

um objeto,

seja correto,

reponha-o já.

 

Se acaso usar

alguma coisa,

faça uma lista

para comprar.

Não vá pensar:

é uma egoísta.

Bem mais que peço,

posso lhe dar.

 

Dar-lhe-ei abrigo,

coisa de amigo.

Minha cozinha

para cear.

No meu alpendre,

deita comigo.

No meu banheiro...

Deixa pra lá.

 

 

Biografia

 

Sou imortal

nas páginas mal relidas.

Mantive a vida

em letras acabadas.

Capas de luxo

no lixo jogadas.

Versos enxutos

em folhas já molhadas.

Chuva que cai,

palavras borradas.

Uma mão na luva

que cata a esperança

nas poucas letras

ainda não apagadas,

na tentativa

de mantê-la viva,

biografia

de um poeta que se cala.

 

 

Desafeto

 

No espaldar da cadeira,

encontro reminiscências

em versos quase eternos

quanto o terno

surrado que me veste.

Nas gotículas do soro,

sou a peste

ainda imune à ciência.

Se permaneço vivo

é por decência.

Quando partir

será por desafeto.

 

Existências fotografadas

 

Em preto e branco,

vejo o retrato de minha avó;

um colorido, de minha mãe

na mesma idade,

em épocas tão diferentes.

As mesmas rugas

congeladas pelo tempo,

se opõem à tempo

de percebê-las.

No traço da boca

quase sem lábios,

cópias do mesmo espaço

deixado entre eles.

Existências fotografadas

em negativos transparentes;

duas mentes,

sementes,

avó e mãe.

 

 

Contraceptivo

 

Eu não sei se é o desespero

que me leva à loucura

quando o sexo estupra

a minha alma,

ou a calma

que advém do meu tormento

pelo tempo

que passou em minha palma.

Movimento anormal

de penetração moral

em sua saia,

e no cheiro da indecência,

feromônio da ciência

em uma jaula.

Uma fera excitante

que no último instante, ofegante,

cospe a vida

no seu couro de borracha.

Não há luta, nem corrida;

há uma triste despedida

de um suposto vencedor

que foi fruto de um amor

e se enforcou

com a própria cauda.

Milenar

 

A flor que cheira

ao desabrochar um dia

na noite fria

de uma estação secular,

sente chorar

no orvalho que inicia

a poesia do jardim onde ela está.

 

O vento dá,

arrancando suas pétalas;

cores dispersas

na imensidão que há.

Resta uma pá

esquecida entre espinhos,

ovos e ninhos,

uma pegada a traçar.

 

Triste cantar de uma grande ventania.

Folhas sem guia,

arrancadas do lugar.

Vasos quebrados,

que estranhas sepulturas,

onde a cura

vem da raiz milenar.

Entre o céu e a gaiola

 

É impossível a uma ave,

acreditar

na mão que agora abre a porta

na intenção de a soltar,

a mesma mão que um dia outrora,

a pôs numa fria gaiola

depois de tirá-la do ar.

 

Bater as asas e voar,

já não consegue;

está completamente entregue.

Sua prisão tornou-se um lar.

 

Como é difícil acreditar

no amor fiel,

se sob o imenso azul do céu,

a traição teima em reinar.

 

A quem eu posso enganar,

sendo infiel,

se como a ave a voar no livre céu,

limito o meu horizonte

e a todo instante

quero voltar?

Caravelas

 

O dia nublado,

auréola dista.

Um sol retocado,

vermelho em pranto.

No cruel tratado

de Tordesilhas,

das Terras alheias,

tornei-me dono.

Após ter singrado

mares bravios,

em naus, caravelas,

um nome santo.

Denominado enfim,

Brasil.

Povo gentil

de cores e cantos.