O reencontro
Nove dias depois da carta, Cassandro chegou à cidade de Conselheiros.
Fui recebê-lo na Praça das Lamentações. Era o lugar mais aprazível da
cidade, possuía um velho chafariz que dava um tom imponente e um
agrupamento de árvores que oferecia uma paisagem impressionante. Quando
cheguei ao local, ele já me esperava. Trazia consigo duas crianças.
Eram seus filhos, Felipo e Amanda. O garoto estava um pouco escabreado,
a menina era só sorrisos. Deu-me um abraço tão terno que me fez desejar
nas profundezas da minha alma tê-la conhecido a mais tempo. Após um
longo silêncio, Cassandro me abraçou em lágrimas, disse-me que há muito
tempo sentia o desejo de se reaproximar, mas o ressentimento cegava-lhe
o coração. Eu disse a ele que por todos esses anos, no recôndito da
minha solidão, habitava ainda uma faísca de esperança.
Após alguns
instantes, seguimos em direção à minha casa. Não estava muito distante
da praça, depois de dez minutos de caminhada chegamos. As crianças
foram logo conhecer os jardins ao redor da casa. Enquanto isso,
aconchegamos-nos na sala, tomamos chás e conversamos sobre a situação
política da cidade de Conselheiros. Cassandro sempre foi interessado em
política, quando mais jovem já se percebia a sua avidez em saber os
acontecimentos da cidade, alimentava amizades com as pessoas mais
envolvidas em assuntos políticos. Quando me perguntou sobre a situação
atual da cidade, disse-lhe que nada mudou de significativo nos anos em
que ele estivera ausente, exceto a recente implantação do sistema de
fornecimento de energia elétrica, que tornou as ruas e praças
movimentadas no período da noite. Isso trouxe mais vida à cidade. As
luzes ofereciam às pessoas uma sensação maior de conforto e de
segurança.
Surpreendentemente, Cassandro relatou a sua intenção de
permanecer na cidade de Conselheiros. Estava disposto a comprar uma
pequena chácara, situada nas proximidades do rio Batatás. Empolgado,
anunciou-me a sua pretensão de se candidatar à Prefeito da cidade nas
eleições que se aproximavam. Tinha projetos de modernização da cidade
para alavancar o turismo ecológico. Argumentou que a cidade de
Conselheiros possui inúmeras cachoeiras e formações rochosas com
pinturas rupestres, sem falar da variedade culinária da cidade. Com
todo esse patrimônio de riquezas naturais e os dotes culinários da
população local, aliados a investimentos na infra-estrutura da cidade,
elevaria Conselheiros a um lugar de destaque entre os principais pontos
turísticos do interior da Bahia.
Em meio a essa prosa, eu e
Cassandro passamos a observar o cenário que se apresentava através da
janela. Era a visão de um beija-flor, que como poesia visitava as
flores do meu jardim. Estávamos paralizados diante de tanta beleza, o
beija-flor parecia violar a lei da gravidade. Possuía uma leveza em
seus movimentos que perturbava a nossa percepção, pois qualquer um que
ainda não tenha visto a cena, não acreditaria se ouvisse falar dela. De
repente, ouvimos um grito vindo de fora da casa. Ficamos assustados e
nos agitamos para saber do que se tratava. Nem bem levantamos da
poltrona, Amanda entrou aos prantos dentro de casa, tinha se machucado
com um espinho da roseira. Ela disse que havia tentado retirar uma
rosa. Instantes se passaram e ficou tudo bem. Mas Amanda estava um
pouco entristecida, parecia frustrada por não ter conseguido a rosa.
Passei minhas mãos pelos seus cabelos macios, olhei nos seus olhos
celestiais e perguntei porque estava tão cabisbaixa. Ela me respondeu
com uma voz trêmula e em lágrimas: “Queria tirá-la para você, vovô!” .
Eu retribuí essa manifestação de carinho com um caloroso abraço e um
beijo na testa.